02 de dez

O Maciço del Paine

Patagônia 2000 – 29.000 Km pela América do Sul

Diários de 01 a 10

16 de novembro de 2000.

Trecho: De Fortaleza(CE) a São Raimundo Nonato(PI)

Distâncias: For/Crato: 569 km; Crato/São Raimundo Nonato: 647 km.

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Quando saí de Fortaleza, no dia 13 de novembro de 2000 e me despedi do Haroldo, eram 05h20min da manhã e a lua ainda estava lá e era lua cheia!

Como havia decidido ir pela Rodovia do Algodão, quando passei pelo Sítio Boqueirão, em Pacatuba, onde meu pai mora, dei uma paradinha para tomar um “café preto” e me despedir dele. Olhei para trás, ele ainda estava lá acenando.

Uma vez na estrada, andando ainda devagar, experimentando esse que será meu companheiro durante os próximos cinco meses, vi passar por mim a Serra da Aratanha, verde, bonita com alguns pedaços de mata intocada, como as do Sítio Boqueirão, que não sei porque não se definiu ainda como restos de Mata Atlântica. Depois, Redenção, com o monumento da escrava se libertando dos grilhões (Redenção foi a primeira cidade do Brasil a libertar seus escravos); o Maciço de Baturité com seus lindos contrafortes, meio azulados, no horizonte. Quantas vezes passei por aqui e quantas ainda passarei?

Agora, imprimindo mais velocidade e reconhecendo a “zoada” do motor Diesel do Troller, cheguei a Quixadá. Não pude deixar de visitar o Açude Cedro, cuja parede é de longe a mais bonita de todos os açudes que eu conheço! Este açude foi construído na época do Império. Os detalhes das grades de proteção e das pedras lapidadas pelos escravos são belos! Lamentavelmente a água fornecida pelos rios das redondezas é muito pouca e raramente ele sangra, mas mesmo com pouca água fornece peixe aos moradores das proximidades e  faz um belo conjunto com a Galinha Choca (formação rochosa). Se algum dia passarem por lá, vale a pena parar!

Pegando a estrada novamente, o Sertão se estendia de um lado e outro, meio cinzento, o calor devia estar grande, ainda bem que o Troller tem ar condicionado!

A Rodovia do Algodão está com o asfalto bom, mas é estreita, alguns trechos sem acostamento e muitas curvas, mesmo assim, bem melhor que a BR 116 ou a BR 020, Cruz Credo!! O trecho que vai de Várzea Alegre a Farias Brito estava péssimo, me disseram que é uma BR cuja manutenção está a cargo do Exército (não entendi nada)! Estrada ruim, paisagem verde, característica da Região do Carirí já entrando na Chapada do Araripe.

Cheguei em Crato onde me esperava Ducilene, que foi minha aluna na época em que eu era ainda estagiária. Ducilene me abrigou em sua casa com aquela hospitalidade nordestina e tratou minha gripe, recém instalada, com mel de abelha, limão, própolis, etc. Dei uma entrevista e muitas pessoas foram ver a minha partida e me parabenizar. Obrigada Ducilene e Landim!

Saí de Crato  às 8:00. Estava nublado e a temperatura era de 30°C. Um mormaço que quase acaba comigo!

Subi a Serra para Exu e resolvi visitar no Museu Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Luiz Gonzaga cantou o Nordeste, sua gente e seus costumes. Estavam lá suas roupas de vaqueiro, trabalhadas, coloridas, seus chapéus , suas sanfonas, seus prêmios e na saída Gonzaguinha (seu filho) escreveu: “Fé na vida, fé no homem, fé no que virá, nós podemos tudo, nós podemos mais, vamos lá fazer o que será.” É isso ai, minha avós do Terceiro Milênio!

Comprei um chapéu de vaqueiro, maravilhoso, para fazer uma foto lá em Ushuaia no fim da Rota 03.

Daí para a frente o grande Sertão, que só iria mudar já próximo a Petrolina (PE). A irrigação mudou muito a paisagem. O Sertão irrigado “dá de um tudo”! Frutas dos mais variados climas, uva, melão, manga, etc. gerando trabalho e comida para o Nordeste. Isso sem falar no excelente vinho que é produzido aqui. Terra abençoada! Falta apenas vontade política para não se ver mais crianças tapando buracos de estrada pedindo tostões pelo trabalho e homens muito jovens que se vão para as cidades grandes, com ar humilhado, portando um saco nas costas cujo cadeado é um nó, como disse um  cantador nordestino.

Dobrando à direita, antes de chegar em Petrolina, toma-se a estrada para Remanso (BA) . A estrada vai arrodeando a enorme Reprêsa de Sobradinho. A Caatinga  verde, muito verde! Estrada estreita, esburacada e muitos caminhões. Uma pedra e o parabrisa trincado. Minha gripe no mundo! Um mal estar terrível, arrependimento por não ficar no Crato mas, com o firme propósito de ficar no Parque até a cura total.

Em Remanso, mais uma vez à direita e meu GPS não me deu a estrada, deve ser nova. Nova é maneira de dizer, porque está, em alguns trechos bem estragada!

Enfim, São Raimundo Nonato, o Hotel Serra da Capivara e eu nos últimos extertores! Jantei, a febre no mundo, a voz que não saia, a tosse estourando os pulmões, mas muito feliz! Aqui vale a frase muito dita pela minha avó: “O que de gosto, arregala o peito!”

Uma noite de cão e hoje sã e salva, mais salva do que sã, é bem verdade, resolvi passar o dia me recuperando. Aproveitei para escrever um pouco, de vez em quando um cházinho, mel com limão, alguém disse que bom mesmo é alho picado com mel, mas não sei se vou encarar, enfim a vovó em pleno processo de recuperação! À noite os fantasmas são bem maiores!!

Hoje, dia 16, após um chá de alho com limão e mel, encomendado pela Girleide, gerente do Hotel, parto finalmente para o Parque com meu guia Alan. Sinto o cheiro de alho no ar e ai do vampiro que cruzar o meu caminho!

 

 Bol. 02

Parque Nacional Serra da Capivara

 Nada se leva de um Parque. Animais, plantas, rochas, frutos, sementes e conchas encontradas no local fazem parte do ambiente e aí devem permanecer. 

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São 18:00 de uma tarde bonita e muito quente em São Raimundo Nonato.

Estou sentada  no terraço do Hotel Serra da Capivara, de frente para a estrada e de vez em quando olho para ela e observo os caminhões passando, uns vindo do Pará se dirigindo para o sul, outros para Canto do Buriti e daí a Brasília e outros ainda para Teresina, ou quem sabe?

O Parque Nacional Serra da Capivara está situado no sudeste do Piauí e possui mais de 500 Sítios Arqueológicos catalogados, dos quais 48 estão abertos à visitação, além do Museu do Homem Americano e inúmeras atividades ligadas à comunidade local como o Hotel Serra da Capivara, uma cerâmica característica do Parque, uma pequena confecção de roupas, escolas, entre outras.

Os Sítios, na pré história, foram ocupados por homens e animais, cuja presença é hoje evidenciada por fósseis, cerâmicas, artefatos de caça e um grande número de belíssimas pinturas na rocha (pinturas rupestres).

Este Parque foi criado em 1979, para proteger uma área de 130.000 ha, coberta por Caatinga virgem e que abriga a maior concentração de Sítios Arqueológicos das Américas.

Em 1991 foi declarado pela UNESCO Patrimônio Cultural da Humanidade. É gerenciado pela Fundação do Homem Americano www.fumdham.com  , fundham@zaz.com.br  e IBAMA.

Durante três  dias percorri, junto com meu guia Alan ( no Parque só se anda com um guia), os principais locais do Parque e ainda ficaram muitos sem visitação, mas o que eu vi foi o suficiente para me deixar de boca aberta por  muito tempo.

No primeiro dia, já curada da gripe, aguardei a chegada do Alan e partimos para o que ele chamou de circuito “light”, especial para uma convalescente. O Alan é um excelente guia, vai explicando tudo sem pressa, além de ser uma pessoa muito aplicada dando para perceber que aproveita muito bem a reciclagem dos guias pela Fundação do Homem Americano e IBAMA. Tive muita sorte!

Fiquei maravilhada com o que vi. São pinturas rupestres (na rocha), representando cenas do cotidiano das populações pré históricas que ali viveram, muito elaboradas e a idéia de movimento é surpreendente. Segundo o Alan as pinturas com movimento são da Tradição Nordeste e as sem movimento são da Tradição Agreste.  Impressionantes são as figuras pequenas, de animais, pintadas como uma faixa , como se a cena estivesse ocorrendo lá longe, no horizonte. As pinturas que vi hoje eram em vermelho. O Alan me disse que  a tinta era  feita a partir da hematita  pulverizada, misturada a uma substancia orgânica que não está ainda definida  (talvez de plantas já extintas), e posteriormente aquecida. São pinturas datadas de  15.000 , 9.000, 8.500 anos e por aí vai. Uma loucura! Olhando para aquelas figuras, passei do estado de admiração  ao de angustia. Me senti  passageira de uma nave que tem à sua frente o passado! Como somos pequenos! Quem sabe o nosso homem pré histórico tenha percebido isso bem melhor, pintando  a si  próprio tão miudinho! 

Caminhamos pela Caatinga e de vez em quando penetrávamos nos Baixões que são regiões úmidas com restos de Mata Atlântica. Nos Baixões, os antigos posseiros criavam gado e plantavam mandioca. Enquanto caminhávamos eu ia apreciando  a estranha paisagem composta por escarpas de arenito de cores que variavam de cinza a laranja fazendo um contraste muito bonito com a Caatinga verde!

Ao sair  da visita aos Sítios fui ao Museu do Homem Americano. O Museu é muito bem organizado (como tudo aqui) e conta as origens e a evolução do homem, além de uma reconstituição dos 50 mil anos da presença humana na região.

À noite, fiquei conversando com algumas pessoas que trabalham na Fundação, viajantes e pesquisadores. Conversei com o Antônio, um biólogo paraibano que estuda o comportamento de macacos. Estava à procura de macacos pregos, encontrou um bando e foi atacado por eles. Vai ser um trabalho difícil! Estava satisfeito, às vezes arma sua rede ao relento e dorme na mata. É mais um apaixonado pelo Parque!

Conversei também com o Jô, um rapaz Belga que dá aulas de francês para os guias e crianças das escolas apoiadas pela Fundação, uma administradora paulista que abre lojinhas de artesanato pelo nordeste para vender produtos do Parque, todos apaixonados!

Todas as pessoas com as quais eu conversava sempre se referiam à Niède Guidon como a essência do Parque. Niède é uma arqueóloga paulista, de Jaú, filha de franceses. Me contaram que desde que soube das pinturas rupestres lutou pela demarcação, acreditou  e provou, através de achados em escavações, que alí vivera o homem mais antigo das Américas; encabeçou o movimento para a criação da Fundação do Homem Americano, uma entidade sem fins lucrativos. Continua trabalhando, mora em São Raimundo. Uma mulher e tanto!

No segundo dia, e mais sensacional,  visitamos o Baixão das Mulheres, o impressionante Boqueirão da Pedra Furada, considerado, até agora, o Sítio mais importante do Parque, do qual falarei depois, a Pedra Furada, que é o cartão postal do Parque, alguns caldeirões naturais, onde a água se acumula, após descer através  de túneis semi abertos e verticais, muitas vezes altíssimos.

O Boqueirão da Pedra Furada é importantíssimo porque foi ali que foram encontrados vestígios datados de 50 mil anos, definindo assim a presença humana mais antiga das Américas. As pinturas rupestres em número de 1150, estão em um paredão de 70m de altura, com a surpreendente inclinação negativa de 133°, que talvez seja responsável pela sua preservação e a dos vestígios como fogueiras e artefatos. A chuva não consegue alcançar as pinturas. É lá que se encontra a pintura dos veados saltando, utilizados como logomarca do Parque. Sobre esta pintura existe um dado super interessante: são dois veados em pleno salto, um sobre o outro, um pequeno datado de 12.000 anos e outro grande datado de 8.000 anos. O artista chegou, olhou e pensou: está faltando alguma coisa nessa pintura! Completou, só que com 4.000 anos de atraso!

À noite retornei a este Sítio, é que ele é o único que se pode ver iluminado com luz artificial, não que as luzes fiquem acesas sempre. Você paga uma taxa de visitação e durante uma hora fica lá de boca aberta babando, porque o efeito da iluminação sobre as rochas, pinturas e vegetação é dramático. Fiquei apreciando tudo por uma hora e, quando as luzes apagaram, a noite estava muito escura e saímos apreciando o céu limpo e estreladíssimo, como eu não via desde julho quando fui a Lençóis Maranhenses. O Alan me mostrou a Ursa Menor, Júpiter, Vênus . Na Caatinga ao lado, centenas de vaga-lumes piscavam. Me senti, dos mortais, a mais privilegiada. Quantas pessoas nunca viverão ou não saberão viver um momento como esse?

No último dia, hoje, o Alan me levou por caminhos mais difíceis. Fizemos uma trilha até o Grotão  da Esperança, por ali passou outrora um rio que escavou a rocha , formando um altíssimo cânion. Fiquei quieta observando a paisagem verde com um povoado lá longe. Além do Grotão da Esperança ainda visitamos alguns Sítios um dos quais só com cenas de sexo. Sem novidades, já se fazia tudo do mesmo jeito!!

Voltamos pela trilha, o Troller tentando neutralizar a minha incompetência, o Alan se agarrando onde podia e eu chateada me despedindo de tudo. Lembrei Saramago “O viajante  não vai de bom humor . Sabe porém o bastante de si próprio para suspeitar que o seu mal nasce de não poder conciliar duas opostas vontades: a de ficar em todos os lugares, a de chegar a todos os lugares”.

Este é um passeio para todas as idades, as trilhas podem ser feitas por qualquer pessoa de 80 anos, então minhas amigas, porque não vir até aqui? É muito fácil, vou ensinar tudo bem direitinho e aí, você também vai apreciar as maravilhosas pinturas rupestres, as escarpas de arenito, a Caatinga verde ou cinzenta, dependendo da época, não se incomode se for época de seca e ela estiver cinzenta, na língua Tupi, Caatinga quer dizer Mata Branca, é que ela fica prateada nas noites de lua cheia! Venha sentir o cheiro da noite, as estrelas que não brilham mais na cidade grande e os milhares de vaga-lumes piscando dando a impressão que o mundo está de cabeça para baixo! Não se esqueça de vir!!

Olhe só: se vier de carro, compre um mapa e planeje direitinho para não viajar à noite.

Se vier de avião, compre uma passagem para Petrolina (PE), de lá vá à Rodoviária e pegue um ônibus para São Raimundo Nonato. O ônibus sai às 13:30 chegando 17:30. Pode também ligar para o Hotel Serra da Capivara (86) 582 1389 e a Girleide (gerente) se incumbe de providenciar uma Van que lhe pega no Aeroporto e traz até São Raimundo. O próprio Hotel indica um guia que são todos treinados pela Fundação.

Tenha medo não!!

 

20 de novembro de 2000

Bol.03

Trecho: De São Raimundo Nonato (PI) a Lençóis (BA)

Distância: 832 km

 

A saída de São Raimundo Nonato foi no dia 19 de novembro às 7:00 da manhã. Arrumar tudo sozinha não é mole!

Em Remanso (BA), dei uma parada para checar a informação  de que existiria uma balsa para passageiros e veículos. Existe a balsa, mas só para passageiros.

Novamente em Petrolina (PE), atravessei a ponte sobre o Rio São Francisco e já estava em Juazeiro (BA). Procurei o Posto Ipiranga que fica na saída da cidade. É um Posto de apoio e havia uma infinidade de caminhões e um dos caminhoneiros que estava vindo de Lucas de Rio Verde (MT) me informou que as estradas estavam péssimas principalmente a de Senhor do Bonfim (BA) a Jacobina (BA). Para mim não era nenhuma novidade, aquele trecho da estrada que vai de Juazeiro até Feira de Santana nunca foi bom, me lembro uma vez que eu e o Haroldo levamos tres horas para percorrermos 100 km. Bom, carro abastecido, caminho seguido.

Cheguei em Senhor do Bonfim rapidinho, a estrada não estava tão ruim assim, foi a primeira surpresa, em compensação o trecho até Jacobina estava terrivel, sem acostamento, muito esburacada. Ainda bem que de Troller as coisas ficam bem mais fáceis.

Eu ia tão distraida com os buracos que me esqueci de abastecer, daí tive que ir mais devagar, administrando o pouco de Diesel que eu tinha. Finalmente em Utinga (BA) havia um Posto aberto, abasteci e segui até Wagner (BA), dobrei à direita e entrei na BR 242, relaxei um pouco pensando que o pior já havia passado e caí em uma enorme panela, quase fico ali mesmo! Já estava anoitecendo e o perfil da Chapada já aparecia contra o pôr do sol, isso me tranquilizou, estava perto! Não gosto de dirigir à noite, acho muito perigoso, trocar um pneu furado à noite é uma tarefa muito complicada!

Chegando a Lençois (BA), não quis procurar pousada,estava muito cansada, e fiquei na que eu já conhecia Pousada de Lençois. Achei muito cara mas me deram um abatimento, tirei minha mala, tomei um banho bem gostoso,  e fui jantar. Pedi um vinho que funcionou como “uma pancada na moleira de um anjo”. Jantei e fui me arrastando para o quarto, tinha dirigido mais de 800 km em estradas muito ruins. Pudera!

Acordei tarde, é que a Bahia adotou o horário de verão, tambem não importa, meu relógio não sei nem onde está.

Contratei um guia para me levar à Caverna daTorrinha e achei tudo muito caro! Olha só: R$ 30,00 do guia mais R$ 20,00 do guia da Caverna e mais R$ 3,00 para entrar, logo a visita ficou por R$53,00 e logo depois paguei mais R$ 5,00 para entrar na Pratinha. Quando fiz minhas contas para o dia seguinte, quando iria ver o Poço Encantado, resolvi mudar meu esquema.

Coloquei minhas coisas no Troller, paguei minha conta e toquei para Andaraí (BA), Pousada Ecológica, já havia feito a reserva, e assim, além do Poço Encantado poderia ver outras atrações ali perto. Foi uma ótima decisão, não estava bem em Lençois, não pela cidade que é linda! Me senti explorada, além do que a Pousada de Lençois se tranformou em um Hotel, muito eficiente mas sem aquela coisa de você ficar conversando com as pessoas, enfim perdeu a simplicidade e o aconchego.Para uma viajante solitária isso é fatal!

A distância para Andaraí é pequena, são só 110 km. Me instalei na Pousada Ecológica e gostei muito, ela é rústica, bem transadinha e fica às margens do Rio Paraguassu (estou escrevendo Paraguassu ou Paraguaçu, é que vi das duas maneiras), um rio muito bonito, tem uma piscina natural que é um charme, com direito a cascata e tudo, além de muitas flores. Ótimo, me senti em casa! Já bem instalada, fiquei na piscina apreciando o local. Lembrei-me da visita à Caverna da Torrinha. Foi um percurso bem difícil. Foram tres horas dentro da Caverna mas valeu a pena. O Tico (guia da Caverna) me disse que algumas formações ali existentes como uma enorme Flor de Aragonita e as Eduardinas eram raríssimas. Ficamos por dois minutos em uma escuridão total. Impressionante a escuridão e o silêncio, qualquer pessoa que se perdesse , sem luz, nunca mais acharia o caminho! Em muitos lugares tivemos que passar agachados e em outros que eram fendas tão estreitas tivemos que passar de ladinho encolhendo bem a barriga. O guia me contou que uma canadense um pouco gordinha ficou enganchada numa situação bem difícil e foi preciso ser puxada. Saiu, mas bem arranhadinha! Que horror!

Que bom estar aqui! Meu guia apareceu, chama-se Malhado e de cara já gostei muito dele. Combinamos sair amanhã  às 8:30. Tive a tarde toda para descansar, após almoçar uma deliciosa carne do sol.

A noite estava agrdável e fiquei um pedaço conversando com algumas pessoas que trabalham dando aulas para um assentamento de Sem Terras, foi um papo interessante, há aulas de ecoturismo, administração, artesanato, etc. A conversa estava muito boa mas bateu um sono danado e vovó foi dormir super tranquila. Boa noite Vovó!

 

Bol. 04

Parque Nacional da Chapada Diamantina (Bahia-Brasil)

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O Parque Nacional da Chapada Diamantina foi criado em 1985 para proteger uma área de encontro de vários ecossistemas, riqueza cultural e histórica, os recursos naturais da Serra do Sincorá e para tentar conter os estragos de um turismo desordenado.

O Parque possui uma área de 152.000 hectares e está localizado na zona central da Bahia, abrangendo os municípios  de Lençóis, Andaraí, Mucugê, Palmeiras e Ibicoara. É montanhoso e oferece aos visitantes cachoeiras de rara beleza, cânions, grutas, trilhas longas e curtas, além de cidades históricas desenvolvidas à época da descoberta de jazidas de diamantes, em 1820.

Esta é a terceira vez que venho à Chapada Diamantina e em todas as duas vezes, uma com o Haroldo e outra com o Lucas, meu filho, tenho procurado conhecer mais um pouco dela, por isso sempre digo que estou conhecendo a Chapada aos poucos. Desta vez, os objetivos eram conhecer o Poço Encantado e as cidades à leste dela.

Após a visita à Gruta da Torrinha, que foi percorrida em três horas, conhecendo inclusive a sala das Eduardinas (formações que só existem na Torrinha), visitável só por alguns felizes mortais (eu um deles), resolvi fugir dos altos preços de Lençóis: p’ra falar a verdade, me senti muito explorada!

Paguei o Hotel, coloquei minhas coisas no Troller e percorri 105 km de estrada boa até  Andaraí (BA), parando na Pousada Ecológica e foi a melhor coisa que fiz! É uma Pousada deliciosa, super agradável, atendimento perfeito, confortável e florida.

No dia que lá cheguei resolvi relaxar e ficar escrevendo ao lado da piscina natural, ouvindo o som da bica. De vez em quando lançava o olhar ( muito pouco preocupado, diga-se de passagem ) para o Rio Paraguaçu, botava meus ouvidos para escutar as sabiás cantando, ou então dirigia o olhar lá para a outra margem do rio para apreciar a fileira de cedros, lindos, cheios de flores amarelas! Vocês não estão aqui porque não querem, ah,ah!

Conversei com o meu novo guia cujo nome é Malhado. Essa conversa preliminar é muito importante, porque quem viaja só tem que passar para o guia as expectativas durante a estadia e conhecer um pouco dele ou dela, se for o caso.  Eu, dou preferência a guias mais maduros, mais cultos e que sejam apaixonados pelo trabalho que fazem.

Fiquei sabendo que o Malhado era garimpeiro e ganhou um bom dinheiro com a atividade, só que quando surgiu o turismo ele vislumbrou a possibilidade de sair do garimpo, aumentar seus conhecimentos, não só através de cursos oferecidos para formar guias, como também conversando com os próprios turistas. Ele é profundo conhecedor da região, tem estudado muito para se aperfeiçoar e além de guia turístico dá aulas nos assentamentos dos Sem Terra, alertando-os para a importância da preservação ambiental, separação do lixo orgânico do inorgânico e formando novos guias. Muito interessante o trabalho dele!

Bem, combinamos começar o dia com a visita ao Poço Encantado.

Muito cedo o Malhado já estava a postos, e nos mandamos para o Poço conversando sobre a vida do garimpo.

Paga-se uma taxa para entrar de R$ 3,00 e começa-se a descer. A entrada é uma pequeníssima abertura e a descida é íngreme, às vezes eu descia quase sentada (fico com medo de torcer ou quebrar alguma coisa e assim vovó terminar a viagem logo no começo). Foi muito estranho o que ocorreu comigo, à medida que eu ia descendo comecei a enxergar um azul intenso que eu julguei ser o reflexo da água nas paredes da gruta, mas qual não foi o meu espanto quando vi que o “reflexo” era a água que de tão transparente não consegui perceber o limite. Eu já tinha tido uma sensação parecida em Bonito (MT), só que lá pelo reflexo das estalactites na água a gente mata a charada rapidinho. No Poço Encantado, é impressionante!! Eu imagino o que é aquilo na época em entra o facho da luz do sol pela claraboia natural, e dizem que este facho às vezes se divide em nove pontos de luz! E pensar que tem brasileiro que sai daqui para ver a Gruta Azul de Capri, já fui lá, e, minhas amigas, vamos e venhamos, não dá nem para comparar! O Poço Encantado da Chapada Diamantina é grandioso, lindo, e, tem mais, você pode permanecer o tempo que  quiser. Êta país lindo esse nosso Brasil!

Bom, depois de recuperada da emoção e da subida da volta, fomos para Mucugê, uma outra cidade que limita o Parque e que apoia o Projeto Sempre Viva que está inserido no Parque Municipal de Mucugê, uma área que ficou fora da demarcação da Chapada e que tenta a preservação da Sempre Viva, aquela florzinha do campo que dura três ou mais anos, daí o nome, e que por causa da colheita desordenada para exportação está quase em extinção. É que suas raízes são muito frágeis e as pessoas as colhiam antes que acontecesse a semeadura natural e as arrancavam com raiz e tudo. Gostei muito da visita. Os laboratórios do projeto ficam dentro das rochas, isto é, os arquitetos se inspiraram nas casas dos antigos garimpeiros. Aproveitaram as rochas e completaram com alvenaria e laje, mas de uma forma que de longe a gente não imagina que ali possa existir qualquer coisa além da rocha. Lembrei meu pai que adora fazer essas arrumações lá no Sítio.

Visitando os laboratórios vi várias espécies de Sempre Viva, em ramalhetes bonitos, na sua cor natural, um sépia muito bonito. Só tinha visto as florezinhas coloridas com anilina, violentadas! Voltaria a vê-las na Chapada dos Veadeiros tocadas pelo vento em um movimento ondulante e, por isso mesmo, chamadas por alguns de bailarinas. O Projeto Sempre Viva possui alojamentos que quando não estão ocupados por pesquisadores são alugados aos viajantes que querem ficar por ali mais dias.

De lá caminhamos por um Campo Rupestre até uma cachoeira de águas castanhas que vinham caindo por degraus formando um belo conjunto.  A água castanha me mete medo, molhei os pés, pescoço e braços e me estiquei ao sol, meio cochilando, com o rosto tampado pelo chapéu de palha. O sol passava pelos buraquinhos do chapéu formando pontinhos luminosos, imaginei um campo coberto de Sempre Vivas …

Na cidade de Mucugê fui apresentada à cadeira de levar bêbados para casa, isso para não escrever “pralevarosbebo”, como fala o nordestino. Essa cadeira é única, realmente nunca vi outra igual! O Malhado me contou que quando alguém perde o rumo, por excessos etílicos, é respeitosamente colocado nela e confortavelmente levado para casa. Que coisa engraçada! Vou colocar a foto da cadeira de conduzir os “bebos”. Quem sabe a idéia pega?

Percorremos a cidade a pé e fui apreciando os casarões antigos, as ruas estreitas, calçadas com enormes pedras como aquelas de Ouro Preto e  outras cidades históricas de Minas e ainda Goiás Velho, onde morei alguns anos. Uma beleza! Nos dirigimos ao Cemitério Bizantino, uma outra curiosidade. O Cemitério fica em uma encosta e as construções caiadas parecem de longe, coisa de assombração. Realmente o estilo é Bizantino e o Malhado me explicou que no auge da época do diamante havia muito turco por aquelas bandas. O interessante é que o defunto nunca descansa, ele era enterrado em pé, porque era muito difícil cavar uma cova na rocha, então era cavado o suficiente para caber o falecido até o joelho, por exemplo, e daí levantava-se a alvenaria , entenderam? É esquisito, a gente olha e pergunta: de que tamanho era esse morto? A justificativa para uma estadia tão incômoda é que  o tipo de terreno não embebe a água e a enxurrada terminava por levar junto o morto. A solução foi o cemitério na rocha. Muito criativo, por sinal! As construções maiores são denominadas apartamentos porque cabem  vários caixões na vertical.

Ainda ficamos por ali um pedaço, observando as estranhas formas e vários casais de namorados sentados nos túmulos conversando … Um contraste perturbador!

Na saída do Cemitério uma outra surpresa. O muro feito de pedras justapostas, sem argamassa é perfeito. As pedras têm uma cor muito bonita, vários matizes da cor salmão. Quando atravessei o velho portão vi o crime, rebocaram e caiaram o muro pelo lado de fora! Dá para entender? Cobrir uma obra de arte? Fiquei boba!

De lá subimos para Igatu, a Cidade de Pedra, o Malhado chama de Machu Pichu baiana. Igatu é também uma cidade nascida na época do garimpo de diamantes, as construções são de pedra, todas. Os diamantes foram acabando e as pessoas foram partindo e agora  restam umas 300 pessoas. O turismo tem trazido de volta os retirantes. Lá conheci a Lindaura, filha de uma garimpeira que morreu aos 90 anos de idade. A Lindaura tem o maior orgulho em mostrar os artefatos utilizados por sua mãe quando garimpeira. Uma enorme bateia bem antigona, balancinha de prata para  pesar diamantes, cuidadosamente guardada em uma caixinha de madeira, fotografias antigas, uma carta do Juscelino (ex Presidente do Brasil), algumas pedras bonitas lapidadas, outras não, que ela não vende e nem dá, tudo isso mostrado com muito, muito carinho, demonstrado pelo falar manso e pela maneira como passava as bonitas mãos pelas peças. E por falar em mãos, mostrou-me um calendário no qual constavam fotos de sua mãe já com quase 90 anos, uma de seu rosto de mulher nordestina , curtido pelo sol e pela vida   e outra de suas mãos muito fortes, entrelaçadas de uma forma suave que me passou a sensação de uma pessoa em paz. Até qualquer dia Lindaura! Uma foto na porta, seu vestido verde, um aceno e ela ficou lá quietinha nos observando descer a ladeira e voltando a seu tempo.

Desci a ladeira calada e o Malhado ia, de vez em quando, conversando com um e outro, e seguimos para as ruínas, restos de casas de antigos garimpeiros, tudo em pedra. Fomos voltando devagar, conversando com um grupo de turistas e alguns meninos da cidade que iam brincando, correndo, aquela alegria de criança!

Dali voltamos para Andaraí, eu queria ver a lapidação das pedras, mas já estava tudo fechado. Andamos um pouco pela cidade, bem maior que as outras, muitas casas antigas, as mesmas ruelas, calçamento de enormes pedras e a minha terceira estadia na Chapada estava terminando. Digo sempre que estou conhecendo a Chapada por partes. De outra vez, se ainda tiver fôlego, deverei fazer a trilha do Vale do Patí, que alguém já disse ser a trilha mais bonita do Brasil. Vale a pena conferir!

Jantei um Tucunaré delicioso, me despedi do Malhado e fui dormir.

Acordei com as sabiás dando seu show, lembrei delas cantando no pé da serra do Sítio Boqueirão.

Conheci o outro lado da Chapada Diamantina. Foi bom! Para quem quiser vir, fique sabendo, existem trilhas para pessoas de todas as idades, às “menos novas” sem preparo físico, desaconselho a caminhada no interior da Caverna da Torrinha, mas dá para fazer um bocado de coisas, inclusive a descida para o Poço Encantado que é difícil, mas existe bunda para a gente sentar e escorregar, braços e mãos para a gente segurar as cordas colocadas para facilitar a descida e subida. Enfim, trilhas longas, curtas, para todas as idades e para todos os preparos físicos, é só escolher! Mesmo as mais difíceis , se realizadas vagarosamente, com um guia, são perfeitamente possíveis.

Se você vier de Fortaleza, venha pelo meu caminho, é o mais curto. Se vier de avião, pode ir até Salvador e pegar um ônibus para Andaraí. Minha sugestão é Andaraí. É tudo mais barato, guias, pousadas e a atenção é total! De Andaraí você pode fazer todos os passeios, inclusive aqueles próximos a Lençóis. Tenha certeza, você não vai se arrepender!

Agora, vou ali arrumar o meu Troller para mais um estirão, iremos à Chapada dos Veadeiros. Não conheço, mas todos dizem ser maravilhosa. O plano é ir até Alvorada do Norte(GO) e daí a Alto Paraíso(GO) pela trilha do Rally dos Sertões. Vou fazer uma homenagem ao nosso amigo Beto Sales que morreu no ano passado no Sertões. Serão quase 1000 km. Muita gente me pergunta se eu não fico cansada e eu respondo: não dá para cansar, adoro as estradas, a mudança de paisagens me fascina, além da gostosa expectativa do por vir. Até lá! Vamos ver como será tudo isso!

 

27 de novembro de 2000

Bol. 05

Trecho: De Andaraí (BA) a Alto Paraíso (GO)

Distâncias: Andaraí/Flores de Goiás: 984 km. Flores/ Alto Paraíso: 96 km

Ao amigo Beto Sales falecido no Rally dos Sertões de 2000, em algum lugar deste trecho.

 

Sai de Andaraí(BA), no dia 23 de novembro as 08:00, horário de verão, e na hora da saída ainda encontrei o Malhado que vinha caminhando. Nos despedimos: “Até outra vez”!

A Pousada Ecológica é uma gracinha, bem rústica, local bonito e agradável. Gostei! Outro atrativo é o preço. Muito mais barata. Aliás tudo em Andaraí é mais barato que em Lençóis, guia, Pousada, alimentação, então, meu conselho é ir para Andaraí e conhecer a Chapada a partir de lá, principalmente se você for de carro próprio.

Peguei a estrada, que é muito boa, até encontrar a BR 242 e também os buracos. A verdade é que apesar dos enormes buracos já vi essa estrada em pior estado.

Um carro pequeno à minha frente quase causa um acidente grave quando resolveu frear e parar em uma dessas crateras. O acidente envolveria uma carreta, eu no meio e o carro parado no buraco, felizmente cada um resolveu o problema do seu jeito, um puxou para lá, outro para cá e com muita sorte terminou tudo bem. O carrinho ficou lá entalado e fomos todos embora.

Abasteci em Ibotirama(BA) no Posto Ipiranga com CTF. Não sei se eu já expliquei o que é o CTF, se não, vou explicar: é um sistema composto de um chip instalado no tanque do veículo e que é acionado no momento do abastecimento em Postos que o adotaram. Durante o abastecimento, os dados do veículo automaticamente são repassados para a empresa: local, quilometragem e quantidade de combustível. A Ipiranga se encarregou de instalar o sistema e eu achei tudo muito prático. Bem, continuando com a minha viagem: dobrei à esquerda na direção de Bom Jesus da Lapa(BA). Pela segunda vez nessa viagem me encontrei com o Rio São Francisco. Da estrada deu para ver a gruta de Bom Jesus onde anualmente ocorrem peregrinações. Resolvi não parar, queria alcançar Alto Paraiso(GO) ainda naquele dia. Como eu estava enganada!

Bom Jesus da Lapa me lembra algumas viagens de férias no Ceará, na década de 50. Saíamos de Belo Horizonte, onde morávamos, avião era sempre um DC3, as janelas possuiam uma aberturinha redonda e um dia um irmão meu que ia com o casaco voando por esta janelinha ficou sem ele; a Companhia Aérea ou era a Aerovias ou, acho, a Real Minas, aquela cujo símbolo era um corcunda. O avião passava o dia todo para chegar e pousava em três cidades do Nordeste: Bom Jesus da Lapa, Xique-Xique e Petrolina. A descida representava um perigo e um grande alívio para todos. As vezes alguém saia a espantar as vacas da pista e duas pessoas vinham correndo com uma escada bem alta que possuia quatro rodinhas, o avião parava e todos desciam, o vento morno no rosto, enjoávamos muito. Depois tudo de novo, quando chegávamos o ouvido ficava zoando por uma semana.

Depois de Bom Jesus da Lapa vem Correntina(BA). A estrada está boa, um tapete! Fui embora testando o Troller a 140 km/h. Foi ai que observei que a 140 o consumo é assustador! Na BR 020, aquela que vem de Fortaleza, novamente à esquerda e chega-se a Posse já em Goiás e um pouco antes de Alvorada do Norte(GO). Quando abasteci em Alvorada do Norte eram umas 05:00 da tarde. Conversei com o bombeiro e ele me informou que a trilha até Alto Paraiso(GO) estava difícil e que até Flores(GO) a estrada estava melhor, mas que a partir de Flores a coisa ficava feia! Sugeriu que eu seguisse pelo asfalto até Planaltina e depois subisse para Alto Paraiso. Negativo! E lá fui eu. Peguei a trilha que é a do Rally dos Sertões. Ia devagar. Muitas pontes de madeira e lá para as tantas comecei a achar que eu estava maluca. É que começava a escurecer e a poeira era muito grande e eu não tenho experiência de piçarra. Em alguns trechos muita lama. Quer dizer, lama, poeira e pontes muito precárias.

