05 de jul

Em Moscou

Nos trilhos da Transiberiana: Rússia, Mongólia e China

Nos trilhos da Transiberiana: A idéia

Quando me despedi da Lucinha na Rodoviária de Cuiabá, em junho de 2005, eu indo para Machu Picchu e ela retornando a Fortaleza, de longe acenou dizendo: “no caminho pense nos trilhos da Transiberiana!” Subi o Altiplano da Bolívia ainda pensando naquele aceno. Até então tudo não passara de conversas quando faltava assunto. Quando voltei e nos reencontramos no Ceará, ela já estava com a idéia amadurecida e com o guia Trans-Siberian Railway da Lonely Planet na mão. Começamos a considerar um caso sério e, quanto mais líamos e conversávamos mais séria a idéia ficava. Sendo assim, iniciamos por avaliar as dificuldades, a primeira era o idioma. Nem eu nem ela conhecíamos sequer o alfabeto russo, mas foi quando nos deparamos com os lindos desenhos do alfabeto chinês, que chegamos a conclusão: não aprenderíamos o russo, tampouco o mongólico e muito menos o chinês em seis anos quanto mais em seis meses. Todos os relatos nos falavam da dificuldade de comunicação. O turismo muito incipiente e poucas pessoas falando inglês ? não que o nosso seja ótimo, continuamos com o the book is on the table, mas dá para o dia-a-dia. Já pensaram comprar uma passagem de trem na Mongólia para visitar uma fazenda no campo, ahnn!? Ou então na China “queremos ir até as Muralhas, que transporte podemos pegar?” ou, pior ler informações naquele alfabeto russo (cirílico) tendo que virar de cabeça para baixo, pois tudo parece escrito ao contrário?

Bem, nesse ponto do planejamento ficamos meio desanimadas, pois queríamos ir por conta própria como quem anda na América do Sul curtindo as desventuras da aventura. Não queríamos ir por um desses pacotes do “dou por visto” e não tínhamos como superar a dificuldade da comunicação. Foi um tempo de desânimo, mas não de desistência. Se estávamos considerando o idioma uma barreira quase intransponível, conseguir os vistos mostrou-se uma operação bastante complicada, principalmente o Visto Russo.

Foi aí que começamos a pesquisar agências de viagem. Nos deparamos com a página da Tchekhov. Havia um pacote pequeno que juntava uma parte aérea com trem na Mongólia e China. Não ficamos satisfeitas, pois perderíamos as estepes e… Borodin entrou em ação com seu lindo Poema Sinfônico que descreve as emoções de alguém ao atravessar as Estepes da Ásia Central. De qualquer forma escrevemos para a empresa e a Flávia nos comunicou que o pacote poderia ser personalizado. E aí começamos a sonhar com todas as maravilhosas igrejas da arquitetura czarista, várias paradas em cidades da Sibéria, amanheceres e entardeceres no Lago Baikal, uma tenda nômade na Mongólia, os templos budistas e ah…o espetacular exército de terracota de Xi’an, dias e dias passeando de bicicleta por Beijing (Pequim). E de sonho em sonho gastamos vários dias e cada dia mais cidades iam sendo acrescentadas até que a nossa estadia transformou-se em vários anos. Nesse ponto a Flavia nos colocou nos trilhos enviando um orçamento. Nos deparamos com a realidade e, aí sim começamos a cortar e estabelecer prioridades. Foi um tempo bom!

Enquanto a Flavia tentava adequar o orçamento aos nossos sonhos líamos tudo que encontrávamos de Gorki a John Reed e seu Dez dias que abalaram o mundo; Gengis Khan, Kublai Khan, e as Dinastias Chinesas Qin e Han entraram no nosso dia-a-dia. Foi como entreabrir uma janela para uma paisagem do passado. Escutamos os compositores russos e assistimos Dr. Jivago, Guerra e Paz, já esquecidos na poeira do fim de nossa adolescência. E o Miguel, nosso amado pai de 91 anos falou-nos da Revolução Russa, de Confúcio e Mao Tsé Tung. Pois é, segundo ele, citando Mao “todos os problemas da grande marcha começarão a ser resolvidos quando dermos o primeiro passo”. Acreditamos nisso e, já quase entregando nossas flores para alguém cuidar, demos o primeiro passo: estabelecermos o Roteiro!

 O Roteiro

Mapa Definitivo copy Nos trilhos da Transiberiana: Rússia, Mongólia e China

Uma coisa estava certa: não abriríamos mão do Trem Transiberiano e, de trem, chegaríamos a Beijing (Pequim). Partindo disso fizemos uma lista do que queríamos ver e como. Em San Petersburgo atravessar a pé as pontes sobre o Rio Neva, navegar em seus canais apreciando a arquitetura da cidade, visitar o Museu Hermitage, assistir um ballet no Teatro Mariinsky e…perambular pelos campos de Petrodvorets; em Moscou descer o Rio Moscou em um cruzeiro, caminhar, como quem não quer nada, pela Praça Vermelha, entrar nas magníficas igrejas, brindar o pôr-do-sol em algum bar do Kolomenskoye, lá onde os czares descansavam nos fins de semana e entrar nas maravilhosas e luxuosas estações de metrô, verdadeiros museus construídos por Stalin com o objetivo de dar ao povo tanto luxo quanto os czares tinham em seus palácios. Perto de Moscou e já na Ferrovia Transiberiana, escolhemos Suzdal a mais representativa antiga cidade do chamado Anel de Ouro, centro político e cultural antes de Moscou tornar-se capital, suas igrejas, mosteiros, museus, enfim… Descer do trem em pelo menos duas cidades da Sibéria e, ai escolhemos Novosibirsk e Krasnoyarsk à margem do Rio Yenisey para caminhadas pelo Parque Stolby; em Irkutsk descansar e curtir o Lago Baikal. Na Mongólia, para conhecermos melhor o povo, imaginamos ficar hospedadas em uma fazenda, dormir em uma tenda dos povos nômades, visitar os templos budistas; na China, em Beijing, nos maravilharmos com a Grande Muralha, nos esfalfarmos subindo seus degraus, curtirmos a solidão e a paz dos templos de Lama e Confúcio, nos perdermos pelos jardins da Cidade Proibida e por que não depois de tudo saborearmos um pato chinês? E… em Xi’an, meu Deus! Deixarmos o queixo cair ao nos depararmos com o espetacular Museu dos Guerreiros e Cavalos de Terracota nas tumbas dos Imperadores Qin Shi Huang Di e Han Jing Di e, finalmente, na volta, uma parada p’ra lá de obrigatória em Lisboa para comer bacalhau e irmos a uma Casa de Fado. Nossa!

Estuda daqui e estuda dali o roteiro definitivo ficou assim: Na Rússia: San Petersburgo, Moscou, Vladimir, Suzdal, Novosibirsk, Krasnoyarsk, Irkutsk e Listvyanka. Na Mongólia: Ulan Ude, Ulan Baatar e Terelj. Na China: Beijing e Xi’an.

Bem, definido isso partimos para as passagens aéreas. Depois de várias consultas em várias agencias ficamos com a Varig mesmo que nos dava direito a milhagem com preços melhores. Foi muito engraçado, pois na hora de comprarmos o bilhete acrescentamos Tallin capital da Estônia. Sairemos de Fortaleza no dia 12 de maio de 2006 sabendo que ainda pegaremos um pouco de frio. Já estamos de passagem na mão! Mais uma etapa!

Nosso roteiro terá a duração de 45 dias. Os vistos foram providenciados pela Tchekhov. As passagens de trem já estão compradas, hotéis reservados e teremos guias em Espanhol e Português em algumas ocasiões. Enfim, um programa para avós do terceiro milênio, nem aventura e nem mordomia demais. Quando voltarmos prometo contar tudinho com fotos e mais fotos!

Heloisa Cunha, março de 2006.

 

Trecho 1: De Fortaleza (Brasil) a São Petersburgo (Rússia)

Km. O:    São Petersburgo

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Queridos amigos,

Saímos de Fortaleza no dia 12 de maio. Até chegarmos a Tallinn, capital da Estônia, corremos pelo Aeroporto de Lisboa e Frankfurt para alcançarmos as conexões que ficaram com horários bem apertados.  Fizemos câmbio, a moeda é o Kröon (EEK), 1U$=12 Kröon. Pegamos o táxi direto para o hotel que reserváramos pela Internet, Hostal Allur. Não tínhamos a menor idéia do que encontraríamos. Puxando as malas entramos por um portãozinho de ferro e nos deparamos com uma casa antiga com mansardas e tudo. Batemos, nos identificamos e, em um segundo já estávamos no quarto. Através da pequena janela, víamos do outro lado da avenida, a grande muralha do século XIII que cerca a velha Tallinn. A tarde ia descendo e o sol não era mais suficiente para esquentar o tempo. Saímos no frio, atravessamos a avenida, um bosque e logo depois o grande arco medieval, a Porta Viru e suas torres gêmeas. Frio demais! Caminhamos pelas ruazinhas estreitas com calçamento de pedras, ladeadas por antigas construções medievais de tetos cônicos. Chegamos ao Castelo Toompea sede do Parlamento da República da Estônia. Ninguém na rua! Entramos em uma taverna e comemos a primeira das inúmeras panquecas (blinis ou crepes) que comeríamos pela Estônia e Rússia. Eram enormes e recheadas com cogumelos. O chope era forte e delicioso. Tudo isso escolhido a dedo, isto é, apontando para a mesa vizinha, pois daquela língua não entendíamos nada.  Ao cair da tarde a cidade histórica de Tallinn é uma cidade de contos de fadas. Dá vontade de puxar aqueles antigos livros infantis e entrar no conto. Andamos ainda um pouco e corremos para o hotel. Realmente o maior frio de toda a viagem. Depois disso nossos agasalhos pesados só fizeram volume e muito peso na mala. E por falar em mala, a minha, quando foi aberta, quebrou logo o zíper e assim conheci à força o lado moderno de Tallinn, comprando uma única mala de um único shopping aberto no domingo. Esta mala que me custou 275 Euros, um preço exorbitante, era bem maior que a minha. Fazer o quê? Fiquei de má vontade com ela sendo motivo de muitos xingamentos principalmente por ocupar muito espaço nas pequenas cabines do Trem Transiberiano e sempre causar muito stress nas minhas subidas e descidas naquelas escadinhas estreitas e altas. Quanto mais eu xingava mais ela ficava pesada e chata. Nesse dia compramos também nossa passagem de ônibus para São Petersburgo. Com um mapa na mão, pegamos um “tran” e, como não sabíamos onde comprar os tickets, fomos de graça mesmo correndo o risco de sermos multadas. Com as passagens compradas voltamos para a cidade histórica onde, me pareceu, ocorria uma festa, mas era só um domingo de sol. As pequenas ruas estavam lotadas de gente, bandas de música, nozes assadas com açúcar. Nos esbaldamos. Entramos nas catedrais medievais, subimos até a torre de uma delas e, esbaforidas, vimos a cidade lá embaixo, o sol sumindo e as pessoas correndo para casa. Descemos, e novamente ficou tudo silencioso. Sozinhas assistimos a um pôr-do-sol maravilhoso um dos mais belos da viagem. Uma luz laranja infiltrava-se pelas antigas pedras dos muros e torres e refletia-se nos telhados pontudos voltando a sensação de contos de fadas. Mais panquecas e chopes foram o nosso destino final. Fizemos também umas comprinhas para a merenda durante a viagem de ônibus.

No dia seguinte pegamos um táxi e o ônibus para a Rússia. Sabíamos que desceríamos em São Petersburgo em uma estação cujo nome era CT.????????? ?????????? ??????. Entenderam? Nem nós. Mesmo assim consideramos que estávamos preparadas para tudo. Mas que nada! A fronteira foi um horror e a chegada em São Petersburgo o caos.

Na fronteira desce todo mundo com mala e tudo e aí sim nos deparamos com a dificuldade do alfabeto cirílico e com o pouco caso para a dificuldade dos estrangeiros para entendê-lo. O formulário de entrada no país era revirado de cabeça para baixo, de lado, na tentativa de que, olhando enviesado, talvez descobríssemos o significado daquele monte de caracteres. Resolvemos então fazer uma comparação com o visto de entrada e, enquanto a fila andava, descobrimos onde colocar nosso nome, número do passaporte e visto. Com um olhar severo, o primeiro dos muitos na Rússia, fomos encaminhadas para uma mocinha que corrigiu tudo e nos mandou para o carimbo. Subimos para o ônibus sem entender o porque da obrigação de descermos as malas, uma vez que não foram revistadas. Entramos na Rússia. Pela janela começamos a ver os campos abandonados e as casas em ruínas. Este foi o trecho onde mais observei sonhos desfeitos e partidas para as cidades grandes. Sinais devastadores dos problemas não resolvidos pelos 70 anos de regime comunista. Depois de algumas horas de estrada boa começamos a ver edifícios semelhantes a caixotes cheios de janelinhas, feios e sem graça. Nosso primeiro contato com a arquitetura stalinista. Seria São Petersburgo? Não acreditamos, pois nossa cabeça estava recheada de lindas imagens de Igrejas e Palácios. Mas era sim. O ônibus parou no meio de uma “praça” e todos os passageiros começaram a descer. Surpresas também descemos eu, meio areada olhando para um lado e outro e a Lucinha mais recomposta apontando para aquele nome que eu escrevi lá em cima e mostrando para o motorista que exibia aquela cara “tenho nada com isso não”. Ouvi a Lucinha dizer: “Solena, mulé te orienta, corre para pegar sua mala, o ônibus vai sair!” Puxei a mala “mala” e ele partiu quase me arrastando junto. Ficamos por ali procurando um lugar mais adequado para nos orientarmos com calma. Sem rublos, com um resumido mapa e sem entender nadica de nada do que ocorrera, ficamos meio empacadas. Nosso plano era o de descer em uma estação rodoviária, comprar um mapa, fazer câmbio e ver como chegar ao nosso hotel que já estava reservado. Depois de uns cinco minutos e já refeitas principalmente porque os carros nos ameaçavam a todo o momento, resolvemos atravessar a tal praça e ver o que havia do outro lado. Foi aí que inesperadamente encontramos, bem paradinho à nossa frente, um táxi com um motorista que falava inglês e, o que foi melhor, que aceitava nossos dólares e que nos deixou na porta do Hotel Dostoievski. Que sorte! Mais à frente veríamos que é raro se falar inglês na Rússia, que o russo não gosta do idioma inglês e que também a simpatia não é um traço característico do povo. Por isso, digo que tivemos muita sorte e, como a primeira impressão é a que fica, sempre que nos deparávamos com o mau humor e a má vontade dos russos, o que é frequente, nos lembrávamos do nosso santo taxista. Na porta do Hotel Dostoievski ainda tivemos ânimo para olhar para o outro lado da rua, estávamos bem de frente para a Catedral de Nossa Senhora de Vladimir visitada muitas vezes na tentativa de entendermos o ritual ortodoxo. Mais tarde subimos para o restaurante e, pela primeira vez, experimentamos a sopa Borsch que nos acompanharia por toda a Rússia. É uma sopa deliciosa de couve e beterrabas cozidos em um caldo bem gorduroso de carne de porco ou carneiro. Dependendo da região ela é mais ou menos apimentada. 

Como nossa programação oficial incluía dois dias livres, iniciamos o dia seguinte estudando, fazendo planos e câmbio, 1U$ igual a 26 rublos.

Quando Pedro I, o Grande, em 1703, resolveu construir uma fortaleza às margens do Rio Neva e batizada por ele de São Petersburgo, sabia muito bem o que queria. Seria uma cidade para concorrer em beleza e luxo com as mais importantes cidades da Europa. Renomados arquitetos da Itália e França foram convocados para projetarem as monumentais edificações. De fato, a nova capital foi, em 1713, chamada de “a oitava maravilha do mundo”.  O que ele não sabia é que ela mudaria tanto de nome: em 1914 virou Petrogrado, em 1924, com a morte de Lênin e, por ordem de Stalin, passou a se chamar Leningrado, e, finalmente em 1991 voltou a ser São Petersburgo.

Saímos para a Avenida Nevsky ou Nevsky Prospect, a mais badalada da cidade. Uma vez caminhando por ali procuramos uma Central de Telefones, um Cybercafé ou um Correio, o básico para nos comunicarmos com o Brasil dando notícias. O primeiro e maior espanto ocorreu quando topamos com a dificuldade de comunicação. Inacreditável! O que na Bolívia, o país mais pobre da América Latina, a gente encontra em qualquer esquina, em São Petersburgo, e, constataríamos mais tarde, em toda a Rússia, chegou a ser considerada por nós missão impossível. Ainda na Nevsky, anda p´ra cá e anda p´ra lá, entramos no Hotel Europa e assim dei notícias pagando 43U$ por cinco minutinhos de telefone. Credo! Valeu, pois eu já estava angustiada. Depois do choque, percorremos o luxuoso hotel de 1873 onde se hospedaram Debussy e Johann Straus. De novo na Nevsky paramos para observar. A avenida, contada inúmeras vezes por Dostoievski em seus livros, não é larga o suficiente para mão, contra mão e quatro pistas. Um trânsito caótico e muito poluição quase tira a beleza dos inúmeros e maravilhosos edifícios. Como nosso hotel ficava por ali, durante nossa estadia cruzamos várias vezes os canais Moika e Griboyedova. Em uma das caminhadas desse dia entramos na Catedral de Nossa Senhora de Kazan uma das mais grandiosas igrejas da Rússia. Em estilo clássico ela está muito longe do estilo russo que, praticamente só encontramos na espetacular Catedral Salvador Sobre o Sangue Derramado. Linda, de cair o queixo. O pobre Czar Alexandre II, em 1881, morreu no local vitima de um atentado. Seu filho, Alexandre III, chamou um arquiteto que reproduziu, estilizando, os templos do século XVII em um retorno claro ao verdadeiro estilo russo. Para incluir o local onde o Czar caiu morto, uma parte da igreja foi edificada sobre uma plataforma artificial construída no canal e, de uma ponte mais afastada, é como se a catedral tivesse encalhado após navegar de canal abaixo. Possui um interior belíssimo com um magnífico iconostase (altar de ícones). Um dos pontos mais bonitos de São Petersburgo. 

