02 de dez

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Trekking na Terra do Dragão

Butão – Outubro de 2010

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O nome acima se refere ao Reino do Butão, um pequeno país espremido entre a China e a Índia, ainda no Himalaia. É o Butão mesmo, aquele país no qual o Índice de Felicidade Bruta (FIB) é mais importante do que o Produto Interno Bruto (PIB) e que a moeda tem o nome esquisito de Ngultrum. Lá a pimenta não deixa ninguém comer sossegado, o cigarro foi abolido, os homens vestem robes de tecido butanês amarradas na cintura, que descem até os joelhos, meias pretas também até os joelhos, sapatos sociais, e que, em quase todas as casas, há um pênis grandioso pintado nas paredes externas simbolizando a fertilidade, de mulheres com saias coloridas, de tecido butanês, sempre com um casaquinho curtinho o que as torna extremamente elegantes quer estejam nas cidades ou nas montanhas. Terra de fantásticos monastérios, templos, dzongs, montanhas espetaculares. País de pessoas tranquilas, sorridentes, crianças lindas e de muita paz.

Para este lugar muito especial fomos levados pela Venturas, www.venturas.com.br , com o objetivo de visitarmos duas cidades Paro e Thimphu (capital) e depois uma caminhada nas montanhas com a duração de sete dias para ver o Jhomolhari, uma montanha de mais de 7.000m. Uma programação muito interessante.

Me animei já no fim de 2009, antes de minha quinta viagem a Patagônia com um grupo de 14 Trollers. Depois, me cansei tanto na Patagônia, que terminei desistindo do Butão. Além disso, tive uma dor no quadril que durou seis meses e me deixou sem poder treinar como queria. No fim terminei indo do jeito que estava. Mal treinada e um pouco gorda para enfrentar a altitude, mais ou menos 4.900m. Fui animada, naquele velho estilo: nada de questão de vida ou morte. Faz-se o que se pode. O grupo era de 22 pessoas. Daqui do Ceará foram três amigas Patricia, Fernanda e Marilena e a Vania que mora em Franca-SP. Com exceção da Marilena as outras três tinham ido a Patagônia e àquela famigerada viagem a Machu Picchu quando eu e o Haroldo ficamos em Calama com o motor do Troller quebrado.

Estávamos na metade do mês de outubro de 2010. Saí de Fortaleza, encontrei com a Cristina (irmã) em Campinas que me levou a Guarulhos e terminei encontrando a Lucinha (irmã) que chegava da Turquia. Legal! No Aeroporto encontrei meus amigos de trekking, só conhecia a Ana Paula que também tinha ido ao Nepal. Fiquei feliz! Foram muitas horas de voo: três horas de Fortaleza a São Paulo, de São Paulo a Istambul(Turquia) mais nove horas, de Istambul a Bangkok(Tailandia) mais 13 horas e de Bangkok para Paro(Butão) mais três horas.  Ufa! Finalmente Paro! Tudo muito tranquilo, bem diferente do Aeroporto de Kathmandu no Nepal. Estávamos no país da Felicidade!

Fui apresentada a Marieta, minha companheira durante os dias no Butão. Companheirona!

Paro, o único Aeroporto e Thimphu, a Capital

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O Butão é uma Monarquia Constitucional. País muito pequeno e pouco habitado. Sua área é a mesma da Suíça com 700.000 habitantes e 72% do território coberto por florestas. A maior parte da população dedica-se à agricultura.

Ao descermos no Aeroporto de Paro (2.280m) fomos logo envolvidos por uma atmosfera de tranquilidade. Ninguém fala alto e todos agem com muita calma. Conhecemos nosso guia, vestido tradicionalmente como é costume no país em ocasiões importantes. De lá fomos direto a Punakha. No caminho visitamos o Templo Chimi Lhakhang, construído em 1499. É conhecido também por Templo da Fertilidade, pois para lá vão casais sem filhos fazer suas preces esperando assim conseguir gerar pelo menos um. É uma caminhada de 1 hora atravessando campos, e um pequeno e lamacento vilarejo cujas casas tinham sempre um pênis pintado, às vezes enfeitados com lacinhos de fitas ou, simplesmente sendo manuseados, o que para nós soou muito estranho. Foi tudo muito bem fotografado. O Templo é cercado por 100 rodas de orações. Ficamos passando nossas mãos por elas, de forma que girassem sempre no sentido horário, pedindo muita paz para o nosso mundo louco.