Quando cheguei a Flores já eram 07:00 da noite e eu havia rodado 984 km (Andaraí a Flores). Flores me pareceu um povoado de apoio a viajantes. Já estava escurecendo e fui ao único Hotel da cidade e foi aí que começou meu sofrimento! Não vou nem descrever a arquitetura do prédio porque tenho certeza que ninguem entenderia o espírito da obra! O fato é que o quarto não tinha banheiros e eu tive que dividir um com dois barulhentos viajantes. Minhas amigas, resumindo: o quarto tinha uma janela que não podia ser aberta porque estava alí só compondo a paisagem, não havia qualquer abertura para entrada ou saída de ar. O luxo ficava por conta de um ventilador suspenso mas o coitado bem que tentava ventilar mas não tinha vento! Comecei a suar , a cama ficou toda molhada! Foi o maior calor que já senti em toda a minha vida! Tirei o ventilador da parede e mil vezes obrigada ao Haroldo que colocou na minha bagagem uma extensão elétrica. Com isso consegui apear o ventilador e coloca-lo bem pertinho de mim, mas foi uma situação esquisita porque as muriçocas se organizaram de uma forma tal que quando o ventilador ventilava os meus pés elas me picavam o rosto e quando ventilava o rosto me picavam os pés e tome de repelente mas, sem jeito! O jeito foi ficar  quieta naquela posição de menor energia para não aumentar o calor e assim a noite passou. Café tomado, caminho seguido! Joguei as coisas no carro e me mandei, pedindo a Deus nunca mais topar com Flores. Flores de Goiás um nome tão bonito! No Posto parei para pegar informações e o bombeiro me pediu que fosse com muito cuidado porque a trilha estava ruim. Então lá fui eu escutando Debussy e achando tudo lindo, maravilhoso, observando as fazendas que se estendiam de um lado e outro do corredor. Muito gado, florestas de barrigudas ou paineiras, como alguns chamam. Pois muito bem, foi aí que aconteceu o que não precisava ter acontecido. Ia assim bem distraída, achando tudo muito lindo quando surgiu no meu caminho uma pontezinha de madeira, como eu ia muito distraída com tudo, levei um susto, freei o carro, ele escorregou, desequilibrou, rabeou e eu pensei bem rápido ou acho que pensei: “se eu entrar desse jeito na ponte vou despencar e então desci sem ser pela ponte, o Troller, coitado, desceu, mas encontrou uma árvore que felizmente não era das maiores e BUM! O poeiral cobriu e ficamos nós dois dentro dos garranchos, cada um mais espantado que o outro, só que ele  saiu  com ferimentos na fibra, mas tudo bem, ainda bem que houve o encontro se não a gente ia continuar descendo, descendo, até o rio. Que coisa! O tratorista da fazenda ficou acenando. Engatei a redução, dei uma marcha ré e fui saindo devagarinho e retornamos à estrada!

Depois dessa fui com muito cuidado só olhando para os lados de vez em quando e utilizando o 4X4, a trilha foi ficando ruim e se tivesse chovido teria ficado muito difícil!

Em um lugar bem bonito, desci do Troller e fiz minha homenagem ao Beto Sales, falecido no Sertões deste ano, pensei na Virgínia, nos seus filhos e segui meu caminho! A trilha também fica difícil porque existem muitas encruzilhadas e muitas vezes você decide na sorte! Bem, deu tudo certo e cheguei a Alto Paraiso, fui ao Centro de Visitantes para contratar um guia, peguei meu hotelzinho bem simples para tomar um banho.

É, da próxima vez vou pensar melhor antes de entrar em uma estrada sem asfalto! O que importa é que estou bem, já almocei em um restaurantezinho natural, muitas saladinhas. Me disseram que aqui é um refugio de pessoas que buscam um modo de viver alternativo, muito esoterismo, mágica, etc. Estou achando, as pessoas muito tranquilas, se abraçam de uma forma diferente, enfim, há mesmo no ar, alguma coisa diferente!

Bem, agora vou em busca do sobrinho da Ruth que mora aqui em Alto Paraiso. Mandou para cima a vida de Brasília, está muito satisfeito e feliz! Encontrei o Guilherme e ele me indicou dois guias o Elmo ou o Amaury pois eu havia pedido um guia mais maduro e mais culto. Por acaso o Amaury estava disponível. O Amaury, a princípio me pareceu estranho mas depois foi uma revelação. Conversamos um pouco no Restaurante da Esquina, falei das minhas expectativas em relação ao Parque e me senti muito observada. Isso me incomodou um pouco. Com o tempo me acostumei com esse olhar. Aqui as pessoas gostam de descobrir as outras pessoas. Há um grande número de esotéricos, místicos, gente que se dedica a estudar ciências não convencionais como a Astrologia, Cromoterapia, Auras, e vai por ai!

Para mim foi tudo uma novidade, pois estas atividades estão muito fora dos meus interesses mas que, por serem tratadas com tanta naturalidade, fazem com que a gente naturalmente exponha fatos inexplicáveis acontecidos e termine entrando no clima e já saia falando em mau olhado, energia negativa, disco voador, abrir um Tarô e outras coisas que fora daquele ambiente eu não teria coragem para discutir com alguém e aconteceu que o Amaury é um estudioso, dá aulas e é uma pessoa muito interessante. Morava no Rio, quando recebeu um chamado para ir para a Chapada dos Veadeiros! Foi um guia e tanto, com ele aprendi um bocado de coisas sobre a Chapada e sobre o maneira de viver das pessoas que moram em Alto Paraiso. No mesmo dia combinamos um banho de cachoeira e lá fomos nós para o que foi o meu primeiro banho de cachoeira na Chapada dos Veadeiros. Acompanhou-nos um rapaz de Florianópolis que estava de mudança para a Chapada juntamente com sua mulher que queria ter a experiência de um parto natural. Resolveram comprar uma fazenda que estava à venda e vão ficar por lá mesmo. São pessoas muito novas (20 anos) fugindo da loucura das cidades grandes. Acho que vou também ficar apaixonada pela Chapada mas não para ficar, pretendo me apaixonar ainda por muitas coisas durante esta viagem!

À noite jantei uma pizza em um outro restaurantezinho (aqui há muitos) e fui dormir. Voltei a sonhar! É sinal que estou voltando ao meu normal. Que bom!

No próximo boletim, falarei do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e toda a magia que o envolve. Me acompanhe!

 

Bol. 06 

Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (Goiás-Brasil)

 Brasil017 300x225 Patagônia 2000   29.000 Km pela América do Sul

O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros foi criado em 1961, juntamente com Brasília, durante o governo de Juscelino Kubitschek sob o nome de Parque Nacional do Tocantins  e protegia inicialmente uma área de 600.000 ha . Dez anos após, foi reduzido para 60.000 ha recebendo o nome de Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.

A vegetação característica é o Cerrado, uma  mata ciliar de pouca altura, campos, buritizais, muitas cachoeiras, rios de águas castanhas devido ao  óxido de ferro, cânions, enfim, uma variedade grande de paisagens que o tornam muito atraente ao turismo. Habitam no Parque quatro espécies em extinção: a onça pintada, o veado campeiro, o cervo do pantanal e o lobo guará. Há muitos pássaros sendo fácil ver o tucano, o urubu rei e emas.

Lentamente fui levando o Troller ou ele me levando, sei lá, pela trilha, quando sem mais nem menos surgiu  Alto Paraíso de Goiás; engraçado chegar por trilha, não existe um aviso e você se surpreende. Fui andando devagar e a cidade foi se desenrolando à minha frente: os pequenos restaurantes, o Centro de Visitantes, as lojinhas que vendem cristais, algumas pessoas vestidas como hippies. A avenida acabou e fiz o retorno, lá em cima as casas circulares semelhantes a observatórios, o verde…

Alto Paraíso é uma cidade pequena mas muito arrumadinha, caminhando por suas ruas a gente nota algumas coisas muito interessantes: muitos cristais, na forma bruta, em móbiles, muitas lojinhas que vendem coisas ligadas a esoterismo, pequenos restaurantes que oferecem uma profusão de saladas sem agrotóxicos, bastante pousadas, banhos de limpeza, Tarô, Mapa Astral, cursos como de Geometria Sagrada, etc. Os místicos acreditam que o fato da Chapada estar assentada sobre uma enorme placa de cristal de quartzo, talvez a maior do planeta, faz com que a região seja emanadora de uma energia sobrenatural.

Na parte nova da cidade, uma arquitetura diferente, característica: construções de forma arredondada com muitas janelas ou em forma de gota, para que a energia possa circular, sem ficar presa como nas quinas de construções quadradas. Se tem sentido ou não, não sei, mas que elas tornam a cidade diferente, ah, isso sim! Vou colocar uma foto para vocês.

Possui uma enorme pista do que seria um Aeroporto, mas que está inacabado, por razões políticas, e que hoje serve para observar as estrelas, cultos em noites de lua, de vez em quando fogueiras e é muito importante para os namorados. Os nossos políticos são de dar dó e piedade! Continuando…

Muito próximo a Alto Paraíso existem inúmeras pequenas cachoeiras, outras nem tanto, e que são frequentadas pelos pais ou amigos dos pais, que levam suas crianças para tomar banho ou brincar. É costume as pessoas saírem durante a manhã ou à tarde para tomar banho de cachoeira ou meditar. Os moradores são muito tranquilos, sentem muito prazer em abraçar as pessoas, gostam de escutar, se cumprimentar, super interessante!

Já na chegada tive muita sorte em haver encontrado o Amaury (meu guia) desocupado. Me levou para tomar banho de cachoeira, estava uma tarde muito bonita e muitas crianças brincavam, naquele burburinho natural. Tomei um banho gostoso enquanto ele fazia uma meditação, conversei um pouco e fomos embora. Combinamos os três dias que eu passaria no Parque que fica a mais ou menos 40 km de Alto Paraíso e por isso muitas pessoas gostam de ficar hospedadas em São Jorge um povoado pequeno, bem transadinho. Na entrada, paga-se uma taxa de manutenção e lá fomos nós para o Rio Preto e As Cariocas. A trilha é muito bonita. São 12 km, ida e volta e o Amaury ia me explicando a vegetação, falando das flores do Cerrado que são belas quando, sem mais nem menos, apareceu um tucano (bicho), que surpresa!

Comecei a filmar, as informações eram tantas que eu entreguei a câmera para o Amaury e terminou que ele fez uma excelente reportagem sobre a Chapada dos Veadeiros. Para uma nordestina, a visão daquela quantidade de água descendo e saltando dentre as pedras por si só já é um acontecimento! As águas castanhas do Rio Preto descem em um cânion estreito e despencam em um lago gostoso onde alguns turistas alemães nadavam e ficavam vermelhos de dar dó! Descendo um pouco mais chega-se às Cariocas, um local paradisíaco, que é o mínimo que se pode dizer da natureza da Chapada dos Veadeiros! A água despenca em cascatas, mas não são simples cascatas, são enormes cascatas, cai em um lago e depois vai descendo em pequeníssimas quedas d’água. Desta vez não tive medo das águas castanhas. Me deitei e a sensação foi de uma banheira de hidromassagem ao ar livre, muito sol e o marulhar da água. Sensacional! Chupamos algumas mangas, foram chegando turistas com seus guias e já estava na hora de ir andando. A volta foi meio cansativa, tive que dar algumas paradas para ir em frente. Por causa do meu cansaço combinamos para o dia seguinte um passeio mais perto e só no outro irmos aos saltos de 80 e 120 metros. Para relaxar, o Amaury levou-me a um banho de águas mornas nas piscinas naturais. Na volta, a tarde estava bela, os campos com suas veredas de buritis e os diferentes verdes me fizeram pensar mais uma vez, como é bonito esse nosso país e que o turismo no Brasil passa obrigatoriamente pelos Parques Nacionais. No caminho de volta, encomendamos um arroz com pequi para o dia seguinte (procurei no dicionário e não achei, não sei se é assim que se escreve, desculpem a ignorância). Cheguei ao Hotel bem descansada e deu tempo para comer uma saladinha e conversar um pouco com o Guilherme e o Amaury, fui rápido dormir e no dia seguinte soube que havia corrido uma mão de violão. Que pena!

No dia seguinte às 8:30 eu já estava pronta para uma nova aventura. Iríamos ver  o famoso Vale da Lua, a Morada do Sol e o Raizama.

Mais uma vez pegamos o Troller e fomos. A primeira parada foi no Vale da Lua. São rochas cinzentas já bem diferentes das encontradas no Rio Preto e que, por mais de 200 milhões de anos foram trabalhadas pelas águas, deixando sulcos profundos e ondulados, formações em forma de redemoinhos com profundidades variadas, um jeitão de paisagem lunar, daí o nome, tudo isso cercado de uma mata de verde intenso, estranho e muito bonito. Sentar por ali, apreciando tudo é ficar em paz. Encher a vista com aquela beleza e o barulho das águas na rocha, é, minhas amigas, o paraíso! No caminho, estivemos com o João, um excelente fotógrafo que largou tudo e foi morar na Chapada, hoje faz as fotografias que a gente vê nas camisas e cartões postais e um bonito trabalho  com os nativos, ensinando-lhes a pintar, esculpir, etc.

O Raizama foi, para mim, de longe, o que vi de mais bonito na Chapada! O Amaury discordou total, ele acha o Rio dos Couros, que infelizmente não conheci.

No dia seguinte, muita chuva, o passeio às cachoeiras foi cancelado e o Amaury me levou a passear pela estrada até Cavalcante, uma cidade que também limita o Parque onde me deparei com atividades terrenas como tirar dinheiro em um caixa eletrônico do Banco do Brasil para fazer meus pagamentos…

Passamos por uma cachoeira muito bonita e ficamos a conversar abrigados da chuva em um barzinho bem em frente a ela. O Amaury tentou uma “vivência”, técnica em que ele, através de suas mãos, procurou retirar de mim todos os pensamentos para que eu enfrentasse bem meus dias futuros. Infelizmente não consegui entrar no clima e o Amaury desistiu. Quem sabe outra vez?

Passamos pelo ponto mais alto da região mais velha do planeta, são 1.650 m, o que o Amaury chamou de paralelo 14. Me mostrou uma Mandala de pedras onde as pessoas vão para cultos e meditações.

Na volta chamamos uma pessoa para abrir um Tarô”, muitas coisas positivas para meus filhos, meu marido e, para mim, uma virada! Perguntei a ele se podia ser uma virada de carro. Me respondeu muito sério, mudança na vida que tenho levado. Que ele esteja falando pela boca de um anjo, como dizia minha avó!

O Amaury veio se despedir, me deu um cristal de presente, conversamos um pouco, mas eu já me sentia partir para outros lugares. No dia seguinte me fui, o coração meio apertado, estava deixando para trás pessoas que me ajudaram a ser menos céptica! E lá fui eu para Brasília pensando: para sempre estaria marcada pela beleza daquele lugar. Ele agora já fazia parte da minha vida!

Em algum lugar, Saramago escreveu: “Lástima tem o viajante  de que uma linha de palavras não seja uma corrente de imagens, de luzes, de sons, de que entre elas não circule o vento, que sobre elas não chova, e de que, por exemplo, seja impossível esperar que nasça uma flor dentro do o da palavra flor.” Não é demais?

Tenho certeza que os anjos e arcanjos passaram suas mãos sobre a cabeça e mãos do Saramago! Imaginem, se ele que é ele, tem dificuldade em colocar suas emoções no papel, onde é que eu fico?

Para ir à Chapada dos Veadeiros de carro, basta um mapa e ir. Não tem problema nenhum, as estradas são boas, vá pelo asfalto, chegando lá procure uma pousada de acordo com suas posses, eu fiquei em Alto Paraíso no Hotel Tradição, bem simples, barato e limpinho, cujo telefone para reserva é (61) 6461202. Se preferir ir até Brasília que fica a mais menos 240 km da Chapada, vá de avião, alugue um carro no Aeroporto e vá sem medo, ou tome um ônibus. Contrate um guia, o Amaury é excelente, seu telefone é para contato é: (61) 6461318 ou (61) 99531095.

Já estou em Brasília(DF), encontrei o Igor, meu neto, que se propõe a fazer comigo um trecho bem longo, até Ushuaia, vocês verão que não foi bem assim. Me acompanhem!

 

18 de dezembro de 2000

 Bol. 07

Trecho: De Alto Paraíso (GO) a Araxá (MG)

Distâncias: Alto Paraíso/Brasília: 237 km. Brasília/Araxá: 613,5 km

 

Passei muito tempo sem escrever e fica muito esquisito colocar os dados acima, de um lugar já tão distante, mas tenho que dar continuidade nem que seja resumindo. O fato de viajar só torna a atualização do Diário de Bordo difícil.

Deixemos de choramingar e vamos aos fatos. No meu último boletim eu ainda estava na Chapada dos Veadeiros, agora já estou de viagem para Brasília e agora, agora já estou em Gramado(RS).

Devagar, subi a Avenida principal de Alto Paraíso, dei uma paradinha lá no alto e guardei a imagem da cidade, tranqüila, ainda acordando, as casas de formas arredondadas (segundo o Amaury: formas geodésicas) e tomei o rumo de Brasília pela GO 118, passando por São João da Aliança, São Gabriel de Goiás e, finalmente Brasília. Cheguei na casa da Tamara e Esly (irmã e cunhado), onde meu neto já me esperava impaciente.

Em Brasília, visitei minhas irmãs Ana Rita e Roberta, levei o Igor para conhecer a arquitetura do Niemeyer  e, mais devagar a Catedral e o Panteon da Pátria. Tivemos uma aula de GPS durante a qual o professor se declarou de ressaca, o Igor morrendo de sono e eu sem entender muita coisa, diante disto a aula foi dada por encerrada por motivos mais do que suficientes  e passamos a falar de Jeep, estradas, restaurantes, etc. A surpresa ficou por conta do Igor que ao entrar no Troller já foi logo botando a máquina infernal para funcionar estabelecendo vários roteiros. Alguns dias depois tornei a ficar cara a cara com o bendito GPS, só que um pouco mais familiarizada pelas aulas eficientes do meu netinho que me abandonaria em São Paulo. Almoçamos um delicioso Arroz de Braga na casa da Ana Rita (irmã), troquei o óleo do Troller e marcamos a nossa partida para  o dia 01/12. Planejamos ir até Araxá(MG) e daí alcançar a entrada do Parque Nacional Serra da Canastra.

Conforme o planejado, cedinho, nos despedimos de todos: “Obrigada minha querida irmã Tamara, pela estadia, pelos programas, pelo carinho, enfim, por tudo”. Pegamos a BR 050, passando por Catalão(GO), AraguaríGO), Uberlândia(MG). Muita chuva em Uberlândia, abastecemos o carro e entramos na BR 452 até Araxá(MG).

Araxá, é, antes de qualquer coisa, a terra da Dona Beja, aqui tudo se chama Dona Beja: pastelaria Dona Beja, Motel Dona Beja, etc. Tem 74.000 habitantes, bonitinha, tem doces caseiros famosos, sabonetes de lama fabricados com lama sulfurosa extraída da Estância do Barreiro, onde se localiza a cratera de um vulcão extinto e suas Termas são muito procuradas por oferecer banhos terapêuticos, massagens, acupuntura, sauna duchas, etc. Procuramos um hotel e saímos para comer uma pizza. No dia seguinte, já estávamos de partida para a Serra da Canastra pela MG 428 que se inicia praticamente dentro da cidade e se dirige a Sacramento(MG).

Tempo bonito, fresquinho e sem chuva. Tudo beleza!

 

Bol. 08 

Parque Nacional da Serra da Canastra (Minas Gerais – Brasil).

 Brasil023 300x225 Patagônia 2000   29.000 Km pela América do Sul

Quem já ouviu falar em Debret (Jean Baptiste Debret)? Debret foi um pintor francês que no século 19 viajou pelo Brasil pintando sua gente, seus costumes e de passagem pela Cachoeira Casca d’Anta, dela se encantou, pintando-a. Eu, confesso, já vi muitas pinturas do Debret, principalmente as que retratam o cotidiano do Rio de Janeiro no século 19. Vi, talvez, um desenho da Cachoeira, mas nunca fiz associação com a Serra da Canastra. Agora já sei porque ele se encantou e sei também que o desenho que eu vi é um dos clássicos da pintura naturalista da época.

Desde a época da colonização a região da Serra da Canastra foi utilizada para criação de gado e a degradação das terras e águas de várias nascentes de rios, inclusive a do Rio São Francisco, de importância vital para o Nordeste, já era bem evidente em meados do século 20.

Os perigos provenientes desta degradação foram tornados públicos por um grupo de jornalistas mineiros que encabeçaram um movimento que culminou com a criação do Parque Nacional da Serra da Canastra, em 1972, com uma área de 71.500 ha.

Está localizado a sudoeste do Estado de Minas Gerais, apresentando altitudes que variam de 900 a 1500 m e compõe-se de dois maciços: o da Serra da Canastra e o da Serra das Sete Voltas.

Saímos de Araxá, eu e meu neto Igor, mais ou menos às 9:00 e fomos subindo pela MG 428. Esta é uma subida bonita, muitos bouganvilles, que o pessoal aqui chama de primavera. Encostamos o Troller e fizemos algumas fotografias. Fomos subindo mais ou menos 45 km em asfalto até uma encruzilhada: para o lado direito segue-se para Sacramento, para o lado esquerdo toma-se uma trilha esburacada e são mais uns 40 km até a entrada do Parque que se chama Entrada Sacramento. Há uma parada obrigatória, quando paga-se uma taxa de visitação, uma revista de rotina para ver se há armas, bebidas alcoólicas ou a intenção de acender fogo. Há muita preocupação com incêndios. Há alguns meses houve um bem grande que destruiu uma área enorme de vegetação, fui testemunha do estrago quando caminhei pelo Parque, no dia seguinte.

Por coincidência um dos funcionários do IBAMA havia se formado em Fortaleza no Curso de Engenharia de Pesca, com eles tomei um cafezinho, me falaram da dificuldade em administrar o Parque com poucas verbas, poucos funcionários e que muitas vezes colocam combustível do próprio bolso para fazer a fiscalização de rotina. O mais velho fez um relato emocionado sobre as belezas da Serra da Canastra, me despedi e peguei meu rumo pensando: deveria existir uma matéria nos cursos de Administração que falasse da administração da pobreza! Para onde  é mesmo que vai todo o dinheiro que a gente paga de impostos? Se eu soubesse pagaria sem achar ruim.

Bem, a estrada não é asfaltada, é uma trilha e atravessa o Parque de ponta a ponta. Estava difícil mas mesmo assim vi muitos carros sem tração, iam com dificuldade mas iam. O Igor procurava emas, preguiças ou algum bicho e eu desviava dos atoleiros e lá fomos nós balançando p’ra lá e p’ra cá e nada de bichos, o sol estava forte e me disseram que eles só saem de manhã cedinho ou tardezinha e que não é fácil vê-los, pois a fauna é reduzida e muitas das espécies estão ameaçadas de extinção, como o tatu-canastra, o tamanduá bandeira e o lobo-guará. Este é um Parque diferente, durante todo o trajeto a vegetação é composta por campos, o capinzal baixo de diversos tons de um verde seco transmite a sensação de que a terra está coberta de veludo! Vimos por ali muitas canelas de ema, uma planta característica do Cerrado, mas bicho, nenhum!

A sinalização está muito ruim, de forma tal que deixamos de visitar a parte de cima da Cachoeira que pode ser vista seguindo um pequeno caminho. Este fato foi responsável pela caminhada mais dura que fiz, até agora, para conseguirmos chegar até lá a partir da parte baixa do Parque. Entenderam? Vou contar com detalhes um pouco à frente.

Saímos do Parque pela Entrada de São Roque e fomos em busca de uma pousada. Terminamos ficando em uma fazenda, o que foi ótimo para mim porque para o Igor revelou-se um suplício, acho até que este fato selou sua volta para Fortaleza.

A Fazenda chama-se da Limeira e fica entre São Roque de Minas(MG) e São José do Barreiro(MG), em um povoado cujo nome é Vargem Bonita(MG). São chalés de quartos amplos e limpos, tudo muito simples, sem televisão e sem frigobar, em compensação o Rio São Francisco passa dentro dela e ao abrirmos a nossa porta a Serra da Canastra fica bem à nossa frente, as vezes bem visível, as vezes envolta em pedaços de nuvens. Muito linda! Olhando com atenção e imaginação conseguimos entender porque o nome Canastra, é que o Chapadão termina com uma rampa altíssima, como um grande baú. Só indo lá para conferir. Vou colocar uma foto. A fazenda tem muito gado, tomamos leite direto da fábrica, como dizia o Igor, muito verde, uma piscina gostosa e o resto ficava por conta do silêncio, do papo ao cair da tarde e uma boa pinga mineira!

Na manhã do dia seguinte à nossa chegada, a Francisca arrumou nosso lanche e rumamos para a Cachoeira Casca d’Anta, a maior atração do Parque. O Troller andou sem dificuldade pela trilha, e de longe, lá onde a Canastra faz um meio coração, começamos a ver a cachoeira, meu Deus, que visual! Enorme, altíssima. Paramos impressionados, fotografamos e fomos rápido vê-la de perto. Nessas alturas a paisagem já era diferente, mata mesmo! A explicação é que o Parque  é uma transição entre  Cerrado e  Mata Atlântica, com mata ciliar ao longo dos rios. É um contraste bem interessante! Encostamos o Troller e fomos caminhando orientados pelo estrondo da água despencando de 180 m de altura. Sim senhor, exatamente186 m! Algumas pessoas também iam caminhando e fomos conversando até chegar lá. De cachoeira, foi de longe a mais impressionante! Como é época de chuva, ela estava com muita água e despencava em cachos sobre cachos em um grande poço levantando um spray de ar e água à grande altura fazendo com que a mata ficasse envolta em uma névoa que nos molhava e impossibilitava qualquer foto. Que maravilha! Ficamos observando extasiados! Molhadinhos, começamos a voltar para o estacionamento e animadíssimos para enxergá-la lá do alto. Todos já haviam avisado que seria uma caminhada difícil, e foi mesmo!

Mochilas nas costas começamos a subir, a princípio nos pareceu fácil, depois a coisa foi ficando difícil e no último trecho , após três horas a coisa ficou preta! Ficamos muito cansados, na verdade, nem sei como conseguimos! Lá em cimão tivemos uma decepção: a vista lá de baixo é tão sensacional que aqui de cima era só mais ou menos! Bem, aproveitamos para ver a nascente do Rio São Francisco e assim fiquei conhecendo o Rio ainda neném, já o havia visto no Pontal da Barra, entre Sergipe e Alagoas, quando se abre em uma enorme foz. Que rio!

Se a visão da cachoeira, de cima, não foi o esperado, a vista das fazendas lá longe bem abaixo de nós, era muito linda, no entanto, ao nosso redor, o fogo havia feito um trabalho muito feio, uma enorme porção de Cerrado foi destruída. Tudo indica que o incêndio tenha sido criminoso! Mas o Cerrado reagia e aqui e ali já víamos flores e alguns brotos, mas, só isso! Muito longe uma sabiá cantava e a natureza seguia em frente!

Procuramos uma carona, mas em vão, de forma tal que só nos restou uma descida desanimada, o pobre do Igor caiu nove vezes e a vovó apenas uma. Segundo ele, eu ia atras só vendo o lugar onde ele caía para me desviar. Conseguimos chegar no estacionamento e estávamos bastante cansados, deitamos no chão escutando o barulhão da cachoeira e entramos no carro. Na volta para o Hotel ele me comunicou que queria voltar para Fortaleza. Estava com saudade e não estava gostando: muito tempo dentro do carro, se declarando urbano. Fiquei triste, pois acho que no futuro, talvez se arrependa. Combinamos que manteríamos a programação até São Paulo , quando eu o embarcaria para casa.

Quando chegamos à fazenda, ainda conversamos deitados em uma rede, fizemos algumas considerações sobre a mania que o pessoal do sul tem de dar um nó nos punhos, chegando à conclusão que instalam os armadores muito baixos, de forma tal que para ficar com uma altura boa, só resta o nó, com isso tiram a comodidade da rede que fica muito dura e não dá para se deitar atravessado, que é a maneira correta. Entenderam? Então, para não precisar de dar nós nos punhos da rede basta que se instale os armadores a uma altura de 1,80m a 1,90m. Esta é a contribuição de uma nordestina que adora uma boa rede!

No dia seguinte, tomamos nosso café e partimos, após nos despedirmos do Whainne e da Francisca. Recomendo a fazenda Limeira, é muito agradável, tudo simples, uma comidinha caseira, cavalos para cavalgadas, vôos panorâmicos em um ultra leve, um bom banho no Rio São Francisco, dentro da fazenda e a simpatia e simplicidade das pessoas que lá vivem. Os telefones para contato são: (0xx37) 34351118 e 91069705 e o site www.pousadadalimeira.com.br .

A Francisca me disse, que aluga para temporada, sua fazendinha, que é ali perto, no telefone (0xx37) 34351239, não conheci, mas pelo que as pessoas falaram, deve ser gostosa, há quartos para dormir, uma cozinha para cozinhar, muito verde para apreciar    e … a Serra da Canastra para trilhar!

 

20 de dezembro de 2000

Bol. 09

Trecho: De Vargem Bonita (MG) a Campinas (SP)

Distâncias: Vargem Bonita/São Carlos: 426 km. São Carlos/São Paulo/Campinas: 344 km.

 

A Estadia no Parque Nacional da Serra da Canastra foi abreviada pela saudade que o Igor estava sentindo não só de casa, como do seu futebol e, aqui para nós, o que eu acho mesmo é que ele está apaixonado, deixou alguma namorada e a vovó foi para o espaço!

Saímos da Canastra por Piumhi(MG), que embora seja um pouco mais longe há mais asfalto, o que faz com que o percurso fique mais rápido. Até Piumhi a trilha estava muito ruim, havia chovido e a quantidade de lama era grande. A partir dali há um asfalto razoável e a estrada bonita vai beirando o lago da Represa de Furnas. O Igor ia muito quieto, às vezes dormindo, sonhando com a sua volta. Pegamos a MG 050, passando por  Passos(MG), São Sebastião do Paraíso(MG), depois a SP 351 até Ribeirão Preto(SP) onde abastecemos o Troller e em seguida a SP 255 e rapidinho chegamos a São Carlos(SP), onde nos aguardavam o Jarbas, meu irmão, e a Bete, sua mulher. Ficamos em São Carlos por dois dias, passeamos de lancha na represa do Broa, onde eles moram, aproveitei para colocar os escritos em dia (já viram que não coloquei) e combinamos que já que ele iria a São Paulo e eu também fazer a revisão do Troller, que fôssemos juntos. Esta ida a São Paulo estava me deixando estressada, imaginem que não sei andar naquela cidade maluca, ainda mais dirigindo! Deus me livre! Foi ótimo, ficamos hospedados no apartamento da Gabriela (sobrinha) que muito ajudou me levando, na ida e na volta, à Troller. Fui ao Aeroporto despachar o Igor para Fortaleza, que me deu um adeus aliviado. Como o carro não ficou pronto fui embora para Campinas passar o fim de semana com minha irmã Cristina. Ótimo ter uma grande família espalhada por esse meio do mundo! Houve uma reunião com algumas amigas dela que fizeram o Caminho de Santiago de Compostela, com as quais aprendi muito sobre o Caminho que ainda pretendo fazer, pretendo sim, me disseram que uma senhora de 84 anos estava lá firme e forte caminhando os 800 km! É só não apressar o passo. Se a maioria faz em um mês, porque não fazer em dois meses?

Na segunda feira, com a ajuda da Cristina, pegamos o carro e voltamos bem depressa, com um único incidente, ela escorregou do estribo do Troller e perdeu o sapato. Ficamos procurando o bendito durante algum tempo e só então nos tocamos que havia ali um bueiro que deve ter se encarregado de levar ao Tietê e daí só Deus sabe para onde. Foi muito engraçado! E lá fomos nós para Campinas , eu muito aliviada e ela sem um pé de sapato! Que loucura!

Achei São Paulo muito maltratada, suja e triste! Do Tietê saem montanhas de entulho, até fogão velho está saindo na dragagem, depois não querem que o pobre rio transborde, esta é a vingança da natureza!

Em Campinas ainda fiz alguns acertos no Troller, e para minha alegria, vovó Cristina resolveu me acompanhar ao PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira), não sem antes consultar a previsão do tempo, na Folha de São Paulo, que segundo ela “não erra nunca”!  A previsão era de tempo bom nos dois primeiros dias e depois muita chuva! Pois não é que ela estava certa! Vamos lá vovó, vai ser ótimo!

 

Bol. 10

Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (São Paulo – Brasil).

 

O PETAR é um Parque situado na região sudeste do Estado de São Paulo e está limitado por dois municípios Apiaí (SP), a oeste, e Iporanga (SP), a leste. Esta é uma região de cachoeiras, rios, cavernas, montanhas e vales cobertos de Mata Atlântica, fauna e flora exuberantes.

Este Parque foi criado, por decreto, em 1958, com uma área de 36.000 ha sendo considerado uma das últimas áreas de preservação do Estado. Os objetivos foram conservação, estudo e a divulgação desse patrimônio natural e histórico cultural. É administrado pelo Instituto Florestal da Secretaria do Meio Ambiente com a colaboração do Instituto Geológico da mesma Secretaria e das Prefeituras Municipais de Iporanga e Apiaí além da Fundação Florestal e a Sociedade Brasileira de Espeleologia.

Existem dois principais núcleos de visitação: o de Santana, em Iporanga e o Caboclo, em Apiaí. São mais de 300 cavernas catalogadas, mas poucas abertas à visitação.

Foi à esse paraíso que duas felizes vovós chegaram no dia 13 de dezembro do ano da Graça de 2000, após percorrerem 367 km de muitas e muitas curvas.

A estadia em Campinas foi regada à muita cerveja e comilança, meu estômago desacostumado de tanta abundância gemeu e chorou em um vale de lágrimas. Sobrevivi.

Ir ao PETAR de carro é super fácil, ou se vai por Apiaí ou por Iporanga, as duas cidades que limitam o Parque. Escolhemos ir por Apiaí, pois por Iporanga eu teria que enfrentar a BR 116, muito movimentada para o meu gosto. Fomos por Sorocaba(SP), tomando a SP 270 até Capão Bonito(SP) e a partir daí a SP 260, cheia de curvas, até Apiaí. Quem quiser, pode dar a primeira parada  em Capão Bonito para visitar Intervales que é uma pequena reserva florestal. Nos informaram que há uma pousada, algumas cavernas e que a mata está bem preservada. Passamos direto, a uma velocidade média de 60 km, por causa dos caminhões, falta de acostamento e curvas bem acentuadas. Em Apiaí, logo na entrada, há um Centro de Visitantes  que, supostamente nos daria informações turísticas e horários de ônibus para a Cristina voltar à Campinas, mas o funcionário, que tinha enorme dificuldade em entender-nos ? ficamos sem saber se era pelo nosso sotaque ou se era geral ? não conseguiu dar informação alguma, só grunhia! Pelo menos ficamos sabendo qual o caminho deveríamos seguir para o PETAR.

Deixando para trás o asfalto, pega-se uma trilha muito ruim, mal conservada e cheia de pedras, levamos mais ou menos 01 hora para percorrermos 26 km até o Núcleo Santana. Na volta veríamos que a estrada por Iporanga é bem melhor, mas aventura é aventura e fomos sacolejando de pedra em pedra. As pedras da estradinha não impediram que víssemos a mata lindíssima que cobre as montanhas, Mata Atlântica fechada com grandes manchas de Nataleiras, árvores grandes que se cobrem de flores roxas e brancas, muito parecidas com as Quaresmeiras, a diferença fica por conta do porte e das flores brancas. Demos várias paradas para apreciá-las. São belas!

É, a Folha tinha razão: tempo bom, tarde gostosa e bonita! Chegamos ao Núcleo  Santana às 4:00 da tarde.