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A noite chegou trazendo frio e muito vento. Paramos em um quiosque para comer Blinis também comida típica russa. São recheados com requeijão, maçã, carne, berinjela, caviar, cogumelos, etc. A Lucinha adorava, mas muitas vezes encontrou o quiosque fechado, pois como lá só escurecia as 23:00 sempre pensava que eram 18:00. Custamos a nos acostumar.

No outro dia, ainda sem guia, resolvemos pegar o metrô e já dentro dele nos tocamos da dificuldade de orientação. Nosso mapa continha nomes com o nosso alfabeto e, as estações, assim como todas as informações, eram em alfabeto cirílico, sem colher de chá. Não sei como descemos no lugar mais ou menos certo, mas na volta nos perdemos na direção e pensamos que para sempre ficaríamos por ali entre uma estação e outra que nem cachorro que cai do caminhão da mudança (nunca vi um dizer tão certo). Ninguém falava uma palavra sequer de inglês. Ninguém se entendia. Paramos, respiramos e, no meio daquela confusão, com o guia Lonely Planet que continha um alfabeto cirílico com correspondência para o românico, começamos a montar a direção do metrô. Foi assim que descobrimos como se escreve Dostoievski em cirílico, a estação de frente ao hotel. O passo seguinte foi comprar um mapa decente o que também foi uma dificuldade e que não serviu para muita coisa. Aventura no metrô! Parecia filme de terror ou então no meio do seriado Lost. Assim mesmo passeamos pelos jardins do Museu Russo, e fizemos a pé um City Tour dando voltas ao redor do Hermitage, Armaria, Coluna de Alexandre, olhando o Rio Neva, Fortaleza de São Pedro e São Paulo, lá longe a Ponte Trotski, aquela que eleva sua parte central de 43 metros para que passem os navios. No terceiro dia já estávamos com guia. Chegaram Julia e Liuba, falando um português de Portugal e foram logo comentando que as novelas brasileiras faziam enorme sucesso na Rússia inteira e que, no momento, todos assistiam a “O Clone”. É verdade, nas cidades nas quais descemos todos comentavam desta novela e de outra a “Laços de Família”, acho.

Liuba nos guiou pelo Museu de Arte Russa no Palácio Mijailovski. O Palácio é de 1898 e o Museu está organizado seguindo o princípio histórico cronológico. O setor dos ícones que se inicia com obras do século X e XI é espetacular. Muitas obras de Andrei Rublev que levou a pintura de ícones ao apogeu aí pelos anos de 1360 a 1430. Passamos para as salas onde estão os pintores russos do século XIX considerado o período de ouro da arte russa. Lá estavam Repin, Briullov, Serov, Chagall, Malevich, Kandisnski, só para citar alguns. É imperdível! Júlia nos guiou no Hermitage, um dos cinco maiores museus do mundo. Fomos ao Forte de São Pedro e São Paulo que só víramos de longe. Nesse dia a Lucinha ainda não conseguira saber onde comprar selos para seus postais e, principalmente, como enviá-los. Nem no nosso hotel sabiam informar. A questão da comunicação continuava a nos surpreender. Em compensação o celular virou peste. Todos têm um pendurado no pescoço e as chamadas são tantas que chegam a atrapalhar. Entramos na Catedral de San Isaac, enorme, magnífica. Um iconostase em uma gigantesca parede de mármore, mosaicos, pinturas, colunas de Malaquita, mineral do qual nunca ouvira falar, 400kg de ouro, toneladas de jaspe, lápis-lazúli, etc. etc. Ela é imensa, monumental, mas nada tem da arquitetura russa característica. Dá sempre impressão de que você está na Itália, em São Pedro.

Partimos para o Peterhof e seus esplendorosos jardins. Fomos de barco pelo Golfo da Finlândia. Pedro, o Grande queria uma residência fora da cidade, uma “chácara” que no início era bem rústica. Quando ele visitou a corte de Luis XV, em 1717, ficou fascinado pelos palácios e parques nos arredores de Paris e, quando voltou da viagem, determinou que a Rússia também dispusesse de uma residência de férias que fosse mais esplendorosa que Versalhes. Então, em Peterhof foram construídos vários palácios, fontes nunca vistas anteriormente e jardins belíssimos. Na Grande Guerra Pátria, como os russos se referem à II Guerra Mundial, o Grande Palácio foi totalmente destruído. São Petersburgo, nesta época Leningrado, foi cercada pelos alemães durante 900 dias sem nunca ter se rendido. No entanto os arredores, como é o caso de Peterhof, foram completamente saqueados e destruídos pela fúria nazista em níveis jamais vistos. Foi lá, dentro do museu, que vimos uma pecinha p’ra lá de curiosa: uma caixinha metálica pequena, de forma arredondada e cheia de furinhos, para atrair pulgas. Pulgas? A Julia explicou que as festas no Palácio duravam dias. Os cabelos eriçados e penteados não podiam ser desarrumados. A caixinha era colocada entre os cachos no alto da cabeça, com um pedaço de toucinho para servir de isca para os bichinhos que ali ficavam aprisionadas. Uma armadilha e tanto! Mas não seriam piolhos? Ah, finíssimas e enjoalheiradas damas… Piolhos! Me poupem! Passeamos pelos jardins observando as inúmeras e belas fontes. Partimos.

Já de volta, e já sem guia, caminhamos e caminhamos até a Catedral Smolni, subimos as escadas estreitas até o alto da torre. Que visão das cúpulas douradas brilhando ao sol! Caminhamos pelos caminhos de Catarina, a Grande, de seus amantes ou favoritos e pelas ruas por onde um dia, em 1916, Rasputin se arrastou, envenenado e ferido de morte tentando fugir de seus algozes aristocratas. Fomos visitar o Palácio dos Yusupov, bonito, elegante e de bom gosto, sem exageros. Há uma sala em que os personagens participantes do assassinato do bruxo estão em cera ao redor de uma mesa, como no dia do atentado. Senti-me invadindo um drama particular. Sensação estranha. Rasputin e sua influência sobre a Imperatriz Alexandra através de seu filho hemofílico provocaram uma crise que enfraquecia o reinado do ultimo Czar Nicolau II? Não. Acho que Nicolau não soube perceber o que acontecia na Europa: crescimento industrial e mudanças políticas. Continuou a se comportar como o “Dono da Terra Russa” mantendo ideais absolutistas, fora da realidade. Assim, o último dos Romanov cavou o fim de sua dinastia com o assassinato de toda a família pelos bolcheviques dando oportunidade a uma Guerra Civil e a uma ditadura comunista que durou 70 anos, após os quais a Rússia “quebrou” e, tenta se reerguer. Isso é um resumo e avaliação muito pobres da Revolução Russa de 1917. Mas, tem nada não, os Romanov finalmente tiveram seus ossos recolhidos os quais repousam atualmente lá na Fortaleza de São Pedro e São Paulo reverenciados por todos que por lá passam. No mínimo pergunta-se: “E a Anastácia está ai também?” Sim, sim. Um teste de DNA acabou definitivamente com a história romântica de que estaria viva, sem nunca envelhecer. Outra guerra aconteceu quando precisei carregar a bateria da minha câmera digital. Na Rússia, assim como em toda a Europa, as tomadas são em baixo relevo o que impossibilita que nossas tomadas de perninhas curtas cheguem lá no fundo estabelecendo o circuito. Entenderam? Foi com preocupação que fiz esta constatação. Imaginei logo que ia ser um drama explicar o problema. Nada encontrei no super mercado perto do hotel. Tentei uma loja de rações de animais, bombinhas de aquário, etc., podia ser. Nada também. Em compensação ao olhar uns peixinhos fiquei espantada quando vi dois sapos cururu daqueles grandes. Curiosa, perguntei o preço. How much? (expressão milagrosa entendida por todos). A resposta veio já em dólares digitada em uma calculadora: setenta dólares. Um sapo cururu bem caro. De onde teria vindo? Havia também uma cobra, coitada, meio anêmica, um pequeno iguana, mas, adaptador nada! Parti para uma loja de celulares que são muitas. Celular, o atual e maior objeto de consumo dos russos. Gesticula daqui e gesticula dali alguém me apontou a avenida com sinais que queriam dizer “em frente do lado esquerdo” digitando na calculadora o número 13. Eu e a Lucinha, já no segundo dia de tentativa, nos dirigimos para lá. A numeração maluca, sem seqüência lógica me fez desistir. No dia seguinte e terceiro, após um vai e vem pela rua e já com medo de sermos tomadas por espiãs, entramos em uma loja de computadores.  Mais uma tentativa e nada, cabeças balançavam. Aí vi uma tomada na parede e fiquei apontando, emitindo sons querendo demonstrar que queria comprar um adaptador para aquele tipo de tomada. Valeu tudo e macaco perdeu longe. Mais uma vez nada. As pessoas me olhavam como se eu fosse doida. Fiquei por ali vendo os computadores e…nem acreditei, lá estava ele, o adaptador bem bonitinho. Fiquei bastante excitada e comecei a apontar. Finalmente uma cliente me ajudou. Houve ainda dificuldade para pagar, pois o vendedor estava meio paralisado pelo show ou talvez sem acreditar que toda aquela confusão fora causada por uma peça que custava setenta centavos de rublo. Botei a mão no adaptador que foi gloriosamente exibido e extremamente útil durante toda a viagem. Nesse dia, a Lucinha também descobriu como comprar selos e colocar os cartões postais na caixinha de correio, aquela na qual está escrito Noyta. Colocar na caixa ela colocou, se foram enviados ninguém sabe. Que coisa! Fomos também a um show folclórico muito bonito correndo em um táxi para chegarmos na hora e aí vimos que o trânsito é muito desorganizado porque os motoristas são loucos. O nosso entrou na contra mão, fez algumas manobras radicais no meio da rua, quase deu de frente com um ônibus e escapamos. Já o ballet, A Bela Adormecida de Tchaikovsky, foi mais tranqüilo. A Liuba nos levou e foi buscar. Adoramos! Essa apresentação faz parte da programação conhecida por Festival das Noites Brancas que ocorre em São Petersburgo nessa época do ano de dias muito longos e noites bem curtinhas. Foram quatro horas de encantamento no antigo Teatro Kirov hoje Mariinski. O máximo!

Houve um dia, não sei mais a ordem dos dias, que a Julia nos levou a Tsárskoye Seló um conjunto arquitetônico onde está o Palácio de Catarina (residência de gala). É tudo muito grandioso desde o enorme portão de entrada, em ferro batido finamente trabalhado, às dependências internas. Nos impressionamos com a Sala de Âmbar toda decorada com painéis de âmbar como se fossem mosaicos. Esses painéis desapareceram durante invasão nazista e nunca mais foram vistos. Foi restaurada em 2003. A Sala Grande de 1000m² possui duas filas de enormes janelas e é toda decorada em ouro, estilo barroco. Um luxo opressivo! Uma coisa que chamou-nos atenção foi a beleza dos lustres, preocupação em toda a Rússia. Mereciam sempre muitos ohs e ahs!

Em São Petersburgo há uma dificuldade de banheiros públicos e, em um dia de chuva, com sombrinha e tudo, sentamos em um banco de madeira do Jardim de Verão para fazermos xixi. Meu Deus! Que aperreio! Por sorte avistamos lá longe uma “cabine sanitária”. Para lá corremos trancando as pernas como se tivéssemos torcido o tornozelo. Cada coisa acontece! Depois disso pudemos passear pelo jardim entre as frondosas e seculares árvores, apreciando as belíssimas estátuas de mármore.

Depois de seis dias muito proveitosos demos por encerrada nossa estadia em São Petersburgo. Quantos Czares, quantas vidas perturbadas, quantas czarinas cujos sonhos foram destroçadas por obrigações, interesses políticos e amores desencontrados. E Catarina, a Grande, com seus preferidos? Potemkin e o Conde Orlov, lutando na cama para preservar a estabilidade de um regime absolutista.  Ah, Catarina era uma mulher especial. Quis até se casar com o preferido Orlov, mas o Conselho de Estado impediu dizendo: “A Imperatriz pode atuar como desejar, mas a senhora Orlov jamais será imperatriz da Rússia”. Ela, muita prática, resolveu abandonar seu sonho romântico deixando o conde quieto como favorito mesmo lá na Ilha Elaguin. Dizem que ele foi um grande conselheiro político.

Julia nos levou até a estação de trem para irmos a Moscou. Nos ensinou a ler a passagem e o quadro de informações. Plataforma? Comboio? Cabine? E vai por ai. Foram 07 horas de trem. Uma noite muito bem dormida. Nosso primeiro trem. Pensávamos que todos seriam daquele jeito, até caviar tinha. Nã, nã, nã, aquele era um trem especial. O caviar era vermelho, de gosto muito forte. Concluí que as ovas de camurupim da Praia de Flecheiras, de gosto suave, preparadas pela Ritinha e Seu Pedro…Hum! Que me perdoem os salmões e esturjões russos!

Em Moscou (Rússia)

