02 de dez

A partida (Fortaleza-Ceará-Brasil)

Machu Picchu e Salar de Uyuni 2005 – Peru e Bolívia

Continuando…

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Em 2000, quando resolvi botar “o pé na estrada” para realizar o sonho de percorrer a natureza do continente americano, fiquei em dúvida se, ao voltar, me daria por satisfeita considerando o sonho realizado, mas, estrada vira vício e, ainda mais que, na volta, me senti bem mais confiante. Vocês se lembram? Estive praticamente sozinha durante quatro meses percorrendo a Patagônia, dirigindo um Troller. Aquela natureza espetacular me mudou definitivamente. Quando retornei ainda meio sem saber como me adaptar aos cimentos da minha cidade, fiquei uma semana no fundo da rede. Daí, sem mais nem menos, comecei a planejar uma viagem ao Alaska que seria em 2003 e, o que começou como uma coceira, logo virou um Troller na estrada.

Agora estou a caminho de Machu Picchu, Cordilheira Branca, no Peru e Salar de Uyuni na Bolívia. Terei companhia em alguns trechos e já estou antevendo as dificuldades na Bolívia que vive um momento político instável, mas o que seria da aventura sem dificuldades? Vamos ver o que vem por aí. Acompanhem-me!

Antes de concluir, devo dizer para as pessoas da “terceira idade” que esta pode, sim, ser muito bem a idade da aventura. É um novo tempo e, nada melhor para definir esse novo tempo que uma estrada à sua frente com horizontes de amanheceres e entardeceres inesperados e apreciados por olhos menos apressados e mais atentos.

E vocês gente nova! Têm mais é que botar uma mochila nas costas e sair por aí. O planejamento de uma viagem é uma experiência e tanto. Servirá para toda e qualquer atividade no futuro. O excesso de proteção e a vida em espaços limitados levam ao desconhecimento. Como tomar decisões se não há como avaliar suas conseqüências ou, como enfrentá-las? Nas desventuras da aventura há uma espetacular oportunidade de autoconhecimento. Saber como se reage a situações novas, difíceis, possibilidade de fracasso, etc. são uma esplendorosa experiência que aconselho a todos.

E aí pessoal? Pé na estrada que o mundo é bem ali!

Heloisa Cunha

Fortaleza, maio de 2005

Roteiro definitivo Machu Picchu e Salar de Uyuni 2005   Peru e Bolívia

 

Bol. 01

De Fortaleza(Ce) a Goiás Velho(Go)

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Estamos na Chapada dos Guimarães e em uma cidadezinha com o mesmo nome. Chegamos ontem à tarde. Resolvemos tirar um tempo para escrever, andar um pouco p’ra lá e p’ra cá, enfim, descansar para enfrentarmos as trilhas do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães.

Saímos de Fortaleza no dia 08 de junho conforme havíamos planejado. O Haroldo, meu companheiro, como sempre, foi incumbido de arrumar o carro. Foi feita uma cuidadosa revisão, uma vez que o Troller é o mesmo que foi ao Alaska e já está com bem rodados 75.000km. Resolvemos sair sem pressa e, foi assim, que tomei o café da manhã com o Haroldo. Nos despedimos, marcamos um encontro em La Paz, em agosto para fazermos o Salar de Uyuni, isto se a situação política da Bolívia permitir, e parti, meio ainda sem saber direito onde ficam as peças sobressalentes, meu aparelho de tirar pressão que anda um pouco alterada e outras coisas das quais vou saber quando precisar. A caminho do Sítio Boqueirão, para me despedir do meu pai e buscar a Lucinha, minha primeira passageira, ia lembrando dos preparativos e na vontade de começar a viagem. Enfim já estava na estrada. Na cabeça ainda um problema a resolver: e se a situação política da Bolívia complicar? Por onde sairei para alcançar o Peru? Pelo Atacama, saindo pelo Paraguai, aumentando o roteiro em 2000 km? Atravessando o Rio Acre em Assis Brasil, por uma trilha difícil e solitária atravessando os Andes?

No Sítio ainda estavam alguns irmãos, remanescentes do aniversário de 91 anos do meu pai. E de tanto conversarmos só conseguimos partir pelas onze horas da manhã. Passamos por Flexeiras, a praia mais bonita do Ceará, para me despedir do meu filho Lucas, Fernanda e o mais novo netinho, o Luquinhas. Almoçamos por lá mesmo e partimos. Quando subimos a Serra Grande já era noite. Pernoitamos em Tianguá (Ce). Seguindo o caminho, no dia seguinte, atravessamos o Piauí, entramos no Maranhão e dormimos em Balsas. De lá enfrentamos o péssimo trecho de estrada até Carolina, atravessamos de balsa o Rio Tocantins e já estávamos no Estado de Tocantins, na Belém-Brasília, que, para nossa surpresa estava muito boa.