No dia seguinte visitamos um dos Dzongs mais belos do Butão. Entendi que os Dzongs foram fortalezas. O Punakha Dzong é uma construção espetacular na confluência de dois rios (Mo Chhu e Pho Chhu). Antes de atravessarmos a pequena ponte ficamos por ali quietos fotografando, apreciando e observando a tranquilidade de alguns estudantes que estudavam sozinhos ou em grupos, sempre vestidos tradicionalmente.

Atravessamos a ponte. Realmente é espetacular! Esta construção teve início em 1637. Muitos incêndios quase o destruíram, mas o fato mais sério foi um forte terremoto em 1897. Até hoje o Dzong está em restauração.

Há um lindo jardim. Ficamos todos encantados com tudo. Na saída muitas de nós queríamos um banheiro e foi aí que nos deparamos com o primeiro dos inúmeros banheiros públicos horrorosos do Butão. Uma pena! Lugar fedido e muito sujo. Nossa amiga Fernanda Bello saiu de lá com taquicardia e a outra Fernanda, a Finatti vomitando. Nossa! Felizmente tínhamos levado nossos lencinhos de várias utilidades e que me salvaram em outra oportunidade lá no Ninho do Tigre, episódio que contarei em outro capítulo. Atravessamos novamente a ponte e ficamos conversando perto do ônibus. Nossos guias, vestidos com a roupa tradicional estavam sentados no meio fio. Estávamos todos curiosos para saber se usam cuecas por baixo da saia. Um deles abriu as pernas e… Oh! Usam, sim, um calçãozinho curtinho. Fim da curiosidade.

Thimphu é a capital do Butão. Caminhamos pela cidade e visitamos o Simtokha Dzong conhecido como o primeiro Dzong construído no Butão porque embora tenham existido outros Dzongs, antes até de 1153, ele foi o único que sobreviveu com uma estrutura intacta. Fizemos ainda uma visita ao Tashichho Dzong onde funciona o escritório do Rei, ministérios e outras organizações governamentais. Aí também moram, no verão, o líder espiritual do Butão (Je Khenpo) e os monges das cidades de Punakha e Thimphu. Fizemos outras visitas, mas nessas alturas os Dzongs e Mosteiros já se confundiam na minha cabeça. No dia seguinte retornamos a Paro por uma estradinha muito perigosa, tipo aquelas da Bolívia: passa quem buzinar primeiro. Os caminhões, muito enfeitados, geralmente passavam primeiro e nos deixavam quase dependurados nos despenhadeiros. No fim salvaram-se todos. Neste caminho chuvoso fizemos visitas bem interessantes como ao Instituto Nacional de Medicina Tradicional. O tratamento varia de acupuntura, comprimidos e banhos de ervas, diagnóstico pelo pulso e baseia-se em textos budistas. Outra visita superinteressante foi ao Museu Phelchey Toenkhyim, onde estão expostas reproduções de moradias dando ideia de como viviam as pessoas de classe média alta do Butão em épocas passadas. Havia de tudo desde ferramentas, equipamentos domésticos, banheira de pedra quente, etc. Chovia muito. Fiquei sentada olhando o jardim muito florido. A visita a Escola de Artes e Ofícios foi para mim a melhor de Paro. Os alunos pintavam, esculpiam, bordavam em seda e tudo colocado em uma lojinha ao lado. O pessoal se esbaldou de comprar. Fomos a outros templos e museus. Minha memória já estava cheia. Não havia lugar para tantas informações. Só restaurando o HD.

Pelo caminho nosso guia nos falou sobre o Índice de Felicidade Bruta. Esclareceu que não é andar pelo país e encontrar todo mundo rindo e feliz por ser uma das economias mais pobres do planeta, mas sim, uma nova maneira de avaliar a riqueza de um país, levando em conta não apenas aspectos econômicos, mas também os ambientais, culturais, psicológicos e espirituais. Resumindo: é a convicção de que a vida não pode ser limitada à produção e consumo indefinidamente. As necessidades humanas são mais que materiais. Uma das grandes diretrizes do Reino do Butão é a preservação da cultura da qual o povo muito se orgulha. Testemunhei isso!