O Núcleo Santana é chamado de Bairro pelos moradores, é um povoado pequeno e meio desarrumado. Tivemos dificuldade para encontrarmos uma pousada adequada. É um esquema bem diferente, algumas fecham durante a semana e todas trabalham com grupos de colégios, de forma tal que os quartos têm inúmeros beliches de até  três andares e com banheiro compartilhado. Não era bem o nosso esquema, mas em último caso…

Alguns pousadeiros, não se dispuseram a receber-nos pois éramos só duas! Após algumas tentativas e já pensando em descer para Iporanga, encontramos a Pousada do Jurandir . A Ercília nos atendeu, uma pessoa que já nasceu educada, nos deu o único apartamento com banheiro. O quarto era redondo, me fazendo lembrar Alto Paraíso, com dois beliches, um deles ficou ocupado com a nossa desorganização e no outro dormíamos, eu lá em cima e ela lá em baixo. Na altura da minha cama havia uma janelinha que eu abria bem cedo para olhar o verde e escutar o barulho dos pássaros. Beleza! A Ercília fazia uma comidinha sensacional, muita salada e um quiabo delicioso, cortado em rodelinhas, refogadinho e sem baba ? ela usa limão para cortar a baba ?. Comer aquela comida caseira, após nossa andanças, era demais!

No dia seguinte, contratamos o Capeto (Anderson) como nosso guia, condutor como eles se chamam. Justiça se faça, o Capeto se esforçou muito para que tudo terminasse bem, o que rebocou de vovó!

Aproveitando o dia de sol, fizemos logo o percurso das cachoeiras Andorinha e Beija Flor e de quebra fomos à Caverna da Água Suja. Haja fôlego! Na primeira passagem do Rio Bethari, gritinhos “ai vou molhar o tênis”! Ainda teríamos que atravessá-lo mais três vezes, com tênis roupa e tudo. Logo, para ir ao PETAR, leve dois pares de tênis e meias. Considerei a Trilha das Cachoeiras lindíssima mas perigosa. Anda-se muito pelo rio e as pedras são muito escorregadias, levamos várias quedas, por isso não aconselho para vovós sem preparo físico ou com osteoporose, porque a caminhada pode não terminar bem. Um pouco de prudência nunca fez mal a ninguém! São 3.600m, percorridos por quase três horas! A visita à Caverna da Água Suja me trouxe duas surpresas, a primeira é que nas proximidades há uma mudança radical no clima, comecei a sentir frio, soube pelo Capeto que é assim que se descobre uma caverna, essa eu não sabia! A segunda surpresa foi a presença de um rio dentro da caverna, nunca tinha visto! Caminhamos por mais de uma hora dentro dela com água pelo joelho. É incrível, o barulho do rio, a escuridão, as formas, enfim…uma caverna! Da entrada da caverna ao Parque são 1.200 m de uma trilha que é também difícil e que piorou muito pela chuva torrencial que desabou sobre nossas cabeças. Realmente, a Folha tinha razão, daí para a frente, tome chuva! Mais ou menos às 5:30 da tarde conseguimos entrar no Troller! Foram quase nove horas de caminhada. Estávamos só o bagaço! Um bom gole de pinga nos esquentou e…a felicidade da comidinha da Ercília!

O dia seguinte foi dedicado às Cavernas Santana, Morro Preto e Couto. As cavernas me fascinam, são misteriosas, a surpresa das formações, o silêncio, o escuro absoluto e milhões de anos!

A Caverna Santana é deslumbrante, alta ? característica das cavernas da região ? cortinas imensas, lembrando asas de anjos, outras vezes os panos das imagens de mármore dos mestres italianos, enormes colunas trabalhadas durante centenas de anos, pingo a pingo, pela natureza paciente. Em matéria de caverna foi a mais bonita! Veria depois a Caverna do Diabo, em Iporanga, gigantesca, impressionante, mas violentada pela iluminação artificial que possibilitou o aparecimento de lodo sobre seus espeleotemas (estalactites, estalagmites, colunas, cortinas, etc.). Nem por isso deixa de ser maravilhosa, ela é um exagero!

Quando saímos da Santana, a chuva descia com vontade, torrencial! Nos enrolamos em nossa capas, que não foram suficientes. Pelo menos salvaram nossa máquinas fotográficas. Bom, mas para nós tanto fazia, nossos tênis já estavam molhados há muito tempo assim como as roupas, seguimos em frente para a Caverna do Morro Preto que tem características totalmente diferentes, uma entrada enorme, muito alta com desmoronamentos, acontecidos em uma época não determinada, grandes blocos de rocha, entramos muito pouco, ela é muito perigosa. Ficamos sentados lá em cima apreciando sua entrada de dentro para fora. Existem enormes formações cobertas de líquens e entre elas penetravam feixes de névoa. No nosso observatório ficamos quietas, olhando para a claridade daquela entrada, misturada a um verde intenso da mata e os feixes de névoa pareciam raios  forçando passagem pela escuridão. Meio assustador!

Ficamos um bom tempo e seguimos para a Caverna Couto que é na verdade um túnel de 800 m que já foi o leito de um rio, muitos seixos rolados com tamanhos que variam de 40 cm a 1 m. O teto é constituído por uma rocha muito escura. Saímos pelo outro lado e iniciamos, debaixo de muita chuva, a caminhada de volta. Essa foi dura! Uma trilha muito íngreme e escorregadia, tudo isso agravado pela chuva to…rren…cial!!

O dia das cavernas estava encerrado, eram 17:00, retornamos à nossa pousada onde a Ercília nos esperava. Bebendo uma pinga, para esquentar, lembramos do Capitão Lamarca que esteve embrenhado por aquelas matas tentando alterar os rumos de uma ditadura furiosa que ferira de morte nossa democracia. Naquelas matas o Capitão foi cercado pelo Exército e conseguiu furar o cerco sendo morto muito tempo depois na Bahia, mas esta é uma outra história. Até que a gente quis saber de mais coisas mas estranhamente as pessoas ainda têm medo de falar. A Cristina chamou atenção para o fato de que aqueles acontecimentos fazem parte da história da região e como tal devem ser contados e recontados para não serem esquecidos. Não se deve matar a história, que somos sem ela?

Uma pinga aqui e outra ali, consideramos que a chuva nos havia vencido e que, no dia seguinte, deveríamos descer a Iporanga, visitarmos a Caverna do Diabo e de lá eu a levaria ao Petropen, um Posto pelo qual passam todos os ônibus que vêm do Sul e em algum deles ela voltaria para Campinas. E assim foi feito, nos despedimos de todos, ela partiu e eu tomei meu rumo para o Parque Nacional Aparados da Serra. Quem sabe me encontrará nos Lagos Chilenos? Nos separamos com essa promessa. Até logo Cristina! Obrigada pela excelente companhia. Tranquila, amiga, inteligente, bem humorada, linda vovó!

 

Diários 11 a 21

Entre os dias 19 e 21 de dezembro de 2000.

Bol. 11

Parque Nacional de Aparados da Serra e Serra Geral (Rio Grande do Sul). 

 Brasil031 300x225 Patagônia 2000   29.000 Km pela América do Sul

Este é um boletim que havia ficado para trás, juntamente com o do Parque Paine e é também o último. O capítulo Diários de Bordo está agora completo. Durante a viagem, as funções de piloto e co-piloto que significam: fazer as anotações, olhar o mapa, consultar o GPS, procurar hotel ou pousada e no dia seguinte arrumar o Troller, provocaram o atraso. Mas agora, já em Fortaleza e um mês após a chegada já semi adaptada à nova vida já há tempo para organizar tudo. Vem aí o álbum de fotografias que vai ficar muito bom (espero) assim como o balanço geral.

Os Parques Nacionais de Aparados da Serra e da Serra Geral, estão localizados a nordeste do Rio Grande do Sul e são vizinhos, por conveniência. Foram criados em épocas diferentes, o primeiro em 1959 e o segundo em 1992,  porque ficava mais fácil criar outro parque do que aprovar a ampliação do Aparados da Serra, bem mais antigo. A aprovação depende do Congresso Nacional e o processo podia durar muitos anos.

Os dois parques, que constituem uma área de 17.300 hectares, preservam restos da quase extinta Floresta de Araucárias e um grande corredor de enormes cânions.

A esses dois parques, cheguei no dia 19 de dezembro de 2000, sem saber que ia me deparar com uma das paisagens mais impressionantes da minha expedição, mas, deixa eu falar um pouquinho de como cheguei até lá.

Quando eu e a Cristina saímos do Petar visitamos Iporanga e a Caverna do Diabo. De lá fomos pela BR 116 até o Posto Petropen, onde ela tomou o ônibus para Campinas que passava três horas da tarde e eu segui para o Rio Grande do Sul.

Me despedi e, quando fiz o retorno, olhei para o outro lado da estrada, ela estava ainda acenando, comecei a chorar e fui choramingando até a fronteira com o Paraná. Só voltaria a encontrá-la na Carretera Austral, naquele dia ainda não sabia disso.

A chuva recomeçou e, felizmente, a Régis Bittencourt está duplicada e muito boa. Fui dirigindo tranqüilamente, passei por Mafra sem ter idéia de onde dormiria e a tarde estava no fim. A uns 50 quilômetros abaixo, do lado direito, avistei um hotelzinho bem parecido e foi lá que dormi . O lugar: Papanduva, nunca tinha ouvido falar!

Em Papanduva soube que a estrada para baixo estava muito ruim, o que pude comprovar no dia seguinte: sem acostamento , asfalto ondulado e com tráfego infernal de caminhões. E assim fomos, balançando, driblando os caminhões e pedindo a Deus para chegarmos inteiros a algum lugar. No Petar, lendo o Guia Quatro Rodas, ficara sabendo que o Parque de Aparados da Serra, só abre para visitação às terças feiras, por isso resolvi ir a Gramado(RS). Em Nova Petrópolis entrei e fui presenteada com a Gramado mais bonita de todas as minhas visitas. Festejava-se o Natal da Luz. Papai Noel para todos os lados, muito iluminada, concertos, corais, enfim, um autêntico presente de Natal! Eu estava a uma semana dele. A cidade estava lotada e foi difícil encontrar um hotel. Fiquei em um, o Lagheto, que na época me pareceu caríssimo mas que, depois, diante do que encontrei  durante a viagem, foi baratíssimo! Passeei bastante por suas ruas e, à noite, me deliciei com um fondue regado a vinho. Muito bom!

De Gramado fui para Cambará do Sul(RS), porta de entrada dos Parques Nacionais Aparados da Serra e Serra Geral.

Cambará do Sul é uma cidade muito pequena e com pouquíssima infra estrutura para turismo. Todo o turismo para lá é feito por Gramado e Canela ou por Torres, no litoral gaúcho. Entrei na cidade e já estava saindo, voltei pelo mesmo caminho e vi uma placa: Pousada Fazenda Pindorama . Entrei para ver. Um caminho bonito, dentro de um bosque e lá no fundo a casa da fazenda. Parei, e foi ai que conheci a Suzi. Me mostrou os quartos simples mas confortáveis, com lareira, separados da casa e dentro de um bonito bosque de árvores bem velhas. Gostei e fiquei. Começou a fazer um sol, tirei tudo do Troller, muita coisa molhada. Esta capota ainda me traria problemas. Mugidos de vaca, comida caseira, conversa boa, que tranqüilidade! No dia seguinte a Suzi, agora guia e motorista, me levaria ao Parque Nacional da Serra Geral. De Cambará ao Parque são 44 quilômetros de estradinha ruim. A névoa enchia todo o cânion, de forma tal, que eu não tinha idéia da profundidade do mesmo. Pacientemente nos sentamos para esperar. A Suzi, conhecedora da região, desde que nascera, garantia que a névoa “subiria”. E foi o que aconteceu. Uma hora depois,  começou a ficar mais fininha, como uma gaze esfiapada, cobrindo e descobrindo os enormes paredões. Meu Deus, depois tudo ficou claro, o sol glorioso e o cânion Fortaleza apareceu lindíssimo, profundo, camadas e camadas de rochas sedimentares, entremeadas de vegetação abundante. É só sentar e se encantar! Depois de muito tempo saímos a caminhar por uma trilha de campos até a Pedra do Segredo. A Pedra do Segredo é uma atração à parte. Enormes blocos se equilibram sobre uma minúscula pedra. Acreditem!

Voltamos para a Fazenda pelo mesmo caminho, a Suzi dirigindo, me dando algumas dicas. Contou-me que ali perto, na Serra do Rastro, existem trilhas maravilhosas para jipeiros mais experientes. Fiquei com vontade de conhecer, mas o tempo estava encurtando, eu deveria estar em Buenos Aires no dia 26 de dezembro.

No dia seguinte, me despedi de todos e fui para Aparados da Serra. De lá, já desceria na direção do Chuí, último ponto no Brasil.

O Ibama trata Aparados de forma diferente. No Serra Geral a gente entra de qualquer jeito, já em Aparados, paga-se uma taxa, as visitas são guiadas e só existe uma pequena trilha que a gente pode fazer sozinha. Não entendi.

Aparados é mais conhecido como Itaimbezinho, já ouviram falar? Itaimbé significa, em guarani “pedra afiada” e é essa a impressão que se tem. As bordas dos penhascos parecem ter sido aparadas por um cinzel. Aí estão os maiores cânions do Brasil, com até 900 metros de altura e larguras que variam de 600 a 2.000 metros! Sua formação data de, pelo menos 130.000 milhões de anos, e antes da devastação provocada pela insensatez do homem, imponentes araucárias cobriam suas bordas. Andamos por elas, olhando lá embaixo, vi cachoeiras altíssimas, um cenário p’ra homem nenhum botar defeito!

A guia nos contou que, lá embaixo já haviam ocorrido alguns acidentes, um dos quais com um grupo de escoteiros. Caminhavam e não se aperceberam que chovia na cabeceira do rio. De repente uma enchente e ficaram aprisionados pelos paredões. Hoje em dia, caminhadas no fundo do cânion, só com guias experientes.

Lamentavelmente, minha visita foi abreviada por uma chuva fina, a névoa foi baixando, preenchendo o cânion e fui me encaminhando para a saída. Minha visita havia terminado e eu conhecera uma paisagem totalmente diferente do que vira até então nos outros parques. Êta Brasil bonito da peste! Quanto ao Itaimbezinho em Aparados e o Fortaleza no Serra Geral, gostei mais do Fortaleza, de formas mais arredondadas, menos agressivo, densa mata em suas encostas e caminhadas mais longas. Questão de gosto! Sai do Parque e não voltei por Cambará, peguei uma estradinha de piçarra, de mais ou menos 6 quilômetros, saindo no asfalto que me levaria a São Francisco. De São Francisco para a frente foi um festival de hortênsias que ladeavam a estrada e foi como andar em um corredor de muros floridos, por quilômetros. Obrigada Suzi, da Pousada Pindorama, em Cambará do Sul, no Rio Grande do Sul, por me guiar de maneira tão competente e alegre pelos campos e penhascos do Serra Geral! Até mais ver!

 

31 de dezembro de 2000

 Bol. 12

Trecho: De Cambará do Sul(RS) a Colônia do Sacramento(Uruguai) 

Distâncias: Cambará do Sul a Gravataí: 192,4 km. Gravataí a Vitória do Palmar(RS): 543,2 km. Santa Vitória do Palmar a Colônia do Sacramento(Uruguai):572,6 km.

 

Considerando que o meu diário está muito atrasado, vou mandar notícias do trecho Cambará do Sul(RS) a Buenos Aires(Argentina) e, logo que ficar pronto envio o Parque Nacional dos Aparados da Serra.

Saindo de Cambará do Sul(RS), porta de entrada dos Parques Nacionais Aparados da Serra e  Serra Geral fui descendo a Serra,  passando por São Francisco do Sul(RS). Esta é uma estrada cheia de hortênsias azuis, de um lado e outro. Descendo um pouco mais, antes de chegar a Três Cordas(RS), uma pequeníssima cidade, havia indicação para um Templo Budista, fiquei curiosa, virei à direita e fui subindo uma trilha estreita e íngreme. Lá no alto, me deparei com o Templo, nem acreditei! Um Templo Budista de verdade! Para entrar, os sapatos ficam do lado de fora e um  rapaz acompanha a visita respondendo às perguntas. Tudo muito colorido. Algumas pessoas faziam meditação de maneira muito estranha, se jogavam sobre uma espécie de colchonete e eu perguntei se dava para meditar com uma canseira daquelas. O rapaz me disse que sim. Nesse instante, começou a se formar um temporal , muito vento e as bandeirinhas de pano, do lado de fora, estavam enlouquecidas. Perguntei o porque das bandeirinhas ao vento e ele me respondeu que as bandeirolas contêm orações e que são colocados ao vento para que as orações sejam espalhadas pelo mundo, bonito, não? Já havia visto fotografias de Templos no Tibete com estas bandeirinhas ao vento, só não sabia do significado. Contou-me, que em torno do Templo já moram 30 famílias.  Quando saí, baixou um temporal de fazer gosto, o que me levou a parar em um Posto, em Gravataí, e ficar no Hotel Perdigão. Hotelzinho bem limpinho com uma gerente que se chamava Délia, muito simpática, conversamos muito tempo e, no dia seguinte, pela manhã, o pessoal da www.universo4x4.com chegou para a entrevista. Conversamos, tiramos algumas fotos e a entrevista deverá sair no começo de janeiro. Que tal acessar o site para ver como ficou a entrevista? Mais ou menos ao meio dia, saí de Gravataí(RS), um pedaço da Free Way , depois a BR 116 ( lógico que cometi alguns enganos, entrei onde não era para entrar, sai de onde não era para sair, mas no fim deu tudo certo), e fui descendo para Pelotas(RS), passei na porta de Rio Grande(RS) e peguei o retão para o Chuí(RS). Meus amigos, aquilo é que uma reta de fazer gosto, não se vê gente, qualquer Posto de Abastecimento (quem vier por aqui, não esqueça de abastecer em Rio Grande, porque senão… o próximo posto  é só a 100 km), só a solidão, que um pouco mais a frente é quebrada pela Reserva do Taim, quando a paisagem fica viva. A Estação Ecológica do Taim fica entre Rio Grande e Santa Vitória do Palmar, ambas no rio Grande do Sul, e tem uma extensão de 33.000 ha. Na verdade, a Estação do Taim é um prolongamento assoreado da Lagoa Mirim e foi criada para preservar uma das últimas áreas de banhado do Rio Grande do Sul. É por alguns conhecido como o Pantanal Gaúcho por ser alagado e conter uma fauna super rica. Em sua área podem ser encontradas 230 espécies de aves, jacarés, capivaras, lagartos, gambás, 50 espécies de peixes, etc. É gerenciado pelo IBAMA e a visitação não é permitida, apenas para os pesquisadores, mas vi por ali muitas capivaras, pássaros, etc. Estava uma tarde muito bonita com um pôr do sol maravilhoso! Fui em frente pois estava ficando tarde.

Finalmente uma cidade, Santa Vitórias do Palmar(RS), e foi aí que eu fiquei! Hotel Brasil, muito caro para o seu nível, mas para quem estava cansada, foi bom demais! Era sexta feira, houve um show na cidade, de forma tal que passei a noite ouvindo o baticum lá fora de alguma música que não consegui identificar, às vezes me pareceu axé outras vezes música sertaneja com um ritmo diferente, o fato é que não dormi direito.

No dia seguinte, parti em busca de uma oficina, para mudar o óleo e o filtro de óleo do Troller, além de uma checada nas luzes. Confesso que estava assustada com a passagem da fronteira porque estava só e temporariamente me desligava da segurança do meu país, dei um telefonema para o Haroldo e fui embora para o Chuí, resolvi não visitar o Forte de São Miguel e  tranqüilamente passei pela fronteira, após uma inspeção no carro e uma declaração dos eletrônicos que estavam saindo comigo, algumas recomendações sobre a velocidade e a obrigatoriedade de faróis acesos e… peguei a estrada do Uruguai, ouvindo a Sinfonia do Novo Mundo de Dvorjak. Estrada de asfalto impecável, pouco trânsito, alguns carros muito velhos foi aí que vi que uruguaio também gosta de carro bem velho, caindo os pedaços, não sei nem como andam! O argentino é especialista nisso! Comecei a ficar com sono, dei uma parada e um cochilo na estrada. Esse soninho que me dá, no começo da tarde é um suplício, além de ser muito perigoso! Cochilo dado, caminho seguido pela Ruta 9. Na entrada de Montevidéu, consegui errar o caminho. Há uma bifurcação que diz  Montevidéu pela Atlântica, virar à esquerda, imaginei que por ela cairia no centro da cidade e resolvi ir pela outra entrada, caí bem no centro de Montevidéu (minha especialidade está virando errar caminhos), exatamente como não queria, com direito a tudo, buzinas e tudo mais. Fui em frente, porque sei que cidade que tem mar é fácil de se orientar, e foi assim que descobri que a entrada pela Atlântica é o início da Ruta 1, a mesma que me levaria à Colônia do Sacramento, foi nessa ocasião, quando pedi informações, que descobri também que o meu espanhol está muito enferrujado e, jurei, mais uma vez, fazer um curso de conversação quando voltasse a Fortaleza. Nem conto as vezes que fiz esta jura!

Montevidéu me pareceu uma cidade pequena, porém com jeitão de Metrópole, muitos monumentos, praças, mas não vi sujeira e nem pedintes. É verdade que foi uma passagem muito rápida.

Um pouco mais à frente, com um pedágio logo perto, descobri também (foi um dia de muitas descobertas) que não havia feito câmbio, mas tinha reais, e foi assim, cheia de moral, que comuniquei à senhorita pedágio que não tinha pesos, solo reales. Vocês precisavam ver a cara da moça, a fila começou a se formar atras do Troller e a situação não se resolvia, finalmente quando a fila já tinha mais ou menos uns vinte carros, veio o veredicto: “a senhora paga dezoito reais”. Bueno, como eu queria sair dali o mais depressa que pudesse, não me toquei que estava muito caro, nove dólares em um pedágio, achei um espanto! Essa falta de dinheiro ainda me traria alguns probleminhas, como vocês verão. Como compensação parei o Troller e deixei que todos passassem e lá se fueran, bufando com los brasileños. Usei a frase de um erudito deputado cearense: “Deixá-los falar e eles calalar-se-ão”. É, deputado, o senhor tem razão, depressa esqueceram o atropelo do pedágio e se foram para Colônia Valdense, Colônia Suíça, Rosário ou Colônia do Sacramento, passar o Natal.  Faltavam 50 km para Colônia, cidade onde eu e o Troller embarcaríamos para Buenos Aires, quando notei que o Diesel estava quase na reserva e eu não tinha como pagar, na mesma hora descobri que no Uruguai se paga tudo com tarjetas (cartão de crédito), o que muito me aliviou, enchi o tanque e como estava cansada comecei a procurar um hotel, encontrei um Informações Turísticas no próprio Posto de Gas Oil (Diesel para nosotros). No Uruguai, a relação dólarxpeso uruguaio é de 12 e o preço do Gas Oil é 0,69 PU,  mais caro que no Brasil. Estava anoitecendo quando cheguei à Pousada Mon Petit, uns três quilômetros após o Posto, e logo me encantei. Casa de fazenda transformada em Hotel. Quartos limpos, banheiro impecável e 25 dólares pagáveis com cartão de crédito. Fiz um lanche e dormi feito um anjo, dormi muito, basta dizer que acordei quase 10 horas da manhã, coisa inusitada! Era dia 24 de dezembro. Resolvi ficar por mais um dia no Mon Petit. A senhora fez uma reserva no Hotel Suíço para uma ceia natalina e foi assim que passei o dia 24 de dezembro do ano de 2000! Havia uma senhora sozinha e resolvemos sentar juntas para conversarmos um pouco, Martha era o seu nome. Passamos o Natal conversando, tomando um excelente vinho e uma bela ceia suíça. A Martha gostou , eu gostei, e ficamos felizes. Fui para o Mon Petit e ainda tomei um vinho com os donos do Hotel, o sono foi chegando, parti no rumo do quarto, muito mais pra lá do que pra cá. Dia 25 de dezembro, novamente carreguei o Troller, paguei com Cartão de Crédito com um acréscimo de 10% e novamente na Ruta 1 até Colônia do Sacramento ainda no Uruguai.

Em Colônia, pegaria o Ferry, atravessaria o Rio da Prata e em três horas estaria em Buenos Aires, como era dia 25, feriado, Buenos Aires estaria calma e seria mais fácil me orientar para Ezeiza à procura de um Hotel e daí no dia 26 pegaria tranqüilamente o Haroldo no Aeroporto Internacional de Ezeiza que dista mais ou menos 40 km de Buenos Aires. Isso era o que eu pensava e não o que os deuses queriam. As coisas não se passaram bem assim, como vocês verão no próximo boletim. Me acompanhem!

 

31 de dezembro de 2000

Bol. 13

Trecho: De Cambará do Sul(RS) a Colônia do Sacramento(Uruguai)

Distâncias: Cambará do Sul a Gravataí: 192,4 km. Gravataí a Vitória do Palmar(RS): 543,2 km. Santa Vitória do Palmar a Colônia do Sacramento(Uruguai):572,6 km.

 

Considerando que o meu diário está muito atrasado, vou mandar notícias do trecho Cambará do Sul(RS) a Buenos Aires(Argentina) e, logo que ficar pronto envio o Parque Nacional dos Aparados da Serra.

Saindo de Cambará do Sul(RS), porta de entrada dos Parques Nacionais Aparados da Serra e  Serra Geral fui descendo a Serra,  passando por São Francisco do Sul(RS). Esta é uma estrada cheia de hortênsias azuis, de um lado e outro. Descendo um pouco mais, antes de chegar a Três Cordas(RS), uma pequeníssima cidade, havia indicação para um Templo Budista, fiquei curiosa, virei à direita e fui subindo uma trilha estreita e íngreme. Lá no alto, me deparei com o Templo, nem acreditei! Um Templo Budista de verdade! Para entrar, os sapatos ficam do lado de fora e um  rapaz acompanha a visita respondendo às perguntas. Tudo muito colorido. Algumas pessoas faziam meditação de maneira muito estranha, se jogavam sobre uma espécie de colchonete e eu perguntei se dava para meditar com uma canseira daquelas. O rapaz me disse que sim. Nesse instante, começou a se formar um temporal , muito vento e as bandeirinhas de pano, do lado de fora, estavam enlouquecidas. Perguntei o porque das bandeirinhas ao vento e ele me respondeu que as bandeirolas contêm orações e que são colocados ao vento para que as orações sejam espalhadas pelo mundo, bonito, não? Já havia visto fotografias de Templos no Tibete com estas bandeirinhas ao vento, só não sabia do significado. Contou-me, que em torno do Templo já moram 30 famílias.  Quando saí, baixou um temporal de fazer gosto, o que me levou a parar em um Posto, em Gravataí, e ficar no Hotel Perdigão. Hotelzinho bem limpinho com uma gerente que se chamava Délia, muito simpática, conversamos muito tempo e, no dia seguinte, pela manhã, o pessoal da www.universo4x4.com chegou para a entrevista. Conversamos, tiramos algumas fotos e a entrevista deverá sair no começo de janeiro. Que tal acessar o site para ver como ficou a entrevista? Mais ou menos ao meio dia, saí de Gravataí(RS), um pedaço da Free Way , depois a BR 116 ( lógico que cometi alguns enganos, entrei onde não era para entrar, sai de onde não era para sair, mas no fim deu tudo certo), e fui descendo para Pelotas(RS), passei na porta de Rio Grande(RS) e peguei o retão para o Chuí(RS). Meus amigos, aquilo é que uma reta de fazer gosto, não se vê gente, qualquer Posto de Abastecimento (quem vier por aqui, não esqueça de abastecer em Rio Grande, porque senão… o próximo posto  é só a 100 km), só a solidão, que um pouco mais a frente é quebrada pela Reserva do Taim, quando a paisagem fica viva. A Estação Ecológica do Taim fica entre Rio Grande e Santa Vitória do Palmar, ambas no rio Grande do Sul, e tem uma extensão de 33.000 ha. Na verdade, a Estação do Taim é um prolongamento assoreado da Lagoa Mirim e foi criada para preservar uma das últimas áreas de banhado do Rio Grande do Sul. É por alguns conhecido como o Pantanal Gaúcho por ser alagado e conter uma fauna super rica. Em sua área podem ser encontradas 230 espécies de aves, jacarés, capivaras, lagartos, gambás, 50 espécies de peixes, etc. É gerenciado pelo IBAMA e a visitação não é permitida, apenas para os pesquisadores, mas vi por ali muitas capivaras, pássaros, etc. Estava uma tarde muito bonita com um pôr do sol maravilhoso! Fui em frente pois estava ficando tarde.

Finalmente uma cidade, Santa Vitórias do Palmar(RS), e foi aí que eu fiquei! Hotel Brasil, muito caro para o seu nível, mas para quem estava cansada, foi bom demais! Era sexta feira, houve um show na cidade, de forma tal que passei a noite ouvindo o baticum lá fora de alguma música que não consegui identificar, às vezes me pareceu axé outras vezes música sertaneja com um ritmo diferente, o fato é que não dormi direito.

No dia seguinte, parti em busca de uma oficina, para mudar o óleo e o filtro de óleo do Troller, além de uma checada nas luzes. Confesso que estava assustada com a passagem da fronteira porque estava só e temporariamente me desligava da segurança do meu país, dei um telefonema para o Haroldo e fui embora para o Chuí, resolvi não visitar o Forte de São Miguel e  tranqüilamente passei pela fronteira, após uma inspeção no carro e uma declaração dos eletrônicos que estavam saindo comigo, algumas recomendações sobre a velocidade e a obrigatoriedade de faróis acesos e… peguei a estrada do Uruguai, ouvindo a Sinfonia do Novo Mundo de Dvorjak. Estrada de asfalto impecável, pouco trânsito, alguns carros muito velhos foi aí que vi que uruguaio também gosta de carro bem velho, caindo os pedaços, não sei nem como andam! O argentino é especialista nisso! Comecei a ficar com sono, dei uma parada e um cochilo na estrada. Esse soninho que me dá, no começo da tarde é um suplício, além de ser muito perigoso! Cochilo dado, caminho seguido pela Ruta 9. Na entrada de Montevidéu, consegui errar o caminho. Há uma bifurcação que diz  Montevidéu pela Atlântica, virar à esquerda, imaginei que por ela cairia no centro da cidade e resolvi ir pela outra entrada, caí bem no centro de Montevidéu (minha especialidade está virando errar caminhos), exatamente como não queria, com direito a tudo, buzinas e tudo mais. Fui em frente, porque sei que cidade que tem mar é fácil de se orientar, e foi assim que descobri que a entrada pela Atlântica é o início da Ruta 1, a mesma que me levaria à Colônia do Sacramento, foi nessa ocasião, quando pedi informações, que descobri também que o meu espanhol está muito enferrujado e, jurei, mais uma vez, fazer um curso de conversação quando voltasse a Fortaleza. Nem conto as vezes que fiz esta jura!

Montevidéu me pareceu uma cidade pequena, porém com jeitão de Metrópole, muitos monumentos, praças, mas não vi sujeira e nem pedintes. É verdade que foi uma passagem muito rápida.

Um pouco mais à frente, com um pedágio logo perto, descobri também (foi um dia de muitas descobertas) que não havia feito câmbio, mas tinha reais, e foi assim, cheia de moral, que comuniquei à senhorita pedágio que não tinha pesos, solo reales. Vocês precisavam ver a cara da moça, a fila começou a se formar atras do Troller e a situação não se resolvia, finalmente quando a fila já tinha mais ou menos uns vinte carros, veio o veredicto: “a senhora paga dezoito reais”. Bueno, como eu queria sair dali o mais depressa que pudesse, não me toquei que estava muito caro, nove dólares em um pedágio, achei um espanto! Essa falta de dinheiro ainda me traria alguns probleminhas, como vocês verão. Como compensação parei o Troller e deixei que todos passassem e lá se fueran, bufando com los brasileños. Usei a frase de um erudito deputado cearense: “Deixá-los falar e eles calalar-se-ão”. É, deputado, o senhor tem razão, depressa esqueceram o atropelo do pedágio e se foram para Colônia Valdense, Colônia Suíça, Rosário ou Colônia do Sacramento, passar o Natal.  Faltavam 50 km para Colônia, cidade onde eu e o Troller embarcaríamos para Buenos Aires, quando notei que o Diesel estava quase na reserva e eu não tinha como pagar, na mesma hora descobri que no Uruguai se paga tudo com tarjetas (cartão de crédito), o que muito me aliviou, enchi o tanque e como estava cansada comecei a procurar um hotel, encontrei um Informações Turísticas no próprio Posto de Gas Oil (Diesel para nosotros). No Uruguai, a relação dólarxpeso uruguaio é de 12 e o preço do Gas Oil é 0,69 PU,  mais caro que no Brasil. Estava anoitecendo quando cheguei à Pousada Mon Petit, uns três quilômetros após o Posto, e logo me encantei. Casa de fazenda transformada em Hotel. Quartos limpos, banheiro impecável e 25 dólares pagáveis com cartão de crédito. Fiz um lanche e dormi feito um anjo, dormi muito, basta dizer que acordei quase 10 horas da manhã, coisa inusitada! Era dia 24 de dezembro. Resolvi ficar por mais um dia no Mon Petit. A senhora fez uma reserva no Hotel Suíço para uma ceia natalina e foi assim que passei o dia 24 de dezembro do ano de 2000! Havia uma senhora sozinha e resolvemos sentar juntas para conversarmos um pouco, Martha era o seu nome. Passamos o Natal conversando, tomando um excelente vinho e uma bela ceia suíça. A Martha gostou , eu gostei, e ficamos felizes. Fui para o Mon Petit e ainda tomei um vinho com os donos do Hotel, o sono foi chegando, parti no rumo do quarto, muito mais pra lá do que pra cá. Dia 25 de dezembro, novamente carreguei o Troller, paguei com Cartão de Crédito com um acréscimo de 10% e novamente na Ruta 1 até Colônia do Sacramento ainda no Uruguai.

Em Colônia, pegaria o Ferry, atravessaria o Rio da Prata e em três horas estaria em Buenos Aires, como era dia 25, feriado, Buenos Aires estaria calma e seria mais fácil me orientar para Ezeiza à procura de um Hotel e daí no dia 26 pegaria tranqüilamente o Haroldo no Aeroporto Internacional de Ezeiza que dista mais ou menos 40 km de Buenos Aires. Isso era o que eu pensava e não o que os deuses queriam. As coisas não se passaram bem assim, como vocês verão no próximo boletim. Me acompanhem!

 

Bol. 14

Travessia do Rio da Prata e Buenos Aires(Argentina)

 

Saí de Colônia Valdense(Ur), no dia 25 de dezembro, o sol estava forte e fazia muito calor. De Colônia Valdense até Colônia do Sacramento são apenas 50 km. Lá chegando, fui direto ao porto de onde saem os Ferry (chamados de Buquebus) para Buenos Aires. Sairia um às 18:45 e ainda eram 11:00 da manhã. Meu Deus, que espera! Durante essa espera li o livro Saraminda do José Sarney, por sinal um bom livro! Estava meio desconfiada, é, o Sarney devia ter ficado só como escritor mesmo! No meio da espera começou a rolar um pouco de stress pois chegaria a Buenos Aires à noite e nem sequer sabia como sair de lá, quanto mais chegar às proximidades do Aeroporto de Ezeiza, onde, no dia seguinte, o Haroldo aterrissaria. Estava eu nessas sombrias divagações quando ouvi vozes brasileiras: um casal de motoqueiros, que viaja de moto para o Chile, ficou por ali conversando comigo, batemos uma foto e eles se foram. Só iriam pegar o Ferry no dia seguinte, viajar à noite, para eles, é muito mais perigoso do que para mim. Um adeus e, novamente sozinha.

Dei uma volta pela cidade, que tem um Centro Histórico recuperado, muito parecido com o de São Luís, no Maranhão. Tentei fazer câmbio, mas estava tudo fechado. Resolvi dar uma cochilada, tirei minhas botas, coloquei os pés para cima, uma música e me preparei para um longo sono, e qual não foi a minha surpresa, quando ouvi alguém gritando, “de For… ta… leeeza, é muito chão”! Rapidamente me levantei mas só deu para ver uma pessoa com uma camisa listada, um Uno saindo rápido e lá se foi um papo para passar o tempo!

Paguei pela minha passagem e do Troller, U$ 61, achando caro! Foi só o começo. A economia dolarizada, da Argentina e Uruguai, torna tudo muito caro para nós.

