10 de nov

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Patagônia 2000 – Balanço Geral

Balanço Geral da Primeira Viagem pelo Projeto Avós no Terceiro Milênio, realizada no fim do ano 2000. Leia os diários  em  Viagens Anteriores, ítem “Patagônia: 29.000km pela América do Sul”.

Ch Paine 300x224 Patagônia 2000   Balanço Geral

Dados pessoais:

Heloisa Helena Cunha Marques

58 anos

Casada, três filhos e quatro netos

Dentista e Professora da Universidade Federal do Ceará

Projeto: Avós no Terceiro Milênio

www.vovosmilenio.pro.br

Dados do veículo:

Troller 4×4 Diesel com capota rígida – Modelo 2000

Cor Azul Blue

Motor MWM 2.8 L Intercooler

04 cilindros

Direção hidráulica

Ar condicionado

Tanque de combustível de 72 l

Dados da Viagem:

Duração: 130 dias

Quilômetros percorridos: 28.319 km

Consumo Diesel: 3.154 l (o que dá uma média de 9km/l)

 

Após dirigir 28.300 km, durante 4 meses e 10 dias, por muitos parques brasileiros,  Patagônia Argentina, Chilena e o Deserto de Atacama, posso afirmar que mulheres avós e/ou aposentadas podem, independentes de companhia, em um dia qualquer, comprar um mapa, apontá-lo, jogar algumas roupas dentro de um carro confiável, pegar a estrada que passa quase na sua porta, conquistar o horizonte e decididamente tornarem suas vidas infinitamente mais interessantes. Assim, atingi  pelo menos um dos objetivos do meu projeto que foi o de mostrar que esta é uma opção possível.

Posso também afirmar que, tudo depende de como se encara o medo, como uma mola que nos lança para a frente ou como uma coisa que acovarda e acomoda.

Uma vez em casa, satisfeita com o sucesso da expedição e ainda com dificuldade para me readaptar à “nova vida”, já é hora de resumir algumas coisas importantes.

Do carro

O Troller foi um excelente companheiro, robusto, charmoso, econômico, confortável, paciente com a minha inexperiência e incompetência. Em compensação foi muito bem tratado: todos os óleos  e filtros trocados no tempo certo, pneus bem calibrados, água e muito carinho nas difíceis estradas de rípio da Patagônia e as de chão, piçarra, asfalto destruído e esburacado do nosso país!

Eu e o Troller despertávamos muita curiosidade. Uma mulher viajando sozinha e não tão nova, é uma novidade! Um Jipe, com carroceria de fibra, é outra novidade. Muitas pessoas me pediam informações sobre o seu desempenho, suas especificações, para ver o manual do proprietário, etc.

Da comunicação

A comunicação com as pessoas através dos diários de bordo lançados em uma home page ou através de e mails foi fascinante! Tive que comprar um notebook e uma câmera digital para que minha página pudesse ser alimentada com os diários e fotografias. Aprendí a me comunicar em Cybercafés. Foi uma boa decisão, afinal qual é a vovó que não gosta de contar uma boa história?

Das dificuldades e dos conselhos:

As pessoas sempre me perguntam pelas dificuldades durante a expedição, posso dizer-lhes, para começar: viajar sozinha exige stress zero, nada de correrias. Acumular as funções de piloto e co-piloto não é fácil, assim é que, além de dirigir, fazia as anotações, controlava o GPS, consultava o mapa, procurava onde dormir e no dia seguinte arrumava o Troller. O segredo é manter a calma, o bom humor e  simplificação. Deixar um bloco para anotações pendurado na porta; caneta e óculos de grau, no quebra sol; o mapa, a garrafa com água, frutas para um lanche e guardanapos no banco do passageiro; o GPS em uma posição favorável para consulta, câmera fotográfica e filmadora em lugar de fácil acesso, assim como o creme hidratante o protetor solar para os lábios e rosto. Procurando deixar sempre essas coisas no mesmo lugar, com o tempo a gente acha tudo até de olhos fechados.

Outra coisa importante é a quantidade de roupa, do meio para o fim eu descia só a maleta do computador, uma pequena mochila contendo duas calças reversíveis (bermuda/calça), seis camisetas, que na poeira eram só batidas e cosméticos.