Chovia em Paro. Estávamos ansiosos para conhecermos o ponto alto, alto mesmo, da nossa estadia no Butão, o Templo mais fotografado, mais espetacular, mais lindo, o Taktshang Goemba ou Ninho do Tigre. Esta visita merece um capítulo a parte.

O Ninho do Tigre – Taktshang Goemba

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Acredita-se que o Guru Rinpoche  ? o “Mestre Precioso”, considerado o segundo Buda nas hierarquias tibetana e butanesa  ? voou nas costas de um tigre, uma manifestação de sua esposa Yeshe Tsogyal, até o local do Monastério com o fim de subjugar um demônio, Singey Samdrup. Durante três meses o Guru Rinpoche meditou em uma caverna. Este lugar foi posteriormente visitado por peregrinos e figuras históricas muito importantes para o Budismo. A primeira construção no local data de 1692 e foi ao redor da caverna onde Rinpoche meditara. Em 1998 o fogo destruiu toda a estrutura principal e seu conteúdo. Muitos outros incêndios já haviam ocorrido, mas nenhum com tal poder de destruição. Somente no ano 2000 foram iniciados os trabalhos de reparação e em 2005 o Monastério foi reconsagrado e aberto ao público.

No dia 21 de outubro iniciamos a subida para o Ninho do Tigre. Seria nosso treinamento para os dias de trekking.

A subida é por uma trilha bonita com uma vegetação colorida. O tempo estava meio nublado e ficamos preocupados. Uma vez que não apareceu nenhum tigre voador e nem cavalos que nos levassem até o alto, fomos subindo a pé, alguns caminhando mais rapidamente e outros, assim como eu, nem tanto. Mais ou menos duas horas de caminhada. No meio do caminho há um pequeno restaurante e já tivemos a primeira visão do Ninho do Tigre. Impressionante. Ele estava meio encoberto, mas já dava para ver um pouco de sua beleza. Parecia-nos quase um milagre ele conseguir se sustentar praticamente pendurado em um dos lados de um penhasco vertical a 900m acima do Vale. Diz a tradição que a primeira construção foi ancorada pelos cabelos de uma deusa celestial.

Saímos do pequeno restaurante, de comida bastante apimentada, e continuamos a subir, agora dentro de uma vegetação fechada de árvores muito antigas cujos troncos eram cobertos por samambaias coloridas, e pinheiros azulados. Muito bonito. A cada momento conseguíamos divisar algumas partes do Templo/Mosteiro. À medida que nos aproximávamos ele se tornava mais impressionante como se nascesse de dentro das pedras. Finalmente a 3140m, estávamos no portal de entrada. Deixamos nossas mochilas, câmeras, enfim todos os pertences empilhados e entramos para escadarias e mais escadarias. Em um dos pequenos templos, sete ao todo, vi o alçapão que dá acesso à caverna onde o Guru meditou durante três meses. Nessas alturas calcei minhas botas, pois para visitar os templos temos que deixá-las na porta e parti rápido em busca de um banheiro. Tanta pimenta só podia dar nisso. Perguntei a um segurança onde estava o toalete feminino e ele me informou que era na entrada e lá fui eu descendo as escadas e mais escadas e a barriga agora se manifestando fortemente. Mais uma vez perguntei onde estava o toalete e, agora, fui descendo no rumo do despenhadeiro já quase correndo. Vi dois banheiros, um masculino e outro feminino, empurrei a porta e na penumbra tive, o que mais tarde contei para as meninas, uma visão do inferno de Dante. Havia uma janelinha para entrada de ar e, meu olho ao se acostumar viu o seguinte: uma parede à qual a vítima deve se encostar e uma vala que corre de um banheiro para o outro. Um cheiro horrível, nada de papel. Ainda bem que meus lencinhos molhados estavam no bolso, senão… Turista sofre! Saí dali meio cambaleante e me dirigi para a saída para me recuperar. Esperei por todos e começamos a descer. O Ninho do Tigre foi se afastando ficando pequeno até que chegamos ao restaurante. Muitos dos nossos amigos já estavam abancados, inclusive a Marilena cantando músicas brasileiras lindas. Fiquei impressionada com o preparo físico da Marilena. Com certeza ia se dar bem na trilha. Enquanto comíamos ficamos de frente para o Ninho. Que privilégio! Voltamos para Paro. Achei que ia aguentar a caminhada até o Jhomolhari. Não foi bem assim, mas foi quase assim…