Mais ou menos às 17:30, a fila dos veículos começou a se formar. Estava muito quente, um sol muito forte, de forma tal que os carros ficam na fila e a gente procurando uma sombra, já ocupada por um monte de gente. Nessas alturas a minha insegurança com relação à chegada em Buenos Aires já estava 100%, beirando o pânico! Foi então que apareceu um casal de brasileiros de São Paulo. Passamos a conversar, aguardando a entrada dos carros, e depois, durante a travessia que dura 03 longas horas. Foram muito legais, até câmbio fizeram para mim, para que eu pudesse comer alguma coisa. Obrigada! O Aragão e a Eliane me acalmaram e após  algum tempo decidi ficar com eles, achar um Hotel e só no outro dia ir a Ezeiza. Depois, ficamos grandes companheiros durante a estadia em Buenos Aires, que durou três dias e não um como eu imaginava.

Quando se sai do Ferry a gente cai no Centro de Buenos Aires. Fui grudada no carro deles até que o Aragão achou um Hotel bem antigão, na Rua de Mayo, que no dia seguinte, vi, com surpresa, desembocar bem na Plaza de Mayo, lugar de manifestações políticas, onde fica a Casa Rosada, imponente e muito bela.

O Hotel Mundial, muito antigo, com elevadores ainda de grades, com um jeitão meio decadente, não nos causou boa impressão, além de um  preço alto, U$ 50 (paguei em Gramado um excelente Hotel, o Laguetto, R$ 65,00), mas à noite os fantasmas são maiores! No dia seguinte pude apreciar sua arquitetura, do início do século, suas escadarias bonitas e bem trabalhadas, os lustres de cristal. Está mal conservado, mas que é bonito é! Tem a vantagem de ficar bem no Centro de Buenos Aires. Há uma desvantagem, para nós que viajamos com veículo, não tem estacionamento, tive que levar o Troller a um estacionamento, pelo qual paga-se a diária de U$10, Cruz Credo, mas vá lá que seja, como diria meu amigo Dr. Bill Rôla!

À tarde, fui ao Aeroporto, não tive coragem de ir de Troller, fui em um ônibus que me pegou no Hotel, pelo qual paguei U$14,  e aí então decidiríamos nossa passagem de Ano. Com certeza, em qualquer lugar, estaremos bem, estaremos juntos.

No Aeroporto, me preparei para esperar 5 longas horas, parece coisa de matuto! Chegar ao Aeroporto com 5 horas de antecedência, foi demais!

No Aeroporto, jantei e mais uma vez me assustei com os preços. A Argentina está impraticável! Quem quiser conhece-la, aguarde tempo melhor! Além da economia dolarizada, o que para nós significa dobrar os preços, o argentino aumenta tudo como quer e bem entende! Estou impressionada! Mas isso tem um preço, até agora não vi turistas, muito argentino para lá e para cá, isto é, do sul para as praias do norte, etc., pode ser que lá pela Terra do Fogo o turismo esteja melhor. Imaginem que paga-se por uma cerveja em garrafa R$9,00, cerveja em lata R$ 5,00, uma dose de whisky (red label) R$16,00, uma garrafa de água mineral  de ½ litro R$ 4,00, um cafezinho preto R$ 3,00, tomamos até de R$ 4,00, um bife de filé na faixa de R$ 16,00,  sem acompanhamento, isso só para se ter uma idéia de comida! O Diesel, na região de Buenos Aires e região central da Argentina, custa R$ 1,10 e quando o preço vai diminuindo à medida que se avança pela Patagônia, ainda assim mais alto que no Brasil!

O Haroldo chegou mais ou menos meia noite, tomamos uma cerveja, pegamos um táxi que nos custou U$ 30. No dia seguinte, acordamos tarde e fomos visitar Buenos Aires, estava muito quente, paramos na Recoleta (um bairro antigo recuperado), para tomarmos uma cervejinha, conversarmos e combinarmos o dia seguinte. À noite, fomos a uma casa de Tango com nossos amigos Aragão e Eliane. O show valeu a pena. Um show e tanto! Nos despedimos dos brasileiros, que queriam sair mais cedo, para chegar em Foz do Iguaçu e seguir até Ourinhos, para o Ano Novo. No dia seguinte, ainda os encontramos na porta do Hotel, carregando o carro e partindo, ótimos companheiros, que tenham um excelente Ano Novo!

Saímos de Buenos Aires, no dia 28 de dezembro de 2000, no rumo da Rota 3 que cruza a Argentina de norte ao sul, terminando em Ushuaia.

Alcançar a Ruta 3, não é difícil, é só ir pela 09 de julho, a principal Avenida de Buenos Aires, na direção sul, que se continua na Auto Pista, que passa por Ezeiza. Um pouco mais à frente, uma quebradinha para o lado direito, para entrar na R 205 até  Cañuelas e… finalmente Ruta 3, livres do trânsito infernal de Buenos Aires em direção à Patagônia! Em Puerto Madryn passaremos nosso Ano Novo.

Estou escrevendo, agora, de frente para o mar mais azul que eu conheço, o de Puerto Madryn. É de um azul intenso que vem esmaecendo até um quase verde como no do meu Ceará. Como o da Praia do Futuro, quebra em cachos, um atras do outro, mas não termina em areias brancas como as da Praia de Flexeiras. O mar, quem mora na beira do mar, sente muita falta dele. Lembro dos meus amigos, minha família, filhos, netos, meu pai. Que o Ano Novo lhes traga muita felicidade! Eu e o Haroldo já compramos nossa champanhe, há um mar para jogar flores para Iemanjá, o tempo está caliente, estamos felizes!

Feliz Ano Novo! Que haja muita paz nesse mundão e sensibilidade suficiente para dar, no mínimo, saúde e educação para todos. Um Terceiro Milênio beleza!

 

31 de dezembro de 2000

Bol. 15

Trecho: De Buenos Aires(Arg) a Puerto Madryn(Arg)

Distâncias: Buenos Aires/Bahia Blanca: 704 km; Bahia Blanca/Puerto Madryn: 730 km.

 

Saímos de Buenos Aires no dia 28 de dezembro de 2000, às 10:00, muito sol e calor. Pegamos a Avenida 9 de julho, no sentido sul, em seguida a Auto Pista, a R 205 até Cañuelas e Rota 3 em direção à Bahia Blanca.

Combinei com o Haroldo que viajaríamos em direção ao sul e em algum lugar passaríamos o Ano Novo, continuando até uma cidade que ele possa tomar um avião, sem atropelos, para retornar à Fortaleza, a condição é que eu vá dirigindo pois assim não há prejuízo para o projeto.

A Rota 3 é uma estrada que corta a Argentina do norte até o sul, terminando em Ushuaia, na Terra do Fogo. É uma estrada de longas distâncias e de paisagem monótona. No trecho até Bahia Blanca, nas proximidades de Azul, é necessário muita atenção pois grandes colheitadeiras (máquinas que mais parecem monstros de histórias em quadrinhos), que tornam-se ainda maiores por rebocarem traillers, combustível e andarem umas atras das outras. Em direção contrária, nos jogam no outro lado da estrada tal a quantidade de vento que deslocam. É época de colheita de trigo, na Argentina. Os campos amarelos ladeiam a estrada. O vento sopra muito forte, dobrando os trigais com um movimento muito bonito, mas que depois de alguns quilômetros, quando passa a novidade, fica muito monótono, é que eles se estendem até onde a vista dá, por quilômetros. A soma de paisagem monótona, estrada boa e movimentada significa sono e perigo, portanto a atenção deve ser redobrada.  Até chegar a Bahia Blanca a paisagem foi esta, procuramos um Hotel, que foi muito caro, para variar.

Bahia Blanca fica na Província de Buenos Aires e é considerada a cidade mais importante do sul argentino. Possui um forte centro industrial e econômico , foi fundada em 1828 e, conta, atualmente com 300.000 habitantes, muitos edifícios, centros comerciais, bons Hotéis mas sem atrativos turísticos, fiz e mails para atualização da minha página que está para lá de atrasada, e como a cidade nada tem de especial partimos descendo pela Rota 3. Por falar em e mails, estou com enorme dificuldade tanto para envia-los como para recebe-los. Em Fortaleza, me associei à Terra que segundo me informaram possui um discador internacional o Gric, mas apesar de todo instalado não consegui conexão nenhuma vez. Estou indignada! Pior, não tem a quem pedir informações. Não gostei! Vamos ver como resolverei o assunto.

Bem, descendo pela Rota 3, chega-se a Carmen de Patagones separada de Viedma por uma enorme ponte sobre o Rio Negro, que nos oferece uma linda vista das duas cidades. Entramos assim na Província de Rio Negro e início da Patagônia Argentina que compreende as Províncias de Neuquen, Rio Negro, Chubut, Santa Cruz e Tierra del Fuego.

Na entrada da Patagônia, fomos parados pela Barrera Zoofitosanitaria Patagonica, é que a Patagônia é uma região protegida de enfermidades ou pragas agropecuárias. Todas as frutas como laranjas, pêssegos, maçãs, uvas, framboesas, tomates, devem ser mostradas e se não tiverem certificado de tratamento prévio, jogadas fora, assim como os produtos de origem animal, susceptíveis à febre aftosa. Paga-se U$ 4, para imunização eletrônica do veiculo.

Passamos por Viedma, e aí sim, começamos a andar pela imensidão desértica da Patagônia. A paisagem ainda é mais monótona. Vegetação seca e rasteira, sem vivalma, nada, só a estrada reta, sem fim, horizonte após horizonte!

Esta é uma das paisagens patagônicas, região que impressiona pela grandiosidade e pela diversidade. Que ninguém se engane pensando que a Patagônia se resume ao deserto! Há uma combinação de  paisagem andina, caracterizada por vulcões e lagos, porque está limitada a oeste pelos Andes, mesetas e planícies, grandes rios provenientes de degelo da Cordilheira, campos de gelo continentais, costas escarpadas, florestas, fauna de grande diversidade, enfim, uma região de grande beleza e de paisagens contrastantes.

Chega-se a Puerto Madryn, a cidade que fica situada sobre o Golfo Nuevo, de colonização galesa, as praias são tranqüilas, de águas transparentes, que permitem mergulhos e banho, segundo os moradores a água é caliente, mas eu fui lá hoje pela manhã e achei gelada, mas o pessoal aqui adora, neste momento são 17:00 e as praias estão cheios de gente, incrível! Daqui da janela do nosso Hotel, parece um formigueiro colorido!

No dia da nossa chegada fomos logo ao serviço de Informações Turísticas, de forma tal que, mais acostumados com os preços argentinos, estamos achando um achado! A Teoria do Bode do Delfim Neto é aplicável. Lembram-se? Ponha-se um bode, bem fedorento, em um quarto fechado, com vinte pessoas, durante duas horas. Abra-se o quarto, a partir daí o que vier será considerado ótimo pelas vinte pessoas.” Hum, hum!

O fato é que o nosso Hotel é muito agradável, de frente para um mar muito azul, as dependências são muito simples para o preço, mas…que foi um achado, foi!

No dia seguinte ao de nossa chegada, fomos à Península Valdés, ou melhor, Reserva Integral Península Valdés, onde, finalmente, depois dos meus 57 anos, vi uma baleia bem vivinha, bem de pertinho, com seu filhote, maravilhosa! E você, acompanhe o que foi isto!

 

 Bol. 16

 Reserva Faunística Integral Península Valdés.

 

 Olhando o mapa da América do Sul, no sul da Argentina, avançando sobre o Oceano Atlântico, existe um pedacinho de terra que se assemelha a um cogumelo. Esse pedacinho, quase uma ilha, unido ao continente por um estreito istmo, é a Península Valdés, transformada em Reserva Faunística.

Esta Reserva foi criada em 1982 com o objetivo de proteger as baleias que procuram esta área para reprodução, lobos e leões marinhos e inúmeras espécies de pássaros.

Eu e o Haroldo, em 1990, estivemos aqui, quando viajávamos de mochila pela Patagônia e ficamos encantados. Naquela época havia um turismo incipiente, as condições de transporte e hospedagem eram precárias. Hoje, a região está bem diferente, há hotéis, até na Península, passeios organizados e as estradas melhoraram bastante.

Naquele ano, chegamos atrasados para ver baleias e, dessa vez era o meu objetivo principal. Tivemos muita sorte, existiam baleias atrasadas. Todas já haviam partido com seus filhotes, menos as que nós vimos.

Ir à Península a partir de Puerto Madryn, ida e volta é quase como ir de Fortaleza a Natal, só que em estrada de piçarra. É preciso disposição!

Para ir lá, estávamos aqui, e foi assim que retornamos à Península Valdés, um lugar que vale a pena ser visitado por pessoas de todas as idades.

Fomos de Troller, mas quem não quiser colocar seu carro na piçarra (rípio, para a Patagônia), existem excursões em vans super confortáveis, com guias e que partem de várias agências de turismo espalhadas por Puerto Madryn.

Dirigir em estradas de rípio, carece muito cuidado. A velocidade segura é de 60 km/h. Sair repentinamente da trilha formada pelos carros, significa derrapar sobre os seixos que constituem o terreno semidesértico da Patagônia. O cruzar com outros carros deve ser devagar para que não se fique sem pára-brisas ou faróis (já estamos com duas avarias e sem um farol de milha).

Na entrada da Península, paga-se uma taxa de U$ 10 p/p para manutenção da Reserva. A estrada atravessa o istmo e dobrando-se à direita chega-se a um pequeno povoado que se chama Puerto Pirámides. De lá saem barcos que levam as pessoas a ver baleias e foi em uma lancha destas que eu, o Haroldo e mais dezoito pessoas saímos  para encontrá-las, após pagarmos U$ 15 p/p. Não havia muita esperança, é que nesta época as baleias se vão com seus filhotes para a Antártica em busca de alimento. Nos disse o guia que esta é uma viagem dramática. As mães estão alquebradas pela fome que vêm passando durante quase 07 meses somada ao esforço da amamentação: seus filhotes tomam, em média, 250 litros de leite por dia! A causa disso é que aqui existem ótimas condições para reprodução mas não existe alimento, por isso muitas morrem de inanição, este ano morreram de fome, na Península, 25 baleias!

Depois de mais ou menos uma hora em um barco que balançava muito, o que levou muitas pessoas a começarem a enjoar, inclusive eu, há uma parada e muito quietos esperamos. Apareceu uma baleia, enorme, o maior bicho que eu já vira, e era só um filhote, atras vinha sua mãe, que passou por baixo do nosso barco, tão tranqüila! Quem era o observador, nós ou ela? Meu Deus, que bicho impressionante! Nos foi dito que é quatro vezes maior que um elefante adulto. Esta região é freqüentada pela Baleia Franca que está em extinção pela matança predatória e é hoje Monumento Natural Nacional. Ficamos ali vendo seus movimentos até que se fossem. O barco começou a andar e eu comecei a enjoar, consegui chegar mais ou menos inteira na loberia, onde bem de pertinho consegue-se observar lobos marinhos, mas nestas alturas eu estava muito enjoada e dei graças à Deus quando o trator que puxa os barcos nos levou para fora d’água. Que aventura!

Pegamos nosso Troller e fomos em busca de outros lobos e elefantes marinhos. A Península tem uma paisagem diferente. A vegetação de deserto, amarelada, estradas de piçarra, de vez em quando um carro deixando um extenso rastro de poeira na solidão, e nesgas do mar de um intenso azul, inacreditável! A costa é íngreme, e lá muito abaixo existem platôs ou areia onde se espreguiçam lobos e leões marinhos em grande quantidade. Muitas gaivotas voam e descansam entre eles. É impressionante a beleza deste lugar! Eu continuava enjoada mas não pude deixar de apreciar nada! Ao todo rodamos 400 km  para ver Puerto Pirámides, Punta Delgada, Caleta Valdés e Punta Norte, de rípio e poeira, com a qual já estamos acostumados. No começo é um tal de espana daqui e dali, lenço no cabelo, limpar sapatos…depois, é um deixa pra lá geral! Aí então é só alegria!

Retornamos satisfeitos e esfomeados, não havíamos comido nada, tomamos um bom banho, andamos pelas ruas e fomos a um restaurante. Comi um arroz de mariscos que estava delicioso. Combinamos que ficaríamos mais um dia para que eu atualizasse meu diário.

Tenho que aprender a mexer na minha nova câmera digital que, espero, me dará fotos melhores e tenho que solucionar a questão da transferência de dados para o Alexandre, o atualizador da minha página. É muita coisa para a cabeça de uma vovó que se atrapalha muito com essas máquinas infernais!

 

Bol. 17

Área de Proteção Punta Tombo (Argentina).

 

Punta Tombo é uma Área de Proteção com uma superfície de 210 ha, criada em 1979, com o objetivo de conservar a extraordinária diversidade de aves marinhas e costeiras que ali se reproduzem, tais como gaivotas de várias espécies, ostreros, skúas, cormoranes e da maior colônia continental de pingüins da espécie Magallanes. Além da proteção da fauna marinha também há  proteção da fauna terrestre sendo comum avistar-se guanacos (animal parecido com uma lhama).

Esta Área de Proteção conta com a colaboração da Sociedade Zoológica de Nova York e do Organismo Provincial de Turismo de Chubut. Aqui estuda-se, principalmente, pingüins, objetivando o conhecimento de sua biologia e seu comportamento. Punta Tombo é considerada única no mundo, já que não existe uma outra colônia continental de pingüins tão numerosa e  tão acessível como esta.

 

Chega-se a Punta Tombo por uma estrada de rípio: ou em seu próprio carro (opção infinitamente melhor!), ou através das inúmeras agências de turismo que existem em Puerto Madryn ou Rawson, portanto, é vir de avião até Puerto Madryn e daí pegar excursões para a Península Valdés e Punta Tombo. Vale a pena!

Na entrada da Área de Proteção pagamos uma taxa de conservação, estacionamos o carro e começamos a caminhar. Os pingüins começam a aparecer, caminham com aquele passinho balançante e parecem ter na testa a frase tão utilizada no transito daqui “ceda el paso”, e lá vamos nós cedendo a passagem porque eles não saem do caminho. A surpresa é que estamos acostumados com a idéia de que pingüins, só no gelo! Aqui eles vivem no semi deserto patagônico, á beira mar, sendo comum encontrar ninhos até a uma distancia de 1 Km da praia! Esta é a espécie Magallanes ou … Spheniscus Magellanicos (gostaram?).

É tudo muito interessante, existem trilhas por onde podemos caminhar, mas eles estão sempre nelas, ninhos cavados no chão para serem observados, com ovos ou filhotes. Na praia, uma multidão de pingüins, dentro da água uma outra multidão e a gente fica sentado observando aquela movimentação estranha mas que tem sempre um sentido, por exemplo: grande parte do tempo do pingüim é gasto na cosmética de sua plumagem (isso mesmo!). As penas são constantemente alisadas com o bico, para limpa-las, visando a manutenção da sua estrutura, e assim sua impermeabilidade. O drama do pingüim é o petróleo ou derivados, lançados ao mar por navios. As penas empetroladas, perdem a capacidade isolante, com isso os pingüins nadam para a praia, fugindo do frio e morrem de fome ou intoxicados.

Os machos são sempre mais pesados, 4 a 5 Kg mas não existe muita diferença no tamanho que é de mais ou menos 45 cm.

Através das placas informativas  fiquei sabendo dos seus costumes. No início do mês de setembro, chegam primeiro os machos para  prepararem os ninhos que são aproveitados dos anos anteriores, logo depois chegam as fêmeas. Os ninhos são encontrados a uma distância até de 800 m da costa, mas por algumas razões, que só Deus sabe, podem ser encontrados a 1 Km da praia, muito longe para aquele passinho desengonçado!

Os ovos são colocados em outubro e, durante 40 dias o casal faz um revezamento para choca-los. Após o nascimento dos filhotes, o casal, continua o trabalho de equipe, cuidando da alimentação, com peixes, lulas, etc. Vimos muitos filhotes nos ninhos que são cavados no chão, como locas, têm uma plumagem cinzenta, e, em fevereiro começa a muda, ficam independentes e vão para o mar em busca de alimento. No ano seguinte, depois de outra muda, por volta de janeiro ou fevereiro, adquirem uma plumagem adulta. Durante esta mudança de plumagem, que dali para a frente acontecerá uma vez a cada ano, permanecem em terra por quase duas semanas, sem alimentar-se. Muitos morrem de fome!

Quem não está se reproduzindo fica descansando embaixo dos poucos arbustos existentes.

É uma sociedade bastante organizada! Vou colocar algumas fotos para que vocês tenham uma idéia do que é uma pinguineira.

 

07 de janeiro de 2001

Bol. 18

Trecho: De Puerto Madryn(Arg.) a Caleta Olivia(Arg.).

 

Estou escrevendo de Ushuaia, são 9:30, de uma manhã chuvosa. Da janela enfeitada por uma cortininha de babados, olho a chuva e de vez em quando meus olhos param nas inúmeras flores do jardim da Dona Lúcia, na Rua Deloqui 271. O Haroldo viajou ontem, de volta à Fortaleza e eu estou meio triste, mas me anima a possibilidade da chegada em Punta Arenas de uma vovó vinda de Brasília ou de Campinas. Quem sabe, terei companhia para Torres del Paine ou…Carretera Austral. Hoje terei uma confirmação. Esperando por essa resposta, resolvi ficar em Ushuaia por mais dois dias, quando então seguirei para Punta Arenas e daí para o Paine. Enquanto isso, como Sheherazade, continuo a estória , não das mil e uma noites, mas de 05 meses rodando pelas estradas da América do Sul.

No dia 31 de dezembro de 2000, durante o dia, dei uma parada para escrever. O dia estava muito bonito, o mar azul, muito sol e uma multidão na praia. O Haroldo foi dar uma volta pela cidade e comprar um bom champanhe, queijos para a comemoração da entrada do Año Nuevo . Escrevi muito, lá pelas 20:00 começou a soprar um vento e a praia foi esvaziada. O ritmo aqui é muito diferente, nesta época anoitece às 22:00, lá pelas 23:30 ou meia noite, os pais começam a chegar à pracinha aqui em frente ao Hotel, com suas crianças e elas se comportam como se tudo tivesse acontecendo às 17:00 ou 17:30 para nosotros. Levam lanches, um verdadeiro pic nic à meia noite. O comércio, abre às 10:00, fecha de 14:00 às 16:00, que suponho, seja para o almoço e depois, funciona até às 21:00. Que coisa esquisita!

Bem, voltando ao 31 de dezembro do ano de 2000… O Haroldo voltou com as compras e saímos para uma volta  no Boulevard Almirante Guillermo Brown (muito chique!) e, vimos, lá do alto o contorno do Golfo Nuevo, as luzes de Puerto Madryn brilhavam como um longo colar. Fim de tarde às 22:00! Descemos pra comer alguma coisa. A maior parte dos restaurantes oferece uma ceia, mas estavam vazios e as ruas desertas. Não queríamos cear, comemos um sanduíche, por sinal carésimo, (continuo impressionada com os preços)! Estava muito frio, sensação térmica 9°C, fomos para o Hotel Yanco, meia noite abrimos o champanhe, sentamos na varanda, bem juntos – queremos ficar assim neste novo Ano – e só aí as pessoas começaram a chegar , festejando com fogos de artifício. Muitas crianças, enfim, a festa começa, de verdade à meia noite e meia. Fomos dormir, quando tudo acabou. No dia seguinte partiríamos rumo a Punta Tombo, a caminho de Comodoro Rivadavia.

Fazia muito sol na manhã do dia 01 de janeiro de 2001. Quando arrumávamos nosso Troller, parou junto a nós, uma L200 toda arrumada para longas viagens, placa de Contagem, MG, dentro, um casal de mineiros com um filho. Há seis dias haviam saído de Contagem, chegado no dia anterior, estavam acampados permanecendo em Puerto Madryn por uns quatro dias. Iriam também a Ushuaia, nos deram algumas dicas de como proteger os faróis e para brisas , nos falaram de um barco que faz transporte de veículos de Punta Arenas para Puerto Montt, que estou considerando como opção, nos despedimos.

De Puerto Madryn a Punta Tombo são 180 Km, destes, 110 de rípio, se não tivéssemos errado o caminho.

Para chegar a Punta Tombo a melhor maneira é descer a Ruta 3 , por 80 Km (sempre ela!), entrar à direita para Rawson, e novamente à direita para a Ruta 1, estrada de rípio, por mais 100 Km. O melhor retorno é pegar um atalho para voltar à Ruta 3 e descer para Comodoro Rivadavia. Nós, fizemos o contrário, erramos na ida e na volta e, assim, aumentamos nosso percurso em 200 Km!

Para Comodoro Rivadavia, o vento continuou batendo muito forte, tive que diminuir muito a velocidade, o consumo de combustível aumentou bastante e começou a bater um cansaço, o Haroldo pegou a direção até Caleta Olivia, ficando impressionado! Se fosse um vento contínuo,  acho que seria mais fácil, mas não, bate em rajadas, desestabilizando o carro. O resultado disso: dois caminhões tombados, um bem grave. Em Ushuaia nos encontramos com quatro brasileiros que fazem o percurso da Patagônia e eles nos contaram que, naquele trecho, nas curvas, se inclinavam ao contrário para não caírem. Entenderam? Bom, mas essa é uma outra história! Vamos a Punta Tombo considerada a maior colônia continental de Pingüinos de Magallanes !

 

07 de janeiro de 2001

Bol. 19

Trecho: De Caleta Olivia(Arg.) a Rio Gallegos(Arg)

Distâncias: 825 Km (incluídos os 100 Km para ir e voltar aos Bosques Petrificados).

 

São 12:30, ainda do dia 7 de janeiro do ano de 2001, continua chovendo em Ushuaia, a temperatura caindo, ainda bem que no meu apartamento na Deloqui 271 há calefação, o que deixa o ambiente super gostoso. Daqui a pouco vou fazer um chocolate bem quente e continuar a escrever para colocar tudo em dia para uma nova etapa, o Chile, com o Paine, Carretera Austral, Ilha de Chiloé, seus lindos lagos, fiordes e o Deserto de Atacama. Por enquanto, estou ainda saindo de Caleta Olivia, na costa  do Golfo de San Jorge, 80 Km abaixo de Comodoro Rivadavia, na Argentina.

Caleta Olivia é uma pequena cidade, já na Província de Santa Cruz, não tem atrativos, para nós acostumados com praias de águas mornas, e não é bonita como Puerto Madryn, mas vimos por lá muitos campings. Ficamos em um Hotel muito simples, como todos daqui, nem por isso barato! A comida e o vinho estavam deliciosos!

Saímos por volta de 9:30, muito sol, todos dormiam e não encontramos um lugar sequer para tomar café, até o posto de combustível estava fechado! Uma coisa muito importante aqui na Patagônia é andar com o tanque  cheio, as distâncias são muito grandes, muitas vezes entre um Posto e outro existem distâncias de 250 a 300 Km, com possibilidade de estarem fechados (é raro), como foi o caso. Como estávamos com o tanque pela metade, tocamos pra frente!

No caminho para Rio Gallegos visitaríamos o Monumento Nacional dos Bosques Petrificados e saímos em sua busca!

Descendo pela Ruta 3 e enfrentando os fortes ventos, chegamos a um pequeníssimo povoado chamado Jaramillo que fica na entrada para Puerto Deseado, não há combustível e nem acomodações, 80 Km abaixo, há uma placa indicando a entrada para o Parque, a partir daí são 50 Km até o Guarda Parque, o que significam 100 Km de ida e volta à Ruta 3.

Saímos do Parque mais ou menos às 15:00 e foram 450 Km até Rio Gallegos, estrada monótona, com longas retas, rajadas de vento, mas de vez em quando o mar aparecia o que significava alegria geral!

A chegada a Rio Gallegos se deu por volta de 21:00. Fomos em busca de um Hotel. Aprendemos que a melhor maneira é procurar o serviço de Informações Turísticas e foi assim que conseguimos um Hotel razoável por U$ 38.

Rio Gallegos é a capital da Província de Santa Cruz, tem uma população de 65.000 habitantes, importante centro petroleiro e porta de entrada para o turismo no Parque Nacional Los Glaciares. Rio Gallegos, para mim, teve sua importância: finalmente consegui usar um computador de cybercafé para enviar meus e mails. O japonesinho com a maior paciência foi explicando tudo direitinho e eu tomando nota, como uma receita de bôlo. Foi ótimo! Quer dizer, acho que está dando certo, pois ainda não consegui acessar minha página. Se estiver realmente certinho, conto depois como é que se faz!

Após a aula no cybercafé, mais ou menos meio dia e meia saímos de Rio Gallegos rumo a Ushuaia, pensando que chegaríamos bem cedo, não contávamos com a burocracia na fronteira chilena. Vocês vão perguntar: que fronteira chilena? Conto tudo depois que falar dos Bosques Petrificados, que são impressionantes! Vamos lá?

Vou fazer meu chocolate quente, o frio lá fora está grande. Daqui a pouco tenho que sair para telefonar. Será que vai mesmo aparecer alguma avó que me acompanhe no próximo trecho? Estou ansiosa por saber! Mais tarde conto como foi tudo.

Por enquanto, passeemos pelos Bosques! 

 

 Bol. 20

Monumento Nacional dos Bosques Petrificados (Argentina).

 

O Monumento Nacional dos Bosques Petrificados  compreende uma área de 15.000 ha e foi criado no ano de 1954, para preservar fósseis de florestas com características, talvez únicas no mundo e proteger um ecossistema altamente vulnerável de estepe semidesértica.

Foi à essa janela para a pré história que chegamos no dia 3 de janeiro de 2001, com 150.000.000 de anos de atraso.

Colocando os cotovelos no parapeito desta janela, consegue-se divisar uma placa, Período Jurássico. Há bosques de árvores gigantescas, que precederam às atuais araucárias, um clima temperado, ainda não existe a Cordilheira dos Andes e os ventos úmidos do Oceano Pacífico alimentam esta vegetação. Não existe Oceano Atlântico, estamos unidos à África. Repentinamente,  a quietude da paisagem é quebrada por intensa atividade vulcânica e muitos bosques sucumbem por ventos violentos, inclusive este, as cinzas provenientes das erupções rapidamente se encarregam de sepulta-los. Muito mais tarde, as águas das chuvas se infiltram pelas cinzas, e, carregadas de soluções ricas em minerais penetram e se recristalizam nos espaços vazios da madeira.

No presente, os paleontólogos chamam o processo de “petrificação” e já que estamos no agora …

Saindo de Caleta Olivia e descendo pela Ruta 3, enfrentando os fortes ventos, chegamos a um pequeníssimo povoado chamado Jaramillo que fica na entrada para Puerto Deseado, não há combustível e nem acomodações, 80 Km abaixo, ainda na Ruta 3, há uma placa indicando a entrada, a partir daí são 50 Km até o Guarda Parque, o que significam 100 Km de ida e volta.

O rípio é ruim, muita poeira, pouco movimento, vento impiedoso, era como navegar em mar revolto, até o barulho do motor muda, a gente sente que ele está enfrentando resistência grande! Incrível! Paisagem extremamente árida, diferente, alguns montes como mesas, muitos guanacos e pedras, muitas pedras.

O Guarda Parque é um moço simpático que, acho, dá graças à Deus quando aparece gente por aqui, nos explicou tudo, nos ensinou as trilhas e esperou pela nossa volta. Fomos caminhando pelo vento, e já começamos a ver os imensos troncos tombados, alguns quebrados, outros inteiros, espalhados por todo o campo. Eles estão onde viveram e caíram, testemunhas de uma natureza implacável! Dizem os estudiosos que no momento da tragédia tinham mais de 1000 anos de idade e alcançavam 100 m de altura. Os troncos que hoje vemos foram expostos pela erosão, devem existir outros, bem mais antigos, enterrados por ali.

Impressiona a grandiosidade dos troncos e seu aspecto, são troncos de árvores como se tivessem caído naquele instante, mas quando passamos nossas mãos… é como a brincadeira de estátua. Estátua! E tudo vira pedra! Fiquei muito impressionada!

Apesar da aridez do lugar, existem plantas adaptadas, têm a forma achatada e raízes muito grandes, enfrentam o frio e os ventos: são calafates, molles e algarrobos patagónicos, flores muito pequenas amarelas, brancas muito juntinhas, estão lá enfrentando aquela natureza louca! Vi também manadas de guanacos, ariscos, selvagens, comendo plantas que resistem à sua voracidade. Que natureza!  A Estepe Patagônica é assim mesmo, vale a pena observar desde suas pequenas flores até a imensidão dos seus espaços abertos!

Quando voltamos ao Guarda Parque, com os cabelos assanhados, as mãos agarradas na filmadora, máquina fotográfica, binóculos e outros, sentimos que nada daquela parafernália conseguiria jamais passar para as outras pessoas ou para nós mesmos, em um outro momento,  o que sentíramos naquele lugar!

O presente nos pegou ainda meio embasbacados, só retornando, de vez, quando o motor do Troller começou a funcionar e fomos voltando devagar … para a Ruta 3. Ufa!

 

14 de janeiro de 2001

Bol. 21

Trecho: De Rio Gallegos(Arg) a Ushuaia(Arg).

 

São 16:00 do dia 14 de janeiro, domingo e estou escrevendo de El Calafate na Argentina, novamente assustada com os preços. Cheguei ontem a El Calafate, os hotéis, pousadas, hospedagens, lotados. Gente a dar com o pau! Ônibus de turismo, mochileiros, jipeiros, muita poeira, enfim, turista para todos os gostos, muita gente! A cidade vive e respira o Parque Nacional Los Glaciares.

El Calafate é passagem para muitos turismos, desde uma visita  ao Glaciar Perito Moreno, El Chaltén e Fitz Roy, onde vão muitos dos mochileiros que aqui estão, até os aventureiros que sobem o Chile pela Carretera Austral, como eu, estes sempre empoeirados de outras carreteiras e rípios, estão em veículos  4×4, com pneus amarrados em cima do carro, um ou dois e os motoristas invariavelmente com aquele ar de superioridade para os pobres mortais que vêm sacolejando pelo rípios nos grandes ônibus de turismo dos quais descem pessoas apressadas , vêem a paisagem e rápido retornam partindo para mais uma paisagem apressada. Aqui para nós, a Patagônia não dá para ser visitada assim, é preciso tempo para que estas paisagens extensas, grandiosas caibam nos nossos sentidos!

Eu deveria estar escrevendo sobre o trecho Rio Gallegos a Ushuaia, sobre o Parque Nacional Terra do Fogo, mas resolvi  falar um pouco do está ocorrendo agora até porque tenho que aproveitar a Internet de El Calafate. Depois, só em Puerto Montt após a  Carretera Austral. Partirei amanhã cedo, deverei subir pela Ruta 40 até Bajo Caracoles, passar a fronteira em Paso Roballos e pernoitar em Cochrane (Chile).

No dia 19 de janeiro me encontrarei com duas vovós, a Tamara e a Cristina  que já esteve comigo no PETAR. Nos encontraremos no Aeroporto de Balmaceda(Ch) perto de Coyhaique(Ch) para trilharmos a segunda parte da Carretera. Em Puerto Aisén pegaremos um barco que nos levará a Quellón na Ilha de Chiloé e enfim a civilização. 

Foi uma decisão difícil. Em Punta Arenas já havia decidido colocar o Troller no navio da Navimag que parte de Puerto Natales, descendo em Puerto Montt três dias depois. Estava a um passo da Carretera e não ir por ela, era demais e que humilhação para o meu Troller preparado para enfrentar os mais difíceis terrenos! Quem nos salvou foi a Cristina, que por outro lado foi incentivada pelo Dudu, meu sobrinho e seu filho, que um dia desceu de bicicleta com dois amigos a Carretera. Vamos e venhamos, de bicicleta e eu em um Troller, amarelando! Bem meus amigos, o fato é que estou aqui já me despedindo de El Calafate, com um tanque extra de combustível já instalado e … seja o que Deus quiser! Contarei tudinho em um boletim especial.

Voltando ao agora e ao trecho de Rio Gallegos a Ushuaia.