Dirigindo, minha principal dificuldade foram as estradas de rípio da Patagônia. São estradas de cascalho  ou pedras, muitas vezes  para um só carro, como é o caso da Carretera Austral, cujo “acostamento” cheio de grandes pedras pontiagudas, funciona como uma armadilha. Dirigir no rípio exigia atenção máxima , baixa velocidade para evitar derrapagens, muito cuidado nas ultrapassagens, para não quebrar o pára-brisa do seu carro, o dos outros e não acidentar os ciclistas, com os quais cruzei nos lugares mais difíceis do trajeto.  Cuidado também ao estacionar e sair pois uma manobra mais forte pode rasgar um pneu e o que tinha de pneu rasgado e abandonado não era brincadeira! Na Ruta 40, uma das estradas mais difíceis que peguei, em 500 km de El Calafate a Bajo Caracoles, contei 35 pneus rasgados, fora os que não contei, antes do fato me chamar atenção.

Outros trechos difíceis foram: a Ruta 3, na Argentina que, embora seja uma estrada bem conservada é extremamente monótona, com ventos fortíssimos, principalmente perto de Comodoro Rivadávia, que chegavam a desestabilizar o  Troller. Vi duas grandes carretas tombadas.

No Brasil, dirigir na Br 116, principalmente no Paraná, Santa Catarina e na Bahia, entre Vitória da Conquista e Jequié, foi tortura! Estas estradas estão sem acostamento, com asfalto mal conservado, ondulado com tráfego pesado de caminhões, carros de passeio, gente, animais, bicicletas, entre outros.

Sem dúvida, os momentos mais difíceis foram: descer um barranco, próximo a Alto Paraíso em Goiás, quando eu e o Troller quase caímos no rio, não fora uma árvore providencialmente colocada no caminho; quando enfrentamos os fortíssimos ventos da Ruta 3, próximo a Comodoro Rivadávia, ou na Ruta 40, a caminho da Carretera Austral, na Argentina com ventos de 120km/h e muita poeira.

Pagamento das despesas:

Levei U$ 1000 em travellers para emergências.

Retirei dinheiro em caixas eletrônicos, com cartão de crédito, em moeda local, planejando a quantidade necessária para pagar as despesas até a próxima parada.

Paguei muitas despesas com cartão de crédito. Foi tudo muito prático e facilitou o balanço final das despesas.

Das coisas engraçadas:

Já chegando na Serra da Capivara notei que se furasse algum pneu não teria como levantá-lo ao lugar do sobressalente. Muito pesado. Caso acontecesse (não aconteceu) teria que esperar por ajuda. Por quanto tempo? Ler Diário: Parque Nacional Serra da Capivara

No Uruguai me toquei que havia esquecido de fazer câmbio, o que provocou um grande engarrafamento no primeiro pedágio. Que os uruguaios me perdoem! Ler diário: De Cambará do Sul à Colonia no Uruguai.

Hoje, acho muito engraçado meu pré pânico ao saber que na travessia do Rio da Prata chegaria a Buenos Aires 22:00. Não conhecia a cidade e à noite, os fantasmas são maiores! Ler diário: A travessia do Rio da Prata

Atravessando o Estreito de Magalhães em Porvenir para sair em Punta Arenas em um ferry boat ao manobrar o Troller de ré quase caí na água, fato que fez com que o oficial do barco me colocasse p’ra fora da direção e fizesse a manobra. O riso foi geral, inclusive o meu! Ler diário: De Ushuaia a Torres del Paine

Na Ruta 40 em meio a ventos de 120 km/h, a decisão de fazer xixi era dramática. Uma vez ele voou para cima de mim e uma outra tive que sair correndo atrás do Troller. Ler diário: De El Calafate a Bajo Caracoles

A chegada das primeiras vovós no Aeroporto de Balmaceda: chegaram antes da hora, foram passear pela estrada, quando passei me pediram carona, como não dou carona fui em frente e elas tiveram que fazer a caminhada toda de volta. Muito vento e poeira!

Ler diário: Carretera Austral: De Puerto Ibañez a Coyhaique

Empurrar a Van na excursão para os gêiseres do El Tatio, no Deserto de Atacama, a caminho do El Tatio, às 4:00 debaixo de neve foi também engraçado! Ela não tinha força para subir e os passageiros tinham que colaborar! Ler diário: San Pedro de Atacama

Achar um carrapato na dobra do joelho depois de dez dias de coceirinha. Foi demais! Ler diário: De Diamantina a Fortaleza

Do roteiro:

A opção por viajar pela Natureza percorrendo Parques e Reservas Naturais, foi gloriosa! Ela me ofereceu espetáculos inéditos, diários, era só assistir. Foi assim que  no Brasil me maravilhei com as pinturas rupestres da Serra da Capivara, a deslumbrante natureza das Chapadas Diamantina, Veadeiros e Serra do Cipó. E o que dizer da majestosa Cachoeira Casca d’Anta despencando de quase 200 m de altura na Serra da Canastra, da exuberante vegetação do Ibitipoca, suas montanhas e cachoeiras, das enormes e quase intocadas cavernas do Petar, de Aparados da Serra e Serra Geral, onde fiquei por horas aguardando que a névoa, como gaze esfiapada, fosse descobrindo aos poucos seus impressionantes cânions de mais de 700 m de altura! E fui descendo pela América do Sul olhando a Natureza.