Primeiro dia do Trekking – 22 de outubro de 2010

De Paro a Sharna (17 km) – 2.850m

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Nessa noite, em Paro, dormi muito. Quando a Marieta saiu do quarto eu ainda dormia. De repente acordei assustada. Ainda tinha que separar algumas roupas que eu deixaria no hotel só resgatando na volta. Lá fora já ouvia vozes. Desci. Havia alguma coisa errada, uma atmosfera que não condizia com a expectativa do início do trekking. O Jota me chamou e contou-me que o filho da Patricia morrera. Coração. Um moço de 29 anos! Meu Deus! Foi como se a minha cabeça crescesse para todos os lados e comecei a chorar. Ainda sentada soube que a Fernanda Negreiros e a Marilena a acompanhariam nessa dura viagem de retorno ao encontro do filho. Sai e me encontrei com elas. Mais uma vez me veio à cabeça nossa fragilidade. Um dia uma mulher se levanta e o que era não é mais e o que é, é quase insuportável. Abracei-me com cada uma tentando passar alguma força. Havia uma questão pratica embarcá-las para Bangkok. Nosso guia se incumbiu de levá-las ao Aeroporto de Paro e nós fomos andando para o início de nossa trilha. Estávamos desenergizados, desestabilizados, tristes. Em uma curva, olhando para o Vale o Jota parou e cada um dirigiu seu pensamento para uma oração. Eu pensei na Patricia e Sydrião desejando que juntassem as forças para superar o luto. Quando estava pensando uma caravana de mulas vinha descendo e uma delas me pegou de surpresa pelas costas. Caí por cima da Fernanda Bello e ela por cima de outra pessoa e parecia um jogo de dominós. Nesse dia de trekking achei que nada tivesse ocorrido. No dia seguinte senti uma dor incômoda que podia ser confundida com pulmão. Na expedição tínhamos colegas médicas. Nada de pulmão, muscular mesmo! Passei a tomar anti-inflamatório. Graças a minha farmacinha deu tudo certo.

Bem, voltando… Depois disso começamos a caminhar para valer. Nesse trecho caminharíamos 17 km e chegaríamos a 2.850m. Foi uma caminhada gostosa por campos de arroz, que aqui é vermelho, vendo casas que sempre guardam a arquitetura clássica butanesa. As partes de madeira são pintadas com vários desenhos, cada qual com um significado, padrões florais, geralmente a flor de lótus, tashi tagye, os oito símbolos auspiciosos do Budismo do Himalaia, boa sorte, saúde, felicidade, harmonia, e que representam partes do Buda. São comuns as pinturas de animais místicos como a Garuda ? um bicho meio coruja, meio águia (para proteção). Algumas casas têm pinturas de pênis ou painéis, simbolizando para uns, a fertilidade, para outros proteção contra o demônio estando associado ao Lama Drukpa Kunley. Havia chuva e lama. Caminhar na lama exige cuidados e escolha dos caminhos. Fomos indo devagar até chegarmos ao Posto das Forças Armadas. Identificamo-nos e fomos em frente. Alcançamos os 2.850m. As mulas já haviam chegado e o acampamento já estava montado com cozinha e tudo. Não estava frio, alguns tomavam banho no Rio Paro. Que coragem! Este foi o ultimo banho do trekking. Sete dias sem tomar banho. Daí para frente o frio apertou e… Banho não mamãe!

Nossa expedição compunha-se de um cozinheiro, um assistente de cozinheiro, cinco auxiliares de acampamento, sete cuidadores de cavalos e quarenta e três cavalos. Com a saída das meninas éramos dezenove brasileiros. Nos cavalos, mulas ou jumentos, iam nossa bagagem mais pesada, a comida, barracas, enfim tudo para que o acampamento funcionasse.