Dormimos bem em Rio Gallegos, apesar da simplicidade do nosso Hotel Nevado. Quando conseguimos nos desvencilhar da Internet já era meio dia de uma Quarta feira, dia 03 de janeiro de 2001, para o que seria a última etapa da primeira metade do meu projeto. Sigo sozinha para Punta Arenas, Paine e El Calafate. Já havia rodado 13. 324 Km, achando que já tinha bastante argumentos para todas as avós com dúvidas e medos sobre viajar sozinhas. Tenham não, é bárbaro, como dizem os argentinos. É verdade que cada dia é um desafio, cada estrada tem seus mistérios, cada lugar seus encantos. É muito bom, tenho que dizer-lhes, encontrar desafios, vencendo-os e com a experiência que temos do ontem, dá para contar uma história… e as conversas de aventuras? Fique um dia escutando e você verá que não existe uma idade, nessa hora em que todos temos o que contar, somos todos iguais, na coragem de realizar o inusitado. Qual foi sua maior aventura? Ah, foi guiar um Fusca de Fortaleza até Brasília, repetiria muitas outras aventuras mas essa não dá mais! Além dessa? Será ir pela Carretera Austral, essa eu contarei até para os meus bisnetos!

Estou certa, estamos na nossa melhor idade, a maior parte das coisas no foco, as obrigações cumpridas, há muito para descobrir e vale a pena um pouco de ousadia, de solidão para finalmente pensar, redescobrir você, rever, surpreender e sair por aí jogando fora a impressão de ser humano invisível e descartável!

Bem , para chegar em Ushuaia vindo de Rio Gallegos há que se atravessar duas fronteiras, a primeira da Argentina para o Chile no  Paso de Integración Austral, e a segunda do Chile para Argentina, de volta, em San Sebastián. No Paso de Integración  perdemos duas horas e meia com a burocracia chilena, papeis que são carimbados em diversos balcões e depois jogados fora, eu imagino, carro examinado para ver se há frutas, derivados do leite, etc., etc., sem falar no teste de paciência: meia hora para que o funcionário chegasse e … finalmente levantasse a cancela e nos deixasse passar. Arre égua! Diria um bom nordestino! Daí, 120 quilômetros depois, fronteira argentina, todo o catatal de novo, com menos burocracia e estamos em San Sebastián, depois Rio Grande e finalmente Ushuaia.

De Rio Gallegos ao Estreito de Magalhães, Puerto Aymond, são  100 Km, há balsas de hora e meia a hora e meia. Paga-se pelo veículo U$ 17 e por pessoa U$ 3. A balsa chega na hora e a travessia é bem rápida. Após todos os trâmites alfandegários,  percorre-se 120 km de rípio ruim e perigoso, muito trânsito e muito cuidado nas ultrapassagens para não ficarmos sem o para brisa ou faróis.

A Partir de San Sebastián a estrada tem um bom asfalto e a paisagem começa a mudar, há extensos campos de pastagem, muitas estâncias de criação de ovelhas, uma das principais atividades econômicas da Patagônia Argentina.

Rio Grande é uma cidade, pequena e bonitinha, dá impressão de um monte de casa de bonecas, por serem pequenas e de telhados coloridos.

De repente, a paisagem muda, aparecem os bosques  e as montanhas nevadas, mais 80 Km de rípio ruim, o belíssimo Lago Fagnano e…enfim, Ushuaia.

Chegamos quase meia noite, a Dona Lucia nos acolheu com sua simpatia, um quartinho quentinho, acolhedor, muito limpo e gostoso.

No dia seguinte fomos olhar a cidade, ficamos impressionados com o seu crescimento, muita gente, muitos turistas! A cidade continua linda, aprisionada entre a Bahia de Ushuaia e a cadeia de montanhas nevadas do Martial. Dizem por aqui que esta é uma paisagem única na Argentina, montanhas, mar e bosques, não sei se é verdade mas que é uma cidade fascinante, isso é!

 A Bahia de Ushuaia é um prolongamento do Canal de Beagle e, por isso mesmo chamada pelos índios Yámana (antigos moradores, extintos pelos colonizadores), Ouchouaya ou, bahia que penetra para o poente.

Daqui se parte para um turismo na Antártica. Esse é um turismo novo feito em embarcações que saem nos meses de novembro a março. O preço é muito alto, para nove dias paga-se U$ 3.000 por cabinas com quatro a seis pessoas, banheiro compartilhado e pensão completa.

Há passeios de barco para todos os gostos, ver pingüins, loberias, etc., trilhas no Parque, ao redor da cidade, ou, simplesmente ficar sentado comendo uma maravilhosa centolla, tomando uma Quilmes e olhando a Bahia de Ushuaia!

  Até Puerto Montt, lá para o dia  01 de fevereiro. Adiós!

Diários 22 a 31

 

 Bol. 22

Parque Nacional Torres del Paine (Chile).

11, 12 e 13 de janeiro de 2001

 

Eu estava deitada no chão e a vida se resumia a, de vez em quando, tirar o meu olhar das águas azuis e tranqüilas do Lago Nordenskjold onde se refletia, com detalhes, o maciço do Paine, para dete-lo no próprio maciço granítico, de cor cinza azulado, cujas pontas negras, de rochas sedimentares, pareciam pintadas, de propósito, para impressionar ainda mais uma passante como eu. Não havia pressa, não havia tempo, a cabeça vazia de pensamentos, só o lago, o maciço e o espelho. Fiquei assim, até que o barulho de pessoas caminhando mudassem a paisagem. Meu olho mudou e pude ver o grupo que se aproximava. Eram os uruguaios que eu havia encontrado um dia antes com um motorhome estacionado na Sede Administrativa do Parque Nacional Torres del Paine. Naquele dia, quando eu desci do Troller, me perguntaram o significado do Projeto Avós no Terceiro Milênio, comecei a explicar e logo fui convidada a visitar o motorhome, tomar um delicioso café acompanhado de um cointreau. Que surpresa! Estavam viajando com os filhos, desde o Uruguai, por toda a Patagônia. Falavam português, de forma tal que ficamos sentados por um bom tempo conversando.

Quando eles chegaram ao Lago Nordenskjold, ficaram também sentados e muito calados. Chegaram outras pessoas e o encanto estava quebrado, puxei minha sacolinha com o sanduíche preparado no Hotel Tyndall, onde eu estava hospedada e comecei a lembrar o caminho que eu havia feito para chegar ao Parque.

Era a terceira vez que eu vinha ao Paine e não seria a última, é um lugar mágico, de natureza deslumbrante, esculpido com muito cuidado por ela.

Saí  de Punta Arenas, passei por Puerto Natales, a partir daí guiei por 144 km de rípio muito bom entrando no Parque pela Portaria Sarmiento. Depois da entrada, me deparei  com o Lago Sarmiento que, como uma mancha Azul Sarmiento, me acompanhara Parque adentro. O vento estava tão forte que descer para registrar o momento foi muito difícil. Seguindo vagarosamente a estradinha, para um carro, que vai margeando o Lago Pehoé, parei para rever o Salto Grande Rio Paine, de águas azuis transparentes, comecei a ver o Hotel Pehoé, emergindo no meio do lago como uma casinha de bonecas, unido à terra por uma estreitíssima e longa ponte e, segui em frente sempre olhando o belo Paine à minha direita. Eu estava retornando ao Paine, depois de 4 anos!

Na primeira vez, em 1991, estava viajando de mochila com o Haroldo. Havia um turismo bem incipiente, só existia uma pousada, a do Rio Serrano e o Hotel Pehoé. O parque era freqüentado por mochileiros, caminhantes e outros, como era o nosso caso. Em 1997, com minhas irmãs, agora meio mochila meio mala de rodinhas, o Parque já havia mudado, muitas excursões e muitos hotéis, inclusive o Explora, o que há em simplicidade e luxo (5 estrelas). Agora, existem mais hotéis, as estradinhas estão bem conservadas, os mochileiros caminham por trilhas impossíveis para os turistas convencionais, servidos por uma infra-estrutura bem mais cômoda como refúgios, onde chegam, desdobram seus sacos de dormir, fazem sua comida e se restabelecem para uma nova caminhada ou então nos inúmeros camping bem estruturados.

Dirigi na direção do meu Hotel, do outro lado do Rio Serrano, observei que a população de guanacos (parentes da lhama) havia aumentado, e muito! Estacionei o Troller, tirei a pouca bagagem que me restara, após inúmeras triagens. Uma lancha me levou ao outro lado. O vento continuava muito forte! Já no apartamento, abri a cortina e lá estava o maciço do Paine inteiro, impressionante e azulado. Quase me ajoelhei! Fiquei olhando para ele por trás da vidraça pois o vento não deixava ninguém sair. Estava ficando cada vez mais forte. Andar pela Patagônia é aprender a conviver com os ventos! Na madrugada do dia seguinte, fiquei de plantão e consegui vê-lo como uma brasa ao nascer do sol. É demais, ele fica totalmente alaranjado, dourado, sei lá! É um espetáculo incrível! Em fotografias parece efeito especial de filtros, mas acontece todos os dias e pode ser observado sempre que o tempo estiver limpo.

O Parque Nacional Torres del Paine foi criado em 1959, tem 242.242 ha  e foi declarado Reserva Mundial da Biosfera pela UNESCO em 1978. Está situado entre a Cordilheira dos Andes e a estepe patagônica com altitudes que variam de 20 a 3.050 m. É considerado o mais belo parque do Chile, o clima é instável e, no verão os ventos podem atingir 120 km/h.

Existem caminhos para os diversos tipos de caminhantes, desde curtos passeios, até uma trilha ao redor do maciço, que pode durar  de 6 a 10 dias, este, para pessoas com excelente preparo físico e experiência, pois pode nevar, ventar e as coisas se complicarem. Para essa trilha, pode-se alugar em Puerto Natales, desde a lanterna até a barraca. Lá em cima existem refúgios onde se pode dormir e cozinhar; uma outra trilha muito conhecida é a do Glaciar e Valle del Francés , que pode durar 3 dias, a partir do refúgio Pudeto, onde se toma um catamarã que cruza o Lago Pehoé ou então a partir da Sede Administrativa percorrendo uma trilha de 5 horas até o refúgio e camping Pehoé e daí mais 4 horas de caminhada até o Glaciar Francés. Não fiz nenhum desses. Andei muito de Troller pelo Parque, existem 100 km de caminhos, para visitas a lagos, lagunas, rios e cachoeiras de extraordinária beleza e fiz caminhadas para o Glaciar Grey, lindo, azul e ao Lago Nordenskjold. O Grey termina em um lago, sua muralha azul de 30 metros de altura é linda! No entanto é um Glaciar pequeno, o Perito Moreno no Parque Nacional Los Glaciares, na Argentina, tem paredes de 70 m. Existe uma trilha muito bonita e fácil  de onde podemos admirar os témpanos (enormes pedaços de gelo que se desprenderam do Glaciar e que ficam boiando na água). Há um Hotel, convém ir preparado, no Parque, todos os hotéis são caros. Tenho os preços para quem se interessar. Andei bastante, estava frio mas não choveu, fiquei sentada lá na pontinha observando o lago, o glaciar, os témpanos e um barquinho que levava turistas a passear até próximo ao Glaciar, oferecendo uma dose de whisky com o gelo do Grey.  Na volta, há uma placa explicando a formação de um glaciar: “por razões desconhecidas, há milhões de anos e, pela primeira vez na história da Terra, a temperatura desceu muitíssimo. Durante os invernos desse período, a neve acumulou mais do que derreteu nos verões. Formaram-se imensos mantos que cobriram grande parte do planeta e que aumentavam ou diminuíam de acordo com as temperaturas originadas da variação da energia solar. O glaciar é um rio de gelo azul, remanescente do enorme manto  e cujo retrocesso dá origem aos lagos”.

No Hotel Tyndall encontrei um casal de brasileiros que viajava com as filhas. Conversamos tomando vinho, o pai e as filhas caminhavam sem parar e a mãe uma japonesinha, ficava tranqüila lendo seu livro e passeando perto do Hotel. Naquela tarde, uma vaca zangada lhe dera uma carreira o que, segundo ela, foi assinalado como sua maior aventura no Paine.

Fique o leitor sabendo que não é difícil chegar ao Paine. No dia em que vier ao Chile não deixe de pegar um avião até Punta Arenas, alugar um carro, não precisa ser 4×4 e visitar o Parque Nacional Torres del Paine! Fazer reserva de hotel é imprescindível, principalmente se for alta estação, fim e começo de ano. Na praça central de Punta Arenas há um quiosque de Informações Turísticas que se incumbe disso. Não deixe de ir, saia do circuito tradicional dos lagos ao norte de Puerto Montt, é um lindo circuito mas vale a pena descobrir o Paine!

Para saber mais: payne@entelchile.net , telefone: 188-2-9604802 e Fax: 188-2-9604803.

No dia 13 de janeiro deixei o Parque Paine e me dirigi a El Calafate, na Argentina, para pegar o rumo de Bajo Caracoles e daí a Paso Roballos alcançando a Carretera Austral.

Saí por Cerro Castillo, passei pela fronteira, e foram muitos quilômetros de rípio ruim até El Calafate. Calafate estava lotada de turistas, foi difícil encontrar hotel! Revisitei o deslumbrante Glaciar Perito Moreno, a 70 km da cidade, tirei dinheiro no Banco e, na manhã do dia 15 de janeiro saí para Bajo Caracoles. Me esperavam 500 km de rípio! Eu ia um pouco preocupada. Já sabia por outros aventureiros que o vento estava muito forte, que a poeira estava muito grande, o rípio não estava bom: cuidado com os pneus, cuidado com o pára-brisa, cuidado com você, parti, foi difícil, não me arrependi … passei pelo Lago Viedma, na entrada para El Chaltén onde fica o Fitz Roy, que desta vez não visitei, meu objetivo era chegar cedo a Bajo Caracoles para não ficar no meio da rua. Neste trecho aprendi de uma vez por todas a conviver com o vento, a dirigir no rípio, a redobrar minha confiança no Troller, e … agora, tenho certeza: Deus mora na Patagônia!

 

04 de fevereiro de 2001

Bol. 23

Trecho: De El Calafate(Ar) a Bajo Caracoles(Ar).

Distâncias: 500 Km

O que já rodei até Talca: 18.356 Km

 

Estou escrevendo de Talca uma cidade do Chile localizada a mais ou menos 250 km ao sul de Santiago. Está um dia quente, e estou no Hotel Universitário, na estrada de São Clemente.

Passei muitos dias sem escrever, devo pedir desculpas, espero colocar tudo em dia. Não sei se estou sendo bem entendida nos meus diários, o que acontece é que muitas vezes escrevo de lugares onde estou estacionada sobre trechos que foram vividos dias atrás. Assim é que, estou em Talca, perto de Santiago, escrevendo ainda sobre o início da Carretera Austral. Deu para entender?

Hoje, minhas irmãs partiram de volta ao Brasil, depois de viverem comigo  as belezas da Carretera Austral. Resolvi permanecer em Talca, para colocar meu diário em dia e descansar um pouco, antes de enfrentar o Deserto de Atacama.

Deixarei de falar sobre o Parque Nacional Torres del Paine agora, assim como deixei de falar sobre o Parque Nacional Aparados da Serra, posteriormente farei a inserção dos dois boletins. Descreverei a Carretera em vários capítulos, de acordo com as nossas paradas para dormir e não em três setores como ela costuma ser dividida.

Os trechos até alcançar Cochrane, de onde iniciei a Carretera, são colocados aqui porque fazem parte do roteiro para se chegar até lá. Certo? Então vamos lá!

Deixei El Calafate, na Argentina, em uma manhã de muito sol,  no rumo de Bajo Caracoles também na Argentina. Sabia que ia ser um trecho muito difícil, de rípio e muito extenso, foram 500 Km de rípio, foi extremamente cansativo! Antes de entrar no rípio há um pequeno pedaço em asfalto, e daí para frente a poeira e o vento tomam conta da paisagem. O rípio até a entrada de El Chaltén onde está o famoso Fitz Roy ( não confundir com Chaitén) é muito ruim, tanto é que fiquei meio desanimada. Passando da entrada de El Chaltén o rípio deu uma melhorada mas o vento soprava cada vez mais forte. É inacreditável como sopra forte o vento da Patagônia! Parar para fazer xixi é uma decisão desesperada e, a propósito, com relação a essa difícil operação ocorreram três fatos inesquecíveis, que passarei a relatar: a primeira vez que parei o Troller para a operação “fazer xixi” me coloquei em uma posição contrária ao vento e o xixi voou para cima de mim a uma velocidade inesperada de forma tal que fiquei molhada e fedorenta por muito tempo. Na segunda vez, mais alerta, desci rapidamente do carro e me coloquei em uma posição favorável mas havia esquecido de acionar o freio de mão, de forma tal que ele saiu andando, sem mais nem menos, e eu correndo que nem uma doida pela estrada com as calças no meio da perna, vexame total, ainda bem que naquela estrada passa muito pouca gente; na terceira vez abri a porta do Troller sem avaliar bem a velocidade do vento e a porta abriu com tanta força que quebrou a fibra, sobre a qual foi colocada uma fita adesiva como proteção. Mais um remendo!

Nesta estrada, aprendi de uma vez a andar no rípio, a ultrapassar em baixa velocidade, a me colocar na frente dos carros, na contramão, como uma maneira de diminuir  velocidade deles, dar sinal de luz como forma de pedir uma diminuição de velocidade, a não arrancar e nem brecar com força, tudo bem devagar para não rasgar pneus e nem quebrar faróis ou vidros. Saí do outro lado da Carretera com todos os pneus intactos, faróis e vidros também. Nos lados da estrada a coleção de pneus rasgados, é impressionante! Segui assim já conseguindo ir a 80 ou 90 Km/h, sentindo o Troller escolher os caminhos só corrigindo aqui e ali. Ele foi um grande companheiro, é verdade que sofreu uma avaria, mas isso eu conto depois.

Abasteci em Três Lagos, em um posto perdido na estrada. A gente tem impressão que não existem pessoas por ali, estão todas trancadas se protegendo do vento. Buzinei e do meio da poeira saiu uma pessoa, que após o abastecimento pediu para sacar uma foto, um adeus, uma carona negada e me fui rumo a Tamel Aike, pensando que era uma cidade pois é assim que está no mapa, mas é apenas um ponto de apoio do Governo Argentino, uma construção com uma bandeira e só. Continuei rezando para que Bajo Caracoles não fosse também um apoio e assim, de rípio bom em rípio ruim, consegui chegar a Bajo Caracoles que é, na verdade, um conjunto de umas dez casas batidas pela poeira e vento, uma hospedaria e um posto de combustível.

A hospedaria cobra um preço exorbitante para o seu nível mas, nesse dia, dei graças à Deus por ter um lugar para ficar. Paguei por um quarto com banheiro compartilhado U$ 30 e por uma macarronada U$ 10, tomei uma garrafa de vinho conversando com um casal de brasileiros que também iriam à Carretera. Foi um encontro muito bom, contamos nossas aventuras e desventuras e estávamos tão cansados que nos vimos cochilando no meio da conversa. Saímos de cena, no dia seguinte visitaríamos as Cuevas de las Manos e daí à fronteira com o Chile chamada de Paso Roballos.

 

04 de fevereiro de 2001

Bol. 24

Trecho: De Bajo Caracoles(Ar) a Cochrane(Ch)

Distâncias: Bajo Caracoles/Cuevas/Cochrane: 338 Km

O que já rodei até Talca: 18.356 Km 

 

Dia seguinte, após uma noite muito bem dormida, parti para a “Cuevas de las Manos”, a 40 Km, de Bajo Caracoles, para onde se retorna obrigatoriamente, logo, um total de 80 Km. Cuevas de las Manos são covas na rocha, como grutas muito rasas cujas pinturas são mãos carimbadas em várias direções, como se de repente as pessoas que ali viveram descobrissem suas mãos e as cores. É impressionante e ao mesmo tempo angustiante! Que querem dizer aquelas mãos para sempre espalmadas, como a pedir socorro, espantadas, medrosas, alegres, os sentimentos finalmente expostos de forma repetitiva, para que nunca mais ficassem calados, quem sabe?

Novamente encontrei os brasileiros e fomos andando, conversando, uma paisagem áspera, lindíssima, muito parecida com a Serra da Capivara, no Piauí. Me despedi deles, que partiram antes de mim, tomei um chá observando os mochileiros que saiam para caminhadas.

Retornei a Bajo Caracoles e tomei o rumo de Paso Roballos, a fronteira com o Chile, que antes da Carretera Austral era o único caminho para se alcançar Cochrane. Até pertinho de Paso Roballos não vi viva alma, nenhum carro, estrada muito estreita que vai como uma serpente pela estepe. Vi algumas emas e nada mais. Entrei em uma região bonita já avistando os cumes nevados dos Andes, uma fazenda, uma cancela e fim, a estrada acabou. Retornei à fazenda, estacionei o Troller e fui caminhando para algumas pessoas que me observavam com curiosidade. Eu ia chateada achando que iria fazer o percurso de volta,  havia passado por algumas encruzilhadas e me decidira pela mais “trilhada”, mas fui informada que a estrada continuava até Paso Roballos e que eu teria de abrir e fechar várias cancelas que estavam fechadas para que os animais não passassem. Nessa hora chegaram os brasileiros e fomos juntos abrindo e fechando porteiras, e que porteiras tão complicadas, feitas de tocos e arame farpado, difíceis de serem abertas quanto mais fechadas! Sou mais as do Sertão do Nordeste, altamente funcionais!

Logo, para quem quiser se aventurar por Paso Roballos para alcançar Cochrane, a primeira cancela chama-se Namuncura, escrito em um pedaço de madeira. Chegando no Paso Roballos, passamos pela fronteira argentina, carimbando os passaportes e encontrando um israelita tentando explicar que marca era a moto, etc. Estava muito difícil, ficamos sabendo que estava viajando desde os Estados Unidos, a moto e o motoqueiro estavam só o bagaço! Na fronteira chilena foi feita uma vistoria, passaportes carimbados, fiquei sabendo que há ali uma Hosteria com quartos bem cômodos, segundo o dono, informação que julguei muito importante para aqueles que, por acaso , ao tentarem cruzar a fronteira tarde a encontrarem fechada.

A estrada continua bem estreita, arrodeando morros, lagos, um vale bonito ao cair da tarde, uma paisagem cada vez mais interessante.

Neste vale sobrevivem as últimas grandes estâncias de gado da região, uma das quais que se chama Valle Chacabuco, dedica-se ao gado ovino e produz um queijo excelente, de sabor bem forte, que tive oportunidade de comer em Cochrane.

Finalmente a encruzilhada para Cochrane, caminha-se mais ou menos uns 35 Km com o Rio Baker de um azul turquesa maravilhoso ao lado direito, um vale lindíssimo, agora, de vez em quando, uma camioneta, sempre 4×4 e a poeira ainda muito grande. Esta estrada é muito bonita, com vistas impressionantes.

Finalmente Cochrane, saí procurando uma Hosteria, há muitas, e parei na Sur Astral, que me havia sido indicada lá na fronteira. A Sur Astral é bem simples mas é limpa, comidinha gostosa, pessoas agradáveis, baño compartido U$ 9 e uma coisa interessante, os quartos não têm chave. Para uma brasileira acostumada a se preocupar em trancar, travar, colocar o alarme, soou muito esquisito, mas que fazer? No jantar conheci a Basty, uma chilena que viajava com o marido pela Carretera, só que de ônibus. Era uma pessoa divertida e me deu muitas dicas de hotéis que foram valiosas. Conheci também dois suíços, donos de uma agência de turismo na Suíça. Procuravam novas opções de turismo de aventura e para isso compraram em Puerto Montt, um  jipe pequeno, com um reboque, no qual levavam barraca, comida e toda a tralha necessária para enfrentar a Carretera situada ao sul de Cochrane e que termina em Villa O’Higgins, ainda pouco trilhada.

Fiz uma caminhada no Parque Tamango tentando ver huemules (aqueles veados de chifres grandes), não os vi, mas o que vi do Lago Cochrane me deixou maravilhada! O lago é enorme, azul, o dia estava lindo e fiquei deitada em uma pedra lá no alto, olhando aquele azul. A tarde começou a cair, a esfriar e desci para uma longa caminhada de volta.

No dia seguinte, os suíços bateram uma foto do Troller e se foram. Basty , o marido e um francês partiram de ônibus, também para Villa O’Higgins. Eu, fui a um “taller mecánico”, consertar mais uma vez o alavanca que abre o vidro traseiro do Troller, me despedi dos brasileiros que estavam acampados, abasteci e fui embora achando que pararia em Puerto Bertrand ou Rio Tranquilo às margens do Rio Baker.

Não o fiz, parei só em Puerto Ibañez , mas essa é uma outra história.

 

05 de fevereiro de 2001

Bol. 25

Trecho: De Cochrane(Ch) a Puerto Ibañez(Ch)

Distâncias:  270 Km

 

Continuo estacionada em Talca (Chile), no Hotel Universitário, para descansar e colocar em dia meu diário.

Continuando a Carretera Austral e já saindo de Cochrane. Na saída decidi seguir pela margem direita do Lago General Carrera para que quando as vovós chegassem pudéssemos  cruza-lo de Puerto Ibañez a Chile Chico, fazendo a volta completa do lago.

Fui seguindo pela Carretera até Puerto Bertrand. São 51 Km de rípio bom e paisagens de perder o fôlego!

Caminhando com o Rio Baker à minha esquerda, pude apreciá-lo com calma, parando, admirando-o . Suas águas, de um azul turquesa, são impressionantes e ele vai descendo, fazendo redemoinhos com muita calma com um efeito muito bonito. Antes de chegar à Vila parei para apreciar o encontro de suas águas com as do Rio Nef. É um encontro intrigante pois as águas azuis do Baker custam a misturar com as águas leitosas do Nef, provenientes de um glaciar. O efeito é extremamente bonito!

Puerto Bertrand é uma vila muito pequena que foi utilizada para escoar os produtos de uma grande estância do Vale Cochrane. Os produtos, a partir de Puerto Bertrand, eram levados em carretas para Puerto Guadal e daí em barcos através do Lago General Carrera até a Argentina onde ele recebe o nome de Lago Buenos Aires (ver o mapa).

Apesar de minúscula, possui hotéis, cabañas, telefone, muitos locais de pesca. Inúmeras excursões partem daí e sua organização para o turismo é excelente. O Rio Baker passa bem pertinho e seu azul turquesa, seus redemoinhos calmos são um convite para ficar. Há uma pequena caminhada de 600 m para ver o Salto Baker. Resolvi continuar até a próxima cidade que se chama Puerto Tranquillo. Sempre arrodeando a extremidade oeste do Lago pude apreciar seu deságüe. Nesta região existem inúmeras cabañas para todos os gostos, desde as mais simples às mais sofisticadas, inclusive aquelas utilizadas para pescadores.

Em Rio Tranquillo comecei a ver anúncios de excursões para a Capela de Mármore e não me interessei por elas. Depois, já em Coyhaique, quando vi as fotos, bateu o arrependimento. As fotos eram lindíssimas  e fiquei sabendo que foi declarada Santuário da Natureza e é formada por uma península de mármore maciço erosionada pelas águas do lago, formando grutas que são invadidas pela água, no interior das quais se passeia de lancha. Imperdoável! Me disseram que é um espetáculo inesquecível navegar por aquelas paredes de mármore polidas pela água. Repito: erro imperdoável!

Subindo mais um pouco pela Carretera, cheguei a Puerto Murta e a partir daí entrei em uma região conhecida como Cuesta El Diablo. Na minha opinião, este trecho até Cerro Castillo é o trecho pior da Carretera, a destruição provocada pela erupção do vulcão Hudson, em 1991,  foi muito grande, embora os chilenos teimem em dizer que já houve uma recuperação quase total. O rípio é ruim, a paisagem é feia, o estrago é visível, muitas árvores tombadas, pedras, etc. O calendário apertado e a repetição deste trecho me fizeram desistir da idéia original de arrodear todo o Lago General Carrera, a partir de Chile Chico. Muito bem, o fato é que resolvi dormir em Puerto Ibañez apesar de só ter reserva para o dia seguinte: uma cabaña para três vovós. Dobrando à direita, saindo da Carretera e rodando uns 25 Km, tendo às minhas costas o deslumbrante Cerro Castillo, cheguei a Puerto Ibañez, uma linda vila às margens do Lago General Carrera. Cheguei às cabañas junto com um vento muito grande e logo fui atendida de uma forma muito gentil pela Viviane. Não me colocou na cabaña de três mas em um apartamento muito gostoso onde logo me instalei, tomei um banho e escrevi o boletim 23. Jantei um salmão muito bom e, realmente fiquei impressionada com a gentileza daquelas pessoas. Recomendo, de verdade! Aliás estas Cabañas me foram recomendadas pela Basty e os suíços, ainda em Cochrane. No dia seguinte me encontraria com as vovós e estava muito feliz!

O dia amanheceu glorioso, sol, nenhum vento, o Cerro Castillo aparecendo inteirinho, meio azulado, com seus picos cobertos de neve. Passei a manhã limpando o Troller, secando o que estava molhado, estendendo roupa, Bebel Gilberto cantava bossa nova . Beleza! Às 14:00 parti no rumo de Balmaceda, trilhando uma estrada que julguei ser pavimentada mas que se revelou um desastre, toda em obras. As vovós chegariam às 17:00. Essa chegada foi muito engraçada! No outro boletim contarei com detalhes o que se passou. Aguardem!

 

05 de fevereiro de 2001

Bol. 26

Trecho: De Puerto Ibañez(Ch) a Coyhaique(Ch)

Distâncias:  116 Km

 

O Lago General Carrera, é o segundo maior lago da América do Sul e o mais profundo, chega a ter 590 metros de profundidade. É um lago binacional, sua maior extensão está no Chile. Na Argentina recebe o nome de Lago Buenos Aires. As margens chilenas são rochosas, sem vegetação e, muitas vezes tão escarpadas, que necessitam ser dinamitadas para que se passe um caminho. Seu deságüe se dá através do Rio Baker e é assim que se comunica com o Oceano Pacífico. As margens Argentinas são planas e marcam o início do pampa até o Oceano Atlântico . As águas são de um azul profundo mas nas margens são esverdeadas.

Na margem norte deste maravilhoso Lago está uma pequena vila que se chama Puerto Ibañez, aí estava eu no dia 19 de janeiro, nas Cabañas Shehen Aike à espera das vovós Cristina e Tamara que chegariam no Aeroporto de Balmaceda.

De Puerto Ibañez a Balmaceda são 85 Km de uma estrada que está sendo reformada . O trânsito é interrompido em alguns lugares, de forma tal que levei duas horas para chegar ao Aeroporto. Fiz algumas fotos do Cerro Castillo, que estava lindíssimo, totalmente descoberto e, como as vovós só chegariam às 17:00 estava tranqüila. Ao entrar na área mais próxima do Aeroporto  vi duas mulheres pedindo carona, como não dou carona, fui em frente e ainda olhei para trás e as duas ficaram acenando. Estacionei o carro, fui ao banheiro recompor o visual, subi para tomar um café e qual não foi minha surpresa quando ouvi uma voz me chamando, não acreditei, eram elas, haviam chegado em um vôo direto de Santiago às 15:00, inacreditável, as duas caroneiras eram elas já me esperando na estrada, rimos muito do acontecido, nos contamos as novidades e voltamos para Puerto Ibañez.

O calendário que foi montado era suficiente para concluirmos a Carretera até Chaitén e visitarmos os lagos acima de Puerto Montt. Nos contentamos em rodar até a Península de Levican, a estrada também vai bordejando o Lago e o visual é muito bonito.

À noite fizemos uma salada que foi acompanhada de uma sopa e vinho chileno. Havia uma lareira e continuamos a colocar os assuntos em dia.

O esquema de cabañas quando se viaja em três ou mais pessoas fica bem econômico, há possibilidade de cozinhar, fazer um café da manhã, além do espaço ser maior o que torna tudo muito cômodo. Decidimos que sempre que possível ficaríamos em cabañas.

No dia 21 deixamos Puerto Ibañez e rumamos para Coyhaique. São 141 Km de estrada em reforma, rípio ruim tudo isso misturado, às vezes, a um bom asfalto.

Neste pedaço as paisagens são bonitas mas o que chama realmente atenção é a grande destruição das florestas por incêndios durante a colonização da região. É que durante esse período o governo distribuiu terras e incentivou a “limpeza” , para criação de gado, as florestas foram derrubadas e o fogo incontrolável queimou as árvores durante anos, os troncos jazem espalhados em grande quantidade e extensão, como testemunho desta tragédia.

Em Coyhaique paramos para que mais uma vez fosse consertado o sistema de travamento do vidro traseiro do Troller, desta vez o pneu sobressalente , que segura o vidro, destravava constantemente e sempre uma pessoa tinha que descer, empurrar o bendito, para que ele ficasse novamente travado. O sistema é realmente muito ruim, tem que ser mudado. Na oficina foi descoberto que havia sido perdido um dos estabilizadores da direção, que foi fabricada, mas tivemos que ficar por mais um dia. Foi bom pois a Tamara e a Cristina resolveram fazer um passeio de avião ao Glaciar São Rafael. Como havia só um lugar no avião, um monomotor e como a Cristina já conhecia alguns glaciares, desistiu e lá se foi a Tamara. Nos contou que foi maravilhoso, o avião sobrevoa o Campo de Gelo Norte, desce, os passageiros são embarcados em um bote, passeiam pela Laguna de  São Rafael chegando bem próximo ao Ventisquero ou Glaciar, como alguns chamam. O passeio tem a duração de mais ou menos 5 horas e custa U$ 170. Valeu, Tamara! Ela elegeu esse passeio como o  nota 10!

Ficamos na Cabañas Mirador, no centro de Coyhaique, com uma diária de cerca de U$ 70 o que dividido por três pessoas fica razoável diante dos preços praticados por aqui.

Comemos pratos e mais pratos de salmão com bons vinhos, fui à Feira de Artesanato e comprei um bonito fóssil que só a Cristina sabe o nome e nos mandamos para Puerto Cisnes, uma vila de pescadores que fica ao lado da Carretera a 200 Km de Coyhaique.

 

05 de fevereiro de 2001

Bol. 27

Trecho: De Coyhaique(Ch) a Puerto Cisnes(Ch)

Distâncias:  198 Km

 

No dia 23 de janeiro partimos de Coyhaique, após fazermos câmbio e mais uma vez arrumarmos a bagagem no Troller o que a Cristina chamou de algoritmo perfeito elaborado por mim e pela Tamara, o que soa como uma desculpa para não participar da operação. Muito bem, matemático é matemático, quem somos nós para discutirmos isso!

Este trecho da Carretera é deslumbrante!

Começa logo pela travessia da Reserva Nacional Rio Simpson, o rio é lindo, às vezes calmo, às vezes em corredeiras, às vezes formando lagos; das montanhas escarpadas e muito altas descem inúmeras cachoeiras das quais a mais bonita foi a Salto Velo de la Novia. No Parque existem locais de camping, aliás o Chile é cheio de campings bem montados, nas estradas, nos parques, nas cabañas, enfim camping para todos os gostos.

As rochas variam de cor, vimos negras, brancas e nesse desce e sobe para observá-las perdemos nosso binóculo, não sabemos como. Há um túnel escavado na rocha e que marca o fim da Reserva. Subindo um pouco mais há uma outra Reserva que se chama Lago Las Torres, descemos, o lago é muito bonito, tranqüilo com juncos e ali mesmo fizemos nosso almoço. Mais acima há a entrada para Puerto Cisnes, o Rio Cisnes já correndo ao nosso lado, um rio caudaloso, que nos acompanharia até à Vila, muitas vezes correndo em estreitos formados pelos Andes em escarpas altíssimas e verticais chamadas de farellones rocosos.

A estrada  é também de rípio e estava muito molhada pois havia chovido, alguns carros nos avisaram que havia uma interrupção e que estavam voltando pois não sabiam a que horas o trânsito ia ser normalizado. Resolvemos averiguar e nos deparamos com uma grande confusão. Uma enorme carreta havia atolado em uma curva, uma camioneta do exército tentara passar e ficou também atolada bloqueando definitivamente a estrada. Chegara um trator, um caminhão e amarrados um ao outro tentaram puxar em primeiro lugar o caminhão o que foi conseguido após algumas tentativas, finalmente o trânsito foi normalizado, estava muito frio e uma chuvinha começou a cair. Chegamos a Puerto Cisnes e logo nos encantamos. O povoado fica às margens do Canal Puyuhuapi, de águas extremamente tranqüilas. O entardecer estava meio chuvoso, procuramos uma cabaña e encontramos uma bem de frente para o canal, não era das melhores mas estava quentinha e tinha uma senhora vista através de uma enorme janela de vidro. Neste dia comemos a nossa tradicional sopa. No dia seguinte, fizemos um passeio pela cidade, fomos a uma biblioteca, ficamos sabendo que em 1957 havia chegado à cidade doña Eugenia, uma italiana muito culta que dedicou-se ao progresso do povoado. Obteve terras do Estado e construiu uma Escola Agrícola em regime de internato que se destinava a preparar crianças órfãs do centro do país como futuros colonos e assim conseguiu fixar a população. Descobrimos um excelente restaurante, no qual saboreamos um salmão de tirar o fôlego, com um vinho muito bom. Passeamos pela praia de areias escuras que faz um contraste bonito com as dezenas de embarcações de pesca, sempre pintadas de cores fortes e variadas. O amanhecer do dia 24 foi sensacional, o canal estava como um espelho, refletindo os barcos, as montanhas, um espetáculo! Saímos a fotografar tudo sabendo que não conseguiríamos reproduzir a beleza daquela hora. A tranqüilidade foi quebrada pela aproximação de um grande navio cargueiro da Navimag que faz o percurso Puerto Cisnes a Puerto Montt, todos correram para o porto, uma confusão de carros para descer outros para subir, alimentos, frutas, etc.