O ar condicionado do Troller parou e nós também. Dormimos em Guaraí (TO). Em uma pequena oficina o problema foi resolvido. O mecânico riu muito ao ver que para conseguir levantar o capô tinha que abrir um cadeado: como diz o nordestino “o seguro morreu de velho” e, haja confusão para abrir e fechar o tal cadeado. Dali partimos, com o ar condicionado a todo vapor, e, em Miranorte entramos para a Hidrelétrica de Lajeado e Palmas. Mais uma vez cruzamos o Rio Tocantins de balsa. A estrada ia margeando o Lago, muito bonito, azul, que contrastava com a vegetação já bem seca do fim da estação chuvosa. Palmas é uma cidade planejada, de grandes avenidas. Procuramos pelo artesanato de capim dourado, do Jalapão, mas nada encontramos. Voltamos para a Belém-Brasília por uma extensa ponte sobre o lago.

Dormimos em Alvorada na divisa com o estado de Goiás. Ah Alvorada! Meu Deus, uma pousada na beira da estrada, a única. Lucinha tratou logo de pegar o seu saco de dormir para forrar a cama e eu dormi de qualquer jeito. O ar condicionado mais parecia um vendaval com trovões. Jantamos em um sev-sev(self service). Escapamos. No dia seguinte pé na estrada bem cedo.

Na saída alguns fazendeiros que estavam no hotel, nos perguntaram para onde estávamos indo. Eu disse que estávamos indo para o Peru e, um deles, nada educado, emendou, não serve um piru? Engraçadinho!

A partir de Alvorada deixamos novamente a Belém-Brasília, seguindo o roteiro do nosso amigo Fernando Rondônia, que duas vezes ao ano vai a Flexeiras passar as férias. Uma casa de praia muito longe. A estrada vai por Araguaçu. Em Nova Crixás nos encontramos com a Baixinha, do Restaurante da Baixinha. A galinhada goiana estava cheirando, mas ainda estava cedo para o almoço. A Lucinha gosta de almoçar e jantar e, não engorda. Eu, nesse regime, vou voltar bem gordinha. Mas, como diz ela, ainda vamos caminhar muito, com tempo para emagrecer. Minha esperança agora é a Cristina que só come sopinhas instantâneas. Rá, rá, rá, vamos ver em que vai dar tudo isso. Depois vem Araguapaz e, enfim Goiás. Era um dia de domingo, a tarde caindo sobre a Serra Dourada. Fomos sacolejando pelas velhas pedras. Atravessamos a pontezinha sobre o Rio Vermelho, aquela da casa da Cora Coralina e encontramos a Pousada dos Ipês, pertinho da Igreja do Rosário. Um casarão bonito adaptado para uma pousada. Passamos por sobre as velhas tábuas corridas, por portas antigas pintadas de azul, pelo fogão de lenha, pelo cheiro da comida goiana, entramos em jardim e estávamos em nossa morada, um quartinho gostoso, sem forro e que nos proporcionou noites fresquinhas depois do cansaço das andanças. Goiás de tantas lembranças…

Bol. 02

Em Goiás Velho (Go)

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Goiás Velho, Vila Boa de Goiás ou Goiás. Terra da minha mãe. Casario colonial bem conservado e tombado pelo Patrimônio da Humanidade. Cidade fundada por Bandeirantes que buscavam ouro. Cidade onde viveu Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera. Cidade onde até bem pouco tempo viveu Cora Coralina em sua casa às margens do Rio Vermelho. Cidade trilhada por meus pés infantis e, agora, por meus pés avós. Linda!

Lembranças da infância… Tudo quase do mesmo jeitinho que em 1950.

A igrejinha de Santa Bárbara lá no alto, pôr-do-sol vermelho, iluminando as escarpas da Serra Dourada. A Pracinha do Coreto, a Igreja da Boa Morte, hoje um Museu de Arte Sacra que exibe maravilhosas obras de Veiga Valle e outros artistas desconhecidos. A linda igreja de São Francisco de 1761, de fachada simples, colonial, que até hoje chamo de Senhor dos Passos por causa da procissão da Semana Santa, de frente para o Rio Vermelho e o lindíssimo casarão, onde funciona o IPHAN.