Os cozinheiros botaram a mão na massa e, sem pimenta, a comida estava gostosa. Sem sal. Muita verdura. Pimenta, gengibre e outros temperos substituem o sal. Interessante. Foi também o primeiro dia de barraca. Um pouco de frio, mas meu saco de dormir para -20 ? me defenderia. Assim eu pensava.

Patricia, Fernanda e Marilena conseguiram sair de Paro. Iriam para Bangkok e depois para Istambul. Daí para frente tudo seria mais complicado. Depois soubemos que pegaram um avião para Roma, São Paulo e Fortaleza. Uma Odisséia.

Segundo dia do Trekking – 23 de outubro de 2010

De Sharna a Thangthangka (22 km) – 3.610m

Choro, gemidos e ranger de dentes.

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Tomamos nosso café no acampamento e, enquanto a caravana já começava a se arrumar começamos nossa subida. Logo depois entramos no Jigme Dorji National Park. Muita lama e pedra. A principio tudo calmo, mas à proporção que subíamos a caminhada foi ficando mais difícil. A altitude já estava nos cansando mais. Eu, Vania e Claudia foram ficando para trás e, à medida que o tempo passava mais nos distanciávamos. Fizemos um rápido almoço e continuamos a subir. A tarde começou a cair e foi arranjada uma mula para nos ajudar. O esquema era assim: a cada trinta minutos uma subia só que depois descobrimos que o cavalo não voltava do ponto no qual havíamos descido. Ficava aguardando a chegada da outra. Isto atrasou mais ainda. A noite chegou e as coisas ficaram ainda mais difíceis, pois o caminho além de íngreme era muito estreito e muiiiitas pedras. O cavalo escorregava e a gente se segurava como podia, pois não era uma sela para montaria, mas sim uma cangalha muito simples. Lá para as tantas meu cavalo tropeçou e eu fui caindo por cima das pedras. Já cai chorando. Foi muito ruim. Lá na frente encontrei a Marieta chorando. Havia se perdido durante 40 minutos. Dizia ela que gritava socorro, socorro e ninguém respondia. Um guia ficou com ela. Outro que se perdeu foi o Rafa que, ao ouvir vozes disparou o flash da câmera para que o localizassem, estava sem lanternas. Chegamos todos ao acampamento exaustos e, ao nos contarmos, sentimos a falta do JR. Várias pessoas saíram para localizá-lo. Estávamos bem preocupados. Não é brincadeira ficar perdido em uma trilha perigosa, estreita, cheia de despenhadeiros, com frio. Deus me livre! Foi achado bem tranquilo já voltando para a trilha correta. No dia seguinte perguntei se ele sentira medo. Disse-me que não. Bem gente, com certeza esse trecho foi, para mim, pesadíssimo. Foi um dia longo, difícil, cheio de lama, pedras, muitas subidas e descidas. Fiquei exaurida, só o bagaço! Opinião de todos. Nessa noite o Jota resolveu colocar em prática o Plano B, isto é eu, Vania, Claudia, seu marido Rafael (solidário) e Marieta (não sei por que, pois ela tinha um excelente preparo físico) iríamos para Dhumzo por uma trilha mais fácil. Não veríamos o Jhamolhari de pertinho lá do acampamento Jangothang. Jantamos ainda estressados, mas a alegria geral tratou de melhorar o astral. Fomos dormir e o JR ainda não tinha sido encontrado. Mais tardão ouvimos a notícia. Ele já estava no acampamento. Ótimo! Nessa noite fez muito frio. A barraca ficava muito úmida e o saco de dormir, durante a noite, ficava molhado. Condensação do nosso calor! Dormimos dentro do fleece e no saco de dormir. Nossos colchões infláveis continuavam a murchar durante a noite. Era uma coisa que me impressionava. Por quê tantos murchavam?

A rotina na barraca era a seguinte. Enquanto uma fazia o asseio dentro da barraca a outra tiritava de frio do lado de fora e vice versa. O banheiro, também chamado de cabine indevassável, que disso não tinha nada, pois ao adentrarmos com nossas lanternas de cabeça todos do lado de fora participavam da movimentação, quá, quá, bem que era engraçado. Ainda não falei da arquitetura e funcionalidade do tal banheiro. Era uma tenda no interior da qual dava para gente ficar em pé. Ao ser armada, antes de qualquer coisa, os ajudantes cavavam um buraco de mais ou menos 30x30x30cm. Havia um acordo: quem usasse para sólidos tapava com papel higiênico. Funcionava muito bem e assim fomos ficando cada dia mais íntimos.

