22 de nov

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Trekking no Nepal

Trekking no Nepal – Outubro de 2008

a turma do nepal novembro de 2008 300x225 Trekking no Nepal

Algum tempo depois recebi um convite da Venturas para um Trekking no Nepal. Fiquei doida para ir. Convidei minhas irmãs, mas nenhuma se animou. Quando viam a programação, altitude e dificuldade desistiam dizendo-se despreparadas fisicamente. Eu continuei firme. Eis que surgiu a Regina que vive em Fortaleza, mas mora no mundo. Fiquei quase um ano me preparando. Fazia Spinning, caminhadas, o diabo! Finalmente outubro chegou e a viagem começou. Foi a coisa mais diferente que eu havia feito. Um trekking nas montanhas até o Acampamento Base Um do Everest. Nossa! Foram dias espetaculares, caminhando no coração do Himalaia, seguindo o vale do Rio Khumbu. Jamais esquecerei! Minha amiga Regina foi uma companheira bem humorada, solidária, deslumbrada assim como eu, companheirona!

Não é um trekking fácil, pelo contrário, mas as paisagens são tão espetaculares, dias tão diferentes que quase não sentíamos o peso da altitude e a dureza da caminhada propriamente dita. Quase… Tivemos dias muito difíceis e nos sentíamos, muitas vezes, exauridas.

Vamos pelo começo.

Chegamos a Kathmandu, uma cidade confusa de muita gente. No hotel encontramos a Regina que viajara na frente e conhecemos melhor as pessoas que fariam o trekking. Escutei de alguém: estou me preparando para esse trekking há muito tempo. Valha-me Deus, estou frita! Trabalhava minha cabeça… É melhor não encarar como um desafio, chegar lá a todo custo? Nada disso, quero curtir, conhecer um pouco desse país, das pessoas, ver um pouco do Himalaia, quem sabe ver o Everest mais de pertinho. Sou a mais velha do grupo. Como tudo vai terminar? Resgatada por um helicóptero? Pelo sim, pelo não vou me preparando psicologicamente.

Kathmandu, buzinas, gente, gente. De repente um carro para no meio da rua, desce o motorista que começa a falar no celular e os outros? Buzinam, desistem, falam também no celular e nós atentos ao desenrolar dos acontecimentos. Tudo calmo, nenhum conflito, nenhuma batida. É uma desorganização que funciona. Todo mundo feliz!

Precisava comprar uma mochila, uma capa e um agasalho. Fui com a Regina a uma loja escolhida ao acaso. A loja era uma bagunça geral. Muita coisa dependurada. A mochila North Face me custou 15 dólares, uma capa maravilhosa que já foi utilizada em outros trekkings, dois dólares, um fleece North Face de dez dólares, tudo copiado, na verdade Cara Nuerte como passamos a chamar. Sei não, mas até hoje uso minha mochila. Nossos amigos paulistas ficaram loucos com a desordem.

Adorei Kathmandu!

Nepal, meu Deus quantas informações desnecessárias, basta olhar, sentir e amar o país. População: mais de 21.000.000 de habitantes, meio milhão em Kathmandu. País pequeno imprensadinho entre a Índia e o Tibet. Altitudes que variam de 400 a1000m no Terai (uma das quatro regiões) e, no Himalaia altitudes superiores a 2000m. Lá estão 8 das 14 montanhas mais altas do planeta, morada do Everest com seus 8.848m, a mais alta. O clima segue o regime das monções. Para quem vai fazer trekking a primavera (março e abril) e o outono (outubro e novembro) são as melhores épocas. Assim, em outubro pegamos sol maravilhoso, céu azul, azul e noites enluaradas, estreladíssimas e muito frio!

No Nepal se fala o nepalês e muita gente fala o inglês. Oficialmente a religião é o hinduísmo, mas as divindades se misturam com as do Budismo tântrico. Se você perguntar: você é Hindu ou Budista? Ninguém sabe. Qual a diferença? Não sei e nem terei tempo para estudar religiões tão complicadas. O dinheiro? É a rúpia nepalesa. Faz-se cambio nas cidades maiores.

Falando de higiene. Nossa, no Nepal as condições de higiene são muito precárias e todo cuidado é pouco. Só beber água mineral, usar pastilhas de iodo, não comer legumes crus, descascar as frutas. Lá para as tantas a Regina me disse: Helô fomos criadas no interior do Ceará tomando água de pote. Acho que não devemos ficar piradas com essa coisa de esterilizar água mineral! Assim foi feito. Tomávamos água mineral engarrafada na Índia. Nunca tivemos nada, o resto do pessoal teve diarreia, em um deles, a coisa foi tão feia que teve de ser resgatado por helicóptero e internado em um hospital em Kathmandu. Encontramo-nos na volta. É bom tomar cuidado!