Km. 650:    Moscou

 Queridos amigos,

Estamos em Moscou. O trem N° 1 partiu de São Petersburgo pontualmente as 23:55. A cabine é composta de duas confortáveis caminhas estreitas, uma de cada lado. Tudo muito limpo. As malas são colocadas no pequeno espaço sob elas. Durante a noite o trem percorre os 650km que separam São Petersburgo de Moscou. Dormimos tranqüilas e muito bem. As 07:15 o trem parou e nos preparamos para descer. Ouvi vozes brasileiras na cabine vizinha e foram as únicas nos 45 dias que se seguiram. Essa foi minha primeira experiência de descida com a famigerada mala. Consegui descer mais ou menos bem, e olhem que este é um trem especial. Dona Ludmila uma senhora de uns 70 anos, já nos esperava e logo nos encaminhou para a saída. Nossa melhor guia, tranqüila, antenada e culta, além de muito despachada falava um perfeito português. A experiência e sabedoria da idade! Durante a ida para o hotel foi falando dos sete arranha céus de Moscou, edifícios altos do tempo de Stalin, referido como “estilo gótico stalinista”, dos quais o nosso Hotel Ukraina fazia parte e que já estava no nosso visual. Ah Stalin, para que tanto exagero! O Hotel é enorme, de frente para o tranqüilo e bonito Rio Moscou. Nossa chegada foi marcada por um stress nível 10. Graças a Deus Dona Ludmila estava presente. Olhem só o que ocorreu. Na hora do check in a moça do balcão, para variar, muito mal humorada, queria o passaporte e aquele formulário de entrada no país. A Lucinha puxou logo o dela. Eu, que jurava que o dito estava na minha pochette em um cantinho escondido…Que nada! Meu Deus, Dona Ludmila argumentou que nós podíamos subir para o quarto e que, lá com calma, eu daria conta do tal formulário.  A moça mal humorada mudou logo de computador e passou a fazer outras coisas. Puxei minha mala para um canto e iniciei a operação desmonte. Nada! Nessas alturas eu já suava em bicas, stress máximo e a Lucinha a dizer “você guarda tanto as coisas que depois se esquece de onde coloca” Grrr! Bem, resolvi voltar para minha pochette e examinar seus mais secretos recantos. Pois não é que o bendito papel estava lá no fundo bem amassadinho? A outro fato é que estava muito cedo e o quarto reservado para nós ainda estava ocupado. Havia um desocupado em uma das torres. Naquela hora topávamos tudo. Dona Ludmila nos apressava, pois segundo ela, tínhamos uma intensa programação. Subimos de elevador até o fim, abrimos uma porta e depois mais dois lances de escada. Valei-me Cristo. A mala estava pesada. Não pelas minhas roupas, ela era pesada!  Ah mala! Trambecando as pernas e já com bolhas nas mãos consegui chegar lá em cima, xingando a mala e o Haroldo que me aconselhara a não trazer meu mochilão. Pior foi no trem, mas isso é outra história. Bem, nos instalamos no quarto-torre. O quarto tinha muitas vantagens, bem amplo e com uma espetacular vista sobre a cidade e, ao anoitecer, o sol batia e alguns prédios brilhavam alaranjados deixando-nos em dúvida se era pela luz do sol ou iluminação artificial. Era o sol mesmo! Descemos procurando decorar o labirinto dos corredores. Dona Ludmila estava no hall muito aflita, pois ainda tomaríamos o café da manhã. O hotel é imenso. Uma quantidade enorme de hóspedes. Apesar do tamanho das salas do restaurante e dois enormes buffets com uma variedade grande de frutas, frios, pratos quentes, pães…, a confusão era grande. Comemos e saímos para Moscou. Um carro só para nós duas, o motorista, Dona Ludmila e suas explicações entredentes, pois estava sempre tentando manter no local uma prótese muito mal feita. Levou-nos a um City Tour e a passear pela Rua Arbat. Moscou é uma cidade grande e de trânsito mais organizado em amplas e largas avenidas. Ao abandonarmos as principais avenidas a cidade tem todo o jeitinho de uma cidade do interior. Nos soltou em um parque cheio de tulipas. Um lago tranqüilo cheio de cisnes refletia o Convento de Novodevichiy lá onde Pedro o Grande, manteve sua meia irmã Sofia presa para o resto da vida depois de tomar-lhe o trono. Uma visão e tanto! Conta-se que as tropas de Napoleão quiseram explodir o convento, mas as freiras cortaram os rastilhos de pólvora salvando-o. Quando Dona Ludmila nos deixou no hotel nos metemos em um metrô para conhecermos as famosas e luxuosas estações. Saímos descendo em uma por uma. O metrô de Moscou transporta, por dia, nove milhões de pessoas em mais de 120 estações com um percurso de uns 250 km e continua a crescer. A estação mais antiga data de 1935 e, é tão profunda que pode ser usada em caso de ataque nuclear. Dizem que Stalin construiu algumas estações extremamente luxuosas, como se fossem palácios, para que o povo tivesse o luxo dos antigos aristocratas. Não sei se é verdade, mas algumas são maravilhosas como a Kievskaia e seus mosaicos contando a história da Ucrânia; Komsomolskaia com mosaicos incrustados de ouro; Mayalovskaia com paisagens em aço inox, mármore e 36 painéis ovais no teto com cenas de esporte e aviação; Novokuznetskaya cheia de mármore, infelizmente originais da Catedral de Cristo o Salvador, dinamitada a mando de Stalin para que no local fosse construída uma piscina. Hoje a Igreja já está novamente de pé, reconstruída com doações do povo. Visitamos muitas outras estações, me lembro bem de uma com vitrais maravilhosos coloridos que retratam cenas de camponeses trabalhando o campo. Enfim conseguimos chegar ao hotel, bem cansadas. Demos uma explorada no hall e descobrimos telefone que funciona com cartão de crédito, câmbio, caixa automático (ATM), caixa de correio. Jantamos no quarto, sanduíches, sucos, sopas e dormimos demais. Amanhecemos partindo para Suzdal e Vladimir situadas a mais ou menos 180km de Moscou. Nosso motorista fumava e fumava. Ficamos meio mareadas. Vladimir é uma das cidades mais antigas da Rússia. Foi fundada em 1108. Lá existem exemplos únicos da antiga arquitetura russa como a Catedral de São Demétrio famosa por sua filigrana em pedra branca, a Catedral de Assunção decorada com afrescos de Andrei Rublev e que serviu de modelo para a construção da Catedral mais importante do Kremlin, em Moscou, e as Portas de Ouro reconhecidas pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. Suzdal é a mais bonita cidade do chamado “Anel de Ouro”. É quase um museu ao ar livre. Conserva a atmosfera medieval, tranqüila à margem do Rio Kamenka e se mistura aos bosques de abetos, a árvore da Taiga. Além da beleza e tranqüilidade possui igrejas, catedrais, mosteiros e mais de 280 monumentos históricos sendo que a Catedral da Natividade, de 1225, com suas portas de ouro, a que mais me impressionou. Retornamos a Moscou e ficamos presas em um enorme engarrafamento, uma das características da cidade. Os motoristas aqui também são os maiores culpados. Fazem retornos proibidos, estacionam onde não é para estacionar, param na contra mão fechando o trânsito e vai por aí. Finalmente nos livramos daquilo. No dia seguinte combinamos com Dona Ludmila, fora da nossa programação, uma ida a Sergiev Possad no que fizemos muito bem. Pagamos 60U$ cada uma e foi uma das visitas mais bonitas da viagem. O Mosteiro da Trindade de São Sérgio foi fundado por volta de 1345 pelo próprio Sérgio que nasceu nobre, mas retirou-se do mundo e fundou o mosteiro. Sérgio teve também um papel político importante quando encorajou os príncipes russos a unirem-se contra os invasores mongóis. Os russos foram vitoriosos marcando o começo do fim do maior de todos os impérios, o Império Mongol de Gengis Khan que se estendeu da China até a Hungria. Durante um ataque ao Mosteiro o corpo de Sérgio saiu milagrosamente ileso e, em 1422, ele foi canonizado Santo Sergio. O Mosteiro é espetacular. De longe, na estrada sentamos em um barzinho para observar o conjunto. A Catedral de Assunção com sua enorme cúpula central, dourada, rodeada por quatro cúpulas azuis cheias de estrelas é sensacional! Atravessando os muros é como entrar no mundo medieval de Sérgio. E são tantas edificações lindas, tantos ícones maravilhosos de Rublev que dava para passar o dia escrevendo e escrevendo. Mas fazendo um resumo: ali está antiga e tradicional arquitetura russa, alegre, branca, limpa, imponente e leve. Adorei. Tivemos um almoço típico russo em um restaurantezinho acolhedor. Francamente não sei se foi antes ou depois dessa visita que fomos ao Museu Panorama de Borodino, enorme pintura que conta a história da mais sangrenta batalha do século XIX. Napoleão com sua Grande Armée e o exército russo chefiado por Kutuzov se enfrentaram deixando 40.000 russos e 30.000 franceses mortos. Os russos se retiraram para Moscou abandonando-a posteriormente, e os franceses encontraram a cidade deserta e incendiada. Com fome, foram obrigados a fazer uma retirada dramática com o exército russo nos seus calcanhares até Paris. De 600.000 homens voltaram apenas 50.000. E ainda tem francês que diz que os franceses foram os vitoriosos! Ali pertinho fica a pousada, hoje um pequeno museu, que abrigou Tolstoi enquanto ele escrevia Guerra e Paz um dos maiores clássicos da literatura russa que inspirou o filme do mesmo nome com Audrey Hepburn, Mel Ferrer, Vitório Gasman e Henry Fonda. Quem se lembra? Legal! E houve um dia dedicado ao Kremlin e à Praça Vermelha. Não se pode deixar de associá-los e, imediatamente lembrei-me das muitas histórias da trágica História Russa. Histórias dramáticas como a de Ivan, o Terrível que assassinou seu único filho capaz em um acesso de raiva. Histórias de muito heroísmo durante os 900 dias do cerco de Leningrado (São Petersburgo) quando mais de um milhão de civis morreram em conseqüência de inanição, frio, doenças e bombardeios tentando sobreviver e manter as obras de arte. Histórias do terror do Governo Stalin que provocou a morte por fome de mais de dez milhões de pessoas pela desorganização do campo, milhares de mortos em campos de trabalhos forçados, e vai por aí. Os números são assustadores. O ser humano é muito selvagem com seus semelhantes! Deixando de lado essa história, o Kremlin visto de fora impressiona mais. Muitos dos edifícios a gente nem sabe o que são, porque são prédios públicos, o governo funciona ali. Impressionantes mesmo são as igrejas, cinco talvez. As cúpulas douradas e a arquitetura russa antiga são espetaculares! A que mais me impressionou foi a de Assunção, enorme, inacreditavelmente decorada com ícones em todas as paredes e pilares. Eu fiquei olhando e olhando embasbacada. Na Praça Vermelha, logo ao lado, está a Igreja de São Basílio, cartão postal da Rússia. Ela é impressionantemente colorida, as tradicionais cúpulas russas cobertas de mosaicos. No entanto seu interior, um emaranhado de cubículos, está  devastado. No mais é olhar a volta e olhar. Alguém disse que “Viajar é olhar” Não tem fotografia que substitua a verdade do olhar. Nesse dia Dona Ludmila deixou-nos na Galeria Tretiakov. Sou obrigada a confessar-lhes, mesmo sabendo dos ohs e ahs, subimos direto para a Igreja. Queríamos ver os originais dos dois ícones mais famosos da Rússia: Nossa Senhora de Vladimir e o da Santíssima Trindade de Andrey Rublev. Não sou católica, falo com Deus através da Natureza, mas ao entrar em algumas igrejas sinto muita paz e, o Ícone de Nossa Senhora de Vladimir indicando o caminho quando mostra o Menino, é um caminho. Me emociona sempre. Vi muitos ícones de Nossa Senhora como a de Kazan, Intersecção, mas nenhum deles me impressionou tanto. Não sei, não tive vontade de entrar nas salas dos museus e ver os impressionistas, etc. Nossa Senhora de Vladimir me dera o seu recado e junto à comovente Trindade de Rublev preencheram o meu depósito de beleza! Em um outro dia voltamos a Praça Vermelha para ver Lênin. Não o vimos, pois já estava tarde, a visitação estava encerrada. Onde estaria Stalin? Em algum canto da Praça, nos disseram. Bem feito, se ele estava pensando em fazer figura, ser venerado junto a Lênin em seu Mausoléu na Praça Vermelha, se enganou, ninguém está muito a fim de se lembrar que ele existiu. Em compensação aproveitamos para ir a um templo do capitalismo, o Gun, enorme shopping com lojas de grifes do mundo todo. Tudo caríssimo. Interessei-me por um mocassin, sapatinho baixinho e cômodo. Quando perguntei o preço a moça me respondeu bem humorada: 400€ . Não, não, não! Ficamos sem saber quem compra aquelas coisas. Por falar nisso os russos, principalmente as mulheres do lado de cá dos Urais são muito bonitas. Elas são altamente fashion. Saltos altíssimos, roupas de grife, muitas cores e babados, mas pelo amor de Deus, se eu saísse de manhã no Brasil com a metade daqueles babados e cores iam me chamar de excêntrica, isto é, fora de centro.  Será que por terem passado tantos anos cinzentos e pelo frio carregam nas cores? Nós, no Brasil, com tantas cores, tanta alegria, não precisamos de mais cores. Procede?

Foi pouco o tempo para Moscou. Faltou andar sem rumo pelas ruas fora das grandes avenidas. Quem sabe assim eu conseguisse entender melhor aquele povo de cara amarrada?

 

De Moscou a Krasnoyarsk (Rússia)

Km. 3.343:    Novosibirsk

Km. 4.098:    Krasnoyarsk 

Queridos amigos,

O trem partiu de Moscou as 23:00 do dia 26 de maio e ainda estava claro, assim como 17:30 no Ceará. O táxi veio nos buscar. Passamos por um emaranhado de ruas e paramos na estação ferroviária. Logo apareceu um senhor que, entendemos mais tarde, era nosso intérprete, nesse caso, entregador de vovós ao Trem Transiberiano. Descemos nossas malas, e como a estação estava em reforma, ficamos ali mesmo no meio das plataformas. O senhor, nosso acompanhante intérprete, perguntou-nos em francês se entendíamos o francês. Eu disse que a Lucinha oui. Imediatamente ele começou a contar un, deux, trois, etc. e a gente sem entender. Estaria ele nos ensinando a contar até dez em francês? Fazendo gracinha? Não, estava apenas enumerando as plataformas. Daí passou a mostrar o painel explicando que quando o número do trem aparecesse apareceria também o número da plataforma. E mal acabou de falar partiu no rumo da saída nos deixando de olho grudado no painel morrendo de medo de ficarmos para trás. O trem chegou, acertamos a plataforma, mostramos nossas passagens que foram conferidas timtim por timtim. Empurrei minha mala para cima e fomos pelo estreito corredor para encontrar nossa cabine. O passo seguinte foi enfiar a mala embaixo do banco de onde ela só sairia em Novosibirsk. Tudo bem apertadinho. Quando nos sentamos nossa cara era de espanto. O trem ainda demorou a sair. Quer dizer: nem precisava daquela correria toda de quem está atrasado. Ficamos vendo a movimentação dos outros passageiros pelo corredor. Finalmente o silencio foi se instalando e o trem começou a se movimentar rumo a Sibéria.  A Transiberiana atravessa toda a Sibéria até o Oceano Pacifico finalizando na cidade de Vladivostok. Como nossa intenção era ir para a China, em Ulan Ude, depois do Lago Baikal, tomaríamos a Trans Mongoliana. Estávamos pensando em como cobrir os colchões e travesseiros, a Lucinha já desenrolando o saco de dormir, eu já um pouco arrependida porque não trouxera o meu, quando apareceu uma mocinha simpática, nosso primeiro contato com a provodnitsa (trem moça, ou melhor, atendente de vagão), nos deu lençóis, fronhas e cobertores. Ainda olhamos pela janela e nos aprontamos para dormir. Dormimos muito bem com o balanço e nem vimos quando o trem parava nas estações. Durante a noite cruzamos o Rio Volga. O dia seguinte começou com a batalha pelo café da manhã. A Lucinha que adora novidades foi para o restaurante. Fiquei olhando a paisagem. De repente ela voltou dizendo que não tinham entendido nada e que, nada feito. Agora fui eu. Duas pessoas comiam. Apontei para o prato de uma delas, uma sopa, para o pão e uma laranja. Café da manhã mais esquisito! Mas matei minha fome. Paguei e rapidamente fui para a cabine contar o sucesso para a Lucinha que, injuriada, voltou imediatamente ao restaurante. Depois me contou como foi tudo. Pediu café, pá, pá, pá, pá, a moça entendeu mais ou menos: dois saquinhos de café com leite em pó, melhor que nada! Pá, pá, pá, pá, pão. A moça entendeu ovo. Alguém interferiu dizendo bread, mas também só falava isso. Café da manhã tomado partimos para um reconhecimento. Cada trem tem mais ou menos quinze carros um dos quais é o restaurante. Cada carro consiste de um longo e estreito corredor unido aos outros por duas portas. As cabines se distribuem ao lado deste corredor que é tão estreito que duas pessoas não conseguem se cruzar de frente. No fim dos vagões estão os banheiros, dois para cada, o compartimento da provodnitsa e o samovar sempre pronto para fornecer água fervendo para as sopas instantâneas, chás e, posteriormente, para os miojos. A provodnitsa gasta a maior parte do tempo limpando os tapetes do corredor, geralmente de um padrão florido e coberto por uma passadeira mais estreita. Quando ela vem com o aspirador é bom sair da frente e do jeito que vem entra de cabine adentro e a gente tem que recolher rapidamente as meias para que não sejam sugadas por aquele buraco negro. Impressionante é como sempre escolhia os momentos mais quietos. Saem àquela hora de dar uma cochilada ou engrenar na leitura? Pois é. Uma outra função da provodnitsa é, ao chegar nas estações, abrir a porta, lustrar os puxadores externos, o número do trem e ordenar a descida dos passageiros. Ah sim, para esta chegada ela veste seu uniforme de gala. Impecável! Como eu disse antes, a cabine é composta de duas ou quatro camas. Como compramos primeira classe tanto fazia, sempre íamos sozinhas. Para nós as de quatro camas eram até melhores, pois colocávamos nossas coisas lá em cima. Deve ser muito incômodo quatro pessoas que não se conhecem viajarem juntas em um ambiente tão pequeno! O próximo passo foi uma visita ao banheiro. Os banheiros são um pouco maiores que os de avião. Tudo direitinho, com papel, uma pequena pia com uma torneira bem complicada. Ficam trancados uma hora antes e uma hora depois das estações por razões óbvias. Tem ar condicionado para frio e calor, mas às vezes erram a mão e, haja calor ou frio durante as noites. Estávamos nessa exploração quando a provodnitsa pediu nossos tickets. Como ninguém se entendia foi buscar um de amostra. Ah sim! Foi embora levando nossos dois. Voltou com uma excelente notícia, quer dizer, já trazendo as bandejas do café da manhã junto com o almoço dado o adiantado da hora. Foi assim que em um pequeno espaço de tempo tomamos dois cafés da manhã e um almoço. Entendemos que nossas passagens incluíam a alimentação. Durante o dia atravessamos os Montes Urais. Fiquei um pouco decepcionada, pois os imaginava muito altos, mas são tão baixinhos naquela região que mal se percebe. Passamos por Yakaterinburg a cidade onde o Nicolau II, ultimo czar russo, sua mulher e cinco filhos foram assassinados na noite de 16 de julho de 1918. A Sibéria começa no quilômetro 2.102. A marcação da quilometragem fica ao lado da via férrea e ficávamos sempre esticando o pescoço pela janela para vermos os números e assim, segundo nosso Lonely Planet, sabíamos onde estávamos. Descobrimos um relógio que marcava a hora de Moscou e uma tabela na qual constavam as paradas do trem, sua duração, horário de chegada e partida. Tudo em Cirílico. Às vezes a gente conseguia se localizar comparando com os nomes das cidades escritos nas estações. Líamos muito, olhávamos a paisagem através do vidro meio sujo, dormíamos bastante, tomávamos muito chá. Por falar em vidro sujo imaginem que o nosso vizinho um enorme holandês e sua namorada trouxeram um kit limpa vidros e assim, em uma parada, desceram e limparam bem direitinho o vidro de sua janela para enxergarem melhor a paisagem. Boa providência! Voltamos a nos encontrar em Beijing. A viagem para Novosibirsk dura dois dias e três fusos horários.