Logo depois partimos, olhando pela ultima vez antes de dobrarmos o paredão de rocha que encobriu toda a cidade. Linda cidade, com seu canal espelhado, suas embarcações coloridas jogadas e espalhadas na areia escura e suas casinhas de bonecas também muito coloridas. Valeu!

 

05 de fevereiro de 2001

Bol. 28

Trecho: De Puerto Cisnes(Ch) a Puyuhuapi(Ch)

Distâncias:  92 Km

 

Este, junto do trecho de Cochrane a Puerto Ibañez, foram por mim eleitos como os mais belos da Carretera Austral.

Saímos de Puerto Cisnes na manhã do dia 24 de janeiro deixando para trás um dos lugares mais bonitos da Carretera, não sabíamos que para frente ficaríamos de queixo caído com tanta beleza, e foi assim mesmo, todo mundo segurando o queixo.

Saindo do desvio para Puerto Cisnes e de novo na Carretera Austral entramos no Parque Nacional Queulat e fomos admirando o que se chama Cuesta Queulat palavra que significa terras longínquas. Muitas curvas longas que nos oferecem paisagens sobre o vale, o rio, a muralha de glaciares e a selva nativa. Os lados da estrada são cobertos por  Pangues, aquelas folhas que parecem, na forma, com folhas de mamão, só que enormes, como se fossem os parentes na pré história. Paramos no Parque para caminharmos até o Glaciar Colgante e esta foi a mais bonita caminhada que fizemos. Logo depois de estacionarmos o Troller, fizemos uma pequena trilha e o avistamos lá longe, magnífico. O Glaciar como que balança entre as rochas e caem dele duas grandes cachoeiras altíssimas. A Tamara, que depois do Glaciar San Rafael, não pode mais ver Glaciar que entra em transe, queria subir correndo para chegar mais perto. Resolvemos não deixar por menos, ali mesmo decidimos fazer a trilha até lá em cima. Há muita lama na subida, ficamos com nossas botas enlameadas, levamos três horas para chegarmos ao Mirador, mas valeu demais, é uma senhora trilha atraves de uma floresta nativa de árvores imensas. O Glaciar é azul e as cachoeiras estavam cada vez mais fortes, por causa do degelo, enfim, maravilhoso! Vou colocar uma foto, quem sabe consiga passar alguma coisa. Voltamos, limpamos nossos sapatos, nos recompusemos e nos fomos. Ainda no Parque, é que a Carretera passa dentro dele, demos uma pequena parada no porto que faz o transporte para as Termas de Puyuhuapi, pesquisamos os preços, achamos tudo muito caro e seguimos em frente para o pequeno vilarejo de Puyuhuapi.

Puyuhuapi, possui 537 habitantes, é um aglomerado de casas de madeira onde se destaca uma casa de estilo alemão grande e muito bonita, transformada em hotel e que é vista de qualquer parte da vila. Procuramos uma cabaña e nos instalamos confortavelmente. Mais uma vez tentamos, sem sucesso, acendermos a lareira, no que tivemos de ser auxiliadas pelo filho do dono. Para surpresa nossa, há um restaurante alemão muito bem instalado, com uma comida alemã gostosíssima, joelho de porco que a Cristina resolveu comer dois, para passar mal mais tarde, um maravilhoso purê alemão, bom vinho, enfim, a Carretera trás uma surpresa atras da outra.

A presença alemã nos foi explicada com a chegada em 1935 de quatro colonos alemães, encontraram uma selva impenetrável. Junto com suas famílias iniciaram uma próspera agricultura e agroindústria. Em 1980, os colonos importaram maquinaria alemã e construíram um pedaço da Carretera. A outra grande surpresa foi a fábrica de tapetes de Puyuhuapi, tapetes famosos, feitos totalmente à mão por mulheres chilotas que mantêm a tradição por gerações. Esta fábrica foi instalada em 1945 por um colono alemão e mais tarde foi ampliada por seu irmão e seu pai.

Fizemos uma visita e tivemos a oportunidade de ver todos os passos, desde o fio de cores muito bonitas, aos teares manuais sendo trabalhados nó a nó, o acabamento perfeito, tudo à mão, não há máquinas. Os preciosos tapetes são exportados ou vendidos aos turistas que passam por ali, são caros mas valem até mais!

Nos fomos depois da visita, retomando à Carretera Austral para Puerto Cárdenas que fica a 150 Km de Puyuhuapi.   

 

05 de fevereiro de 2001

Bol. 29

Trecho: De Puyuhuapi(Ch) a Puerto Cárdenas(Ch)

Distâncias:  146 Km

 

Saindo de Puyuhuapi, após a visita à fábrica de tapetes, demos uma parada na entrada norte do Parque de Queulat para conhecermos o Lago Risopatrón, um lago bonito de águas escuras e tranqüilas, cujas margens cobertas de florestas caem abruptamente, sem praias. Ficamos sentadas em um pequeno pier por um longo tempo a conversar despreocupadas.

Visitamos as Cabañas El Pangue, bonitas e bem agradáveis, oferecem inúmeros passeios, possuem piscina térmica, são de madeira, como todas que vimos até agora, ficam junto ao deságüe do Rio Risopatrón e em meio a um bosque. Tomamos um café, que não sei porque fez mal à Tamara e enjoou a Cristina, eu, como tomei um chá, nada senti. Comem que só e colocam a culpa no cafezinho!

Abastecemos em La Junta onde havia uma grande movimentação de carros, é que lá está o último posto de combustível antes de chegar a Chaitén e para quem vai à Argentina por Villa Santa Lucía e Futaleufú.

Um pouco mais à frente paramos em um local muito bonito onde dois rios se encontram, havia uma placa “Encontro dos rios Frio e Palena”, paramos para um picnic com toalhinha e tudo. Os rios se encontram fazendo uma curva formando várias praias.

Andando mais um pouco, cruzamos uma ponte e alguns carros estavam parados, paramos também e vimos de lá um enorme Glaciar ou Ventisquero, como alguns chamam, até hoje não sei a diferença, a ponte chama-se Puente do Ventisquero e de lá faz-se uma caminhada para vê-lo mais de perto. Resolvemos ir em frente.

Cruzamos uma grande ponte sobre o Lago Yelcho e depois dela está Puerto Cárdenas, havia uma pequena placa “cabañas” , para lá nos dirigimos. Entra-se por uma pista de aeroporto, pelo menos foi o que imaginamos, a conversa foi rápida e já estávamos instaladas.

Puerto Cárdenas é uma pequeníssima vila de umas seis casas, uma Hosteria à beira do lago Yelcho e as cabañas nas quais ficamos. Estava uma tarde maravilhosa, a vista da nossa cabaña era um Glaciar enorme pendurado nos Andes. Céu muito estrelado, ficamos conversando, saiu a tradicional sopa, a lareira foi acesa, o vinho estava ótimo, enfim, felicidade total!

Combinamos para o dia seguinte uma caminhada até ao Ventisquero Yelcho, uma visita ao “porto” do Lago Yelcho e à ponte sobre o rio de mesmo nome.

Cedinho, caminhamos sobre a ponte, o lago estava lindo, verde esmeralda, refletindo as montanhas, os glaciares estavam lá, paisagem de tirar o fôlego. Sob a ponte estavam acampados dois ciclistas, barraca armada, bicicletas amarradas. Ainda dormiam, na certa muito cansados. Para mim, os ciclistas são os maiores heróis da Carretera. Encontrei com eles em lugares onde o Troller andava com dificuldade, o que eu fazia em um dia, eles faziam em uma semana. Vão devagar, carregando sua bagagem que compõe-se de poucas roupas, barraca, saco de dormir, comida, panelas, tudo muito bem arrumado. Vão normalmente em dois, mas já vi muitos solitários. Às vezes surgem da poeira, acampam em qualquer lugar. Quando os encontro sempre diminuo muito a velocidade para não feri-los com as pedras. Vão cansados, empoeirados, enfrentando os ventos, driblando as pedras,  maravilhados com o que vêem e felizes da vida.

Arrumamos o Troller, voltamos 12 Km para iniciarmos a trilha para o Ventisquero Yelcho, que supúnhamos, ia ser uma barbada. Não foi bem assim. Caminhamos mais de três horas em cima de muita lama, bosques, pedras, pangues, mas fomos em frente, de vez em quando encontrávamos doidos como nós, pessoas mais velhas apoiadas em bengalas (vou comprar uma para mim, qualquer dia desses). Chegamos à parede do Glaciar, com muitas cascatas. Descansamos observando aquela natureza privilegiada. Voltamos pelo mesmo caminho, muito cansadas, com lama até o joelho, mortas de satisfeitas.

Essa, e a caminhada no PETAR para ver as cachoeiras  das Andorinha e Beija Flor, foram, para mim, as mais difíceis.

Uma coisa boa que fiz nessa viagem foi , em Ushuaia, comprar um par de botas de cano curto, próprias para caminhadas, dois números acima do meu e têm sido pau para toda obra. As calças reversíveis (bermuda, calça comprida), de um material super leve e fáceis de lavar e secar, são também minhas companheiras de todos os dias. Coloquei no fundo da mala as de malha, que havia trazido, assim como a jeans e as de brim e mandei tudo de volta pelo Haroldo. Hoje ando só com essas calças, camisetas que já estão super gastas pelas lavanderias rápidas e que deverão ser deixadas em algum lugar no meio do caminho. Me desfiz também dos dois tênis que havia trazido, um dos quais soltou o solado na trilha de Aparados da Serra, de forma tal que estou viajando com duas calças, várias camisetas velhas, um par de botas, meias bem gastas, meu computador, um tanque de combustível seco que talvez seja utilizado no Deserto e depois jogado fora. Devo lembrar que não necessitei de combustível extra na Carretera Austral. Existem postos ou locais de abastecimento em camburões durante todo o percurso. A super simplificação foi um passo muito importante nesta viagem. Conclusão: é preciso pouquíssima roupa para ser feliz!

 

05 de fevereiro de 2001

Bol. 30

Trecho: De Puerto Cárdenas(Ch) a Chaitén(Ch)

Distâncias:  72 Km

 

Depois da descida, na trilha que nos levou ao paredão do Glaciar Yelcho, limpamos nossos sapatos no rio e subimos no Troller que ficara estacionado por quase seis horas nos esperando. Pegamos a estrada, estávamos no dia 26 de janeiro do ano de 2001, passamos novamente pelo Lago Yelcho, belíssimo, a cadeia de ventisqueros em cima dos Andes, e à caminho do nosso último trecho na Carretera: Puerto Cárdenas a Chaitén.

Este é um trecho pequeno de 72 Km e uma parte em asfalto. Chegamos a Chaitén ainda cedo, nos hospedamos nas Cabañas Brisas do Mar e fomos direto à Navimag confirmar nossa presença, no dia seguinte, no transbordador que nos levaria a Quellón, na Ilha de Chiloé, de lá seguiríamos até Puerto Montt.

Tudo confirmado, fizemos o pagamento, cada uma pagou U$ 45, onde estava incluído a passagem do Troller.

Chaitén é uma cidade de 4.000 habitantes, ruas largas e retas, que se estende às margens da Enseada de Chaitén. Quando chegamos, a enseada estava tranqüila e a Cristina definiu como um mundo prateado, é que não conseguíamos divisar o limite entre o céu e o mar, estava tudo da cor prata. Comemos, para variar, um delicioso salmão a la plancha, com vinho, apreciando o mundo prateado. Mais tarde, quando o sol estava se pondo o mundo ficou dourado, cor de rosa e, finalmente anoiteceu, nessa hora eu já havia me recolhido, me bateu um cansaço, acho que foi um relaxamento por considerar a missão Carretera Austral cumprida. As vovós se garantiram!

No dia seguinte soubemos que o transbordador estava atrasado, ao invés de sair às 9:00 sairia às 12:00.

Demos ainda uma volta na praia para vermos os cisnes de pescoço negro, que se espalhavam pelas margens da enseada, em grande número, conversei com algumas pessoas que ficaram curiosas com o Troller, fizemos algumas fotos e nos dirigimos ao cais, que nessa hora já estava bem movimentado, já se formara uma fila para a viagem. Meio dia os carros começaram a entrar, comecei a ficar preocupada com a entrada de marcha ré, é que em Porvenir quase caí no mar com Troller e tudo em uma manobra infeliz que a todos causou espanto e, aqui para nós, eu vi gente rindo. Tudo terminou bem quando me deixaram entrar de frente mas, na descida de Quellón a coisa ficou meio complicada, tive que esperar a saída de todo mundo para poder fazer uma manobra no transbordador e, enfim sair de frente. Deu tudo certo!

A viagem de Chaitén a Quellón dura 05 horas, estávamos de butaca (cadeira reclinável) e deu para dormir bem, começou um filme que foi interrompido sem aviso nenhum e ficou por isso mesmo. Lá fora, os Andes com seus glaciares iam ficando para trás, o vento e o frio batiam forte. Comecei a fazer um balanço da viagem …

Para se fazer a Carretera Austral é preciso mais do que coragem e disposição, é preciso gostar da natureza, dispor de tempo e paciência para desfrutá-la, apreciar, escutar, sentir, respirar, cheirar. Fazer a Carretera Austral, correndo só para dizer que fez, não vale!

Comprar o guia Turistel do Chile, atualizado e que é dividido em regiões, Sul, Centro e Norte é recomendado, pois lendo as atrações de cada trecho antes de realiza-lo nos dá chance de conhecer, inclusive, um pouco da História, é um guia excelente, não deixe de comprar!

Adquirir o mapinha da Carretera, em qualquer cidade ao longo dela, também é altamente recomendado pois ele lhe fornece a localização dos postos de combustíveis e distâncias entre as cidades (vou colocar três fotos para se ter uma idéia).

Comprar, frutas (as chilenas são deliciosas, principalmente as ameixas e pêssegos), sopas instantâneas, pão, leite em pó, nescafé, chá, manteiga, bolachas, salaminho é muito bom, pois em locais bonitos pode-se parar, fazer um lanche apreciando tudo e as sopas instantâneas quebram o maior galho, pois muitas vezes as pequenas cidades não dispõem de restaurantes ou então chegando tarde e estando cansado, no frio, uma sopinha cai muito bem!

Passar em um mercado e comprar vinhos é também uma boa pedida. São muito mais baratos que nos restaurantes e nada como um bom vinho chileno ao pé da lareira, conversando miolo de pote!

Tenho que recomendar um carro alto, por causa dos caminhos com muitas pedras, 4×4 porque eu sentia o Troller bem mais seguro no chão, revisado, para evitar ficar parado por muito tempo esperando socorro, a Carretera é muito solitária, existem trechos que a gente anda por horas e não vê ninguém; pneus novos e adequados são também bastante importantes. Não é necessário comprar pneus para lama, não há lama na Carretera Austral, há muita pedra e poeira! É bom também um ar condicionado para driblar a poeira dentro do carro, tornando a viagem bem mais cômoda!

Ao terminar a Carretera, trocar tudo quanto é de filtro, ar, óleo, combustível e fazer uma revisão nos amortecedores, barras da direção, apesar de todo o cuidado, as do Troller curvaram chegando a encostar de leve no diferencial.

Guiar na Carretera exige muita atenção, existem caminhos estreitos que só passam um carro e outros que, além de estreitos saem arrodeando rochas, de modo que ir metendo vagarosamente o nariz do carro nas curvas é essencial para não provocar acidentes que podem ser feios, não vi um acidente na Carretera!

Evitar saídas e freadas bruscas para evitar que os pneus se rasguem nas pedras pontiagudas que ficam à margem da estrada, junto a pedras redondas e inocentes.

Atenção nas ultrapassagens, sempre em baixa velocidade, para não jogar e nem receber pedradas, um para brisa quebrado durante o percurso deve ser um problema sério!

Muito cuidado com os ciclistas, eles são muito desprotegidos, sempre passar em baixa velocidade, uma pedrada de mau jeito em um ciclista pode ser fatal.

Fazer trechos pequenos é o ideal para poder apreciar tudo com calma e não ficar muito cansado.

Em toda a Carretera há combustível, mas é bom manter o tanque sempre cheio para não passar surpresas muitos camping, alguns bem estruturados, principalmente em parques, para quem não gostar há ao lado da estrada lugares incríveis para acampar.

Hosterias, cabañas são encontradas nas vilas, não convém parar muito tarde para não ficar sem opção. Viajando em três ou mais pessoas o esquema de cabañas fica mais barato e mais cômodo.

Enfim, bom senso nunca fez mal a ninguém!

E agora, eu posso dizer para vocês, tem bicho não!

 

08 de fevereiro de 2001

Bol. 31

Trecho: De Chaitén(Ch) a Puerto Montt(Ch)

Distâncias:  299 Km mais 6 horas de Ferry

 

A travessia no transbordador Chaitén – Quellón durou 06 horas, durante as quais dormimos nas nossa butacas (cadeiras reclináveis) e assistimos a um filme pela metade. Em Quellón a descida dos carros foi muito rápida e logo tomamos a direção de Castro onde dormiríamos. Esta é a terceira vez que venho à Ilha de Chiloé, das quais a mais interessante foi em 1997, quando vim com a Lucinha e Cristina e fizemos um circuito pelo interior em busca de capelas de madeira. Elas são lindas e estão espalhadas por toda a Ilha, algumas inacreditavelmente grandes, outras bem miudinhas. Dessa vez a nossa estadia em Chiloé ia ser muito curta. O tempo estava curto. Em Castro, tivemos muita dificuldade para encontrarmos hospedagem e deu de tudo, hospedarias fedorentas, sujas, caras, caríssimas. Retornamos à estrada e localizamos uma cabaña ótima e que, pelo adiantado da hora, nos custou barato, para o seu nível. A sopinha funcionou mais uma vez e no dia seguinte cedo já estávamos de partida. Troller arrumado, caminho seguido, passamos na Praça, visitamos a Catedral, ou Igreja de São Francisco, que foi projetada por um arquiteto italiano para ser em cimento, mas que foi feita toda em madeira da região por artesãos locais, maravilhosa, agora toda reformada, pintada por fora e com toda a madeira interior lixada. É muito bonita! Fomos a uma feira de artesanato, onde mulheres da Ilha mostravam seus trabalhos tentando manter a cultura chilota. Encontramos um grupo de brasileiras que viajavam de ônibus pelo Chile, fizemos umas alegres fotografias e saímos da cidade rumo a Ancud. Em Ancud pegaríamos um Ferry que nos levaria a Párgua e, daí, pela estrada, chegaríamos a Puerto Montt. Demos uma rápida passagem no Forte de Ancud para a Tamara conhecer e fomos embora. A passagem de Ferry para Puerto Montt tem a duração de uma meia hora no máximo e de 15 em 15 minutos sai um.  A chuva começou a bater e nossa estadia foi caracterizada pela chuva forte. Basta dizer que passamos uma tarde toda no Shopping, fugindo dela. Nosso Troller estava na oficina trocando filtros e óleos e fazendo uma revisão nos amortecedores e rodas. Mais tarde tive a notícia que havia sofrido uma avaria durante a Carretera Austral: suas barras da direção haviam entortado e a oficina não quis redirecioná-las com medo de quebrar e a situação ficar pior.

Em Puerto Montt também sofremos um abalo em nossa caixinha, quando fomos ao Mercado Central comer mariscos. Como era no Mercado Central, nem perguntamos o preço, e qual não foi o nosso espanto quando vimos que pagaríamos a bagatela de U$ 18 por um prato. Como foram dois pratos, já viram o prejuízo. A Cristina chamou-nos de abestadas, porque, segundo ela, havia visto o preço, mas ficou calada para ver o que acontecia. Pois sim! Tenho certeza que ela também não viu!

Mas, do mesmo jeito que nos gozou, mais tarde demos o troco. Em um outro restaurante, com a chuva batendo forte, as luzes apagaram, saímos correndo para pegar um táxi, mas, a operação foi suspensa porque ela sentiu falta do seu óculos de grau. Corrida para o restaurante, confusão no escuro, velas acesas, nada de óculos e sem mais nem menos ele apareceu no seu pescoço. Dá para agüentar?  O taxista que tinha ficado esperando, talvez curioso e espantado com a confusão daquelas três malucas, correndo no escuro, feito baratas tontas, nos levou para casa. Que coisa!

Uma outra coisa engraçada, ocorreu, quando saíram as primeiras fotos da Carretera Austral. As fotografias provocaram uma corrida às farmácias locais à procura de cremes para massagem nos cabelos, tinturas, banho de brilho, loção tônica, creme hidratante, máscaras faciais e outros artifícios para recompor o visual que, segundo as fotos, tinha sofrido sérios abalos durante o percurso. Havia sido afetado pelo vento, poeira, variação de temperatura e outros. Nessa tarde, um circo foi a melhor definição para o ambiente do nosso quarto, no hotel!

Pegando o Troller na oficina, resolvemos seguir em frente e resolver o problema das barras em outra freguesia, o que foi providenciado em Valdívia, porque a direção ficou impossível. Coitado do Troller, entregue a tanta incompetência! Ele tem sido um sofredor!

 

Diários de 32 a 44

09 de fevereiro de 2001

 Bol. 32

Trecho: De Puerto Montt (Cl) a Valdívia (Cl)

Distâncias: 386 km

O que já rodei até Talca: 18.356 km

 

Estou escrevendo de Talca no Chile.

Ainda chovendo, saímos de Puerto Montt, pedindo a Deus que a chuva parasse para vermos o Vulcão Osorno bem inteirinho, na região dos Lagos Chilenos.

Visitamos Puerto Varas e, do outro lado do Lago Llanquihué, o Osorno nem sinal! Demos a volta no Lago, fomos aos Saltos de Petrohué e ele só de muito leve apareceu, só o tempo da Tamara fazer uma foto. Esta foi a vez que os Saltos estiveram mais bonitos, muita água e aquele verde esmeralda que me espanta todas as vezes que vou lá.

Almoçamos por ali mesmo, passeamos pela beira do Lago Esmeralda ou Todos os Santos, como alguns chamam. Voltamos para o Llanquihué e chegamos a Frutillar que é uma cidade muito bonitinha, com arquitetura alemã, muito limpa. Visitamos o Museu, passeamos pelos seus jardins e nos fomos. O trecho para Valdívia foi terrível, o Troller ia para onde queria, eu não conseguia domá-lo, as ultrapassagens eram difíceis, por isso tive que ir muito devagar, já sabendo que em Valdívia teria que resolver o quanto antes o problema das barras tortas. Cheguei em Valdívia muito cansada. Logo na entrada, muitas pessoas oferecendo cabañas e foi muito fácil nos instalarmos bem no centro. A sopinha funcionou mais uma vez. No dia seguinte, o Troller foi internado.

Valdivia é uma cidade muito bonita, seu nome é uma homenagem a Pedro de Valdivia, seu fundador, e tem uma bonita história. Foi destruída pelos índios mapuches que resistiam bravamente à dominação espanhola. Posteriormente, foi reconstruída  e fortificada com três fortes o de Corral, Mancera e Niebla, este recebeu o incrível nome de Castillo de la Pura y Limpia Concepcion de Monfort de Lemus (pode?), estes três fortes juntos, foram considerados pelos espanhóis, uma defesa perfeita até que, em 1820, Lorde Cochrane, no comando das forças navais chilenas, em um ataque surpresa, conseguiu tomar o Forte de Corral e logo todos os outros caíram. Esta história é encenada diariamente no Forte para que todas as pessoas que visitam a Ilha de Corral saibam como o fato se deu. Os figurantes são vestidos a caráter, há fogos de artifício simulando as explosões dos canhões, enfim, um espetáculo que nós assistimos junto a uma multidão de turistas. Suas muralhas estão bem conservadas e os canhões também. Vale a pena o passeio, sem falar na travessia de barco, que é muito bonita. Na volta de Niebla paramos na fábrica de cerveja e cervejaria Kunstmann e tomamos um chope delicioso. Esta cerveja, é transportada pela cidade até os bares e restaurantes, em tonéis de madeira, em cima de uma espécie de carruagem aberta, puxada por cavalos lindíssimos e dois cocheiros, o que chama atenção de todos. Na primeira vez que vi isto pensei que se tratasse de alguma festa folclórica, mas não, faz parte da tradição da fábrica. A cidade conserva muitos casarões alemães que ali moraram entre 1850 e 1875 e que foram grandes responsáveis pelo avanço econômico da cidade. Em 1960 ela foi praticamente arrasada por um terremoto seguido de maremoto, o rio subiu e ela afundou três metros, mas conseguiu renascer linda como é hoje.

Visitamos o Campus da Universidade Austral do Chile, caminhamos em suas alamedas de álamos e depois visitamos um casarão alemão lindíssimo que é hoje uma espécie de Museu. Todos os aposentos estão mobiliados, atapetados e cortinados com peças da época. Nesse dia, estava acontecendo uma exposição de auto-retratos de pintores chilenos. Foi uma visita bem interessante.

Foi em Valdivia que fomos a uma feira e compramos um salmão fresquinho, que foi feito pela Cristina e a Tamara. Eu, só cortei as verduras, pois sou um desastre na cozinha. Ficou delicioso e  foi degustado com um excelente vinho. Comemos muito e bebemos também. Este salmão cozido, foi considerado como o segundo melhor salmão da viagem. O Troller saiu à noite, debaixo de uma grande chuva. Ficou bom. Dirigindo até Talca, senti firmeza.

No dia seguinte, dia 02 de fevereiro (dia da grande Festa de Yemanjá, na Bahia), saímos para Villarica e Pucón, pretendíamos dormir por lá, mas as coisas não se passaram assim. Por incrível que pareça não havia lugar para nós, nas duas cidades. O que havia, era tão caro, que achamos que não valia a pena e, a cabaña que achamos, e que estava com um preço razoável (em média, estamos pagando por cabañas U$ 65), não fornecia toalhas de banho, achamos um desaforo, seguimos em frente, mas essa é uma outra história.

 

18 de fevereiro de 2001

 Bol.33

Trecho: De Valdívia(Cl) a Talca(Cl)

 

Já estou em Calama, em pleno Deserto de Atacama. Para adiantar, porque ainda estou escrevendo sobre Talca, estou em uma região totalmente desconhecida para mim, é tudo uma grande surpresa, as espetaculares cores do deserto ao cair da tarde, a solidão, a grandiosidade das paisagens, o sol, o vento, o clima seco rachando a pele e a boca, o calor durante o dia, o frio durante a noite, enfim, um deserto de verdade!

Mas agora ainda continuarei falando de Talca e dos caminhos que me trouxeram até o Atacama. Esses caminhos foram bem diferentes daqueles que trilhei no sul do Chile. Escreverei sobre eles em San Pedro de Atacama. Não percam!

Chegamos à Villarica em meio a uma grande movimentação. Uma feira de artesanato e as ruas lotadas de turistas. Fomos ao Centro de Informações Turísticas, demos uma volta pela cidade e nos dirigimos para Pucón. A estrada é cheia de cabañas muito bonitas e casas de veraneio, tudo muito bem cuidado. Pucón é um centro turístico dos mais importantes do Chile. Oferece aos turistas uma variedade muito grande de passeios, desde caminhadas ao Vulcão Villarica a pé ou de carro, a esportes radicais, cavalgadas e é tudo muito colorido, barzinhos para todos os lados, restaurantes, lojas, etc., etc. Estávamos ali para ver o Vulcão Villarica, já que não tínhamos visto o Osorno,  talvez subir à sua cratera, quem sabe a Tamara fizesse uma cavalgada e vai por aí. O Villarica estava encoberto, a Cristina estava mareada, porque tinha lido com o carro em movimento e a confusão na cidade estava muito grande. Sentamos em um barzinho, bem de frente ao Vulcão Villarica e ficamos de plantão, as nuvens foram subindo e ele finalmente apareceu com todo o seu esplendor, lindíssimo, seu cone perfeito, o céu muito azul o que dava um contraste muito bonito com o branco do gelo. Valeu! Depois disso começamos a procurar um hotel, cabañas ou hostería, para no dia seguinte fazermos alguns passeios. Não havia lugar em Pucón ou Villarica e o que havia estava pela hora da morte. Achamos uma com um preço razoável mas a senhora não dava toalhas de banho e botou um boneco danado, o pior é que já havíamos descido as malas e foi aquela trabalheira para arrumarmos tudo novamente. Resolvemos ir subindo no rumo de Santiago.

Saímos pela estrada e fomos presenteadas com uma bonita vista do Vulcão Villarica. Do outro lado da estrada, em uma entradinha para uma praia, ele olhava para nós atrás do Lago Villarica de águas muito azuis. Estava totalmente descoberto, maravilhoso! Ficamos ali embasbacadas e nos achando muito sortudas. Sentamos, comemos os sanduíches preparados pela Cristina e depois de algum tempo partimos. O Vulcão Villarica me acompanhou pelo retrovisor durante muito tempo, ocupando todo o visual. Que sorte!

Já estava ficando tarde e resolvemos parar em uma cidade cujo nome é Mulchen. Há um hotel bem confortável, o único da cidade. Bajamos nuestras maletas, um bom banho, aliás excelente banho e como no hotel não havia restaurantes fomos ao Clube Social de Mulchen, um velho casarão meio descaído Tomamos uma sopa que o “maitre” chamou de contundente, com aquele sotaque dramático próprio da língua espanhola, que alguns chilenos adoram maximizar. A Cristina se espantou já imaginando tiros e facadas, como uma boa paulista  e foi logo perguntando: Que é uma sopa contundente? Ao que o senhor prontamente respondeu: Com um grande ovo, senhora! E assim tomamos a tal sopa contundente, indo dormir contundidos. Ela era bem ruinzinha!

Saímos cedo e, novamente na Rodovia Pan-americana, começamos a subir para Santiago. A partir daí foi um tal de ver vulcões, que não acabava mais.  A Cordilheira sempre à nossa direita, alta, com os cumes cobertos de gelo mostrava vulcões para todos os lados e dentro do Troller as exclamações eram sempre: Olha mais um! A Cristina providenciou rapidamente uma lida no guia e ficamos sabendo que naquela região há o que se costuma chamar de “O cinturão de fogo” constituído por muitos vulcões com atividade intensa. A atividade de um pode desencadear atividade nos outros e isto provoca destruição e modificações ambientais muito grandes. E lá fomos nós contando vulcões enquanto subíamos a Pan-americana.  Em um restaurante paramos para comer pastel de choclo, uma comida típica muito gostosa. Choclo é milho, para nós. Faz-se um refogado de frango em pedaços, com azeitona, verdurinhas, cebola, passas, milho, e joga-se uma pasta de milho em cima, como se fosse massa de pamonha. Esta massa pode ser doce ou salgada, leva-se ao fogo para dourar. Já avisei que sou um desastre na cozinha, portanto, não aconselho ninguém a fazer pasteis de choclo com a minha receita! Na altura de Talca resolvemos parar. Não queríamos chegar em Santiago à noite. Como não queríamos ficar em um hotel no centro da cidade, começamos a procurar nos arredores e foi ai que paramos para visitar a Villa Huilquilemu que é um casarão, exemplo da arquitetura rural  do início do século XIX , transformada em Museu e que pertence à Universidade de Maule. O casarão é muito bem conservado, com um madeiramento lindíssimo, amplos corredores, bem ao estilo espanhol, sustentados por colunas também de madeira, piso de tijolo rústico  e aqueles pátios internos cheios de árvores trazidas de todas as partes do mundo. Chama atenção um caramanchão enorme coberto de glicínias. Com a senhora da portaria do Museu, pegamos o nome de um hotel ali perto e para lá nos dirigimos, Hotel Universitário e, tivemos um feliz encontro com uma brasileira de nome Isabel, que junto com seu marido, o chileno Osvaldo, são os donos. Foram muito gentis e logo de cara nos demos muito bem. Nessa noite, decidi não ir mais a Santiago. Cristina e Tamara viajaram no dia seguinte, fui com elas até à Rodoviária de Talca, e eu permaneci por vários dias, para descansar e escrever.

Com meus novos amigos, fui à Constitución, uma praia no Pacífico, de areias escuras e enormes formações rochosas, que a fazem muito especial.

Obrigada meus amigos, Isabel, Osvaldo, Alejandro (meu neto chileno) e Esmeralda pelos dias gostosos no Hotel Universitário, comendo uma comida regional caseira, pela conversa após o jantar, tomando um delicioso pisco sour e por sua gentileza. Foi muita sorte encontrá-los!

Marquei um encontro com as vovós Lucinha e Rita, na Rodoviária de Algarrobo, uma cidadezinha à beira do Pacífico, iríamos à Isla Negra onde fica a casa do Pablo Neruda.

Começaríamos, no dia seguinte, a nossa subida para o Deserto de Atacama.

O Deserto de Atacama nos espera! Que venga el Desierto!

 

20 de fevereiro de 2001

 Bol. 34

Trecho: De Talca (Cl) a Los Vilos (Cl)

O que já rodei até San Pedro: 20.747 Km

Distâncias: Talca/Algarrobo: 357 km; Algarrobo/Los Vilos: 378 km. 

 

Saí de Talca, no dia 11 de fevereiro, após me despedir de Isabel, Esmeralda e Alejandro, no Hotel Universitário. Passei pelo Centro da cidade para comprar um chapéu típico da região (parecido com aqueles usados pelo Zorro) e me dirigi para Algarrobo, uma pequena cidade à beira do Pacífico, onde me encontraria com as duas avós que me acompanhariam ao Deserto, Lucinha, minha irmã e Rita Cabral. Fui pela Autopista até uma pequena cidade que se chama Paine, já bem perto de Santiago e daí tomei uma estrada para o litoral, passando pela antiga ponte de Loquén, que é uma ponte bem extensa e muito estreita. O interessante dessa ponte é que paga-se um pedágio e … pode começar a ler um livro, pois, como ela é muito estreita só passa carro em um sentido. Sendo domingo, muitas músicas foram escutadas, antes que o Troller passasse sobre ela. Novamente na Autopista, dobrei para Cartagena, já no Pacífico, e fui subindo pela costa passando por Isla Negra, El Quisco até chegar a Algarrobo. A estradinha que passa por esses lugares é também muito estreita, para o trânsito no fim de semana, o engarrafamento estava infernal e o calor era grande, tudo isso me fez atrasar em uma hora o encontro com as duas avós. Nos encontramos na Rodoviária, que é na verdade, um ponto de ônibus. Havia uma grande confusão de gente, muita poeira e … lá estava a Lucinha sentadinha em um muro, tomando conta das malas, enquanto a Rita já havia saído em busca de um telefone. Elas haviam chegado de Santiago desde às 13:00 e sofreram muito com o calor. Nos abraçamos, trocamos algumas informações e partimos à procura de um hotel. Como a cidade estava muito cheia, tivemos dificuldade para encontrar um. Finalmente ficamos  em um muito simples à beira mar , com uma bonita vista sobre o Pacífico. Um passeio à tarde pelo calçadão à beira mar, que é diferente pois não há calçamento e sim areia. A praia, como as demais do Chile tem a areia muito escura. Pela  primeira vez em minha vida vi  enormes pelicanos que ficavam boiando quietos, como esfinges, ao pôr do sol. Uma Paila Mariñera (uma espécie de sopa com todos os frutos do mar chilenos, que não são poucos!), um bom vinho chileno, novidades do Ceará, algumas notícias sobre o Brasil e já estávamos no ponto para uma boa dormida. Já deitadas, iniciamos o planejamento para os próximos dias, mas dormimos antes do final, de forma tal que … o improviso continua, o que é muito bom!