Em Kathmandu visitamos o Templo Pashupatinath (este é o templo hindu de maior importância no Nepal e também um dos mais importantes templos ao Deus Shiva, atraindo milhares de devotos) e a Stupa Bodhnath, esta é a maior stupa (templo budista) do Nepal e uma das maiores do mundo. Compramos pashminas e mais pashminas, de todas as cores, guiadas por três mocinhas nepalesas através de becos estreitos e visitamos um crematório. Fiquei chocada, aliás todos nós. Os cadáveres são cremados em piras à beira do rio. Suas vestes, flores, colares eram jogados no rio e crianças os resgatavam, mergulhando naquela água imunda para brincar ou reaproveitar. Ficamos ali parados do outro lado do rio. Chocante!

E Durbar Square? Uma praça do antigo palácio real, que apresenta um lindo conjunto arquitetônico. Em Nagarkot, para onde fomos em um ônibus nos equilibrando perigosamente à beira de despenhadeiros, ficamos em um hotelzinho lá no alto, super agradável de onde tínhamos espetaculares vistas do Himalaia e um café da manhã ao nascer do sol com as montanhas iluminadas. Meu Deus!

Saímos de Kathmandu para pegarmos o avião que nos levaria a Lukla. Os dois aeroportos são muito loucos, um pela desorganização e quantidade de gente para lá e para cá, querendo ajudar com a bagagem, etc., e o outro por ter uma pequena pista inclinada, de forma tal que o avião desce, vai freando na subida fazendo logo a curva lá em cima já se preparando para a volta. Entenderam? Passei mal. Enjoei pra valer. Lembrei-me dos saquinhos que a gente usava quando enjoava só que eu enjoei em terra. De Lukla já saímos caminhando para Phakding a 2.650m de altitude.

Caminhei de tênis, carregando minha mochila de ataque. Fiquei estropiada. Regina tomou a sábia providencia de pedir ao Jota um Personal Sherpa, como chamava, e assim tudo combinado caminhamos no dia seguinte para Namche Bazaar só com nossos sticks. Sábia Regina! O resto da bagagem era levado pelos carregadores da expedição. Foi uma ótima solução, posteriormente adotada no Trekking do Butão. Caminhada de tênis, nem pensar. Assim as botas Snake entraram para valer na minha vida de trekkeira de araque.

O trecho até Namche Bazaar foi muito difícil, a diferença de altitude muito grande, imaginem que saímos de Phakding a 2650m alcançando Namche a 3.450m. Atravessamos vilarejos com casas de pedra, pontes suspensas pelas quais passam os moradores, carregadores (levam tudo, material de construção, comida, bagagem dos trekkers), yaks (bovino peludo), tudo balançando para lá e para cá. Em uma delas o vento deu e meu precioso chapéu saiu voando em curvas até o fundo. Foi-se rio abaixo. Vistas maravilhosas! Namche é um vilarejo grande, mais ou menos 2.000 habitantes. Na chegada, a gente praticamente cai em um grande mercado colorido e, para nosso desespero o hotel ficava na parte mais alta de cidade. Muitas lojinhas, tudo para trekking, luvas, toucas, souvenires, etc. Foi uma dormida boa.

No dia seguinte continuamos a subir em direção a Tengboche (3.900m), Chegamos já entardecendo. Eu e a Regina sempre chegávamos por último. Lá está o Thyangboche, o maior monastério da região, construído por volta de 1916. Na periferia do monastério você pode ver a marca do pé do Lama Sangwa Dorje em pedras de 500 anos atrás (o Lama mais célebre de todos). Resolvemos lavar nossa cabeça com um xampu que a Regina dizia que os astronautas utilizavam no espaço, nem precisava de enxágue. Só que a cabeça ficava molhada. Comecei a tremer sem parar e, enquanto os outros visitavam o Templo eu jazia tremendo dentro do saco de dormir só com os olhos de fora. No dia seguinte consegui andar pelos pátios do templo. É um lugar lindo. Uma vista espetacular do Everest, lá longe sempre com uma “fumacinha” no topo decorrente do vento forte que arrasta a neve do pico. Mas, com certeza, a mais espetacular montanha é o Ama Dablam que nunca saiu da minha memória. Ela é linda com suas curvas sensuais e se mostrava inteirinha por muitos dias em um contraste maravilhoso com o céu muito azul.

Nessas alturas já estávamos acostumadas a frequentar os banheiros, ou de louça, estilo turco, nos quais usávamos o stick para nos equilibrarmos e não cairmos sentadas, uma vez que nossas pernas estavam muito doloridas, outros só um buraco que fazia Pof!, em cima das palhas colocadas no fundo da fossa. O cheiro é horrível, mas tudo bem a gente se acostuma com tudo! Cortamos uma garrafa pet grande e à noite fazíamos xixi no quarto do Lodge. Pela manhã levávamos para o banheiro, geralmente fora. Nosso personal sherpa acordava cedo e já todo enturmado entrava no quarto e ajudava a arrumar nossas coisas que todos os dias eram desarrumadas e arrumadas.