Na Argentina, vi baleias, lobos marinhos na Península Valdéz, participei da vida dos pingüins em Punta Tombo, fiquei encasquetada com os troncos dos Bosques Petrificados, assisti sentada o entardecer na Bahia de Ushuaia, fiz longas caminhadas pelo Parque Nacional Tierra del Fuego e Bahia Lapataia.

No Parque Nacional Los Glaciares me maravilhei com o Perito Moreno, em frente ao qual tomei chuva por um longo tempo tentando guardá-lo para sempre como o via, azul e imponente se desmanchando no lago.

No Chile, no Parque Nacional Torres del Paine, vi o maciço do Paine virar brasa ao amanhecer e atravessei seu ar azulado à procura do Glaciar Grey , Lago Sarmiento, Nordenskjold, e outros.

E a Carretera Austral? Em cada curva, atrás de cada rochedo, lagos verdes, azuis, glaciares desafiando a gravidade, pendurados nos Andes, bosques, florestas e caminhadas incríveis!

Bem ao norte, ainda no Chile, o Deserto de Atacama e suas cores mutantes ao entardecer, me surpreenderam! Elas se misturavam aos pontos ou manchas brancas de cristais de sal e, ao pôr do sol, o deserto cintilava! Isso me marcou para sempre. Quanta beleza! Quanto privilégio!

Das pessoas:

As pessoas que conheci na estrada eram sempre muito interessantes. Neste esquema de viagem elas estão mais soltas e o fato de eu estar sozinha fez com que eu procurasse conversar com elas, não só para trocar informações como para saber de suas venturas ou desventuras. Ouvi histórias muito engraçadas das quais me lembraria depois para rir.

Encontrei poucos brasileiros, mas os encontros foram sempre uma festa! Em Buenos Aires, na madrugada, um casal de São Paulo, me ajudou a encontrar um Hotel. Em Ushuaia, no fim da Rodovia Pan-americana, seis motoqueiros brasileiros fizeram comigo uma festa de fotografias www.motoestrada.cjb.net . Lá também vi a partida do Projeto Rota Austral. Em Bajo Caracoles, na Argentina encontrei um outro casal de brasileiros, que fazia a Patagônia acampando, segundo o roteiro dos Pingüins do Deserto www.pinguinsdodeserto.com.br viajamos juntos, abrindo e fechando porteiras de arame até  Paso Roballos, fronteira mais ao sul da Argentina/Chile. No Deserto de Atacama encontrei quatro jovens que queriam mostrar que as estradas são uma opção melhor que os bares, fizeram uma entrevista e me perguntaram “como a senhora se sente fazendo um programa de jovens?” Disparei a rir e eles se tocaram, refazendo a pergunta. “Pois é, né”? Em San Pedro de Atacama, encontrei dois brasileiros, menos novos, que viajavam em uma Land Rover e que ficaram impressionados com a minha coragem. Haviam perguntado um para o outro: “quem é o macho que veio dirigindo este carro desde Fortaleza”? Achei muito engraçado! “Tem macho não moço, é só uma vovó com muita disposição, realizando um sonho!” E passamos a nos contar histórias. Neste esquema não existe idade, existe um ou uma aventureira e tanto faz, todos contam suas histórias que, diga-se de passagem são sempre muito interessantes.

Na Patagônia, a meu ver, os grandes heróis da aventura são os ciclistas. Vão sozinhos ou em grupos, pedalando pela poeira, se equilibrando de qualquer jeito no vento, acampando à beira da estrada ou nos parques, desviando das pedras do rípio, lançadas pelos carros, surgem dos ventos e da poeira. Com eles tive muito cuidado, são muito desprotegidos e podem ser acidentados com muita facilidade.

Das descobertas

Viajar sozinha tem seus encantos, e um deles é o tempo dos seus olhos e sentidos.