Terceiro dia de Trekking – 24 de outubro de 2010

De Thangthangkha a Dhumzo (3.800m)

Quarto dia de trekking – 25 de outubro de 2010

Acampados em Dhumzo

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O plano B foi posto em prática. Nos separamos do grupo. Eles continuariam subindo até Jangothang, mais ou menos 19km e 4.080m de altitude. Para nós (Vania, Marieta, eu, Claudia e Rafael) foi um dia maravilhoso! Trilha linda margeando o rio, caminhando calmamente, conversando, parando, trocando ideias. Na chegada uma manada de yaks, pastava por ali ou mergulhava no rio. Atravessamos uma ponte precária, uma pequena subida e quando chegamos ao acampamento ainda havia sol. Era uma área descampada, cercada de montanhas. A Vania quis fazer uma sopa, mas foi proibida de entrar na cozinha. Eles não gostam. Enquanto conversávamos “miolo de pote”, chegaram ao acampamento um grupo de pessoas vendendo um artesanato bem simples além de cervejas. Havia uma senhora mais velha, uma moça com uma criança às costas e um menininho. Todos muito bonitos em seus trajes. Estenderem suas coisas no chão e começamos a comprar. Comprei um penduricalho colorido o qual passei a usar na minha mochila. Só tirei em Fortaleza. Rafael notou que a senhora não enxergava direito de perto e lhe deu uns óculos de presente. Ela colocou, mas aí passou a nada enxergar de longe. Demos-lhe uma aula sobre óculos para perto e ela ficou muito satisfeita. Mostrou-nos sua casa lá no alto. O frio começou a chegar com um pouco de vento. Desarmaram seus artesanatos e começaram a subir o morro, voltando para casa. Jantamos e dormimos muito bem. O frio era suportável.

O dia seguinte amanheceu com um sol glorioso. Tomamos nosso café fizemos uma caminhadinha, lavamos roupa, fomos ao mato, vimos um rio que descia furioso, árvores já amarelando. Fizemos um asseio rigoroso, conversamos muito e descansamos mais ainda. Era um lugar lindo. À tardinha nossos amigos começaram a chegar. Estavam bastante cansados. Disseram-nos que foi muito difícil e cansativo, mas estavam super felizes. Que bom e nós também!

Quinto dia do Trekking – 26 de outubro de 2010

De Dhumzo a Thombu Shong (11 km) – 4.180m

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Nós que estávamos descansados saímos mais cedo. O trecho inicial foi feito em cima de chão gelado, de vez em quando escorregávamos no gelo. Era uma subida grande, uma descida e uma ponte lá embaixo sobre o rio Dhumzo. Logo em seguida começamos a subir forte. Caminhada bonita entre árvores e pássaros com paradas para apreciar o Jhomolhari ao longe. Nosso acampamento ficou durante muito tempo visível lá embaixo assim como a casa da senhora de óculos novos. Foi um dia fácil, estávamos descansadas. Após umas seis horas de caminhada avistamos nosso próximo acampamento. Um descampado daqueles. Atravessamos outros acampamentos de nômades e começamos a nos instalar. Teve uma seção de lavar cabeça com um xampu seco que compráramos. Muita gente experimentou, mas para falar a verdade este xampu caro foi colocado no pacote das inutilidades. Nessa noite a temperatura baixou muito. Disseram-nos que cinco graus negativos. Acho que foi bem mais. Meu saco para menos vinte não deu conta. Para mim um mistério. Como é que você compra um saco para menos vinte e sente frio? Aliás, desde o outro acampamento vinha sentindo frio. Falsificado não era. Comprei nos EUA e foi caro, um Marmot Never Summer. Temos fotos de roupas congeladas parecendo papelão, duras, duras. Muito frio! Ao amanhecer o sol chegou rápido e tudo começou a esquentar. Depois dessa noite alguns amigos saíram bem mais cedo. Resolveram descer direto para Paro, e assim fizeram. Tomamos nosso café para enfrentarmos a descida até Sharna.