A chegada a Novosibirsk se deu já de madrugada.  Nos esperava um motorista muito mal humorado. Nosso hotel era bem confortável. Dormimos bem e no dia seguinte conhecemos nossa guia que falava espanhol. Tinha os dentes superiores cônicos todos em ouro e o cabelo cor de cenoura. Muito esquisito. O clima já havia esquentado um pouco. Saímos com Dona Ida para a Akademgorodok situada a uns 50km. Foi nos explicando que esta Cidade Acadêmica foi fundada em 1958 para reunir os maiores cientistas da nação. Nessa cidade existiam aproximadamente 40 institutos de pesquisa que davam suporte ao complexo industrial-militar e ajudavam a fazer da União Soviética uma super potência.  É uma cidade de prédios compridos de três andares, de cor bege, arquitetura característica do regime comunista. Os prédios ficam dentro de extensos e bonitos parques. As ruas são bem arborizadas. Nossa visita se restringiu ao Museu do Instituto de Geologia. Ficamos sabendo que a Rússia é riquíssima em minerais, alguns deles eu nunca ouvira falar como a Charoete, uma pedra lilás muito bonita. Aliás, nos informaram que um único depósito desse mineral foi encontrado a nordeste de Irkutsk, no vale do Rio Chara. Nossa guia mostrou-nos cristais industriais, um dos bens exportados fabricados pelos institutos de pesquisa com fins lucrativos. A visita deixou a impressão de decadência e é isso mesmo. Nos anos 90, com a extinção da União Soviética e diminuição drástica das verbas governamentais a cidade tornou-se símbolo da decadência da ciência russa e do declínio do Estado. No entanto lemos que, atualmente, tenta-se reerguer a Cidade Acadêmica através de atividades que a tornem auto-sustentável. Há uma firma de software que executa programas de computador para a IBM, telefonia móvel a preços relativamente baixos. Outra atividade é aquela dos cristais industriais. A cidade leva vantagem, pois dispõe de um amplo quadro de físicos, matemáticos e cientistas de computação trabalhando com baixos salários. 

Dona Ida, muito apressada, levou-nos a visitar uma estação de metrô, cujos bonitos murais eram todos feitos com os diversos mármores da Sibéria. Fomos também à Igrejinha de madeira que ela, p´ra falar a verdade, não sabia nem que existia. Levou-nos também ao Mercado onde compramos laranjas, muitas nozes e frutas cristalizadas, tudo para a viagem a Krasnoyarsk. Ela sempre muito apressada nos dizia que estava na hora de irmos. No dia seguinte visitamos o Museu de Antropologia, sem entender muita coisa, pois não havia tradução e nem Dona Ida sabia de nada, mas entendemos que conta a história dos primeiros povos russos até a revolução de 1917. Logo depois deixou-nos no hotel dando graças a Deus por se ver daquela missão sendo essa a última vez que a vimos. À tarde resolvemos tentar um telefonema para o Brasil. Achamos a duras penas uma central telefônica e depois começou a dura fase do “entender” como fazer. Uma das mocinhas falava um italiano bem ruinzinho não pior do que o nosso que não existia. Conseguimos nos entender. A coisa funciona mais ou menos assim: a gente diz que quer falar 10 minutos, ela calcula em rublos, paga-se. Avisa que assim que o outro lado atender a gente deve apertar a tecla três. Se não apertar este número mágico a conversa vira monólogo. Meu Deus! Foi nesse dia que, caminhando pelas ruas da cidade, vimos na vitrine de uma livraria os livros de Paulo Coelho expostos com encadernações lindíssimas. Ficamos curiosas e entramos. Vários cartazes anunciavam o lançamento do seu último livro com uma noite de autógrafos. Uau! Mais tarde soubemos que ele também estava nos trilhos transiberianos. Será que vai sair algum livro tendo como pano de fundo a Sibéria e a Transiberiana? Vamos aguardar. Novosibirsk é uma cidade muito grande para a Sibéria, quase dois milhões de habitantes. Nada tem de especial. Talvez seja interessante para fechar negócios, não para turismo. Não recomendo.

Doidas para pegar de novo o trem, cedo já estávamos prontas. O motorista mal humorado foi nos buscar, uma outra pessoa nos levou até as plataformas, nos explicou e se foi. Sei lá o que ocorreu. O fato é que não conseguimos ver o número do nosso vagão e corremos feito baratas tontas pela plataforma de um lado para o outro, indo e voltando. Para os outros passageiros aquilo deve ter funcionado como uma partida de ping-pong. Passávamos correndo para um lado todos os pescoços viravam para aquele lado, passávamos correndo para o outro lado, os pescoços voltavam para o outro lado, até que o circuito foi interrompido por uma americana: May I help you? Yes, Yes. E assim vimos que estávamos olhando o número errado e saímos de novo a correr feito malucas na direção contrária. Medo grande de perdermos o trem. Na subida fiquei entalada com a mala, pedindo socorro para a Lucinha. Subimos esbaforidas. Tomar o trem era sempre um stress! Nosso aposento parecia com o de um mandarim. Cortinas adamascadas e babados. Não foi uma viagem boa. Estávamos em uma cabine muito próxima da junção dos vagões e a barulhada era muito grande. Nosso vizinho comia quilos e mais quilos de pepino. Impressionante como os russos comem pepino. Assim como na Bahia, tudo cheira a dendê, na Rússia tudo cheira a pepino! Logo o banheiro ficou empestado de pepino! Credo! Dizem que o diabo não vem sozinho. A porta da nossa cabine travou e ficamos presas lá dentro. Batemos e batemos e quem nos salvou foi o tal vizinho do pepino. A provodnitsa foi chamada e, sem paciência, tentou nos ensinar a abrir a bendita porta. Como a porta estava realmente com defeito ela quis convencer-nos a dormir com a porta fechada mesmo. Gesticulamos tentando explicar-lhe que aquilo não dava certo, e o xixi? E aí agachávamos para que ela entendesse. Juntou gente no corredor e, cansadas resolvemos dormir com a porta aberta. Depois descobrimos que existia uma pequena trava na parte interna da porta o que impedia que alguém entrasse.

A paisagem era sempre a Taiga e, próximo às cidades, pequenos terrenos cultivados até quase a entrada das pequenas casas. Essas propriedades são conhecidas como dachas ou casas de veraneio. As pessoas aproveitam para plantar de tudo em uma terra muito escura, quase preta e muito fértil. O sol devia estar bem gostoso lá fora, pois havia muita gente estendida à beira dos rios.

Vimos muitas aldeias com lindas casinhas de madeira com detalhes também de madeira tão delicados quase como uma renda. São típicas e aparecem pintadas de azul, verde ou deixadas na cor natural. Fizemos muitas fotos. Essas casinhas nos acompanharam até quase a fronteira da Rússia com a Mongólia. São lindas e é uma pena que estejam sendo substituídas por casas de tijolos de concreto.

Em relação a Moscou, Krasnoyarsk está no quilômetro 4.098 com quatro fusos horários de diferença. Isso dá uma idéia do tamanho do país. Nossa chegada foi tranqüila. Na estação chama atenção um grande mural, em homenagem aos dezembristas. O movimento dezembrista ocorreu após a Guerra Napoleônica de 1812. Oficiais vitoriosos aristocratas iniciaram um movimento que defendia reformas do regime czarista. Defendiam uma monarquia constitucional e abolição da servidão. Em 26 de dezembro de 1825 eles ocuparam o quarteirão do Senado em São Petersburgo. Como tinham fraco apoio foram derrotados, alguns foram fuzilados e os 121 restantes foram enviados para a Sibéria e condenados a trabalhos pesados. Esta história é interessante e romântica. Mais tarde contarei seus desdobramentos. Em Krasnoyarsk nosso hotel ficava muito longe de forma tal que passeamos pouco pelas ruas do centro, mas em um dia livre vimos muitos jovens bebendo nas ruas e praças. Muitos e muitos alcoolizados. Depois nos disseram que esse é um problema muito sério naquela região. Decorrente disso muitas crianças são abandonadas por mães adolescentes alcoólatras e Krasnoyarsk virou um centro de adoção. Ficamos intrigadas com isso, pois sabemos que a população russa está involuindo. Mas a guia nos explicou assim mesmo. O mundo inteiro vem adotar crianças em Krasnoyarsk. Nossa guia era muito gentil e competente. No primeiro dia nos levou a um City Tour. A Catedral estava fechada para reforma, mas fomos lá no alto da cidade para uma visita a Igreja de Chasoviya, que está estampada na nota de dez rublos. Na realidade uma capela de pedra muito bonitinha. Há uma bela vista sobre o grande Rio Yanisey. Krasnoyarsk nasceu de um forte cossaco e é hoje uma das maiores cidades da Sibéria. No entanto está pagando caro pelo desenvolvimento. O ar é muito poluído e a gente vê muitas e muitas industrias jogando fumaça para o alto. Quando estávamos neste passeio passaram vários caminhões transportando palmeiras. Palmeiras por aqui? Sim, nos explicou a guia. O prefeito quis humanizar a cidade e importou muitas palmeiras. Surpresas perguntamos “como palmeiras suportam 40°C abaixo de zero”? A resposta foi incrível: “no inverno elas são recolhidas e, no verão, voltam para as ruas marcando o início da temporada”. Então quando as pessoas vêem as palmeiras passando logo dizem: “o verão chegou”! Cada coisa! No hotel tomamos cerveja russa, por sinal muito gostosa, e jantamos uma língua à moda caucasiana (língua preparada com nozes e cogumelos). No dia seguinte fomos passear na Reserva Natural Stolby, o ponto alto de nossa visita. Uma caminhada muito bonita dentro da Taiga. Muitas pedras vulcânicas altíssimas para alegria dos escaladores que são divididos em dois grupos: os alpinistas que escalam com equipamento e os stolbistas que vão sem equipamento. Infelizmente os stolbistas levam a pior, como é de se esperar. Há vários casos de morte. Impressionou-me muito o pouco cuidado com o ambiente. As lixeiras cheias, muito plástico pelo chão, embalagens, etc. Subimos lá no alto e tivemos uma vista muito bonita. É um parque de 17.000ha com muitas trilhas. ”Cuidado com os carrapatos”, nos disseram. Graças a Deus os bichinhos não apareceram. Pagamos nossa guia para ir conosco até a represa Divnogorsk no Rio Yanisey construída nos anos 50. Ela nos disse que essa é a maior represa do mundo. Escutamos caladas, mas que ela é menor que Xingó isso é verdade! Estava cheio de noivas sendo fotografadas. É isso mesmo! Na Rússia há um belo costume. Depois da cerimônia do casamento, os noivos saem com os convidados para fotografias em lugares bonitos. A represa é um desses lugares. Eles eram muitos e jovens demais. Estavam lindos e felizes. Ficamos por ali observando-os. A informação é de que 80% dos casamentos russos se desfazem nos três primeiros anos. E haja fotografia! Bem ali no lugar das fotografias há um monumento que se chama Czar Peixe em homenagem ao esturjão, aquele peixe de cuja ova se faz o caviar. Victor Astafiev, um escritor russo, escreveu um livro famoso sobre as comunidades que desapareceram ou foram deslocadas durante a construção da represa. Ao retornarmos ao hotel fomos surpreendidas pela notícia de que o restaurante estava fechado para uma festa de casamento. E nós? Depois de muito pá, pá, pá, nos serviram uma sopa no quarto. Onde já se viu isso?

Pegamos o trem para Irkutsk. Estávamos chegando perto do lago Baikal. Mais um trecho dentro da Taiga, floresta de abetos, característica da Sibéria. Dizem que a Floresta Amazônica e a Taiga são os pulmões do mundo. Ela é linda! Não é fechada como uma floresta tropical. Os troncos das árvores são limpos e linheiros, os galhos e as folhas extremamente delicados. Uma beleza!

 

De Krasnoyarsk a Ulan-Ude (Rússia)

Km. 5.185:    Irkutsk

Km. 5.640:    Ulan-Ude

Queridos amigos,

Lembrei-me de um livro que falava da percepção da beleza em viagens. Depois de divagar sobre o complexo número de fatores que afetam psicologicamente a mente e a visão responsabilizando-os pela beleza, o autor afirmava que o ser humano tem uma tendência a se apropriar dela, através de lembranças, tapetes, fotografias, gravando seu nome em monumentos e concluía que nada disso é importante porque o importante mesmo para possuir corretamente a beleza é o entendimento desses fatores psicológicos e visuais. Ele aconselhava a obtenção desse entendimento por meio da arte, pela escrita ou pelo desenho, independentemente da presença ou não de qualquer talento para tal. Amanheci desenhando a Taiga.  Durante o desenho, bem simples, percebi como somos cegos. Desenhando fixei minha impressão de beleza. Guardei as árvores como que enfileiradas, seus troncos limpos e retos, seus delicados galhos de folhas minúsculas balançando ao vento, tremeluzindo iluminadas pelo sol da manhã. Meu olhar perdido longe por entre elas até quase o horizonte. Entendi o autor. Jamais esquecerei a beleza da Taiga.

A chegada a Irkutsk foi marcada por uma descida do trem p’ra lá de desastrada. A mala enganchou em um dos degraus, eu tropecei nela e aterrissamos, as duas, na plataforma sob os olhares atônitos da Lucinha e de nossa nova guia Anastácia. Recomposta ainda tive que subir e descer várias escadas para, enfim, chegar ao táxi. É impressionante a falta de sensibilidade dos russos. Imagino uma pessoa com dificuldade de locomoção! As plataformas, além de distantes, estão em um nível muito mais baixo que as estreitas escadinhas do trem e para sair das estações muitas escadas subindo e descendo. Ia tudo tão bem…

Irkutsk fica às margens do Rio Angara exatamente onde ele faz uma ampla curva. Nosso hotel, muito bem situado, tinha uma linda vista sobre o rio, de frente para o “Malecón” segundo a Anastácia que falava um espanhol perfeito e formal. Nos disse que no dia seguinte iríamos para Listvyanka uma cidadezinha no Lago Baikal. Teríamos dois dias livres para organizarmos passeios e que ela estaria conosco. Despediu-se. Com a tarde livre aproveitamos para passear. A cidade estava em festa, multidão na beira do rio. Imaginamos que comemoravam o início do verão depois soubemos que era também o aniversário da cidade. Fomos a um restaurante italiano para desenjoar da comida do trem. Encontrar um restaurante em Irkutsk é um pouco difícil, pois, assim como as lojas, eles estão escondidos. Você vê as janelas, mas não existem nomes. Achamos esse restaurante italiano porque havia uma bandeira italiana e resolvemos averiguar. Embora o cardápio fosse enorme, com várias divisões e subdivisões, era traduzido para o inglês. O engraçado é que quando a gente pede pão vem uma fatia, então temos que ser bem claros: tantas fatias de pão. Uma outra coisa interessante é que ao lado do preço vem também o peso da comida o que muitas vezes nos confundia pensando que aquilo lá era o preço. A pasta estava ótima.

A estrada de Irkutsk a Listvyanka é muito bonita. São 60km de asfalto muito bom. Pena que o dia estivesse nublado e quando o lago apareceu não estava azul. Nosso Hotel Baikal, extremamente bem situado, tinha uma belíssima vista sobre o Lago e eu fiquei ali na janela pedindo que ele me mostrasse sua beleza. Em vão. Saímos caminhando pela margem até um pequeno povoado chamado Krestovka. Observamos que o turismo está crescendo por ali, muitas pousadas e restaurantes. Foi uma caminhada cansativa e minhas pernas ficaram destruídas. No dia seguinte Anastácia chegou e começamos a sentir a dificuldade para organizarmos os passeios. Em primeiro lugar optamos por ir a uma aldeiazinha chamada Bolshie-Koty. Para se chegar lá toma-se um barco. É uma viagem bem bonita. A vila é miúda e muito simpática. A população no verão é de trezentas pessoas e no inverno somente cem corajosos enfrentam as baixíssimas temperaturas. Imaginem que o imenso lago fica congelado. Gostaria de ver isso. Há uma pequeníssima estação biológica para pesquisas e que recebe visitantes. Fizemos uma linda caminhada por entre as árvores vendo o lago ligeiramente encrespado, muito azul e transparente. Lá longe uma cadeia de montanhas cobertas de neve. Cenário espetacular.  Nos sentamos no chão para o lanche, o tempo passou e já estava na hora de voltar. O Lago Baikal é imenso, sua maior profundidade atinge 1.637m, a extensão é de 637km. A maior largura é de 80km e a menor de 27km. Tem a forma de uma banana, dizem eles. A superfície de água é de 31.500km² e o volume de água 23.000km³. Ele representa 20% da água doce do mundo, abriga 3.500 espécies de plantas e animais das quais 2.600 são endêmicas (naturais da região). Os números são impressionantes. Lemos em algum lugar que a pressão no fundo do lago é tão grande que é possível que se torne o quinto oceano da Terra, separando o continente Asiático. No hotel sentamos lá fora, estava bem frio. Dali se vê o lago enorme a perder de vista, as montanhas nevadas aparecendo do lado esquerdo láaaaaa no horizonte, Porto Baikal e o Rio Angara. Apesar do frio a cerveja caiu muito bem. No dia seguinte fomos ao Museu de Liminologia que expõe algumas espécies raras da vida marinha (marinhas mesmo) e que estão adaptadas e vivem no Baikal. Um exemplo é uma foca diferente e muito lindinha. Há exemplares no aquário do Museu. São bem alegres e amigáveis. Lá fora artesãos vendem pedras do lago com carinhas de focas pintadas. Uma graça!  Visitamos a igrejinha de São Nicholas e passeamos para lá e para cá de barco pelo Lago. No cais compramos Omul defumado um peixe delicioso que foi saboreado com cerveja. Na Sibéria o peixe defumado é uma comida típica. O Omul defumado nada tinha de parecido com um peixe que víramos em uma das estações de trem. Uma senhora levava uma pilha de alguma coisa que não conseguimos identificar. De repente um moço parou e tirou dessa pilha um peixe que mais parecia um papelão. Pagou, colocou debaixo do braço como se fosse uma revista e foi embora. O Omul foi uma excelente surpresa.  Ele é comprado em uma feira próxima ao cais. Resolvemos também reservar uma hora na Banya Siberiana do hotel. Trata-se de uma sauna seca, costume da vida russa, que funciona em chalés de madeira. O calor é gerado por madeira que, ao queimar, aquece as pedras e a fumaceira acontece quando se joga água fria sobre elas com uma grande colher de pau. Ao lado bate-se no corpo com galhos de Abdus (Abetos) para ativar a circulação. Parece cena de autoflagelação. Esses galhos ficam mergulhados em uma tina de madeira. Há cadeiras reclináveis para relaxar e chá. Foi muito legal.  Pena que foi só uma hora. Era muito caro. Dali saímos para olhar a maravilhosa vista do Lago entre os abetos da Taiga. Muito bom. Fomos de teleférico até uma estação de esquis. Um ponto bem alto com uma maravilhosa vista. Desci pela estradinha. Tarde linda!