Durante os 130 dias de estrada, tive muito tempo para me redescobrir, concluindo que, na confusão do dia a dia, esquecera meu jeito. Os dias foram uma sucessão de sentimentos novos e a certeza   de que grande parte da minha segurança para resolver calmamente os problemas à medida que iam aparecendo, os medos ocupando os lugares devidos e a sensibilidade para captar a natureza em toda a sua extensão, se deviam à minha idade. É, com certeza, esta é uma boa idade!

Do futuro

Depois do sucesso desta experiência, fiquei encorajada a realizar a segunda etapa do Projeto Avós no Terceiro Milênio. Continuarei a percorrer o Continente Americano. Penso em algumas modificações, talvez abra para mais avós, em trechos mais longos ou, quem sabe, em outro carro. Tudo pode acontecer, inclusive dividi-lo em duas fases. Escrever um livro: quem sabe?

 

6 respostas a Patagônia 2000 – Balanço Geral

  1. Regina Fontenele disse:

    Olá Heloisa, nos conhecemos recentemente em Flecheiras, e conversamos sobre viagens. Ver o seu site está virando vício, é fascinante e quase inacreditável sua coragem e disposicao.
    Você faz parte de um grupo seleto muito pequeno, nao diria único, pois certamente no mundo deve existir alguem com tamanha coragem, nao sei se nas mesmas condicoes.
    Sua estória precisa sim ser divulgada.
    Ficarei acompanhando com muita curiosidade todas as sua aventuras.
    Um grande abraco.

    v

  2. Nivaldo Antônio de Carvalho disse:

    É de espantar a tamanha emoção ao ler seus relatos, talvez por que me identifique com esse modo de vida e vendo pessoas totalmente equilibradas realizando-o, sinto que meu sonho é bastante normal para pessoas normais, ainda mais que também sou dentista e tenho uma maravilhosa família. Gostaria de saber muito mais, escreva um livro!! Parabéns.

  3. Prezada Heloisa. Posso lhe dizer que hoje ganhei o dia… Ao encontrar na primeira página do UOL as diretrizes para encontrar o seu “site”. Há aproximadamente cinco anos Eu e meu marido Francisco temos nos colocado como desafio viajar pela América do Sul – um pouco pelo Brasil, um outro tanto pelos países vizinhos – por enquanto, algumas parte de Peru, Uruguai e Argentina… Lendo um pouco do seu roteiro pela Patagônia, me vi várias vezes em situações e sentimentos semelhantes “Viajar sozinha tem seus encantos, e um deles é o tempo dos seus olhos e sentidos”. Não viajava sozinha como a senhora/você, mas com meu marido, parceiro fantástico de 20 anos de encontro, amor e respeito. Como você também somos professores. Não de carreira universitária, mas da Educação Básica. Francisco é artista plástico e professor de Arte da rede pública municipal e estadual de São Paulo/SP. Eu, igualmente professora de Ciências Naturais e Biologia. Não contente com a vida de São Paulo aceitei o desafio de minha mãe e construí um projeto de Escola e de Educação em Sinop/MT em 2003. E desde então, Francisco em São Paulo, Eu em Sinop/MT. Parece que essa aparente distância nos colocaria tão perto do desafio de nos proporcionar viagens. Ainda não nos aposentamos, mas ensaiamos algumas viagens. Alguns destinos no Brasil que a senhora descreve o fizemos em anos anteriores, como o da Serra da Capivara… Sempre partindo de Sinop/MT, nos encontrando em algum lugar do mapa e seguindo… Viajamos com um carro GOL 1000, cor vermelha quatro portas, básico. Eu dirijo a maior parte do tempo. Nosso filho Lucas, hoje com 20 anos, sempre presente e ultrajado como todo jovem, mas não quer a presença de outra companhia que não seja a nossa, eu com 56 anos e Francisco com 59. São tantos pontos em comum encontrados na medida que lia sua viagem pela Patagônia, que ficaria eternamente digitando para a senhora… Fiquei encantada pela idade, por ser professora, viajante de carro, estradas, respeito pelos ciclistas, encontros com pessoas, silêncio, ripio, geleiras, deslumbramento, por do sol… E sei o porque desse encantamento: dirigi ao final deste ano por aproximadamente 15000 quilômetros partindo de Sinop/MT em direção ao Ushuaia e como dirigi quase o tempo todo me vi muitas vezes com essa infinitude que brota em nossos olhos de querer alcançar o topo de todas as montanhas. Seu site será meu companheiro doravante e com certeza de Francisco e Lucas, meu filho, também. Muito Obrigada! Suzana P. Corrêa.

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