Nossos banhos, quando havia, eram por etapas, primeiro da cintura para cima, depois da cintura para baixo. Quando não havia água quente o banho era com toalhinhas molhadas. Outras vezes lavávamos só as partes.

Em Pheriche visitamos um posto de assistência médica Himalayan Rescue Association. Os médicos são voluntários, especialistas no estudo e tratamento das doenças da altitude.  Há um monumento aos que morreram. Compramos camisas, fotografamos e continuamos a subir. Já estávamos a 4.400m, sempre pelo Vale do Rio Khumbu.

A caminho de Lobuche (4.950m) chegamos a um grande campo conhecido como Chukpilhara com vários monumentos de pedra em memória a sherpas que morreram em várias expedições ao Everest. Há também um memorial a Scott Fisher, morto em 1996. A tragédia dessa expedição foi muito bem relatada no livro de Krakauer (No Ar Rarefeito), leitura obrigatória para quem vai ao Everest para escalar ou olhar. A altitude é perigosa, pode matar em questão de horas. Os sintomas variam de simples dor de cabeça a mortais edemas cerebrais e pulmonares. Essas duas manifestações são as que mais matam os escaladores das altas montanhas. Existem medicamentos específicos para os primeiros socorros e a exigência de descida é imediata. É bom ler sobre isso para não ter surpresas. A única vez que passei muito mal em altitude foi na Bolívia, na pista de ski mais alta do mundo, Chacaltaya, fiquei completamente tonta, desequilibrada, desorientada e com uma dor de cabeça infernal. Só me recuperei em La Paz dois dias depois.

Daí para frente até o Kala Pattar foi muito difícil mesmo para as pessoas bem treinadas como me contaram. A descida é sempre descida, todo santo ajuda, embora os joelhos reclamem um pouco. À medida que vamos descendo a respiração vai melhorando, mas o cansaço acumulado vai cansando cada dia mais cedo. Passando por Pheriche doei todos os meus medicamentos para a Associação. Ficaram muito satisfeitos. Comprei camisetas que até hoje são usadas orgulhosamente.

Minha chegada a Lukla foi impressionante. Enquanto um Sherpa me puxava o outro me empurrava. Estava exausta. Tivemos uma festinha, ganhei um cachecol rustico, lindo por ser a mais velha da expedição. Não acreditava que havia sobrevivido. A Regina estava bem. De toda a expedição, um casal voltou porque achou que era muito sacrifício, finalmente estavam em lua de mel; um médico teve uma grave conjuntivite causada por um corpo estranho sendo necessário um resgate por helicóptero assim como um outro que teve uma forte infecção intestinal e a cada dia ficava mais fragilizado.

No dia seguinte voltamos para Kathmandu. O avião desce acelerando pela pista inclinada para baixo, mergulha na imensidão do vale. De repente se estabiliza e vamos nós para cima apreciando a vista das montanhas. Graças a Deus!

Da trilha do Nepal guardo excelentes lembranças, dos amigos alegres e brincalhões, cansados, descabelados, magros e assim mesmo bem humorados. Da Regina a qual nunca havia visto que se tornou amiga, sempre solidária e companheira. Dizia que minhas histórias sobre os percalços das viagens pela América do Sul a faziam dormir, esquecer o cansaço e a falta de ar; nunca nos esqueceremos daquele amanhecer no qual, ao afastarmos a cortina do nosso quartinho, lá estavam as montanhas do Himalaia no horizonte, iluminadas com os primeiros raios, coloridas de âmbar e que ao fecharmos a cortininha tornávamos a abrir e, de novo, de novo, maravilhadas até o sol subir e o encanto terminar e nós correndo atrasadas para o café da manhã e a partida para uma nova caminhada. E daquela noite de lua cheia, saindo no frio, ver a montanha imensa coberta de gelo, totalmente prateada, quieta, misteriosa indicando nossa pequenez.  Cansaço? Já sumiu. É como parto, de repente a gente esquece a dor. Fica só a alegria! E você que está lendo? Não vai lá? Prepare-se para viver uma grande aventura feita de desafios, muita beleza, muita conversa consigo mesmo e muitas lembranças…

A volta para o Brasil foi terrível. Todos gripados. Diziam que era a gripe do Vale do Khumbu. Tosse, nariz entupido, dor de ouvido a cada subida e descida do avião, meu pai muito doente, internado e eu sem poder vê-lo. Passei vários dias doente, muita febre: Namastê, lemon tea, lemon tea, caminhos no coração do Himalaia, pelos becos de Kathmandu, Om MaNi PadMe Hom, vontade de voltar! Voltei ao Himalaia dois anos depois, desta vez para o Butão, mas estava definitivamente apaixonada pelo Nepal.

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