Sexto dia do Trekking – 27 de outubro de 2010

De Thombu Shong a Sharna (13 km)

Sétimo dia do Trekking – 28 de outubro de 2010

De Sharna a Paro (17 km)

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Foi uma descida e tanto! Vocês estão longe de imaginar! Íngreme e muita pedra. Muito difícil. Basta dizer que descemos 1.630m. Foi muita coisa. Minha bota abriu e tivemos que amarrá-la com Silver Tape.  De vez em quando víamos manadas de Yaks. Chegamos ao acampamento. Nossa última noite de trekking. Já não fazia muito frio. Devo dizer que nos dias de trekking caminhávamos de camisetas. Daí para frente a trilha foi a mesma até Paro, no sentido inverso. Atravessamos aldeias, visitamos uma pequena escola, na qual as crianças se vestiam tradicionalmente e tinham aulas de matemática e ciências em inglês. O Rio Paro estava sempre ao nosso lado. Alguns ficaram esperando o ônibus, outros seguiram em frente. Eu, Marieta e Claudia do Espirito Santo fomos vagarosamente apreciando o vale do rio. Quando o ônibus chegou já estávamos tomando cerveja. Foi ótimo. Fomos para o hotel e tomamos o banho mais gostoso da viagem. Saiu do cabelo um caldo escuro. Foram sete dias sem banho, sem vaso sanitário, noites mal dormidas, colchões murchando, escovando dentes com um mínimo de água quente, dores nas pernas… Dos banhos não sentimos falta, dos vasos sanitários nos adaptamos rapidamente, as dores passaram, as noites mal dormidas voltaram a ser bem dormidas. Sofremos, aprendi sobre mim e sobre os outros, vi e ouvi um povo diferente, outros valores, outro tudo. Foi muito bom! Não faria de novo, pois no momento sei que não dou mais conta. Já havia dito isso no Vale do Paty, agora não tem mais jeito, meu último trekking. Tenho pela frente muitas viagens que exigirão do meu físico um pouco menos. Quase nada é muito pouco, um pouco de dificuldade é essencial, pois cadê a aventura? Já estou de partida para o Equador. Dessa vez irei com o Haroldo. Vamos de Troller. Acompanhem-me pela página nova.

Em Paro e Bangkok – 28 e 29 de outubro de 2010

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Em Paro voltamos a passear pela cidade. No dia seguinte pegamos um voo para Bangkok. Lá fiz um passeio pelo Mercado Flutuante e o Gran Palacio. No Mercado passeamos de voadeira pelos canais, vi frutas desconhecidas, outras nem tanto. Muita bugiganga para comprar. Tudo muito colorido. Valeu a pena. O Gran Palace (Phra Borom Maha Ratcha Wang) é deslumbrante. Foi morada dos reis da Tailândia do século XVIII. Sua construção teve início em 1782 e está muito bem preservado. Muito brilho, cores, detalhes e mais detalhes. À tarde uma massagem trouxe de volta meu corpo. Pegamos o avião para Istambul e ficamos no aeroporto umas cinco horas. De Istambul para São Paulo fiquei imprensada nas cadeiras do meio, avião lotado. Cheguei com os pés inchados e dormentes. O Inchaço passou, mas os últimos dedos do pé ainda estão dormentes. Só para lembrar do Butão. Adorei!

Dormi em São Paulo. Cheguei em Fortaleza a tempo de tomar uma cervejinha com o Haroldo. Estava completamente fora do fuso. Nove horas de diferença! Acordava de madrugada com fome, dormia de manhã, sei lá que confusão era aquela! Quatro dias depois comecei a me situar. A vida voltando ao normal. O Butão virando passado. Obrigado aos meus amigos de trekking, pela simpatia e alegria constantes, Obrigada a minha companheira de barraca, Marieta, pela companhia e solidariedade. Obrigada Jota e Fernanda por este roteiro maravilhoso! Obrigada aos butaneses que me levaram quase nas costas na trilha de 22km enfim…Obrigada a todos! Inté…

Heloisa Cunha

Fortaleza, 30 de novembro de 2010

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