No dia seguinte, 12 de fevereiro, já na partida, visitamos a Igreja de Santa Teresa de los Andes, muito pequena, construída em 1837, com um campanário super interessante, mas que, infelizmente estava fechada. De Algarrobo nos dirigimos para o sul, no mesmo percurso que eu fizera no dia anterior, só que em sentido contrário, passando pela praia de El Quisco onde descemos e fizemos uma longa caminhada pela Punta de Tralca para  as enormes esculturas em granito realizadas por alguns escultores franceses em homenagem a Pablo Neruda ( oito esculturas, nos disseram, mas, com muita imaginação só conseguimos ver quatro). Mais 4 km ao sul chegamos à Isla Negra. De cara, tivemos uma decepção, a casa do Pablo Neruda estava fechada (fecha às segundas feiras) e ficamos olhando tudo, pelos buraquinhos da cerca, mas não vimos suas coleções de carrancas de proa e  objetos náuticos. Neruda viveu nessa casa, construída por ele,  parte de sua vida. A casa fica no alto, como quase todas de Isla Negra. O poeta, atualmente, vive ali pelos jardins de onde vê o mar muito azul, bem abaixo e, de vez em quando, nos dias quentes, enfrenta as ondas que quebram violentas nas rochas, nadando muito além delas. Seu túmulo está ali para ser visitado. Muitas pessoas ficam paradas olhando para a casa lá no alto como que esperando um aceno, um autógrafo, quem sabe …

Nas redondezas há uma feirinha de artesanato, pessoas vendendo refrigerantes e palmeiras (uma espécie de bolacha de massa folhada, do tamanho de uma pizza). Um pouco tristes, pegamos a estrada para o norte. Agora sim, estávamos indo para o Deserto! Valparaíso, Viña del Mar, Reñaca, Quintero, Maitencillo e Águas Brancas. Em Águas Brancas ficamos impressionadas com a arquitetura das casas, penduradas lá no alto, sobre rochas,  varandas em madeira, se equilibrando em colunas também de madeira, tetos de palha e uma profusão de flores. Fomos passando, vendo tudo e, às vezes parando para ver o mar. O Pacífico é muito bonito. Às vezes muito claro, outras meio enevoado, algumas vezes calmo, em enseadas, outras violento em enormes ondas chocando em despenhadeiros, mas sempre impressionantemente azul!

Em Maitencillo, nos afastamos do mar e, novamente na Pan-americana ou Ruta 5, na altura de La Ligua, retornamos a ele que nos acompanharia até Chañaral bem ao norte,  e, de Mirador em Mirador, chegamos a Los Vilos. Achar Hotel não foi fácil, muita gente veraneando, finalmente uma cabaña e estávamos em casa. No dia seguinte seguiríamos para La Serena bem ao norte e já mais perto do Deserto. À medida que avançávamos a minha curiosidade aumentava. O que encontraria? A mesma paisagem dos filmes sobre o Saara, do tipo “O céu que nos protege”, ou a mesma que vi um dia no Cairo quando visitei as pirâmides ou então o que vira a caminho de Luxor, ao sul do Egito?

 

21 de fevereiro de 2001

Bol. 35

Trecho: De Los Vilos (Cl) a La Serena (Cl)

Distância: 290 km 

 

Saímos de Los Vilos no dia 13 de fevereiro, após uma calibrada nos pneus. Entramos na Pan-americana , agora uma autopista excelente e lá fomos nós no rumo de La Serena. Resolvemos pegar a estrada para Ovalle, uma cidade localizada no Vale do Rio Limarí, um dos mais férteis daquela região. Visitaríamos três atrações interessantes: Barraza com sua igrejinha, o Museu de Ovalle e o Valle del Encanto.

O sol já estava muito quente e já sentíamos, no rosto, seus efeitos e era um tal de passar cremes e protetores que não acabava mais. À medida que o Deserto se aproximava, a pele e os lábios sofriam mais e as reclamações sobre os estragos no visual, aumentavam.

O Troller seguia satisfeito. Já havia enfrentado os ventos da Patagônia, as estradas de rípio da Carretera Austral e seguia firme espalhando o barulho do seu motor pela imensidão do pré Deserto!

Abandonamos a excelente Rodovia Pan-americana para entrarmos na Ruta 45. Logo na entrada, um rípio nos levou à Barraza, um povoado de 319 habitantes. A chegada do Troller causou grande curiosidade. Há muitos elogios para a cor, os adesivos e vou explicando que é fabricado no Ceará, é de fibra, há curiosidade com relação ao motor e comportamento no rípio e sempre muito espanto quando explico o projeto.

A grande atração de Barraza é a Igreja de San Antonio del Mar y la Puríssima Concepción, construída em 1681 e reedificada em 1795. A igreja é muito bonita na sua simplicidade e muito querida e cuidada pela população, é considerada Monumento Nacional e a seu lado fica o Museu Paroquial com esculturas raríssimas em madeira.

Voltamos para a Ruta 45 e um pouco mais à frente entramos para o Monumento Nacional Valle del Encanto. Há um guardaparque, uma lojinha de artesanato, paga-se uma entrada e o Encanto é todo nosso. No Valle, foram encontrados vestígios de culturas passadas, datados de 2000 AC, mas, os trabalhos mais visíveis, datam de 700 DC, distribuídos em uma paisagem semi árida de muitas rochas, cactos e poucas árvores. Com um mapa que nos dizia pouca coisa, saímos em busca de petroglifos, tacitas e pictografias. O sol  escaldante, encerrou nossa carreira arqueológica, após conseguirmos identificar um petroglifo (um rosto com adorno na cabeça, com olhos e nariz redondos, sem boca, definido como estilo Limari) e uma tacita. Em uma parada debaixo de uma pequena árvore, que já abrigava vários carros, cada qual protegendo sua área, resumida em centímetros, aprendemos o significado das palavras petroglifos, que são desenhos em rochas e, tacitas, que são pedras com buracos ovóides  de 10 a 15 cm de diâmetro, que serviriam para colocar alimentos em cerimônias rituais. Partimos para coisas mais objetivas, como sede e fome. Fizemos um lanche e demos por concluído nosso programa cultural no Valle del Encanto. Naquele momento, a felicidade foi definida como “o ar condicionado do Troller”.  O sol implacável nos esperava em Ovalle. Saímos em busca de um queijo de cabra, muito recomendado. Saímos, é modo de dizer, porque eu, fiquei sentada na calçada escutando Bebel Gilberto, enquanto as avós partiram para o Mercado. Encostada na árvore, dei uma boa cochilada, acordando com um formigueiro em polvorosa ao meu redor. As avós chegaram com um almoço completo: pão, queijo de cabra, suco de laranja e um vinho de caixa. Estendemos nossa toalhinha de picnic, comprada em Pacatuba e, muito recomendada pela Cristina, que exigiu sua devolução no retorno. Bom, o fato é que comemos bastante. A sobremesa foi composta de figos secos e passas. Um copo de suco e fomos ao Museo del Limarí.

O Museu me impressionou pela organização e iluminação perfeita das peças de cerâmica encontradas em todo o vale, fabricadas pelos Diaguitas, um povo que dominou as técnicas agrícolas e metalúrgicas e que chegou à região no ano 1000.

As peças, para uso doméstico e rituais, são impressionantes pela espessura da cerâmica e pelos desenhos geométricos muito elaborados, em preto e branco, contrastantes com a cor avermelhada do barro. Essa cerâmica é orgulho do Chile e está entre as mais belas da América. Depois, em La Serena veria uma outra coleção dessas peças e mais uma vez ficaria impressionada com sua delicadeza e beleza. Valeu a pena! Depois dessa visita, nos dirigimos para o norte, por uma estrada que atravessava o Vale do Rio Limarí. O Vale nos acompanhou, com seus campos irrigados, de um verde que não víamos há muito tempo.

Assim que entramos em La Serena, observamos que aquela era uma cidade diferente, o que nos levou à imediata decisão de ficarmos por lá por pelo menos mais um dia. Domina a arquitetura espanhola nas suas 29 igrejas e nos casarões com lindos balcões de ferro batido, muitas vezes com pinturas delicadas, o que nos fazia, muitas vezes, ficar de pescoço torto de tanto olhar para cima.  É uma cidade grande, de 110.000 habitantes unida a Coquimbo, uma outra importante cidade da região. Quantas vezes percorremos a Avenida Francisco de Aguirre apreciando as esculturas em mármore, réplicas de esculturas clássicas, infelizmente pichadas por vândalos. Valeu a pena a visita ao Mercado La Recova, uma festa de comida, artesanato, réplicas da cerâmica Diaguita, um conjunto tocando música andina, um senhor tocando harpa e muitos turistas. A visita à Igreja de San Francisco nos decepcionou. Sua restauração modificou muito a irregularidade das pedras utilizadas em suas paredes de quase 1 metro de largura, e, de repente tive a impressão de que a Igreja era recém construída e não há quase 400 anos. Sou uma leiga em restauração mas acho que restaurações assim devem ser proibidas. Por outro lado, valeu a visita ao Museu Arqueológico. Nos surpreendemos com um autêntico Moai da Ilha de Páscoa. Enorme, foi colocado em uma posição de destaque, com uma iluminação perfeita, realçado por uma parede azul, o que lhe proporcionou um efeito dramático que impressiona a todos os que passam. Ele ficava nos olhando com seus olhos vazados e aquela fisionomia impenetrável. Fiquei ali parada, o que queriam mesmo dizer os Moais da Ilha de Páscoa? Como aqueles homens primitivos conseguiram coloca-los em pé? A quem esperavam, todos olhando para o mar? Me lembrei também do barco de junco da Expedição Kon Tiki que se espatifou nas praias da Ilha de Páscoa e que nos idos dos anos 50 povoou minha imaginação de pré adolescente. Fiz questão de uma foto bem pertinho daquele Moai.

Uma ida a um Cybercafé me fez voltar ao presente. Meus últimos boletins não chegaram bem. Novamente enviei todos para o Alexandre e, aproveitei o restinho da tarde para visitar algumas igrejas ,das quais a que mais admirei, pela beleza de suas paredes de pedra e seu maravilhoso campanário, foi a Igreja de Santo Domingo, de 1755.

Fui à  Plaza de Armas, com suas árvores exóticas e grande movimentação, crianças, pipocas, marionetes, enfim, alegria geral! Voltei ao Hotel, encontrei as vovós, jantamos e, no dia seguinte, novamente as malas no Troller, para uma nova etapa rumo ao Deserto.

Por falar em Troller, continua se comportando muito bem, mas tenho notado que os pneus dianteiros estão sendo desgastados irregularmente. Até hoje estou encafifada com aquela curvatura das barras da direção. É que não houve pancada que justificasse o defeito, e as duas barras se encurvaram de forma uniforme até que uma delas encostou no diferencial.

Bem, ele tem sido um herói! Estou muito satisfeita com o seu comportamento. Tenho escutado: quer vender o Jipe? Ah, Ah, digo eu, nem morta!!    

 

21 de fevereiro de 2001

Bol. 36

Trecho: De La Serena(Cl) a Antofagasta (Cl)

Distâncias: La Serena/Chañaral: 516 km;Chañaral/Antofagasta: 400 km 

 

No dia 15 de fevereiro partimos de La Serena. Apesar da pouca bagagem das vovós, com a partida da equipe anterior, perfeitamente entrosada, arrumar o Troller ficou uma confusão, mas, esperamos que nos próximas paradas a coisa se ajeite.  

Saindo de La Serena, a Pan-americana fica bem próxima ao Pacífico, depois se afasta e só o encontramos novamente a uns 400 km acima, na cidade de Caldera. O reencontro com o mar trouxe para nós uma surpresa, o Santuario de la Naturaleza Granito Orbicular. Vimos a placa, entramos por uma estradinha e nos deparamos com estranhas rochas que mais pareciam couro de onça pintada. Nos explicaram  que aquilo é uma raridade geológica, única no mundo (não me responsabilizo pela informação). Em alguma época, por ocasião da formação das rochas, ocorreu uma cristalização em forma de esferas, que chegam a atingir 15 cm de diâmetro, as quais ficaram incrustadas no granito de estrutura normal. Este aprisionamento, dá às rochas, daquela costa, o aspecto pintado de quem está com sarampo. Olhamos, pegamos, fotografamos e nos fomos. “Tem cada coisa nesse mundo de Nosso Senhor Jesus Cristo”! Na estrada, os curiosos santuários dedicados a pessoas mortas em acidentes, chamaram nossa atenção. Apareciam de um lado e outro, muito enfeitados com flores artificiais, pneus pintados com cores fortes, alguns com inúmeras placas de carros, outros, ainda, com bancos de madeira, para que os passantes possam rezar comodamente sentados. Estes santuários levam o nome do morto, isto é, se o morto era Jorge, o santuário é San Jorge. Como tinha santo desconhecido por ali! Os santuários nos acompanharam por todo o Deserto. 

Voltando à paisagem: os espaços  variam de montanhas a planícies muito amplas, maior aridez e o solo limpo de plantas. Na região entre Vallenar e  Copiapó, nos invernos chuvosos (isto é, algumas gotinhas a mais), acontece, de vez em quando, entre setembro e outubro, um fenômeno conhecido como deserto florido. A paisagem árida se transforma, as flores explodem e acontece um espetáculo impressionante. As sementes de várias espécies de flores, os bulbos, os insetos, que estavam sob a terra, voltam à vida com exuberância, encantando à todos que têm a sorte de participar disso. Como nordestina, compreendi bem o que as pessoas me contaram, porque o milagre da caatinga verde, à menor chuva, é também impressionante! Não tivemos a felicidade de ver o deserto florido, mas vimos aqui e ali algumas plantinhas agarradas à vida, firmes, em condições totalmente adversas, abrindo suas flores pequeninas, de estranhas e variadas formas e de cores muito vivas, margaridinhas delicadas, sempre muito miúdas e em grande quantidade, um desafio à inclemência daquele clima!

Copiapó é considerada a ante sala do Deserto. Na estrada, um posto de combustível muito bem equipado, oferece chuveiros, comida, refrigerantes, roupas, etc., de forma tal que há uma grande movimentação de jipes, camionetas e carros empoeirados, crianças, cachorros, enfim, animação total. Comemos um cachorro quente, com um molho de abacate muito gostoso, naturalmente bem mais gostoso, pela fome que assolava a tripulação do Jipe. Muitas perguntas e respostas sobre o Troller e partimos para Chañaral e, aí … começou o espetáculo alucinante do Deserto de Atacama! Meu Deus, eu não acreditava no que via! As cores variavam de um marrom avermelhado, para um alaranjado seco, entremeadas por um cinza esverdeado, e  revestiam as montanhas que ladeavam a estrada. A Rita, artista que é, pirou no banco traseiro do Troller. Estas cores nos seguiriam até San Pedro de Atacama e, por mais que eu viva, elas sempre serão as cores do Deserto de Atacama!

A verdade é que o Deserto chega para valer em Chañaral. Chega-se à cidade por uma ampla curva no fim da qual se divisa uma grande baia, muito azul, contrastando violentamente com as cores outonais do Deserto. É uma chegada muito bonita, mas é só o que tem Chañaral, uma cidade feia, desordenada, triste, dando impressão de acampamento, com pouquíssimos hotéis. Ficamos em uma pousada muito precária, a dormida não foi boa, mas o jantar estava gostoso e a cerveja desceu bem redondinha. A Rita, que queria, porque queria, comer um pollo (frango), terminou devorando um e amanheceu doente. Antes do jantar, subi com a Lucinha até o farol e, lá em cima, esperamos que o sol poente iluminasse as cores do Deserto. Muito bonito, estávamos maravilhadas! Naquele momento, não sabíamos das belezas que nos aguardavam, mas esta é uma outra história.

No dia 16 de fevereiro, partimos de Chañaral. Apesar de termos combinado uma saída mais cedo, para aproveitarmos  a temperatura mais baixa, não conseguimos em momento algum sair antes de 9:00, e quando o calor aumentava, batia o arrependimento. De Chañaral a Antofagasta são 400 km de paisagem bem monótona, os tons amarelados predominam, mas não da maneira exuberante que caracterizou o trecho anterior, muitas entradas para minas e é constante a presença de montanhas artificiais provocadas por escavações. A mais ou menos 70 km de Antofagasta, há uma escultura que chama atenção: uma enorme mão, estende seus dedos para o céu. Pede socorro? Abençoa? Deseja boa sorte? Chamamos de “a mão do Deserto “. Batemos algumas fotos e seguimos. A chegada em Antofagasta foi meio estressante pois é uma cidade grande e não conseguíamos  localizar hotéis. Quando passamos por um Holliday Inn, vimos uma placa com promoção para o fim de semana e foi aí que pernoitamos, muito bem instaladas, diga-se de passagem. Lucinha e eu ainda demos uma volta pela cidade, vimos o pôr do sol sobre o Pacífico e fomos jantar em um restaurante muito bom, vinho e tudo o que tínhamos direito, enquanto isso a Rita curtia uma dolorosa dor de barriga com todos os seus acompanhamentos. Chá de boldo foi o melhor remédio. No Ceará diríamos: Ô frango reimoso da peste!

No dia seguinte, como ela estava melhor, resolvemos seguir para Calama, já no coração do Deserto, lá visitaríamos Chuquicamata uma das maiores minas de cobre, a céu aberto, do mundo! 

 

21 de fevereiro de 2001

Bol. 37

Trecho: De Antofagasta (Cl) a Calama (Cl)

Distâncias: Antofagasta a Calama: 213 Km

 

De Antofagasta a Calama são 213 km. Antes de tomarmos a estrada, fomos ver o Monumento Nacional La Portada, distante a mais ou menos 20 km da cidade, na direção norte. Trata-se de uma formação rochosa em forma de arco, de cor amarelada e base negra, no mar, próximo à praia, e que faz um bonito conjunto com as falésias de rochas sedimentares cujas camadas são observadas com nitidez.

La Portada é o cartão postal de Antofagasta e vale a pena ser visitada. Muito bonita!  Lucinha e Rita acharam que a Pedra Furada de Jericoacoara é mais bonita. Eu já não achei. La Portada é muito grande e o fato de se encontrar no meio do mar lhe dá uma grande vantagem.

A estrada para Calama nos trouxe a visão das cidades fantasmas, que são muitas, de antigas minas de salitre. Descemos em uma delas. As construções abandonadas passam uma sensação angustiante de abandono e solidão. O sol do Deserto batia forte e o vento também. Quem viaja por ali deve obrigatoriamente levar um bom protetor solar para o rosto e lábios assim como um chapéu de amarrar, não precisa ser bonito, basta ser funcional!

Chegamos a Calama em um sábado e, como era nosso objetivo uma visita à mina de Chuquicamata, que só estaria aberta na segunda feira, resolvemos passar o Domingo por lá. Conseguimos um hotel confortável e nos preparamos para descansar. Levei o Troller a uma oficina para examinar um barulho na direção e me foi dito que no asfalto o barulho ia acabar. Com esse prognóstico promissor, a partir de um exame muito superficial, não me senti tranqüila. Em San Pedro enfrentaríamos altitudes elevadas, em estradinhas de rípio, cheias de curvas em descidas íngremes.

Passeamos pelas ruas de Calama, visitamos a Catedral com sua torre  revestida de folhas de cobre e, no dia seguinte, fomos a um pueblo de nome Chiu-Chiu que fica às margens do Rio Loa, um dos raros rios da região. Chiu Chiu possui a Igrejinha mais interessante que eu já vi. É uma aldeia minúscula situada a 33 km de Calama, com uma pracinha bem cuidada na qual nos sentamos para almoçar cenouras e beterrabas cruas compradas em uma pequena feira que funcionava ali perto.

É difícil descrever a Igreja de São Francisco, considerada a mais bela da região. Foi construída em adobe no ano de 1675 e suas paredes têm mais de um metro de espessura. O teto é forrado de madeira de cactos. É verdade, na região há grandes cardos, que alcançam 7 m de altura e 70 cm de diâmetro, dos quais se tira uma madeira cheia de furinhos e que foi muito utilizada para forrar casas e fazer portas. Hoje é utilizada no artesanato o que colocou a espécie em risco de extinção. Na Igreja, as pequenas tábuas são unidas com tiras de couro, como um ponto de cruz. A cobertura é em palha e sobre a palha uma grossa camada de barro. Ela é considerada um exemplo do estilo atacamenho.  Em seu interior há imagens muito antigas e uma singeleza que nos tocou de forma muito especial. Foi a Igreja mais bonita e interessante que vi durante esta viagem!

No dia em que lá estivemos, nos sentamos nos bancos, que são laterais, enquanto uma senhora jogava água no chão de barro para que a poeira não incomodasse as visitas. Observamos o Cristo pendurado na cruz, com seus braços móveis para que nas procissões possa ir deitado, porque também ninguém é de ferro! Uma outra curiosidade é um grande quadro com  o rosto de Cristo nos dois lados para que também nas procissões tanto as pessoas da frente como as de trás possam ver sua face.

No dia seguinte, dia 19, segunda feira, acordamos muito cedo para visitar o Complexo Mineiro de Chuquicamata, que, segundo os chilenos é a maior mina de cobre do mundo a céu aberto. Há só uma visita diária e a gente deve chegar muito cedo. A visita começou às 10:00 e havia muita gente. Um ônibus nos levou até a cratera escalonada, impressionante! Caminhões imensos, cujos pneus de 3 metros de altura pareciam de brinquedo. Visitamos a área de fundição, com máscaras e óculos de proteção. Quem não estava vestido adequadamente, isto é, calça comprida, mangas compridas e sapatos fechados, ficou dentro do ônibus. Fomos informados que Chuquicamata produz  600 mil toneladas de cobre fino e importantes subprodutos como o molibdênio. A mina está fadada a parar em 30 anos pois os custos são altíssimos e a partir de então se tornará inviável. Foi interessante, mas eu já estava em um pé e outro para chegar a San Pedro de Atacama, a maior atração do Deserto! Não sabia como era a cidade, agora já sei, é linda!

 

24 de fevereiro de 2001

Bol.38

Trecho: De Calama (Cl) a San Pedro de Atacama (Cl)

O que já rodei até San Pedro do Atacama: 20.747 km

Distância: 120 km

 

Estou em Resistência, já no norte da Argentina, ainda profundamente impressionada com o que vivi no Deserto de Atacama, especialmente em San Pedro. É difícil colocar no papel o que senti diante das paisagens solitárias, coloridas, estranhas e às vezes agressivas do Deserto. Torna-se ainda mais difícil pois estou no auge da paixão. Já viram uma mulher apaixonada escrever coisa com coisa? Assim estou agora, completamente apaixonada pelo Atacama! Mas, vamos tentar! Dividirei os fatos em dois boletins.

Chegar a San Pedro de Atacama, a partir de Calama, é inesquecível. Foi uma das paisagens mais deslumbrantes e diferentes que eu já vi. Durante os 120 km, estranhas formações forradas com as cores do Deserto nos deslumbraram. A mais ou menos 20 km da cidade estendeu-se, além do horizonte, um campo lunar, com cores rosadas, avermelhadas, azuladas, esbranquiçadas, que se misturavam ou simplesmente existiam, que brilhava ao sol em pontos ou manchas brancas de cristais de sal. Paramos o Troller em um Mirador e, simplesmente nos sentamos e o sol não nos incomodou. Antes que resolvêssemos ir embora, a pele esturricou, os lábios racharam, os cabelos assanharam, a garganta secou e, enquanto procuravam o fim, os olhos arderam e choraram com a claridade e o vento.

Entrar em San Pedro é outra experiência inesquecível, nunca esquecerei aquela cidadezinha, de construções brancas, atarracadas, maciças, de adobe e tetos de palha e barro! E o que dizer de suas ruelas ladeadas por muros sinuosos, grossos, também de adobe, pelas quais se caminha sobre o Deserto; inúmeras curvas de onde surgem bandos de carneiros que passam e passam tranqüilos como se não existíssemos? Jamais esquecerei, a sua Igreja, de portas escancaradas, expondo de maneira agressiva, restos de antiquíssimas imagens queimadas por vândalos, duas semanas antes de chegarmos, deixando-nos culpados pela inconseqüência dos atos humanos. Porque? No choro e nos cânticos dos moradores, como em um velório, a grande  contradição da natureza humana! E ao sair do seu interior, envergonhada, como esquecer o Museu de Antropologia, organizado de tal maneira que estava ali toda a história do homem, desde o procurar uma terra para se estabelecer, a utilização das mãos na fabricação dos seus utensílios, sua armas para tratar o couro, caçar, enfim sobreviver? E suas múmias perfeitas, com roupas, cabelos e adornos, em posição fetal, como nascemos, e como devemos ser enterrados, segundo o homem atacamenho primitivo, cercadas de seus pertences, vitoriosas, sorriso escancarado, suas órbitas vazias, espantadas: e vocês, conseguirão  sobreviver?

E o vulcão Licancabur, sempre presente, de cone perfeito, nevado, e que é visto de toda a cidade, muito alto, com seus quase 6.000m? Que contraste mais maluco!  Isso era apenas o começo da sucessão de surpresas com que o Deserto nos presentearia.

O Hotel Aldea, escolhido após uma pesquisa de preços e qualidade, perfeitamente integrado na paisagem nos abrigou, é bem verdade que pagamos caro pelo abrigo, mas valeu a pena! Nosso quarto, no qual andávamos sobre um tapete bem rústico, era bem amplo, com um bom banheiro a caminho do qual esbarrava-se em um tronco de árvore que subia  ultrapassando o teto e se espalhava acima dele.

Sair do sol escaldante e entrar naquele quarto amplo, fresquinho, temperatura mantida apenas pelo isolamento térmico do adobe, era felicidade! Ficar quieta, escutando os barulhos da vida, observando as pseudo tesouras de Algarrobo que sustentavam o teto, era paz. Ficamos em San Pedro por quatro noites geladas mas, dentro das paredes do adobe, era só fresquinho! Passeando pelos arredores do povoado, encontramos “fábricas” de tijolos de adobe, que são grandes, bem maiores e mais grossos que um tijolo comum e não são queimados. Como se comportariam em regiões chuvosas, não sei.

Nas ruelas misturam-se mochileiros, os grandes descobridores de paisagens diferentes, europeus, ricos e famosos que se hospedam no Hotel Explora e pessoas como nós, querendo só mostrar que a vida não se encerra com a aposentadoria, e que com um 4×4 o mundo é bem ali! E é tão fácil chegar até ele! É só subir no carro, com um mapa na mão, botas nos pés, uma mochilinha com duas calças, um agasalho, e seis camisetas! Quantas possibilidades!

A partir de San Pedro existem muitos passeios interessantes. São oferecidos por agencias de turismo, com guias, e que fazem o transporte em vans, pequenas ou grandes, em bom ou mal estado, mais caras, mais baratas, que aceitam cartão de crédito ou não, é só escolher! Como eu resolvi não colocar o Troller nos caminhos desconhecidos do Deserto, depois que vi uma Land Rover brasileira toda quebrada, por várias viradas quando retornava do Tatio, saímos em busca de uma agência para escolhermos o que faríamos.

No primeiro dia fomos ao Valle de la luna. O vale é uma pequena depressão de mais ou menos 500 m de diâmetro, incrustado na Reserva Nacional Los Flamencos. As formações  são provenientes de sucessivas movimentações no fundo de um antigo lago que e que deram origem à Cordilheira do sal. É muito fácil reconhecer as estratificações e afloramentos salinos, que parecem esculturas.

O passeio é feito ao entardecer e inclui uma visita ao mirador, três Marias, mina de sal, cavernas de sal e culmina com o pôr do sol.

O pôr do sol é de longe a atração mais espetacular do passeio. À medida que o sol vai descendo, as cores do Deserto vão mudando, vão ficando mais claras ou escuras. Um espetáculo de luz e sombras, tudo isso, brilhando em pontos de cristais de sal! Para observar melhor o imenso campo, sobe-se em uma enorme duna cinzenta e caminha-se em sua crista. É uma caminhada cansativa, principalmente porque San Pedro fica a 2.438 m de altura. Compensa! As pessoas se sentam e assistem ao espetáculo alucinante da mudança de cores, do brilho do sal, e a formação de um arco íris lá longe quando chove na Cordilheira. É sensacional! Nesse dia decidi que voltaria ao Atacama na primeira oportunidade!

 

24 de fevereiro de 2001

Bol. 39

San Pedro de Atacama (Cl)

 

No dia 21 de fevereiro, às 7:00 saímos para conhecer o grande Salar de Atacama, as lagunas do Altiplano e os povoados de Toconao e Socaire. Os povoados são pequenos e  as igrejinhas com seus campanários separados , chamam atenção. Interpreta-se a separação campanário/corpo da igreja, como o macho e a fêmea, sendo que a supremacia do macho é simbolizada pela posição do campanário à frente.  A Igreja católica e a cultura atacamenha se encontram nessa arquitetura singular. Isso é bem visível em Toconao, cujo campanário, de 1600 é um dos mais belos da região atacamenha e sua reprodução é encontrada em todas as lojinhas de artesanato. Em Socaire o campanário já está ao lado da Igreja, mas ainda separado.

O Salar de Atacama está a uma altitude de 2.305 m, 300.000 ha e é o maior depósito salino do Chile. É uma depressão, sem saída, que recebe as águas do Rio San Pedro. Abriga 40% das reservas mundiais de lítio, potássio, bórax e outros sais.

A entrada no Salar é incrível. Caminha-se sobre sal e para todos os lados sal e muito sal, como se fosse um grande campo de neve! Lagoas abrigam flamingos de cor rosa que, de vez em quando, levantam vôo passando a poucos metros da gente. Nosso guia aconselhou-nos a sentar no chão meio abaixados pois assim os flamingos, sem ameaças, chegam mais perto. Eles ficam ali, naquele balé em círculos, apoiados nas pernas muito finas e longas a pescar e enfeitar a estranha paisagem. A umidade relativa do ar é próximo a zero, extremamente seco, e por isso o horizonte se estende para muito além do que imaginamos, criando distorções quando queremos calcular distâncias. O sol reflete no sal e a claridade é insuportável para quem não está de óculos escuros. Portanto, se vai ao Atacama, não esqueça de levar óculos escuros e nada de siricutico, sente no chão, se deite, se necessário, o importante é curtir esse momento especial!

O acesso às lagunas é meio difícil mas o passeio é compensador. Elas estão lá no alto, muito azuis e margens incrivelmente brancas, em contraste com as famosas cores atacamenhas. O almoço foi servido, nos espalhamos sobre as pedras e eu fiquei conversando com o guia, enquanto a Rita e a Lucinha passeavam observando as plantas e suas flores miúdas. Um pouco mais à frente dois jovens espanhóis haviam chegado a pé e se arrumavam para acampar. Naquele sol, para chegar até às Lagunas de Miscanti e Miñiques é preciso muito mais que espírito de aventura! Esse passeio durou todo o dia e, na volta, visitamos os pomares de Toconao. É incrível fazer brotar do Deserto romãs, melões, laranjas, trinta e cinco qualidades de frutas, tudo isso irrigado por canais, a partir do único rio da região. Os terrenos são pequeníssimos pois, à medida que os pais vão morrendo, vão sendo divididos entre os filhos, que são numerosos. Havia um terreno tão pequeno, mas tão pequeno, que quase não havia lugar para os cinco pés de milho ali plantados! Enquanto olhávamos admirados aquele oásis, adolescentes e crianças se jogavam água, o que era muito divertido até que avançaram em nossa direção o que causou um corre corre geral. Passeio imperdível!

Ver o El Tatio, ou melhor, os géiseres del Tatio foi a nossa programação para o dia 22 de fevereiro. Para visitar o El Tatio tivemos que acordar às 4:00 da madrugada. Estávamos de gorro, luvas e agasalho pesado. O Tatio fica a 4.321 m de altitude. O acesso é por um caminho difícil, principalmente se chove na Cordilheira, foi o que aconteceu durante a noite. A Van começou a subir devagar, o caminho começou a ficar molhado, e depois enlameado. Tivemos que descer, empurrar o carro e caminhar no escuro, metendo os pés na lama até o alto de uma subida muito íngreme. O pior é o cansaço causado pela altitude. Mas, faz parte da aventura! Só que essa frase foi dita para um casal de alemães, mais velho, e eles começaram a resmungar, que não queriam aventura nenhuma, haviam contratado um táxi! Bem, deve ter havido um mal entendido, falando idiomas tão diferentes, porque ir de táxi para o Tatio é piada!

Na madrugada, muitos 4×4 passaram por nós e me deu uma saudade dos nossos comboios aventureiros por Lençóis Maranhenses, Praia de Fleixeiras, Jericoacoara e outras. Mas, estávamos no Deserto de Atacama, indo para o Tatio a quase 5.000m de altura em uma Van muito precária, cujo motor a todo momento fedia a chifre queimado e patinava à menor ameaça de lama. Enquanto respirávamos com dificuldade, os outros carros passavam e as luzinhas iam desaparecendo nas curvas. Finalmente as subidas ficaram mais suaves, pude cochilar e acordar com um mundo todo branco! Havia nevado e a Lucinha ficou tão surpresa que esqueceu de me acordar. Neve, deserto, géiseres, salares, tudo se confundiu no meu sono, como o samba do crioulo doido! Um sol muito fraquinho nos pegou ainda na estrada e fomos os últimos a chegar. A chegada foi sensacional. A fumaceira dos géiseres conferia ao local um jeitão surreal, de vez em quando, pessoas como almas penadas, surgiam dentre o vapor e se materializavam a poucos metros de nós. Eu e a Lucinha caminhávamos, com muito cuidado, para não cairmos naqueles olhos de água fervendo. Ainda estava muito frio, e com o sol um pouquinho mais quente, os esguichos foram aumentando mas nenhum chegou a 6 metros de altura, como era esperado, em compensação o tempo ficou claro e pudemos ver a paisagem com detalhes. O Tatio fica a 4.321m de altitude. O campo geotérmico é arrodeado pelos altos cumes da Cordilheira. Nesse dia, estava tudo coberto por uma fina camada de neve, o azul do céu e os esguichos completavam uma paisagem sensacional! O café da manhã foi ali mesmo. No retorno, uma parte da neve já havia derretido e o calor começou a aumentar. As montanhas já não estavam cobertas de branco os vulcões estavam bem nítidos. Em uma parada para vermos de perto o famoso cardo de onde se tira madeira, me deparei com uma Expedição de jovens brasileiros. Foi uma festa! Uma avó, querendo demonstrar para todas as outras que, aventura não tem idade e aqueles jovens com os mesmos objetivos. Eram bem jovens, conversamos, me entrevistaram, nos despedimos e, mais tarde, nos vimos de longe no centro de San Pedro. Fiquei muito feliz com o encontro!

Em San Pedro encontramos, em uma Land Rover, dois brasileiros do Rio de Janeiro que faziam o Deserto. Conversamos um pouco e me contaram que no dia em que chegaram a San Pedro foram ao nosso Hotel e viram o . Um virou para o outro: Quem é o macho que teve coragem para vir de Fortaleza até aqui? Tem macho não moço, são três senhoras. O que? Ficaram espantados e mais espantados ficaram, quando nos viram: Cadê as avós?

À noite, eu, Lucinha e Rita fomos a um restaurante para tomar uns drinks, faríamos um balanço da nossa estadia no Deserto. O restaurante, muito original, tinha uma fogueira acesa no pátio, de forma que nas noites, que são muito frias, os clientes ficam bem calientitos. Começamos por um Pisco Sour, tocava João Gilberto. Não me contive, fui ao Troller, peguei meu CD da Bebel Gilberto e fiz uma doação. O restaurante adorou e agradeceu. De forma tal que hoje a Bebel deve estar cantando em pleno Deserto de Atacama. Perfeito! Começou a chover. Que loucura! E chove por aqui? Às vezes!