Voltando para Irkutsk paramos no Museu de Arquitetura de Madeira. A visita é bem interessante. O Museu reproduz antigas aldeias siberianas Buriatys, uma das muitas etnias russas. De novo em Irkutsk, acompanhadas pela Anastácia, começamos a conhecer a cidade. É uma das cidades mais interessantes do roteiro. Há uma forte herança dos exilados aristocratas principalmente do Movimento Dezembrista, muitos quarteirões de casas de madeira trabalhada, uma tradição siberiana, e claramente sofre grande influência da Mongólia e China que estão bem próximas.  Visitamos algumas igrejas. Era sexta feira. As praças estavam cheias de noivos alegres passeando e sendo fotografados juntamente com os convidados. Uma festa.  A visita mais interessante do dia foi à Casa Volkonsky. Nessa casa de dois andares, muito elegante, se respira o Movimento Dezembrista. Depois do fracasso do movimento, a maior parte dos exilados foi obrigada a trabalhos forçados nesta região da Sibéria. Eles se tornaram heróis românticos principalmente quando um grupo de esposas e noivas abandonaram suas vidas de conforto para seguir seus homens. Uma delas, Catarina Trubetskaya, viajou 6.000km de coche a partir de São Petersburgo e, ao chegar ao local, uma mina de prata, onde trabalhava seu marido, desceu imediatamente ao interior da mina para encontrá-lo. Suspiros gerais.

Os Dezembristas eram pessoas cultas advindas da aristocracia. Quando suas famílias se fixarem em Irkutsk conseguiram tornar a cidade um grande centro cultural e intelectual. Abriram escolas, formaram sociedades científicas e editaram jornais. Maria Volkonskaya, dona da casa a qual estávamos visitando foi conhecida como a “Princesa da Sibéria”, fundou um hospital e uma casa de concerto. A casa é cheia de fotos antigas. Mulheres de ar obstinado e apaixonado e de homens marcados pelo exílio e trabalhos forçados.

Depois que a Anastácia nos deixou resolvemos tentar um telefonema para o Brasil. Descobrimos a Central, mas não conseguimos nos comunicar com a senhora do balcão e quanto mais gente tentava ajudar-nos mais complicada a história ficava. O resultado disso é que cinco minutos de conversa, em todas as nossas tentativas, se transformavam em cinco segundos, pois logo desligava. Só dava tempo de dizer “Oi sou eu, Heloisa”. Sei lá o que a senhora entendia… Que situação! Deixamos para uma outra cidade, no caso, Ulan-Ude, nosso próximo destino. Ao sair dali fomos comer Pelmeni, prato típico que consta de pastéis de carne ou peixe servidos em sopas ou com natas, manteiga. O nosso foi servido em uma sopa. Estava bem gostoso. Estávamos quase nos despedindo da Rússia. O trem partiu exatamente as 07:38. Para variar, na subida, a mala enganchou e, mais uma vez, a Lucinha me puxou para cima com a maldita e tudo. Dessa vez não tivemos direito a alimentação e ainda tivemos que pagar pelos lençóis. A viagem para Ulan-Ude dura cinco horas. É uma viagem bonita. O trem vai circundando o Lago Baikal durante 200km. Depois segue pelo vale do grande Rio Selenga. Esse trecho da Transiberiana foi considerado o maior desafio durante a construção da ferrovia. Os engenheiros consideraram a obra extremamente cara pelas difíceis condições da geografia local cheia de penhascos e um terreno rochoso. Apareceram muitas soluções, uma das quais foi a contratação de uma firma inglesa para projetar um ferry quebra-gelo que levasse para o outro lado do lago os vagões do trem e os passageiros. Isto não deu certo por causa dos dois metros de espessura do gelo, no inverno, e dos ventos muito fortes no verão. Apesar das imensas dificuldades iniciou-se a construção do trecho chamado de Circumbaikal. No entanto em 1904, durante a Guerra Russo-Japonesa havia uma necessidade urgente de transporte das tropas e provisões para o front. Foi aí que o Czar Nicolau II teve a brilhante idéia de mandar instalar trilhos sobre o Lago congelado. Se tudo desse certo encurtaria a distância e melhoraria a movimentação militar. Não deu certo, logo na passagem do primeiro trem o gelo não agüentou e os vagões mergulharam dentro do lago onde devem estar até hoje. Imagino a decepção do Czar. Decidiu-se então, apesar de todas as dificuldades, pela construção do trecho unindo Porto Baikal a cidade de Mysovaya situada na margem leste do Lago. Os penhascos ao redor exigiram um túnel ou uma ponte quase a cada quilômetro. Em 1950 a construção da represa sobre o Rio Angara submergiu o trecho Irkutsk-Porto Baikal e foi construído um atalho sobre a parte inundada. Esta é a rota que funciona hoje. Os restantes 94 quilômetros da antiga estrada são utilizados uma vez por semana para fazer o transporte entre alguns vilarejos e também pelos turistas que fazem caminhadas de vários dias sobre seus trilhos e acampando. Deve ser muito bonito. Nos disseram que nesses poucos quilômetros existem 94 túneis e 200 pontes muitas das quais construídas das próprias pedras dos penhascos e que as vistas lá de cima sobre o lago brilhando ao sol e dos vales floridos são deslumbrantes. Infelizmente não sabíamos disso e nem tínhamos tempo para ir até lá. Agora já estávamos na Buriatya, uma das repúblicas étnicas da Rússia. Nos esperava o guia, um rapaz bem jovem, filho de um cubano com uma moça de etnia Buriaty. Havíamos viajado pelos trilhos transiberianos 6.440km e tínhamos atravessado cinco fusos horários em relação a Moscou. Nos instalamos e saímos para uma volta. A cidade é muito diferente. A população tem o biótipo mongólico. A religião é o Budismo-Tibetano. Posso dizer que Ulan-Ude não é uma cidade russa apesar da imensa e surrealista cabeça de Lênin assentada na praça principal. É impressionante, mais alta que os edifícios ao redor. Gostamos demais da cidade. Foi nessa noite que fomos a um restaurante mongoliano. O cardápio era traduzido, mas nós erramos na tradução e tivemos que comer fígado coisa que odeio. Visitamos o Museu Etnográfico debaixo de muita chuva. Há um zoológico no qual vimos animais muito diferentes: tigres siberianos enormes, majestosos, humilhados no pequeno espaço de jaulas, renas de chifres aveludados, ursos, águias sem espaço para estender suas enormes asas. Não gostei de vê-los presos em espaços tão pequenos e muito longe do seu habitat. Após o café da manhã tivemos um show folclórico particular lá no hotel mesmo e, pela primeira vez, ouvimos um cantor que tira um som da garganta, característico daquela região. Escutaríamos essas canções por toda a Mongólia. Tenho saudades delas. Falavam-me dos ventos correndo soltos pelas estepes. Depois fomos a um templo budista o Ivolginsk Datsan, um monastério aos pés das montanhas Khamar-Daban, a mais forte evidência do forte elo desta região com a Mongólia. O templo é uma profusão de cores, bandeiras multicoloridas, dragões dourados e suntuosos Budas. Uma vez de novo na estrada fomos visitar uma comunidade Buriaty. Paramos em um local maravilhoso às margens do Rio Selenga onde acontecia uma cerimônia religiosa. Mulheres vestidas com roupas muitas coloridas cantavam. As estepes a perder de vista haviam substituído a Taiga. Era como se um veludo verde cobrisse toda a Terra. Visitamos uma aldeia dos russos ortodoxos do velho rito de muitas casas de madeira e de janelas coloridas e esculpidas. Tivemos um almoço surpresa. Um restaurante típico com uma maravilhosa mesa com comidas típicas: sopa de porco, porco frito com batatas, muitos doces que não eram muito doces. Enquanto saboreávamos aquelas delícias algumas mulheres vestidas a caráter cantavam e contavam-nos suas histórias comentando seu dia-a-dia. Pediram que falássemos sobre o Brasil e que também cantássemos alguma coisa. Cantei “Doralice, eu bem que lhe disse, amor é tolice é bobagem e ilusão”…e tive que explicar o que estava cantando. Ainda bem que sabia toda a letra tirada do baú dos velhos tempos dos anos 60 e início da Bossa-Nova. Quem se lembra“? E visitamos uma casa típica cuja senhora e seu netinho muito gentis nos mostraram fotos e os canteiros de beterraba. Nos despedimos com uma foto e a promessa de enviá-la para o endereço escrito com cuidado em um pedaço de papel. Quando enviarei esta foto? Gostaria de não esquecer. Ela estava tão linda e colorida e nós tão felizes por partilharmos de um pedacinho de sua vida simples nas estepes.

De Ulan-Ude falamos com o Brasil. Barato e sem complicações. Gostei dessa cidade! Foi lá também que ao querer tirar no caixa automático 200 rublos, apertei algum botão errado e…surpresa, saíram de lá 20.000 rublos, o equivalente a quase 750U$. E fiquei me abanando com aquelas notas como se fossem um leque tentando passar o repentino calor. A Lucinha acha que eu, por estar sem óculos, não enxerguei direito o que estava fazendo. Coisas que acontecem. Aquele dinheiro todo, saindo da Rússia de manhã cedo, sem possibilidade de destrocá-lo por dólares… Que vacilo! Deixei para resolver o problema mais p’ra frente. Em compensação, por estarmos ricas tão de repente, comemos bastante, compramos Vodka e vinho. Deixamos a Transiberiana 13 quilômetros depois de Ulan-Ude. Em Zaudinsky. passamos para a Transmongoliana. O trem partiu as 7:05. A cabine de quatro lugares era ampla. A curiosidade era grande. Partimos com saudade!

 

Quem quiser se comunicar com o nosso guia para passeios em Ulan-Ude o e mail é: bair2002@mail.ru . Ele fala um espanhol perfeito e os passeios são super interessantes, ficando bem mais barato do que através de uma agência aqui no Brasil.

 

De Ulan-Ude (Rússia) a Ulaan-Baatar (Mongólia)

Km. 6.291:    Ulaan-Baatar

Queridos amigos,

O trem partiu de Ulan-Ude exatamente as 07:05. Nos despedimos do amigo Baier e nos preparamos para a fronteira Rússia-Mongólia conhecida por ser extremamente rigorosa, isto é, muitas horas de duração. Não houve nem um pinguinho de exagero. Nossa nova provodinitsa era uma loiríssima oxigenada. Os cabelos eram revoltos e eriçados o que levou-nos a apelidá-la de couve-flor. Era muito simpática e tinha muito cuidado com os turistas.

Até a fronteira, em Naushki, o trem leva umas cinco horas. Quando ele pára passam dois guardas para olhar se todos estão com seus passaportes, em seguida a provodinitsa marca a hora e avisa que podemos ficar fora do trem por duas horas repetindo várias vezes “toalete”. Entendemos que, em terra, teríamos que procurar um banheiro, pois os nossos ficariam fechados durante todo o tempo dos procedimentos fronteiriços. Duas horas depois, e já de volta ao trem, passa outra pessoa distribuindo os formulários de saída do país que devem ser preenchidos em duas vias. A provodinitsa passa novamente pedindo as passagens que são examinadas atentamente. Na seqüência todos são mandados para dentro das cabines, ninguém nos corredores. Passa um oficial pedindo para examinar o formulário de entrada na Rússia com todos os carimbos das cidades visitadas. Faz uma anotação. Esqueci de dizer que, ao chegar em cada cidade da Rússia, a gente tem que carimbar o tal formulário de entrada daí sua importância, não pode ser perdido. É uma maneira de controlar os passos estrangeiros no país. Somos espiões disfarçados de turistas? De vez em quando cabelo couve-flor passa perguntando: tem bagagem lá em cima? Lá em cima é um buraco utilizado para colocar os lençóis, cobertores e travesseiros. Respondemos prontamente: Net! Nisso passa uma outra equipe recolhendo os tais formulários de entrada na Rússia junto com os passaportes. Dentro da cabine aguardamos o desenrolar dos acontecimentos, agora sem passaportes, sem passagens e sem os formulários de entrada no país. Um bom tempo depois chega um outro policial com os passaportes, ordena que fiquemos em pé e que olhemos para ele. Compara nossa cara com a foto do passaporte e desaparece. Uma hora depois volta um policial com os passaportes entregando-os à medida que são carimbados pelo ajudante. Lá fora muitos policiais e dentro do trem muita gente perguntando pelo banheiro que continua fechado. Finalmente o trem é liberado, mas meia hora depois pára em Sükhbaatar, fronteira da Mongólia. Aqui a cena se repete: entregam o formulário de entrada que, felizmente vem traduzido e olham o passaporte, Uma das policiais parece irritada porque não entendemos o mongólico, imaginem. Desaparecem e há um tempo para relaxar. Alguém grita para sairmos da cabine e vem uma mocinha fardada, por sinal muito ágil, que sobe nas camas para examinar o buraco de guardar lençóis. Procura contrabando? Drogas? Quem sabe? Nova ordem para entrarmos na cabine e permanecermos quietos. Volta um policial com cara enjoada, encarando-nos. Manda olhar de frente. Como a Lucinha continua deitada ele grita: stand up. Cruzes! Constatado que nós éramos nós, agora sim, carimba o passaporte. Com os passaportes na mão o trem começa a se mexer.  Quase sete horas nas fronteiras. Dormimos profundamente e fomos acordadas pela provodinitsa. Chegáramos a Ulaan-Baatar, capital da Mongólia. Eram 07:00 O guia já nos esperava. Graças a Deus ajudou-nos a carregar as malas. Assim conhecemos o Sr. BatBold, nosso guia e seu motorista de luvas brancas. Nos ajudaram a descer as malas e carregá-las até o carro. Fomos para o Hotel Khan Palace, muito bom, diga-se de passagem. Mongólia, terra misteriosa e mística, morada dos Xamãs, de povos nômades e de Gengis Khan guerreiro e imperador, responsável por erguer um dos maiores impérios de todos os tempos, o Império Mongol, que se estendia do Oceano Pacífico, no Extremo Oriente, à fronteira ocidental da Rússia. Já estávamos gostando da Mongólia. Tomamos um café da manhã e partimos para conhecer Ulaan-Baatar uma cidade de 1.200.000 habitantes. Fomos direto para a grande praça central, a Praça Sükhbaatar. Ela é um enorme quadrado cercado de edifícios públicos. Em um dos lados está sendo construído um grande monumento homenageando Gengis Khan, pois, nesse ano de 2006, comemora-se seus 850 anos e os 800 anos do nascimento do grande Império Mongol quando ele conseguiu unir todas as tribos das Estepes e foi aclamado o Grande Khan, uma espécie de Imperador. No meio da praça há uma bonita estátua eqüestre homenageando Sükhbaatar, herói nacional e o primeiro líder da Mongólia independente. De lá fomos ao Museu de História Natural onde estão expostos os esqueletos de um enorme dinossauro e de outros menores, ovos petrificados, todos encontrados no Deserto Gobi. O Museu é muito bem organizado e as peças estão em excelente estado. Fomos então ao maior e mais importante Monastério Budista da Mongólia, o Gandan. Hoje esse Monastério abriga dez Dastans (institutos), livraria e 900 monges. Milagrosamente parte dele sobreviveu à barbárie comunista quando, em 1938 , as comunidades religiosas foram abolidas e 900 templos foram destruídos. O que restou serviu de alojamento para oficiais russos. No caminho fizemos câmbio. A moeda é o Tögröd e 1U$=1.192Tg . No Gandan o que mais me impressionou foi o Migjed Janraising um templo imponente e lindo que abriga uma imensa estátua do Buda da Compaixão. Ela não é a original porque a original foi enviada para Leningrado por ordem de Stalin, fundida e transformada em balas. Ah, Stalin! A que está lá é uma cópia feita com generosas doações dos devotos budistas. Ela tem 26,5 metros de altura, 90 toneladas de cobre, 135 quilos de ouro. É linda! A gente fica lá olhando para cima até o pescoço doer. Saímos para o Palácio de Inverno de Bogd Khaan, um dos palácios mais bonitos que eu vi. É verdade que algumas partes estão deterioradas e os jardins estão mal cuidados, mas isso não diminui sua beleza. Os desenhos são tão lindos, detalhados e coloridos que encantaram um milionário americano o qual, atualmente financia a restauração de uma das portas. A restauradora, já uma senhora, estava encarapitada em uma escada e trabalhava com uma paciência…  À noite fomos a um show folclórico muito bonito. Voltamos a escutar os sons tirados da garganta, de instrumentos chamados cabeça-de-cavalo ou Morin Khor e de harpas simplificadas. Os sons são maravilhosos e levam-nos às Estepes e ao galope dos cavalos livres correndo com as crinas ao vento. Além disso, as roupas dos artistas são muito ricas e coloridas. O Morin Khor é um instrumento de duas cordas feitas de crina de cavalo . O som é tirado por um arco como no violino. Na sua parte superior exibe sempre uma cabeça de cavalo esculpida em madeira, daí o nome. Os mongóis têm uma relação muito especial com esses animais. Fomos dormir apaixonadas pela Mongólia. Essa paixão iria dominar-nos nos próximos dias. No dia seguinte partimos para Terelj, um Parque. Lá ficaríamos por dois dias hospedadas em um Ger. Depois explico o que é isto. No caminho BatBold foi falando sobre Gengis Khan. Quando Gengis Khan morreu, em 1227, aos 72 anos, seu corpo foi levado em um cortejo desde um acampamento ao pé da Grande Muralha da China até o coração da Mongólia. A morte só foi anunciada depois do seu enterro. Todos os que cruzaram o caminho de mais de 1.000 quilômetros foram assassinados pela guarda que conduzia o corpo do Imperador.  O local nunca foi descoberto. Disse-nos que o italiano Marco Pólo, grande amigo de Gengis, teve permissão para assistir, mas antes foi vendado, voltas e mais voltas foram dadas, como na brincadeira de cabra-cega, de forma tal que, apesar dele haver contado muitas histórias, nunca revelou o local porque não sabia. Aliás, Marco Pólo é uma referência porque naquela época, século XIII, os mongóis não conheciam a escrita. BatBold contou-nos ainda que há boatos de que túmulo tenha sido encontrado por arqueólogos japoneses, mas isso talvez nunca seja comprovado, pois as autoridades Mongóis impedirão sua abertura respeitando as crenças do povo. Segundo elas a violação de um cadáver destrói o espírito no Além e o povo Mongol não pode conviver com a idéia de que Gengis Khan foi destruído.

A estrada para Terelj é muito bonita. Vimos muito Yaques um animal parecido com um bisão. Ele vive por ali misturado aos cavalos e carneiros. Fazem bandos do lado da estrada. Paramos em um local para darmos uma volta de camelo. É incrível a altura daquele bicho! Montamos e saímos balançando p’ra lá e p’ra cá Estepe afora, sempre puxadas, pois obviamente não tínhamos competência para guiá-los. Ficamos também de frente a uma águia, coitada, vendada, para não atacar as visitas. Ela foi colocada nos nossos braços protegidos com luvas de couro e, ao tentar voar, fez com que nos sentíssemos grandes caçadoras das Estepes da Ásia. Foi incrível! Voltamos para a estrada. Descemos para ver um monumento Xamã, o Ovoo, uma pirâmide sagrada de pedras amontoadas. No seu cume há um pedaço de pau encravado cheio de trapos coloridos o que sempre dá impressão de um espantalho. A cada um que encontrávamos tínhamos que descer do carro para dar três voltas no sentido dos ponteiros do relógio e, ao mesmo tempo em que mentalizávamos desejos e pedidos, jogávamos as pedras mais próximas na direção do cume para que, assim, o Ovoo fosse ficando cada vez mais alto. Vimos muitos pela Mongólia.  O Parque é enorme, fica a mais ou menos 80km de Ulaan-Bataar. Na portaria paga-se uma taxa e depois a gente começa a percorrer a estradinha. A altitude é em torno de 1600m e o cenário é muito bonito. Começamos a ver os hotéis que mais parecem acampamentos mongóis, daqueles que a gente via nos filmes.  Os hotéis têm geralmente uma “séde” para as refeições, banheiros e chuveiros. Os apartamentos são os Gers ou tendas mongóis. Segundo BatBold, 50% do povo mongol ainda é nômade, por isso durante todo o trajeto de trem e de carro a gente vê Gers, alguns já montados outros por montar ou em cima de carros sendo transportados, vimos até nos quintais, sugerindo que, apesar de morarem em casas de tijolos, a alma continua nômade. Muito interessante. Notamos que os campos não têm cercas e a paisagem mais tradicional é o verde da Estepe ondulada, Gers espalhados, um pequeno rebanho de yaques e carneiros, muitos cavalos e um carro estacionado. Pois é, estávamos chegando ao nosso acampamento quando vimos ali perto uma festa. Pedimos para ver o que estava ocorrendo. O Bat nos disse que era uma cerimônia Xamã. Por ali mesmo ficamos. O sol estava bem forte, algumas pessoas trajavam roupas típicas bonitas e muito coloridas , e todos se espalhavam sentados no chão. Nos sentamos também na grama da Estepe. Em um dos lados do quadrado alguns cantores se apresentavam cantando aquelas músicas já nossas conhecidas e pequenos conjuntos tocavam os instrumentos típicos como o cabeça-de-cavalo. De repente chegou o Xamã, uma figura impressionante, coberto de fitas coloridas caindo ao redor do corpo como uma estranha franja, me lembrei do bicho-folharal de Monteiro Lobato.  Ele tinha cabelos longos e portava uma espécie de tambor de couro no qual batia com uma perna de cabra com casco e tudo. Havia uma fogueira com uma fumaceira onde eram colocadas as oferendas: arroz, bebidas, muitos bolos e um carneiro em pedaços, as costelas estavam envolvidas por dois pedaços de seda, um azul escuro e o outro azul mais claro. Não sabemos o significado dessas cores. Para os assistentes, nosso caso, jovens vestidas com roupas típicas distribuíram um tipo de bolinho compridinho, no formato de uma vagem de amendoim, de cor branca e gosto de nada e, com eles depositados nas palmas de nossas mãos, juntas e voltadas para cima fazíamos movimentos circulares, no sentido horário, repetindo o que o Xamã cantava. Muito legal! Imaginem nossa sorte de participarmos disso. Essa é uma cerimônia anual para desejar a todos, progresso, saúde, paz, etc. Eu ainda acrescentaria proteção contra os chineses de olho nas terras da Mongólia. Bem, deixando de lado maus pensamentos, e continuando na cerimônia… Havia um cavalo branco que, até então não sabíamos o que significava. O cavalo era lindíssimo, alto, com uma enorme cauda quase arrastando no chão e crinas super compridas. Ele era maravilhoso. Em uma determinada hora o Xamã se aproximou, retirou-lhe o bridão e o arreio, pronunciou algumas palavras em seu ouvido, deu-lhe uma palmada na bunda e se afastou. O cavalo passou pelo cercado e iniciou seu galope espetacular com as crinas ao vento deixando-nos eletrizadas. Ficamos de olhos grudados até que ele desapareceu no verde da Estepe, colina após colina. Uma das cenas mais bonitas dessa viagem. Mais tarde o Bat nos disse que o cavalo ficaria em liberdade para sempre. Fora criado para isso, para aquela cerimônia Xamã e que, ninguém o prenderia porque todos sabiam que aquele cavalo havia sido libertado pelo Xamã.  Depois disso ficamos em uma fila para sermos abençoadas. Chegando minha vez, imitando os outros, fiquei de joelhos, inclinada com a cabeça dentro do tambor, daí ele bateu com a perna de cabra nos meus dois ombros, e na cabeça. Assim como os outros, coloquei um dinheiro dentro do tambor, ele me disse alguma coisa no ouvido, soprou e, pum! Bateu no tambor sinalizando o fim da “benção”. Era um Xamã muito jovem e soubemos que é filho de um velho e sábio Xamã. Adoramos! As pessoas começaram a partir e nós também. Finalmente conheceríamos nossa cabana mongol, o nosso Ger.

O Ger é uma tenda redonda, forrada de lã e lona. No interior da nossa havia um aquecedor cuja chaminé sai por um pequeno orifício no teto, duas camas, uma mesinha onde ficavam os pacotinhos de chá e água quente, duas cadeiras confortáveis e um depósito para lixo que a Lucinha achou que era para o xixi noturno. Até hoje não sabemos se era ou não, o fato é que foi utilizado para este fim, pois sair à noite naquele frio não dava! A portinha, assim como todo o suporte do teto é pintado com motivos mongolianos. Estávamos deslumbradas. Ao longe pessoas cantavam e o som chegava até nós (o povo mongol gosta muito de cantar), jovens se distribuíam em grupos pelos campos fazendo pontinhos coloridos na paisagem. Havia belas montanhas e algumas esquisitas formações de pedra. Cenário do filme “Horizonte Perdido”, lembram? Privilégio, privilégio! Ao entardecer puxamos nossas cadeiras para fora, abrimos nosso vinho, e a noite foi caindo muito devagar. De vez em quando falávamos alguma coisa, mas não era hora de falar. Nossos vizinhos japoneses, que estavam em dois Gers, nos avisaram que na noite anterior havia feito um frio siberiano. E, no que avisaram, já começaram a acender a pequena estufa acrescentando à madeira um pouco de cocô seco de gado catado por ali mesmo, acho que para dar aquele cheirinho gostoso. A Lucinha me disse que a vovó fazia muito isso lá no Sítio Boqueirão. Chamamos a senhora, nos comunicando por sinais, para que nos ensinasse a acender a tal estufa. O fogo pegou. No Ger vizinho vimos os japoneses saírem correndo da tenda gritando “hot, hot, very hot” e, assim, tiveram que ficar do lado de fora até que a temperatura interior baixasse. No nosso caso foi um pouquinho melhor. Quando achamos que estava bom nos deitamos, mas tivemos a sensação que iríamos assar em pouco tempo. Saímos também e esperamos que a lenha acabasse. Nos afastamos um pouco e pudemos observar o nosso Ger iluminado pelo fogo o que o tornava alaranjado com a fumacinha saindo pela chaminé.  Todos os outros Gers estavam assim. Eram como enormes lanternas. Essa é a imagem que guardei do acampamento. Uau! Foi uma noite sensacional. Dormimos demais. De madrugada fez frio e a Lucinha acendeu o fogo e voltamos a nos deitar. O amanhecer foi lindo. Tomamos nosso café e partimos para uma caminhada montanha acima. Vimos que estão sendo construídos outros hotéis, alguns já em estilo alpino, com chalés de madeira. Achamos que nada se compara a um Ger. A paisagem era deslumbrante. Durante todo o percurso escutávamos os cucos cantando. Cantam tanto e são tantos, o canto ecoando pelas montanhas que concluímos: todos os cucos do mundo moram em Terelj. Nesse dia visitamos uma família nômade tradicional. Logo que chegamos foi-nos oferecido um leite de boas vindas. Eu estava meio distraída quando vi passar por mim, na direção das visitas do sexo masculino, uma tigela com leite e uma colher. Escutei o barulho do leite sendo sugado da colher com força. Depois que todos os homens deram seu gole, utilizando a mesma colher, a tigela foi passada para a Lucinha que não aceitou porque achou pouco higiênico e eu resolvi também não aceitar.  Não sei o que todos pensaram, mas dessa vez não deu! Começou então a castração dos pequenos carneirinhos. Quando eu vi o que ia acontecer me afastei correndo, mas ainda deu para ouvir os mésss, mésss dos coitadinhos. Era quase um choro de neném. A Lucinha ficou firme e me contou que os ovinhos são tirados através de um pequeno corte e jogados em uma vasilha com leite. BatBold contou que, na China, são muito apreciados e têm enorme valor. São comidos fritos principalmente pelos velhos, mas que, também na Mongólia, têm uma grande clientela. Os carneirinhos são recolhidos em um cercado e, após dois dias estão curados. Informou-nos que a carne fica extremamente gostosa e suave sendo por isso preferida pelos europeus.  Passamos então à visita do Ger da família. Era um Ger Classe Média, grande, tinha camas, sofás, penteadeira, cômoda para roupa, cadeiras e até um armário para guardar utensílios domésticos. A cozinha sempre funciona do lado de fora. Fomos convidados a sentar. Os homens são sempre servidos primeiro. Havia um prato de nata como eu nunca tinha visto, pura, grossa, cheia de colesterol e uma tigela com leite quente. Havia também um pãozinho meio doce para ser servido com a nata. Bebemos nosso leite e comemos o pão com nata. Enquanto isso o casal apenas observava. Eram jovens e muito bonitos. Pedimos uma fotografia e, já lá fora, uma foto com a dona da casa que concordou correndo para o interior do Ger e retornando linda, vestida com sua roupa típica. Essas fotos na porta do Ger ficaram maravilhosas. Nos despedimos e eles ficaram acenando, ela com sua roupa colorida e ele já se encaminhando para cuidar de seus carneirinhos sem ovos (castrados). Assim tivemos uma idéia de como funciona aquela sociedade e de como vivem os povos nômades. No ano seguinte voltarão para a Estepe, mas não para aquele mesmo lugar. Será em um outro local também sem cercas e com a liberdade solta nas crinas dos cavalos e em seus cânticos ao entardecer. Não disse? A Mongólia é apaixonante! Fomos ainda ver a Pedra da Tartaruga, passeamos por ali e nos encaminhamos para a saída do Parque, um dos passeios mais sensacionais dessa viagem. Vou deixar o endereço do BatBold para quem quiser que ele organize viagens pela Mongólia. Ele fala espanhol, inglês e russo. Se tiverem oportunidade não deixem de procurá-lo! Saindo, passamos pelos Yaques, pelo Ovoo, pelos camelos e a águia, sempre com os olhos procurando Gers. Sensação de “ai que vontade de ficar, mas tenho de ir embora”… Esse é um lugar para voltar!  Chegando ao hotel havia uma grande movimentação. Nos explicaram que a rainha da Holanda e sua comitiva tinham chegado para visitar a Reserva de Cavalos Selvagens, uma raça nativa e única da Mongólia. É que há muito e muito tempo atrás, acho que no tempo colonial, um casal desses cavalos fora presenteado aos reis holandeses. Na Mongólia essa raça foi extinta, pois não suportou o cativeiro. Nos tempos atuais os reis holandeses, sensibilizados, abriram uma linha de crédito objetivando a reintrodução desses animais no seu habitat natural. Na Holanda existiam muitos exemplares preservados. Criou-se uma Reserva que, atualmente, abriga cento e cinqüenta cavalos dessa raça. Nesse dia os turistas não puderam entrar. Foi assim que, barrados, fomos parar no Manzshir Khiid um monastério de 1733 e que contém atualmente vinte templos e abriga trezentos e cinqüenta monges. Caminhamos montanha acima para descobrir as rochas com pinturas de Budas. Vimos marcas de balas enfeando as pinturas, produto da intolerância comunista. Almoçamos na estrada, a pior comida da viagem. Ficamos com gosto de gordura por uns dois dias. Nossas roupas ficaram empestadas, terminando por empestar também as roupas das malas. A minha, além de pesada, ficou fedorentissima. Eco! À noite fomos a uma ópera que contava a história de Gengis Khan a partir da morte de seu pai até sua aclamação e a formação do maior império de todos os tempos, maior até que o de Alexandre o Grande. O teatro era bem bonito, os cenários eram simples, mas bem projetados, a orquestra muito boa e as roupas dos atores belas e coloridas. Foi excelente! No dia seguinte partiríamos para a China. Ia mudar tudo, estávamos muito curiosas. BatBold e seu motorista de luvas brancas, não só nos levaram até a estação, como arrumaram nossas malas na nova cabine. Obrigada BatBold por tanta gentileza durante nossa estadia em Ulaan-Baatar! Muito obrigada também ao motorista de luvas brancas sempre solícito e educado. Valeu! Quem sabe retornemos um dia. Tudo é possível!

Quem quiser se comunicar com o nosso guia para passeios na Mongólia, inclusive passeios 4X4:

BatBold – Guia Turístico (Inglês, Espanhol e Russo)

P.O Box-4

Ulaan-Baatar – 210620

Telefone: (976-11) 99117324

Fax: (976-11)-351066

Mail: anura@magicnet.mn

Mongólia

Os passeios são super interessantes e, diretamente com ele ficam bem mais baratos do que através de uma agência aqui no Brasil.