Partiríamos no dia seguinte. Confesso que ficaria mais alguns dias, passeando por aquelas callejuelas,  apreciando os muros largos, as casas brancas e rústicas, vendo o pôr do sol nas montanhas da Cordilheira do Sal, apreciando o vulcão Licancabur, imaginando cerimônias religiosas realizadas pelos antigos incas, em sua cratera, para finalmente, depois de muito olhar, descer …  

 

06 de março de 2001

 Bol. 40

 Trecho: De San Pedro de Atacama (Cl) a Campinas (Br)

O que já rodei até Campinas: 23.867 km

Distância: 2.303 km

 

A saída de San Pedro de Atacama se dá por duas fronteiras, todas duas através dos Andes com cerca de 5.000 m de altitude. Ou você sai pelo Paso Jama ou por Paso Sico. A diferença entre os dois está, principalmente, na quantidade de asfalto que se percorre. Decidimos sair por Paso Jama, mais asfalto, embora mais alto. No dia 23 de fevereiro de 2001, às 8:00, estávamos a postos na Aduana de San Pedro, que abriria às 8:30. Queríamos começar a andar cedo para não pegarmos a descida dos Andes à noite. Quando chegamos, alguns carros já estavam encostados e fomos informadas que o Paso Jama estava fechado pois nevara muito durante a noite. Ficamos aguardando, novos carros começaram a chegar e a coisa começou a ficar animada. Enquanto conversávamos sobre estradas, mapas, informações sobre o Brasil, alguns estavam indo às praias de Santa Catarina ou Rio Grande do Sul, muitos palpites sobre as fronteiras, etc. O dia começou a andar e começamos todos a ficar preocupados. Os carabineiros nos diziam que o Paso Jama estava fechado, podia ser que abrisse ao meio dia, amanhã, depois de amanhã e que se abrisse ao meio dia seria necessário passar antes uma máquina para remover o gelo, e vai por ai. Decidimos esperar um pouco mais. Andei conversando sobre o Paso Sico. Um caminhoneiro me aconselhou a ir por Sico pois o rípio não era ruim, a descida  não era tão íngreme como no Jama e que com o meu Jipe não teria dificuldades. Pensei um pouco e resolvi seguir os seus conselhos. Comuniquei às outras vovós o que havia decidido. Me despedi de todos, beijinhos para cá e para lá, passamos a aduana e o Troller pegou a estrada com força total rumo à Cordilheira dos Andes e seus cumes cobertos de neve. Até Paso Sico são 280 km, dos quais 70 em asfalto até Socaire, a estrada continua sem pavimento, uma parte em barro, outra em rípio bravo! Passamos novamente pelo Salar de Atacama,  por paisagens bonitas , lagunas salgadas muito azuis, de margens brancas e, aos pouquinhos fomos nos despedindo do Atacama. A subida não é brusca, de maneira tal que, quando o GPS marcou 4.500 m levamos um susto. O tempo começou a mudar e, de repente  começou a chover e sem mais nem menos a nevar. Achei incrível! Sair do Deserto e logo depois pegar neve, e não era neve que tinha acabado de acontecer! Nevou na nossa cara! Esquecemos de olhar para o GPS mas tenho impressão, pela altitude logo depois, que estávamos a 5.000 m. Não paramos. Nesse ponto a estrada é muito estreita e cheia de caracóis, e assim fomos descendo fazendo nossas curvas vagarosamente.  Em San Antonio de Los Cobres já havíamos rodado 339 km. Abastecemos. A partir de Los Cobres a estrada começa a descer, de verdade, em um conjunto de curvas fechadas em uma estrada para um carro. Lembrei-me da Carretera Austral. Só que na Carretera a cada curva uma paisagem deslumbrante, de lagos, rios, glaciares, florestas, bosques. Que saudade! A beleza aqui é interessante pois, vamos vendo a paisagem mudar como se houvesse uma linha limitando as regiões. De uma região árida, de montanhas cobertas de gigantescos cardos, a outra de pequenos arbustos, outra já com árvores, muita água descendo das montanhas, até que chegamos a uma pequena cidade chamada Campo Quijano. Já estava anoitecendo e resolvemos dormir por lá mesmo.. Na saída de Campo Quijano, também conhecida como Portal de los Andes, estava escrito em uma parede: “Verde la ronda de los cerros, cristal de arroyos errantes, asombros quebradas adentro y  un frescor de viento suave. Tierra de paz y de sueños, en el Portal de los Andes”. Saindo dali,  enfrentaríamos a região do Chaco argentino em um estirão de 850 km até Resistência, passando por Salta. Chegamos à noite. Resistência é uma cidade  bem grande e a procura do hotel foi trabalhosa pois não conseguimos nenhuma  pousada na estrada. Foi uma boa dormida, meu pescoço começou a sinalizar, descontente com tantas horas na direção. De Resistência a Santo Inácio, passando por Posadas, são 395 km. Santo Inácio é a cidade mais importante da região das Missões Argentinas. Encontramos um hotelzinho com cabanas e, logo depois, começou a chover muito forte. O resultado dessa chuva foi que o espetáculo de luz e som que acontece nas ruínas foi cancelado, para tristeza nossa. Debaixo de chuva visitamos as ruínas e o Museu.  As ruínas de Santo Inácio estão muito bem conservadas. Tive muita pena do Templo com seu portal  ainda em pé, maravilhoso, bem trabalhado pelos índios e jesuítas, no entanto o Museu me pareceu pobre, tudo muito escuro na tentativa de reproduzir uma floresta. íamos tateando e lendo frases escritas nas paredes. Enfim a luz! Santo Inácio e toda a região das Missões é um bom exemplo do que foi a colonização portuguesa e espanhola e, nesse caso, com a cooperação do Vaticano, todos determinados a destruir qualquer cultura diferente que lhes atravessasse o caminho. Que horror! Bem, está lá para quem quiser julgar. Partimos para o Brasil no dia 26 de fevereiro, comecei a me sentir voltando e comecei a pensar na dificuldade de me readaptar na vida de sempre. Nada de paisagens diferentes todos os dias, muito menos horizontes desconhecidos, só sei de uma coisa: novidades vou ter durante muito tempo, para contar,  e, tenho certeza muitas pessoas interessadas em escuta-las. Bom, vamos ver.

Entrar no Brasil pela Argentina, através da Ponte Tancredo Neves é moleza, nada de filas e é tudo muito simples e rápido. Estava preocupada pensando que ia ser algo como em Ciudad del Este e a Ponte da Amizade lotada de moambeiros. Cruz credo! Fomos direto ao Aeroporto, para que a Lucinha e a Rita organizassem suas passagens. Partiriam no dia seguinte para Fortaleza. Ainda nesse dia, fomos às Cataratas que estavam deslumbrantes. Água para todos os lados e muita água. De todas as vezes que fui às Cataratas do Iguaçu esta foi a vez com mais água. Os quatis, andavam tranqüilamente entre as pessoas e nós, ficamos caminhando pelas trilhas bonitas e verdes, já nos despedindo. No dia seguinte, agora sozinha, parti de Foz, subindo para Cascavel, Campo Mourão, Maringá e…parei em uma cidade de nome Cornélio Procópio, onde dormi. Eu estava cansada. Precisava de uns dias para descansar o corpo, pensar no retorno ao Ceará e colocar em dia minha home page que estava muito desorganizada. Confesso que, para o Alexandre, deve estar sendo difícil, pois as vezes mando 5 boletins de uma só vez. É assim mesmo, muitas vezes não se encontra um cybercafé e eu ia juntando tudo em disquetes para enviar na primeira oportunidade. Agora, estamos na operação organização da página.

De Cornélio Procópio, segui para Campinas, subindo mais um pouco para pegar a Rodovia Castelo Branco com uma velocidade máxima permitida de 120 km/h. Cheguei em Campinas na quarta feira de cinzas à tarde. A Cristina me esperava com uma cerveja super gelada. Beleza! Havia rodado 24.000 km, dirigindo sozinha! Percorrido a Argentina de norte a sul e o Chile também. Pudera!

Na quinta feira o Troller baixou oficina. Os pneus estavam gastando irregularmente. Novamente as barras da direção com problemas, desta vez elas foram para o torno, foi feito um rodízio e alinhamento, alguns parafusos soltos, alarme consertado ( de vez em quando a porta do motorista não abria, o que me fazia entrar pela porta do passageiro em uma operação de entrevar qualquer vovó), troca de filtro de ar, óleo de motor. Foi lavado e está lindo, fazendo o maior sucesso aqui em Campinas!

Há uma semana estou descansando , conversando pelo telefone com o Ceará, respondendo e mails, escrevendo boletins e lendo  a biografia de Maria Callas. Hoje, tenho certeza que partirei amanhã. Já estou com muita saudade da estrada. Irei a Ibitipoca no sul de Minas Gerais, depois Ouro Preto, Serra do Cipó, cidade histórica de Diamantina ao norte de Minas e, então irei pela costa até o Ceará. Deverei chegar por lá pelo dia 20 de março. Rever meu pai, meus filhos, marido, amigos, vai ser muito bom!

Até Ibitipoca!

 

14 de março de 2001

Bol. 41

Trecho: De Campinas(SP) a Congonhas(MG)

Distância: Campinas/Congonhas: 808 km 

 

Estou escrevendo de São Gonçalo do Rio das Pedras, um povoado bem pequenininho no interior de Minas Gerais , a 35 km de Diamantina. Chegar até aqui não foi fácil, mas valeu a pena! Tudo começou quando saí de Campinas com destino a Conceição de Ibitipoca, no sul de Minas, perto de Caxambu, já no Circuito das Águas.

Com a Cristina me levando até a Via D. Pedro, após uma entrevista telefônica com o Jornal O Povo de Fortaleza, para o dia Internacional da Mulher, encerrei minha estadia em Campinas. Minha intenção era dormir em Ibitipoca mas, quando parei em algum lugar perto de Bom Jardim de Minas, para comprar a famosa Pinga Paraíso, começou a chover forte. No posto de combustível o bombeiro me aconselhou a dormir em Bom Jardim, pois para chegar a Lima Duarte seriam 50 km de estrada mal conservada e mais 26 km de chão ruim até Ibitipoca e, em cima da serra, logo, estrada subindo. Segui o conselho, parei em um hotelzinho muito, muito simples e foi uma sábia decisão, a chuva desceu para valer!

No dia seguinte, fazendo sol – esse seria o último sol de vários dias – subi a Serra, após abastecer em Lima Duarte (lá em cima não há combustível). O bombeiro tinha razão, o asfalto estava ruim e a estrada de chão difícil para carros comuns, mas como para o Troller não tem tempo ruim, segui tranquila.

Ao chegar ao povoado de Ibitipoca, procurei a Pousada Janela do Céu, que me fora indicada pela Lucinha. Me atendeu o Dimas que, não só me mostrou toda a pousada como me deu uma aula sobre o Parque Estadual Serra do Ibitipoca. É um Parque pequeno, de 1.500 ha, composto de morros e vales e de uma vegetação que varia de mata exuberante a campos rupestres e, de quebra, um pouco de Cerrado. Há caminhadas em trilhas que percorrem todo o Parque, desde um circuito curto até um mais longo que leva à Janela do Céu, uma corredeira emparedada por um cânion, que termina em uma cachoeira de 20 metros de altura. É uma região de muitos raios e por isso os passeios são perigosos durante a época de chuva.  A pousada é deliciosa, tem uma bonita vista sobre uma grande quantidade de morros e vales, que caracterizam o Parque, muitas plantas e flores e é decorada com peças de artesãos locais dos quais o principal é o Sr. Antônio, que esculpe lindas igrejas de madeira. A diária inclui o almoço que se inicia as 17:30 e uma sopinha lá pelas 21:00. O telefone para contato é: 3232818118 ou 3232818128, ou ainda, janeladoceu@janeladoceu.com.br . Passei a tarde dormindo e no dia seguinte, com um guia, fiz  uma caminhada por uma trilha muito bonita que me levou à Prainha, Lago dos Espelhos, Ponte de Pedra, lindíssima, e à Cachoeira dos Macacos. É uma região de muitas pedras que, molhadas são extremamente escorregadias e, foi assim que, embora caminhando cuidadosamente, com o auxílio do guia, levei uma tremenda queda. Felizmente meus ossos são fortes senão eu estaria agora toda desmontada. Voltamos para a pousada debaixo de chuva. Por segurança, e muito a contragosto, resolvi encerrar a minha estadia no Parque. À noite, fui a Igrejinha, linda, colonial, construída na época do ciclo do ouro. No dia seguinte eu queria ir a São João del Rei, Tiradentes e dormir em Congonhas. César, o dono da pousada, me aconselhou a ir por cima da Serra. Disse-me que as paisagens eram muito bonitas e que eu passaria por povoados extremamente interessantes. Assim fiz e, não só não me arrependi como fiquei viciada em guiar por estradinhas de chão, bem mais interessantes. É verdade que bem menos cômodas, mas compensam, como vocês verão mais adiante.

Saí de Ibitipoca bem cedo e, seguindo o roteiro traçado pelo César me mandei. A estrada de chão nos primeiros 15 km estava muito ruim, mas logo deu uma melhorada. Realmente o visual das montanhas é soberbo! Montanhas e vales entremeados de neblina, às vezes só aparecendo os cumes dos morros, aquele monte de pontas como que suspensos. Fui seguindo, apreciando a paisagem, até que vi aparecer a torre da igreja de Santana do Garambel, logo depois Piedade do Rio Grande e Madre Deus de Minas. É muito interessante. As montanhas nessa época, muito verdes, encobrem os povoados e, de repente aparece a ponta da torre, depois a torre toda, e só algum tempo depois o pequeno povoado. Estas cidades são todas muito pequenas. De Madre de Deus, já no asfalto, cheguei a São João del Rei. Estacionei bem no Centro, passeei pelas ruas , apreciando os lindos casarões, muito bem conservados e a Catedral de Nossa Senhora do Pilar, de 1721, seus altares com talhas douradas; a Igreja de São Francisco, de 1774, com sua portada esculpida em pedra sabão e fui deixando a cidade já debaixo de chuva, rumo a Tiradentes. A chuva estava bem forte quando cheguei. A cidade continua muito bonitinha, casario bem conservado, centenas de lojinhas de artesanato, mas impossível descer, tal a quantidade de água. Resolvi tomar a estrada para Congonhas onde dormiria. Queria visitar as capelas dos Passos que abrigam as sete cenas da Paixão de Cristo. Minha primeira impressão de Congonhas foi péssima e a segunda piorou. Descaracterizaram a cidade, que perdeu o encanto de cidade colonial. Sobraram suas Igrejas. Ainda bem! A Basílica do Bom Jesus dos Matosinhos é lindíssima. As doze estátuas dos profetas esculpidas em pedra sabão, pelo Aleijadinho, estão lá desafiando os maus tratos e o tempo. Estão muito expostas. A meu ver deveriam ser guardadas em um museu e substituídas por réplicas. Estão cheias de fungos, já com muitos buraquinhos.

As sete cenas da Paixão de Cristo, esculpidas pelo Aleijadinho, em Cedro e distribuídas em sete capelas, são espetaculares! Acho também que deveriam estar melhor guardadas. Estavam empoeiradas, mas nem por isso menos bonitas. Para um Patrimônio Cultural da Humanidade!… Não gostei do descaso. Congonhas deve ter cuidado, daqui a pouco perderá o que lhe resta.

 

16 de março de 2001

Bol. 42

Trecho: De Congonhas (MG) à Serra do Cipó(MG)

Distância: Congonhas à Serra do Cipó: 280 km

 

O Troller ia devagar pela estrada sem acostamento, espalhando água para os lados, eu dentro dele tentava enxergar alguma coisa, os limpadores  a toda velocidade e a chuva sem dar trégua. “Meu Deus, o céu vai desabar”! Pelo marcador eu deveria estar chegando a algum povoado, cidade, aldeia, sei lá! Fiz uma pequena curva em descida,  cruzei uma velha ponte, muito estreita, sobre um rio que descia reclamando, em uma corredeira forte e barrenta, algumas casas apareceram e… ninguém! Voltei, atravessei novamente a ponte, desembacei  o pára-brisa e consegui ver uma placa: Pousada Sempre Viva. Fui subindo dentro de um riacho, escolhendo aqui e ali, árvores e cercas passando como quadros impressionistas ou figuras dos quadros do José Fernandes (pintor cearense que pinta a chuva); outra plaquinha: Pousada Sempre Viva, lembrei do filme Psicose, quando no meio da chuva surgia um hotel … e deu no que deu. Nossa, como é que fui me lembrar logo de Psicose em um momento desses? No meio da chuva, árvores e trepadeiras, surgiu uma casa de fazenda, com varandas amplas, janelas e portas azuis, circundadas de amarelo, cadeiras preguiçosas. Estava salva! Buzinei, uma pessoa saiu de dentro de uma ampla sala aberta para o jardim. Não era o Anthony Perkins, ainda bem! Sai do Troller e … com medo de uma resposta negativa: tem um quartinho para mim? E como resposta: vamos almoçar, depois a gente conversa! Mas tem quarto? Tem, vamos sentar e almoçar, menina! E foi assim que conheci o Robson e a Margareth da Pousada Sempre Viva, (031) 3136811327, a três quilômetros da entrada do Parque Nacional Serra do Cipó.

Foi um encontro muito engraçado, o Robson apaixonado por trilhas, a contar suas aventuras nos Lençóis Maranhenses quando na organização do Baja, ficou perdido, três dias sem comer, com a perna queimada pela moto e eu tentando explicar o que estava fazendo na Serra do Cipó, em um Domingo à tarde, com uma tromba d’água, sozinha em um Jeep que ele considerou alucinante! Almocei, conversando e imaginando a molhadeira dentro do Troller. Terminado o almoço, consegui ver o quarto, ótimo, bem rústico, confortável. Depois de tirar tudo do carro, um banho bem quente, a cama foi o melhor remédio, mas ainda ouvi o Robson falando, lá fora, com aquele sotaque carregado de mineiro do interior: vou lhe levar a lugares da Serra do Cipó que poucos turistas conhecem! A cama era gostosa, o paraíso era ali mesmo! Ô trem bão!! Eu havia percorrido 280 km, muito pouco, a sensação era de um percurso de 800 km!

Dizer que conheço o Parque Nacional Serra do Cipó é mentira, não consegui caminhar por ele, ver seus rios, cachoeiras, suas rochas em dobramento, a chuva não permitiu. Dizer que fiz caminhos ao redor do parque que poucas pessoas fizeram, é verdade. O Robson me levou por uma trilha até a casa da Dona Benta, uma mulher de quase 80 anos que vive sozinha, olhando para o Pico do Breu, criando seu gado, plantando e se locomovendo no lombo de um burro. Lamentavelmente, quando lá chegamos Dona Benta havia saído, sabe-se lá para onde e deixei de conhece-la. A trilha do Robson foi difícil, ou pensou que sou trilheira ou quis testar o Troller. Passamos por lugares encobertos por neblina forte, caminhando no rumo da venta, como diz o nordestino, onde não havia caminho ele inventava, se locomovendo pelo faro, eu acho! E, de mata de galeria nos vales, com enormes árvores, passamos pelo cerrado de árvores retorcidas, campos rupestres e, campos de altitude cuja flora variada e colorida me impressionou.. E olha que estava um dia descolorido! Rodamos 126 km. De quebra vi a Cachoeira da Capivara, muito linda, que vem caindo e caindo até chegar a um grande poço e, no caminho de volta, conheci o Juquinha, uma estátua que homenageia uma figura folclórica do Parque, que morava no mato e distribuía flores para os passantes. Ele fica lá no alto, solitário, sentado, olhando para os campos. É, vou ter que retornar para conhecer melhor a Serra do Cipó. Tenho certeza que voltarei. No dia seguinte a chuva continuava, vi que não dava para esperar . Enquanto tomava meu café, feito pela Perpétua, com bolo de fubá, o Robson ia me falando das vantagens do caminho de chão até Diamantina  e depois pelo Vale do Jequitinhonha. É, Robson, segui seus conselhos tim tim, por tim tim, até almoçar a comida mineira do restaurante da Dona Lucinha, no Serro e dormir em São Gonçalo do Rio das Pedras. Não me arrependi, muito antes pelo contrário. O caminho é ruim, mas o Troller deu conta do recado bem direitinho e como valeu a pena! Obrigada pelo roteiro traçado no mapa, com cuidado e pelas preciosas dicas!

 

17 de março de 2001

Bol. 43

Trecho: Da Serra do Cipó(MG) a Diamantina(MG)

Distância: Serra do Cipó a Diamantina: 193 km 

 

Sai da Serra do Cipó no dia 13 de março, às 9:30, com o mapa na mão, no qual o Robson da Pousada Sempre Viva, havia traçado um roteiro para Diamantina, por estrada de chão e um outro, de Diamantina a Itaobim, pelo Vale do Jequitinhonha, este, a pensar.

Segundo o Robson a estrada era imperdível, o que eu agora, posso avalizar. O tempo continuava chuvoso quando peguei a MG10, sem asfalto, e muita lama até Conceição do Mato Dentro  a 70 km. Rodando mais 35 km eu estava em Serro. Serro é uma cidade histórica, muito bonita. A surpresa é que eu nunca ouvira falar em Serro. Parei o carro em uma igrejinha unida à cidade por uma longa escadaria que termina bem na praça central onde está o restaurante da Dona Lucinha, lá, segundo o Robson, eu não poderia deixar de almoçar. Almocei um tutu à mineira, delicioso, saindo com a sensação de que não precisaria comer durante os próximos três dias. Parti para uma caminhada que me deixou impressionada com a beleza da cidade, fundada em 1702, por bandeirantes paulistas. Daquelas terras brotavam ouro e diamantes em profusão, daí os belos sobrados  residenciais e as inúmeras igrejas ricamente ornamentadas. Serro chamava-se então, Vila do Príncipe e era a capital do norte de Minas. Com o fim do Ciclo do Ouro, Serro vive da sua história, investindo em turismo. Visitei a Chácara do Barão às margens do Riacho 4 vinténs – porque dali o mínimo de ouro que saia era 4 vinténs – o Museu Regional Casa dos Ottoni, muito organizado, com imagens sacras raríssimas, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, de 1759, a Igreja de Bom Jesus de Matosinhos e parti para Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras, situados a 35 km dali. Dormiria em São Gonçalo. O tempo estava ótimo. Até Milho Verde a estrada estava muito ruim mas, a beleza da mata de quaresmeiras e embaúbas que se misturavam em roxo, prata e verde era tamanha que eu não senti o sacolejar do Troller nas costelinhas, costeletas, costelonas e poças de água e lama. Ao chegar a São Gonçalo procurei o Refugio dos 5 amigos, que fica logo ao lado da igrejinha e me atendeu a Ana, uma suíça que mora lá desde 1976. Que surpresa! Falava um português perfeito, levou-me a conhecer os aposentos, uma graça! A mobília rústica, bem trabalhada, chão de cimento queimado, tudo muito limpo e cheiroso. Conversamos um pouco, aconselhou-me a ver o pôr do sol lá no cruzeiro, entrou para os seus afazeres e eu subi para o pôr do sol. Quase anoitecendo, o céu ainda vermelho, as luzinhas da cidade começando a acender, o vozerio das pessoas lá embaixo, as montanhas, o sino da igrejinha tocando, que paz! Resolvi ficar por mais um dia! Um bom banho, fui convidada para um cházinho e conheci um casal de americanos que havia chegado um pouco antes. Alugaram um carro em Belo Horizonte. A americana falava um minúsculo português e o marido tentava de todas as maneiras se fazer entender, no fim deu tudo certo. No dia seguinte saímos para uma caminhada de 6 horas e a Ana foi nos mostrando as flores dos campos rupestres, suas cores, seus cheiros até chegarmos à Cachoeira Escondida, onde tomamos banho, nos esticamos ao sol, conversamos e, voltamos. Estávamos todos bem cansados, nos esperava um jantar feito pela Lúcia, no fogão de lenha, as panelas sobre a trempe, onde nos servimos, comemos ali mesmo em uma mesa de madeira bem rústica, pratos de pedra sabão, hortaliças sem agrotóxico, chão de cimento vermelho, telhas à mostra amarradas com cipó … naquele momento era tudo o que eu queria. Ah, como é bom viajar sem lugar certo para ficar, sem hora certa para chegar ou sair! Quantas surpresas boas! No dia seguinte, pensei em ficar por mais um dia, mas Diamantina me esperava e como eu queria chegar lá! Despedi-me de todos, que ficaram acenando até que a curva os escondesse. Fui pensando: levo mais ou menos uma hora para me desligar das pessoas agradáveis que vou encontrando por esse mundo! Saí pensando na Ana, tão longe do seu país, se dedicando ao cultivo de sementes para fazer mudinhas e plantar, ensinando mulheres a fazer tapetes, incentivando-as a fazer cestinhas de capim, que até saíram na revista Casa Claudia deste mês, dormindo à beira das cachoeiras; nos americanos, maravilhados com as belezas do Brasil, também querendo ficar, mas precisando voltar; em mim, na dificuldade de voltar a viver com hora marcada, sem o verde, sem as quaresmeiras e com horizontes cimentados …

Bem, a paisagem foi mudando, para uma mais agreste, pedras como catedrais góticas até chegar em Diamantina, cuja visão pendurada no morro, me encantou. Fui para a Pousada dos Cristais, mas não tinha lugar, de pronto me arranjaram um quarto na Pousada Sempre Viva da Dona Çãozinha. Fui para lá subindo e descendo ladeiras calçadas com enormes pedras de tempos coloniais. Um quartinho agradável com janelas de guilhotina, exatamente como as da casa de meus avós em Goiás Velho. Que bom, estava em Diamantina e já sabia que teria que ficar por uns dois dias. Havia uma programação cultural que envolvia uma Seresta, na qual os seresteiros vão caminhando pela cidade acompanhados pelos moradores, uma feira no mercado central e uma Vesperata, acontecimento dos mais importantes, mesas são colocadas na Praça da Matriz e os coros cantam nas sacadas das casas. Realmente, não dava para perder isso! Diamantina merece um diário à parte. É muito bonita, não é atoa que desde 1998 é considerada Patrimônio Cultural da Humanidade!

 

26 de março de 2001

Bol. 44

Trecho: De Diamantina (MG) a Fortaleza (Ce)

O que rodei de Fortaleza a Fortaleza: 28.319 km

Distância: Diamantina a Fortaleza: 2.203 km 

 

Um carrapato! Um carrapato!!

Lá estava ele, descoberto, depois de alguns dias de coceirinhas distraídas, bem agarrado na dobra da perna, atrás do joelho, mas estava tão agarrado que foi preciso uma pinça para desalojá-lo e ele, de ameaçador passou a humilde, na pia do banheiro, quieto, apreensivo quanto ao futuro. Resolvi dar-lhe uma chance e ele desceu junto com a água pelo buraco da pia, desaparecendo no burburinho, mas deixando uma coceira muito maior do que antes com um enorme calombo vermelho. Vexame!

Deixando o lado selvagem da viagem, passemos ao lado cultural …

Diamantina me reservou muitas surpresas, desde sua história muito rica, sua arquitetura especial, igrejas lindas de linhas despojadas, encravada em uma natureza agreste até à hospitalidade e simpatia de sua gente.

Andando por suas ruas de enormes pedras coloniais é aprender muito da nossa história. A antiga Vila do Tejuco floresceu às custas do garimpo de diamantes cuja descoberta ocorreu em 1729, época em que o Brasil era formado por poucas cidades, distantes umas das outras por milhares de quilômetros. Segundo Darcy Ribeiro “Três milhões de quilates em diamantes arrancados das pedras e das águas fizeram do Arraial do Tejuco a maior lavra de diamantes existente no mundo ocidental, naquele terceiro século da descoberta das Américas. Para se ter uma idéia, o volume de diamantes extraídos da região eqüivalia a 200 milhões de libras esterlinas, ou mais da metade dos metais preciosos saídos das colônias portuguesas e espanholas em direção à Europa. Parte dessa fortuna foi transferida da Coroa Portuguesa para a Inglaterra por meio de acordos comerciais, acabando por financiar a Revolução Industrial Inglesa”. Imagino que os acordos devem ter se dado mais ou menos como os de hoje! A gente sempre em desvantagem! Que horror! Mais de 200 anos depois, o garimpo está com os seus dias contados. Os anos de exploração deixaram rios assoreados  e danos irrecuperáveis. Diamantina hoje investe no turismo que tem tudo a ver! A Universidade tenta reabilitar a Estrada Real, antiga estrada de escoamento do garimpo, que se iniciava em Parati, no Rio de Janeiro e terminava em Diamantina, Minas Gerais, passando por Ouro Preto. A idéia é reabilitar o caminho para caminhadas como no Caminho de Santiago de Compostela na Espanha. Tenho certeza que a Estrada Real ainda vai dar o que falar!

A sociedade de Diamantina, pelo que pude entender, apresentava singularidades tais como: as relações patrão branco livre x escravo negro não eram como nos outros lugares. Os patrões avisavam os quilombos que os soldados da Intendência iam atacá-los, o homem mais rico da cidade, o contratador Fernandes de Oliveira, amancebou-se com a escrava em uma relação de muita paixão, aceita pela sociedade da época, sem grandes confusões. A coisa foi de tal ordem que influenciou até na arquitetura de uma das igrejas, a de Nossa Senhora do Carmo, cujo campanário fica na parte posterior da mesma. A explicação para isto seria a de que os sinos incomodavam a Chica ou então uma outra que considerei melhor: como os escravos não podiam ultrapassar o campanário, logo, não entravam nas igrejas porque todos os campanários fazem parte da fachada, a maneira para a Chica freqüentar a Igreja foi construir o campanário na parte de trás. Será lenda? 

O certo é que as igrejas são lindas, coloridas, simples, e, o que mais me chamou atenção, são integradas, a maioria não tem adro, fazem parte do casario! Super interessante!

Caminhei por aquelas ruas visitando o Museu do Diamante, de longe o casarão mais bonito e que pertenceu a um inconfidente, tendo sido confiscada; a Casa da Chica da Silva, que possui varandas fechadas por treliças de madeira, influência árabe e conhecidas por muxarabiê e que permitiam a observação de todos os acontecimentos sem que o “curioso” fosse visto; a casa da Glória, formada por duas casas, uma do século XVIII e outra do século XIX, ligadas por um passadiço sobre a rua, inspirada na Ponte dos Suspiros em Veneza; a casa de Juscelino Kubitschek, onde hoje funciona um museu, para preservar sua memória, o Mercado Municipal, lindo, com arcos de madeira e que teria inspirado Niemeyer à criação das linhas do Palácio da Alvorada; igrejas de Nossa Senhora do Rosário, das Mercês, de São Francisco, do Amparo e muitas outras. Fiquei por mais dois dias para participar da Serenata, quando os seresteiros saem pelas ruas, acompanhados da população que canta músicas de seresteiros famosos e a Vesperata, acontecimento cultural, durante o qual a banda militar toca das sacadas enfeitadas por tapetes arraiolos, enquanto nas mesas da pracinha as pessoas acompanham, tomando uma cervejinha ou, simplesmente conversando. Valeu a pena! Em Diamantina visitei também a Gruta do Salitre, cachoeiras, o Caminho dos Escravos, etc. Excelente passeio! Diamantina, foi para mim um banho de História!

A saída foi cedinho porque enfrentaria o Vale do Jequitinhonha, seco e pobre. O caminho de chão era bem ruinzinho, passei pelas cidades de Turmalina, Araçuaí, alcançando a cidade de Itaobim, já na Br 116. Meu Deus, já estava meio esquecida da 116, continua muito ruim! O trecho de Vitória da Conquista(Ba) até Jequié(Ba) é de cortar coração! Asfalto extremamente ondulado e tráfego intenso. É o tipo da estrada que deve ser duplicada! Não dá para entender! Finalmente Jequié, já anoitecendo. Dormi o sono dos justos. Dia seguinte cheguei a Feira de Santana(Ba), Linha Verde, onde fui entrevistada pela TV Bahia e dormi em um povoado que se chama Conde(Ba). De Conde, cheguei a Neópolis já em Sergipe, atravessei de balsa mais uma vez o Rio São Francisco e desci em Penedo. De Penedo peguei uma estradinha que vai beirando o Atlântico. Dormi em Riacho Doce(Al), olhando o mar de Alagoas e sentindo a brisa gostosa do Nordeste do Brasil. Estava quase em casa! Fortaleza é bem ali!

De Riacho Doce fui subindo pela beira do mar até Recife, alguns quilômetros acima, em Goiana(PE),entrei para Campina Grande(Pb) onde tinha um compromisso no Posto Milênio Ipiranga, dei uma entrevista para uma FM local e uma para o canal de TV SBT local. De lá vim cortando caminho por Santa Luzia até Caicó(RN), Açu, chegando em Mossoró(RN) onde caia uma chuva forte. Parei e fiquei no Hotel Termas, debaixo de chuva, tomando banho nas piscinas termais. Saí cedo, cheguei em Pacatuba, na casa do meu pai, no Sítio Boqueirão a tempo de almoçar com ele, sua mulher e meus irmãos. Estava chegando. Como conversamos!

Dormi no Sitio Boqueirão e no dia seguinte peguei meu marido no Aeroporto, estava chegando de Manaus, passamos na Troller, para conversarmos com o Pedro Carapeba, dono da Trilhafort, concessionária Troller de Fortaleza, falar com os funcionários, meus amigos, meus filhos e netos que lá estavam e … Praia das Flexeiras, a praia mais bonita do Ceará, onde temos uma casa super gostosa, ótima para um descanso de 28.319 km de estrada, quatro meses e uma semana e … um sonho realizado!

A próxima etapa será trabalhar no balanço final, onde colocarei na minha página, www.vovosmilenio.pro.br  ,os gastos, vantagens e desvantagens de viajar só, desempenho do Troller, as fotografias de locais inesquecíveis, dois boletins que não fiz: Parque Nacional Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul e Parque Nacional Torres del Paine, no Chile. Agora, tenho que digerir tudo. Que mudanças ocorreram ou ocorrerão em mim?

Estou muito curiosa!

 

Fortaleza, março de 2001

Heloisa Cunha

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

7 respostas a Patagônia 2000 – 29.000 Km pela América do Sul

  1. Aline Bottega disse:

    Querida Heloisa

    Meu namorado e eu estamos planejando fazer uma viagem à Patagônia Argentina e estamos lendo algumas referencias em sites e blogs de viagens para termos maiores informações. Há um tempo atrás, meu
    namorado comentou que leu seu diário da viagem para Patagônia bem completo, relatando dia por dia. Gostaríamos de lê-lo novamente para que, com base nele também realizássemos nossa viagem. Porém não o encontramos mais no site. Como poderíamos fazer para ter acesso ao diário novamente? Existe algum link para acesarmos? Ou existe outro meio de encotrarmos ele?

    Ficamos no aguardo.
    Continuamos acompanhando suas viagens.

    Abraço

    Aline

    • Heloisa disse:

      Oi Aline, com a modificação da página muitos dos diários anteriores ficaram pendentes. Viajei para o Equador, depois para o Sudeste Asiático e virei bisavó. Finalmente estou inserindo os diários originais do Projeto Patagönia 2000. Eles estão todos juntos, por ordem. Como disse, muitas das informações estão desatualizadas, por exemplo a maravilhosa estrada da margem sul do Lago General Carrera está asfaltada e é belíssima e imperdível. Boa sorte, Heloisa

  2. Johnd792 disse:

    Just wanna input on few general things, The website pattern is perfect, the subject material is real excellent. Believe those who are seeking the truth. Doubt those who find it. by Andre Gide. dccddekbgefg

  3. CJuçara Bastos Cassini disse:

    Adorei ler sobre sua viagem à Patagônia. Fizemos uma viagem com a EcoExpedições, em uma Dakar, com dois casais: Meu cunhado Marcelo, minha irmã Iracema (moram em Ipatinga/MG), meu Marido Marcelo e eu Juçara(moramos em Piumhi/MG), nós somos sergipanas e os maridos mineiros; Foi uma das melhores viagens até hoje; saimos de Piumhi, até Uruguaiana onde encontraríamos a expedição. Daí entramos na Argentina, depois Lujan,Bahia Blanca, Neuquen, Bariloche, Carreteira Austral, El Calafate, Caleto Oliva, Puerto Madryn, Bahia Blanca, Buenos Aires, Colônia do Sacramento(Uruguay), Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo até Piumhi/MG. Deu 13.200 km. Já fomos aos Lençóis Maranhenses,São Luís, Pelo Tocantins, Sete cidades, Fortaleza, Praia das Fontes(Coliseu)de outra vez fomos ao Piaui por Brasilia, Gurguéia, Raimundo Nonato, Sítios Arqueológicos,Terezina, Luiz Correia, Jericoaquara, Jijoca, Praia do Coelho, Fortaleza, Petrolina, Juazeiro, Lençóis, Barreiras, Luiz Eduardo Magalhães, Brasilia…..Praias de Sergipe, Praias da Bahia, Praias do Espírito Santo. Adoramos Viajar. Temos hoje um TR-4 com planos pra trocar por um carro maior…Adorei saber de sua experiência !!!!!

  4. Heloisa disse:

    Obrigada Leonardo! Tudo de bom, Heloisa

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