 

De Ulaan-Baataar (Mongólia) a Beijing (China)

Km. 8.247:    Beijing

Queridos amigos,

Apesar de BatBold estar conosco, para variar, rolou stress na subida do trem. Os chineses são mais complicados. Nossas passagens eram de primeira classe. Ficávamos sós mesmo se a cabine tivesse quatro lugares. Só que o chinês, postado na porta do vagão, não entendia isso e o Bat não falava mandarim, a língua oficial chinesa. Nossa passagem era para o vagão 11, o sorridente chinês, nos mandava para o vagão 15, o do 15 para o 14, o do 14 nos mandava de volta até que um deles sacou a confusão e nos enviou para o nosso vagão 11. Pediu muitas desculpas. Ok, ok! BatBold e o motorista de luvas brancas instalaram nossas malas e nos despedimos agradecendo muito. Foi a pior cabine, as camas eram muito duras. O trem saiu na hora certa. Na fronteira chinesa enfrentaríamos, além da burocracia, a troca dos trucks ferroviários (conjunto de quatro rodas e dois eixos). Seria uma viagem demorada. Notamos que agora nosso vagão tinha muitos turistas. Nos divertimos com o nosso vizinho canadense, que viajava sozinho, contando para outros turistas que, seus amigos, no Canadá, não acreditaram que ele levara uma semana para conseguir comprar sua passagem no Trem Transiberiano. Nem os russos entendiam o que ele queria e nem ele sabia o que eles diziam. Ainda bem que tivemos o bom senso de comprarmos nossas passagens no pacote. O trem corre para o sul, as árvores vão desaparecendo e uma imensa planície se estende até onde a vista alcança, a terra verde e o céu azul. De vez em quando víamos um ou outro camelo, cavalos pastando e Gers. Tudo começa a mudar em um lugarejo chamado Choir onde oficialmente começa o Deserto Gobi. Lemos que, anteriormente existia aqui uma enorme base militar soviética. Hoje os edifícios estão destruídos e a impressão é de uma cidade fantasma muito pobre. Continuando para o sul entramos de vez no Deserto. A paisagem é inacreditavelmente plana e vazia. Vimos muitos animais mortos. Essa paisagem desolada e amarelada nos acompanharia por muito tempo. Os procedimentos fronteiriços se iniciam, do lado mongoliano, em Zamyn-Üüd e do lado chinês em Erlian. Na chegada a Erlian os guardas fronteiriços chineses recebem o trem muito bem vestidos e perfilados ao som do hino nacional. Temos que preencher os formulários de entrada e os passaportes são levados retornando tranqüilamente. É também em Erlian que se dá a troca dos trucks para que a viagem possa continuar. É que os sistemas ferroviários da Rússia e da Mongólia têm a bitola ligeiramente mais larga que a chinesa e a do resto do mundo. É uma operação bastante interessante e que vale a pena ser vista apesar do adiantado da hora. O trem sai da plataforma e entra vagarosamente em um enorme galpão. As janelas ficam apinhadas de gente observando e fotografando. Entendi que, inicialmente, os vagões são separados da locomotiva e os trucks desatreladas; em seguida os vagões são suspensos por um mecanismo semelhante a uma ponte rolante. A gente começa a sentir o trem subindo e ver o trem vizinho cada vez mais baixo. Nesse momento os trucks da nova bitola vão empurrando para frente os que tinham sido utilizados na Rússia e Mongólia e, ao mesmo tempo, são posicionados por alguns trabalhadores. Começamos a sentir o vagão baixando até o nível normal. Os novos trucks são atrelados e o passo seguinte é engatar os vagões na locomotiva. Entenderam? Estando nossos vagões adaptados à nova bitola seguimos nosso caminho, dormindo, é claro. A propósito dessa diferença nas bitolas meu pai conta “de como surgiu no Brasil uma estrada de ferro, a Central do Brasil, cuja bitola é de 1,60m mais larga do que a do gabarito universal (1,435m). Essa bitola de 1,60m é utilizada na Rússia. Foi imaginada por um Czar como defesa militar por ser diferente de todas as bitolas ferroviárias existentes”. Por que 1,60m? Sei lá, mas ele acha “que pode ter sido uma homenagem à estatura da Czarina um fato semelhante à origem da ”braça” como medida de distância entre a ponta do dedo indicador de Sua Majestade Carlos Magno (Ano 800) à ponta do seu Augusto nariz com a cabeça virada para o lado oposto ao dedo”. Se foi a altura da Czarina que definiu o tal 1,60m não sei, fica por conta da fértil imaginação paterna. Bem, voltando à questão inicial: “feitos os acertos com a engenharia russa o Czar imediatamente colocou em prática sua brilhante idéia contratando com as firmas inglesas a construção da ferrovia, locomotiva e vagões especiais e adequados àquela medida. Quando as firmas inglesas já haviam preparado a parte mais cara da encomenda estourou a Guerra da Criméia (franceses e ingleses contra os russos que haviam atacado a Turquia). Diante disso a Inglaterra ficou com a preciosa encomenda encalhada. Imenso abacaxi! Quem compraria o tal abacaxi? Só mesmo um país tropical, acharam os ingleses, e, assim, o Brasil foi escolhido. Sua Majestade Britânica enviou uma comissão de alto nível para convencer nosso Imperador das excelências da revolucionária solução czarista apesar de não termos fronteiras belicosas e nosso país não ser propriamente uma planície. Planície, planície, só a amazônica. Naturalmente, a nobre comissão ofereceu incomparáveis  vantagens, possibilidades de novos empréstimos, etc.,etc. O Imperador convencido das vantagens do excelente negócio de pronto aceitou, surgindo então o problema eterno da Central do Brasil. Entenderam? Túneis, pontes, aterros, sem falar no próprio material rodante que morre enferrujado por ali mesmo”. Volto a dizer: histórias do meu pai Miguel. A verdade é que o Brasil utiliza duas bitolas a de 1m e a “tal” de 1,60m e, é também verdade que, muitos e muitos anos depois, a bitola russa impediu uma invasão nazista de planície Siberiana adentro.

Na manhã seguinte o trem continuava atravessando o Deserto Gobi. A paisagem continuava com as planícies amareladas a perder de vista e algumas miseráveis vilas. Passamos por uma cidade industrial chamada Datong extremamente poluída. Muitas pessoas descem aqui para ver as Cavernas Budistas no interior das quais há 50.000 estátuas de Buda esculpidas entre os anos 460 e 494 dC. Depois dessa cidade finalmente o trem toma a direção leste e o Deserto vai sendo substituído pelo verde dos campos cultivados. Há uma região bem montanhosa com muitos túneis, mas a maior atração foi a primeira visão da Grande Muralha. Ficamos de boca aberta. Ela vem descendo, como um rio, de uma montanha bem abrupta. Como alguém pode ter construído uma maravilha como aquela? É impressionante! Daí p’ra frente a cada túnel tínhamos, na saída, uma nova visão da Muralha. Chegamos a Beijing as 14:00. Tínhamos andado de trem 8.247km e, nessas alturas sei lá quantos fusos horários, só sei que estávamos há onze horas de diferença para Fortaleza. A primeira surpresa foi a descida do trem. Foi o primeiro lugar em toda a viagem cujas plataformas ficavam na mesma altura das escadas do trem. Não houve stress. Foi nessa estação que nos deparamos, pela primeira vez, com o horrível costume que os chineses têm de limpar a garganta fazendo um enorme e nojento ruído e, em seguida dar uma cusparada no chão. Eca! Depois disso vimos até em restaurantes. Dizem que estão sendo reeducados para as Olimpíadas de 2008. Encontramos nossa guia Rosio que falava um espanhol de matar! Falava e falava, o difícil era entender! No momento seguinte já estávamos subindo escadas. São escadas de degraus bem baixinhos e, da cada lado, rampas estreitas por onde se empurram as bicicletas. Minha mala ficava com uma roda na escada e outra na rampa. Foi difícil. Chegando ao Hotel, o Gloria Plaza, super confortável, deixamos as malas fizemos câmbio 1U$=8 Yuans e já saímos para conhecer a Tiananmen, nossa conhecida Praça da Paz Celestial, aquela onde cerca de dois mil estudantes foram mortos por protestarem contra o governo, mas quando perguntamos a Rosio se era a mesma praça, desconversou. Tudo o que envolvia política ela fazia de conta que não entendia e mudava de assunto. Dizem que esta é a maior praça do mundo. É enorme, mas não sei se por causa da multidão de turistas e de chineses, não tive essa impressão. Ao redor dela estão os edifícios públicos e em um dos lados a famosa Cidade Proibida que visitaríamos depois. Do outro lado, lá longe, fica o Mausoléu de Mao Tse-Tung. Ficamos ainda um pouco por ali e em seguida Rosio levou-nos para jantar. A comida era excelente, mas estávamos extremamente cansadas. Fomos dormir. No dia seguinte tínhamos uma manhã livre. Resolvemos sair. Fomos caminhando até a Praça da Paz Celestial. No caminho falamos de um telefone público com o Brasil. Sim, sim! De um telefone público! Surpresa! Chegando, fomos direto ao Mausoléu. O primeiro passo é deixar as mochilas do outro lado da praça, o segundo é comprar as entradas e o terceiro enfrentar uma enorme fila. Multidão de chineses comprando flores para Mao. Eles ainda veneram seu Chefe, o Grande Timoneiro da Longa Marcha de 1935, apesar de todas as atrocidades por ele cometidas. Dizem que acertou 70%. Finalmente estávamos lá dentro e Mao também. Seu corpo repousa em uma caixa de cristal e só sua cabeça é iluminada. Uma luz laranja que parece sair de dentro para fora. Há guardas tocando o povo para frente de forma tal que a gente não pode observar melhor o absurdo de tudo, mas deu para notar que Mao está mais novo do que quando morreu. Será ele mesmo? Saindo desta sala a gente passa para uma outra que contém uma enorme quantidade de quinquilharias. Relógios com o rosto de Mao, isqueiros, chaveiros, termômetros, etc, etc. Nunca esperei encontrar aquilo no Mausoléu.  Compramos algumas lembranças e fomos passear de Metrô. Constatamos, muito satisfeitas, que todas as estações apresentavam seus nomes em mandarim e em inglês. A China está a Anos-Luz da Rússia! Descemos tranqüilamente para visitarmos o Templo do Lama. Maravilhoso, contém Budas sorridentes, sendo que o maior deles tem 18 metros, esculpido de uma única peça de sândalo. Ele é considerado o mais importante Templo do Budismo Tibetano na China. De novo na rua, fomos a um banheiro público e, mais uma vez nos surpreendemos. Banheiro limpissimo com duas alas, uma com os sanitários no chão daqueles que a gente encontra muito no interior do Brasil, e outra com sanitários normais. Há um desenho mostrando o tipo de sanitário. À tarde encontramos Rosio. Quando contamos nossa aventura ficou pasma com nossa coragem. Não dava para ficar no Hotel. Fomos ao Templo do Céu. No caminho Rosio foi explicando que Beijing está se preparando para as Olimpíadas, até os taxistas estão tendo aulas de inglês, e que muitos monumentos, templos e edifícios estão fechados para restauração. Então, é melhor visitar a China depois das Olimpíadas. O Templo do Céu é o cartão postal de Beijing. Lindo, com suas cores e muros de mármore branco esculpido. É da Dinastia Ming e tenta transmitir uma união entre o Céu e a Terra. Não foi possível entrar, pois está sendo restaurado. Que pena! Tiramos muitas fotos e ficamos por ali nos maravilhando. Fomos a uma casa de chá para ver como se faz um chá de verdade, segundo a tradição chinesa. Sentadas ao redor de uma mesa fomos apresentadas aos diversos tipos de chás. Havia um que era de botões de rosa! Escolhemos um deles. Há um bonequinho especial para indicar-nos a temperatura da água. Se a água está no ponto o bonequinho começa a fazer xixi.  Vimos, de cara, que não sabemos fazer chá e muito menos beber. O chá é servido em pequenas tigelas e sem açúcar, devendo ser sorvido devagar, degustado. Lucinha comprou um bonequinho e uma caixa de chá. Diz ela que vai repetir a cerimônia lá no Sítio. Vamos ver. Na programação noturna deveríamos comer Pato Laqueado, o prato mais famoso da China. O restaurante escolhido era muito grande e estava cheio de chineses e alguns turistas, embora Rosio tenha dito que os chineses só vão lá em ocasiões especiais por ser muito caro. O pato vem em uma mesinha auxiliar e ao chegar é fatiado pelo garçom. Segundo a Lucinha só tiraram para nós alguns pedaços deixando o pato quase todo ser levado. Sei lá, o fato é que estava delicioso e que faltou pato!

Estamos pasmas com Beijing. Enormes edifícios substituem, da noite para o dia, bairros antigos. É uma floresta de guindastes. As avenidas são extremamente largas, muitos jardins, muito limpa, mas, paira sobre ela uma nuvem de poluição embora Rosio tenha dito que é um tempo chamado de “tempo úmido” . Não vimos nem por um dia o céu e muito menos as estrelas. Estava muito quente, um calor sufocante como se estivéssemos na Amazônia. Muitas bicicletas. O povo continua se locomovendo de bicicletas. Os ciclistas vão por entre os carros naquela tranqüilidade como se nada tivesse acontecendo, mulheres e homens. Não vimos quase crianças. É que o controle da natalidade é muito rigoroso. Também pudera, um país que tem que alimentar mais de um bilhão e trezentos milhões de pessoas! População sete vezes maior que a do Brasil! Nossa visita à Cidade Proibida foi meio decepcionante, pois a maior parte das salas estava fechada para restauração. Outras dependências não são mais abertas à visitação porque, segundo Rosio, durante as filmagens do Ultimo Imperador, filme de Bertolucci, foram muito danificadas além de inúmeras peças roubadas. Não sei se é verdade. Aqui moraram as dinastias Ming e Qing e poucas pessoas tinham acesso ao lugar, daí o nome. São oitocentos edifícios e cerca de nove mil salas. A visita aos jardins foi também decepcionante, pois faltava água nas plantas e fontes, mas valeu porque, finalmente, conhecemos a Flor de Lótus. Vou colocar uma foto dela no álbum. Uma visita também muito bonita foi ao Palácio de Verão. Mais uma vez não pudemos entrar no Palácio, mas a caminhada pelos jardins, olhando os vários templos, sempre com vista para o lago artificial,  compensou. Chamou-nos atenção uma construção de mármore branco extremamente trabalhada, maravilhosa imitando um barco ancorado. Dali uma das princesas podia assistir a ópera tendo a chuva lá fora como pano de fundo. Princesa de bom gosto!   Uma outra atração ali perto do Lago Kunming foi uma visita às pérolas cultivadas de água doce. Ficamos sabendo como as ostras são trabalhadas para que cresçam pérolas no seu interior. Vivas, são entreabertas e por essa fenda são introduzidos pedacinhos das ostras que já tiveram suas pérolas retiradas. Com o tempo pequenas pérolas são formadas e seu tamanho depende do tempo que passam dentro das conchas. As grandes, e de maior valor, são colhidas com vinte anos. Os colares, brincos e anéis são muito bonitos e estão lá para serem comprados.  Combinamos com Rosio uma visita a um bairro antigo, um Hutong. Fomos de “trici” bem sentadas enquanto o chinês pedalava pelas ruelas ás vezes tão estreitas que mal nos cabiam. No tempo do Império aí moravam importantes funcionários do Palácio Imperial, mas hoje os Hutongs são ocupados por uma população pobre, fazendo núcleos familiares. São apoiados pelo governo objetivando sua preservação para fins de turismo. Descemos para visitar uma das casas. Entramos. A casa era composta de um vão de mais ou menos 5x3m onde funcionavam o quarto e a sala moradia de uma senhora e o marido. Ela, uma mulher de uns cinqüenta e seis anos, originária da Manchúria, muito bonita, tinha longos cabelos que usava de lado. Nesse vão tinha ar condicionado, computador e outros eletrodomésticos. O filho do casal mora ao lado. Tem 25 anos e é filho único, pois já é pós 1980 quando se estabeleceu um violento controle da natalidade, um filho por casal. Saindo, a gente entra em um outro cômodo bem menor, onde funciona a cozinha. Há um tanque, uma máquina de lavar roupa e uma ducha. Perguntamos pelo banheiro. Ela explicou que o banheiro é público o qual, normalmente, fica no fim do “quarteirão”. Não há separação entre um aparelho sanitário e outro, a única separação é entre homem e mulher. Uma vez na semana há recolhimento do “material” que é levado para servir de adubo. Tudo é aproveitado! Então todo o cuidado é pouco quando se come verduras frescas. Caminhamos um pouco a pé sempre assediadas por uma multidão de vendedores. Terminei comprando um leque de madeira por 1U$. Meu Deus um leque todo trabalhado por 1U$! A Lucinha tratou logo de refrear meu entusiasmo afirmando que as palhetinhas são colocadas em uma máquina e, assim, “esculpidas” e a madeira não é sândalo coisa nenhuma. Era só um cheirinho passageiro. Achei melhor não acreditar, passando a exibir orgulhosamente meu leque. Ah Lucinha!

Não posso deixar de falar da visita que fizemos a uma fábrica de Cloisonne, um artesanato originário de Beijing na Dinastia Yuan atingindo o auge na Dinastia Ming. Esse trabalho é também conhecido como “Azul de Jingtai” porque esta foi a cor predominante no processo de esmaltação.Também só chinês teria paciência para realizá-lo! São peças de cobre, principalmente jarros, cujos desenhos superdelicados são, inicialmente feitos em fios também de cobre colados na superfície com uma cola especial não revelada. A peça vai primeiramente a um forno em altíssima temperatura para provocar a fusão dos fios e sua soldagem nela. Seguindo esses desenhos os operários pacientemente começam a pintura. A peça vai mais seis vezes ao forno, se não me engano, para correção das cores. É um trabalho delicadíssimo que, com certeza, já vimos em alguma lojinha de artigos chineses e não demos o devido valor. Agora nosso olhar será bem diferente. À noite fomos a uma Ópera Chinesa, uma mistura de canto, dança, mímica e acrobacia.  É muito diferente das nossas óperas. É um espetáculo muito antigo e que sofreu muita repressão durante a Revolução Cultural. 

No dia seguinte fomos visitar a Grande Muralha. Agora sim o momento tão esperado. É verdade que existem trechos que estão muito estragados pelo tempo, mas há outros que estão completamente restaurados. A nossa visita foi a um trecho pronto. Chegamos lá, compramos nossas entradas e começamos a subir. Uma das surpresas é que ela não é uma passarela e sim uma imensa escadaria. Gente é inaaaacreditáááável! Nenhum dos monumentos chineses, construções históricas, templos, nada se compara à Grande Muralha! Ela foi construída ao longo de 2.000 anos com enormes blocos de pedra e percorre 7.200km desde o Mar Bo a leste, ao Deserto Gobi a oeste, para defender a China contra as invasões dos Mongóis. Ela é tão grande que é a única obra do homem que pode ser vista do espaço. E nós estávamos lá subindo degrau por degrau. Fomos até lá no alto, suando, parando, respirando, mas chegamos, e, até onde a vista alcança, a Grande Muralha parece uma imensa cobra descendo e subindo aquelas montanhas altas e íngremes. Essa maravilha envolveu, durante a construção, mais de um milhão de chineses! Lembrei-me do que nos disse BatBold na Mongólia: maravilhoso não é o povo chinês por ter construído a Grande Muralha. Maravilhoso é o povo mongol que os obrigou a construí-la. Ô xente! Ééé não BatBold! Ainda embasbacadas descemos para almoçar e visitar uma fábrica de seda. Vimos desde os bichinhos da seda nos seus casulos até a fabricação das maravilhosas sedas, camisolas, pijamas, etc. Num rasgo de mão aberta, cada uma de nós, comprou um lindo pijama de legitima seda chinesa. Agora podemos descartar os nossos de seda sintética, calorentos que só! Fomos visitar as Tumbas Ming, na verdade, só olhar o bosque onde elas estão. Nunca foram abertas e, tudo leva a crer que jamais serão. Estávamos mortas de cansaço. À noite contratamos duas massagistas para uma massagem chinesa. Ficamos novinhas em folha. No dia seguinte pegaríamos um avião para Xi’an. Lá veríamos, ao vivo, os Guerreiros de Terracota. Ah esqueci de dizer que, na China não há gordos. Todo mundo é magro! E viva a bicicleta e aquele monte de folhas que eles comem! E o adubo?

 

De Xi’an (China) a Fortaleza (Brasil)

Queridos amigos,

Rosio nos levou ao Aeroporto que dista 27km de Beijing e praticamente nos colocou dentro do avião para Xi’an. Foi um vôo rápido, mas balançou um pouco. Esperávamos encontrar uma cidade menor, voltada para a Arqueologia, menos calorenta e com pouco tráfego. Nossas esperanças foram de água abaixo quando descemos no aeroporto e ficamos sabendo pela Laura, nossa nova guia, que Xi’an é uma cidade de quatro milhões de habitantes. Milhares de letreiros luminosos, shoppings, Mc Donalds para todos os lados e propagandas de marcas famosas. Demos uma volta em torno da Torre do Sino, assim chamada pelo seu descomunal sino de bronze, e o nosso Hotel Tower já estava bem ali.  Ficamos muito satisfeitas porque, aqui para nós, a Torre é linda! Uma arquitetura mais enxuta, menos colorida, arquitetura Taoísta, segundo a Laura. Ela é cercada por um jardim muito florido e, da janela podíamos apreciá-la ao amanhecer e ao entardecer. 

A visita aos Guerreiros de Terracota era o nosso objetivo em Xi’an, mas para entender melhor tudo aquilo tivemos que entender as etapas iniciais da história imperial chinesa. Laura se incumbiu disso e, assim , nos jardins do Pagode do Ganso Selvagem e caminhando sobre a primeira versão da Grande Muralha, construída pelo Imperador Qin Shi Huang Di, escutamos atentas os fatos. Essa região foi escolhida pelas duas primeiras dinastias, a Qin e a Han, para instalar sua capital porque possuía defesas naturais, ao sul as montanhas Qin Ling e a leste o Rio Huang ou Amarelo. Os Qin governaram de 221 a 206 a.C e sua decadência foi seguida pela ascensão dos Han que ocuparam o poder de 206 a.C até 220 d.C. Ambos consideravam a morte uma continuação  da vida na Terra assim, aquelas escavações que vimos são como uma porta para o tempo deles permitindo entrar no mundo de seus valores e cultura. Uma época em que diversos reinos se uniram para formar um único país tornando-se o primeiro império da História da China. Os Qin foram responsáveis por este conceito revolucionário, além da unificação ou padronização da escrita, da moeda, dos pesos e medidas e da largura dos eixos para facilitar os transportes, no entanto, foram os Han que acrescentaram à este conceito a tradição e a ordem os quais permitiram mais de dois mil anos de império que só teve fim com o comunismo de Mao Tse-Tung no século XX d.C. Foi também durante a dinastia Han que surgiram o papel, a porcelana e abriu-se a Rota da Seda para o ocidente.

A solução dada pelos chineses para que os turistas possam observar melhor e compreender o que se passou ali foi sensacional. As passarelas por onde andamos permitem que olhemos com atenção os detalhes das escavações, a maneira como a abordagem foi feita, como as peças foram encontradas, como são removidas e tratadas. São mais de oito mil peças entre guerreiros e cavalos, em tamanho natural, trabalhados em terracota (argila). Essas peças acompanharam Qin em sua vida no Além, mas apesar dos números, isso é só uma pequena parte do complexo de sepulturas ainda não escavado. Ao lado das escavações há uma exposição de peças que já foram recuperadas. Entramos e vimos primeiramente, as carruagens de cobre, uma para levar Qin e a outra para seu descanso durante a viagem para o Outro Mundo. Elas são impressionantes por tudo: tamanho, detalhes, etc. Mais à frente peças e mais peças e, protegidas por vidro, algumas estátuas. Essas estátuas, em tamanho natural, embora não sejam musculosas e nem mostrem movimento através do movimento de suas roupas são impressionantemente vivas, autênticas, realistas. O guerreiro que faz Tai-Chi se “movimenta” com tanta graça que é difícil tirar os olhos de sua figura, mas outras e mais outras virão. Muito diferente de Qin é o complexo tumular de Han Jin Di que visitamos já no dia da nossa partida. Aqui também a solução para o turista foi incrível. Passeamos por cima das escavações em passarelas de vidro. Han era mais prático. O imperador levava para o Além principalmente animais como cães, ovelhas e porcos para lhe servir de alimento, além utensílios domésticos e objetos utilizados na agricultura, quer dizer, menos guerra e mais vida cotidiana. As duas visitas foram sensacionais! 

Apreciamos as obras do Museu de História nos decepcionando depois ao sermos informadas que a maior parte do acervo é composto de cópias. Visitamos também as Termas do Imperador, seus esplendorosos jardins de onde se avistava, na montanha um Templo Taoísta. Já não tínhamos energia para subir até lá. Nos jardins do Palácio das Termas me chamou atenção uma bela estátua de mulher em mármore branco. Nossa guia contou-nos que aquela belíssima mulher era a concubina do imperador, não me lembro qual, e que quando ela completou 38 anos ele mandou construir aquele Palácio para que os dois ficassem a sós bem longe dos problemas do Império. E assim a vida fluía perfeita, ele completamente apaixonado e tão longe dos problemas que o império passou a ser uma coisa longínqua e secundária. No entanto, os conselheiros muito preocupados, pediram que ele assassinasse a concubina para que o império voltasse a funcionar. Ele não gostou da idéia e terminou sendo assassinado. Dela não ficamos sabendo o fim. O que sabemos é que, de certa forma, tornou-se imortal e vive naqueles maravilhosos jardins sendo admirada por todos que por ali passam.

Quando deixamos Xi’an o calor estava de rachar! Levantamos vôo sobrevoando os campos onde se divisavam as elevações dos túmulos ainda intocados de Han , da imperatriz e da sua concubina predileta. Quantos segredos ainda por desvendar… Pensei nos operários, arquitetos e artesãos que, há séculos e séculos atrás, trabalharam para satisfazer as extravagâncias dos sepultamentos imperiais, e nas pessoas que, no presente, historiadores, arqueólogos, químicos, restauradores, trabalham para descobrir, tentando entender o que se passou, para adicionar mais uma pedrinha na compreensão da história da humanidade. Uma coisa aprendi: Qin foi brilhante ao conceber um império unificado e Han, com seu pragmatismo, criou condições para que ele perdurasse por mais de dois milênios. Deixei de lado meus pensamentos quando o avião desceu no aeroporto de Beijing. Agora não tínhamos mais guia. Estávamos sozinhas e teríamos que nos virar para chegar até o hotel. Saímos do aeroporto procurando um ônibus que nos levasse ao centro. Descobrimos um serviço que sai de meia em meia hora e que nos deixava na estação ferroviária. De lá tomaríamos um táxi. E assim foi feito. Deu tudo certo. Quando embarcamos para Lisboa, tomamos o mesmo ônibus economizando muitos dólares. Nosso vôo atrasou um pouco e ficamos preocupadas com a conexão em Frankfurt, lá ainda faríamos check in para Lisboa. Na chegada, ao pedir uma informação para uma policial alemã, ela me achou com cara de terrorista e me revistou inteira. Minha bagagem de mão foi totalmente revirada, enquanto isso a Lucinha se desesperava. Finalmente liberadas, descemos e subimos várias escadas, corremos pelas esteiras e, quando já tínhamos certeza que o vôo estava perdido, lá estava o avião da TAP nos esperando. Uf! Estávamos em casa! Para surpresa nossa Rosa e seu filho Rodrigo, amigos da Lucinha, nos esperavam no Aeroporto. Ficamos em Alverca. Foi uma estadia super agradável. Alverca, nos arredores de Lisboa, de origem árabe, ainda guarda a atmosfera de cidadezinha do interior. As pessoas muito amigas, todos se conhecem, param para conversar, falar da família, dos netos, enfim… Fomos ao Mosteiro dos Jerônimos, comemos pasteizinhos de Belém sentadas no parque, subimos para o Castelo de São Jorge, descemos pelas ruelas admirando os azulejos, um cafezinho no Rossio. Ah… Lisboa é linda! Rosa nos fez comer deliciosos pratos de bacalhau. Deu-me dois livros de receitas só com bacalhau. Tenho dúvidas se farei alguma. É que, culinariamente falando, sou um espanto! Os livros estão aqui na minha estante. Quem sabe algum dia eu saiba fazer um bacalhau do jeitinho que a Rosa faz? Delícia, delícia… Fomos aos Fados. Foi uma noite inesquecível, fados típicos de todas as regiões de Portugal, antigos e novos, cantados, chorados, sempre maravilhosos. Enfim… Portugal e seu povo. Adoro! Obrigada Rosa e Rodrigo por nos abrigarem na sua casa com tanta gentileza, abrindo mão do seu conforto, mimando duas viajantes cansadas. Quem sabe nos reunamos no Cano, Alentejo para colher uvas e fazer vinhos ou, quem sabe ainda, um dia a gente viaje pelo Brasil afora e eu possa retribuir um pouquinho só? Obrigada também a Sandra e Rui e à sua filhinha Mariana.

Embarquei deixando a Lucinha para trás. Ficaria com seus amigos por mais uma semana. Obrigada Lucinha pela excelente companhia. Até outra vez. Haroldo me esperava no Aeroporto Pinto Martins em Fortaleza. O dia era 03 de julho de 2006. Parabéns, parabéns! Aniversário dele! Fomos para casa…

 

18 respostas a Nos trilhos da Transiberiana: Rússia, Mongólia e China

  1. Aloísio Nunes disse:

    Virei seu fã. Sou de Petrolina-PE e já fiz uma trip de carro pela américa do sul até Ushuaia, passando por Bolívia (salar Uyuni), Chile (onde escalei um vulcão em Pucon – Vilarica), Patagonia: Bariloche, Al Calafate, Tierra del Fuego, até ushuaia… depois voltei pelo Uruguai e pelo RS dirigi de volta para Petrolina-PE… A aventura durou quase dois meses… :)

    Esse ano a trip foi na Europa…. por 6 países… :)

    Temos espírito parecidos… prazer em conhecê-la… :)

  2. João Batista Souza disse:

    Heloísa, me deliciei com o relato. Aliás, poderia virar livro. Adoro escrever mas não reúno tantos detalhes de minhas viagens. Prefiro relatos ricos como o seu. Em 26 de agosto próximo parto para fazer a viagem no Trem Transiberiano, mais ou menos igual a de vocês. Gostaria de saber, se possível, algumas dicas sobre a temperatura dentro do trem (você fala em frio ou calor excessivo) e se existe serviço de lavanderia, enfim coisas básicas para decisão de roupa. Um grande abraço e parabéns pelo relato.

    • Heloisa disse:

      Olá João, que bom, você fará uma viagem super interessante! No final de agosto você ainda terá calor . Beijing deve estar bem quente. Na nossa viagem, frio mesmo só passamos em San Petersburgo. Quanto ao trem é muito simples e, se faz frio lá fora eles castigam no quente dentro. Não há serviço de lavanderia. Leve um agasalho as latitudes maiores e roupas fáceis de lavar nos banheiros dos hoteis, como as calças reversíveis (bermuda, calça comprida) e camisetas descartáveis (aquelas velhinhas para usar e descartar). Nos hoteis deve ter lavanderia, não sei. Quanto a comida no trem é bom vocë fazer umas comprinhas tipo suco, sopinhas, etc. Aproveite, será inesquecível. Boa sorte, Heloisa

  3. Maria vitoria de castro disse:

    Amei a viagem e o meu sonho que ate hoje nao consegui realizar.amei o relatorio de sua viagem.Amo viagens como a de voces e para mim ate as dificuldades sao benvindas .Voces me encantaram com a coragem de enfrentar o desconhecido.Ainda nao arranjei cia que se aventurasse.Gostaria se souber me indicar um grupo afim de fazer esta viagem e tambem o custo aproximado desta viagem .,e pudese me passar o endereço .Mais amiga acredita com o seu fantastico relato desta viagem ja me deixou a sonhar de olhos abertos.UM grande abraço .espero noicias suas. Maria vitoria

  4. Querida Heloisa, gostei muito da tua viagem. Acabo de chegar de la fazendo um roteiro mais complicado, mas passamos nas mesma cidades da Siberia enfrente. Fui alem d e Moscou e Sibéria pelo traqnsiberiano e transmongol até Alaan Baatar e deserto de Gobi, China Tibet Everest, Nepal e India, acabando com um champanhe em Paris. Gostaria de me encontrar com voces para nós discutirmos essa jornada. Fui sozinho e pouca gente conhece esses roteiros no Brasil. Fiquei muito contente com teu relato, estou acabando de escrever um livro de minha vagem pelas terras de Gengis Khan.Fiz todas as pricipais cidade do antigo império Mongól em Agosto/setembro e outubro de 2011 Abraço e FEliz Ano Novo Jose Valdai de Souza Médico em Porto Alegre -

  5. andré ferreira disse:

    Prezadas,
    MInha mãe e eu fizemos a Transiberiana de Moscou a Pequim agora em Dezembro 2011/Janeiro de 2012. Muito legal, muito frio, mas suportável. Vcs deram estímulo à minha mãe – ela tem 60 e eu 38 – preocupada com a idade e resistência, mas fizemos tudo numa boa, assim como vcs. Descemos em Ekaterinburgo, Irkutsk, Ulan Bator (de trem) e ainda incluímos no início São Petersburgo, e no final Xian e Lhasa, no Tibet. Concordo c/ vcs: viagem inesquecível, cansativa, e tb amamos a Mongólia. No inverno o Terelj branquinho é superespecial – o maior frio da viagem: – 30 graus, acreditam? Abs, André

    • Heloisa disse:

      Oi André achei muito bom. A Mongólia com esse frio deve ter sido bem difícil, mas também muito bonito. Como foram ao Tibet, naquele trem das nuvens? Gostaria de saber. Se foi no trem me escreva contando. Ab. e parabéns, Heloisa

  6. sara jane soares disse:

    Heloisa, sou tua fã, parabéns pela coragem para enfrentar essas aventuras fantásticas. Seria possível tu nos informar, mais ou menos o custo de uma viagem dessas, para ter noção de quando poderei começar a organizar a viagem e se terei problemas com a bagagem já que tomo alguns medicamentos e preciso carregá-los sempre comigo, se tu poderes me informar eu ficarei bem agradecida. E novamente parabéns, fiquei extasiada com teus relatos, me senti viajando junto. abraços Sara Jane – São paulo- Capital

    • Heloisa disse:

      Oi Sara bom dia! Eu estava na Noruega por isso não respondi logo. Não me lembrodo custo da viagem. Se você quiser posso te colocar em contato com pessoas que fizeram a TB no mês passado. Me escreva, Abs

  7. Vanessa Alves disse:

    Olá, querida!
    Estou me organizando para enfrentar a Transiberiana no final do meu curso. Moro em Recife e pretendo ir com uma amiga alemã, mas gostaria de saber como faço para entrar em contato com os guias e para comprar as passagens de tem. Se possível, me mande um e-mail com essas respostas. Desde já deixo os meus Parabéns pela sua vivacidade…
    Espero contar com sua ajuda nas dúvidas que virão daqui até o dia da minha viagem. Abraço, Vanessa Alves

    • Heloisa disse:

      Oi Vanessa, nós fomos com uma Empresa. Eles providenciaram tudo: passagens, guias, hoteis. Nós (eu e minha irmã), entramos com a ideia e o roteiro. Fizemos esta viagem há alguns anos. Se você quiser posso te colocar em contato com quem fez mais recentemente. Posso lhe dizer que é uma viagem espetacular! Boa sorte, heloisa

  8. Vanessa Alves disse:

    Oá, Heloisa, vou deixar meu e-mail para que possa me enviar contatos ou sites que me ajudarão no desenrolar da minha viagem, se não foi incomodá-la! Obrigada pela disponibilidade e desculpa a demora em responder e agradecer!

    E-mail: vanessaalvesgranja@hotmail.com

    Beijos, Vanessa Alves

  9. Heloisa disse:

    Faça! Você vai amar! Bj Heloisa

  10. Heloisa disse:

    Desculpe pela demora. Faça sozzinha. Você vai ver como é gostoso. Com calma e cuidado dá tudo certo. Não esqueça, planeje parar pelas quatro da tarde e nada de correrias. Boa sorte, Heloisa.

  11. Heloisa disse:

    Desculpe-me por não lhe responder a tempo. Sucesso! Heloisa

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