Encontramos nosso tio de 81 anos e sua mulher Sonja. Almoçamos deliciosos empadões goianos e relembramos histórias de outros tempos. No Mercado comemos pamonhas fritas recheadas com queijo, linguiça, etc. Compramos doces cristalizados de figo, laranja da terra, mamão verde e maduro, goiaba, cajuzinhos do Cerrado. Visitamos a casa de Cora Coralina, hoje um museu, seus livros, fotografias, ouvindo o barulhinho da água do rio sobre as pedras.

Com um guia fizemos uma bela trilha pela Serra Dourada, observando as flores, relevo e areias coloridas com as quais Goiandira do Couto cria lindas paisagens de Goiás em uma técnica especial que lembra delicadas aquarelas. Nessa caminhada passamos pela Chácara Santo Antonio. Lá encontramos um primo, o Sérgio, que tem ótimas idéias e quer transformar tudo em uma RPPN. Ofereceu-nos uma galinhada com pequi. Delicia! Um banho no Rio Bacalhau de águas geladas, contrastando com o calorão. Como se não bastasse ofereceu-nos sucos de frutas do Cerrado. Frutinhas tão desconhecidas, tão deliciosas, gostos diferentes e suaves. Visitamos o casarão da Rua da Pedra que pertenceu ao meu avô, cuja fachada bem preservada me lembrou muito da minha mãe, linda, sentada no batente da grande porta colonial…

Bol. 03

De Goiás Velho (Go) a Barra do Garças (MT)

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Alguém me falou de Barra do Garças como um lugar muito bonito às margens do Rio Araguaia. Fiz o cronograma da viagem e deixei três dias para lá. Não sabia o que ia encontrar. O Guia Quatro Rodas falava de cachoeiras e citava um lugarejo chamado Piranhas a 91 km como o ponto de partida da visita. Francamente Guia Quatro Rodas!

Bem, deixamos para trás Goiás Velho e, saindo por Jussara, pegamos o asfalto e mais 90 km de terra com muitas pontes de madeira. De uma delas, já bastante alquebrada pelo uso, eu ia caindo para um pequeno rio. Vale salientar que a Lucinha fazia aqueles sinais para guiar-me. Parece que não entendi direito. O que era direita virou esquerda e. só sei que foi assim!

Após os tais 90 km de muita poeira e pouca gente, chegamos a Aragarças. Atravessamos uma ponte sobre o Rio Araguaia, o Pontal do Garças, outra ponte sobre o Rio Garças e estávamos em Barra do Garças.

Eram quatro horas da tarde e o sol batia forte. Paramos em um posto de combustível e perguntamos por pousadas. Ficamos na Pousada Sol do Araguaia e lá muito pouco nos informaram sobre o que ver. Meio decepcionadas já havíamos combinado que, após visitarmos o Cristo no Parque da Serra Azul, que fica em um mirante abençoando as cidades de Aragarças, Pontal do Garças e Barra do Garças, partiríamos, pois nada havia mais para fazer. Estávamos bem enganadas. Também com tão poucas informações!

Entramos no Parque da Serra Azul, visitamos o Cristo, de onde se tem idéia da situação geográfica das três cidades. Deixamos cair a tarde e retornamos. No caminho de volta vimos uma placa que anunciava “Discoporto”. Ficamos muito curiosas e nos dirigimos para lá. Havia uma “cópia” de um disco voador e um local para tirar fotos como se estivéssemos no espaço sideral. Por via das dúvidas fizemos uma foto e descemos. Quando passávamos novamente pela entrada do Parque encontramos o pessoal da FEMA (Fundação Estadual do Meio Ambiente). O Betão, ao saber da nossa decepção, perguntou-nos se queríamos ir ao Roncador e explicou que estava indo para lá pegar um carro que fundira o motor. Nos indicaria um guia. Bem, para falar a verdade, eu lembrava muito vagamente da Serra do Roncador, de um livro infantil, talvez, O Chapadão do Bugre, sei lá. A Lucinha assistira um documentário na TV que falava do Roncador. Ficamos curiosas e resolvemos aproveitar a oportunidade. Com certeza os deuses estavam por ali na hora da decisão, pois, que decisão! Nessa mesma noite o pessoal do hotel nos deu um material para leitura. Nem acreditei no que estava lendo. Por estas bandas, em 1925, o Coronel Fawcett, um aventureiro inglês que buscava um povo sobrevivente da Atlântida, desaparecera sem deixar vestígios, imaginem! Ficamos também sabendo que lá se realizam importantes congressos de Ufologia e que é comum as pessoas verem objetos brilhantes que se movimentam a grande velocidade, ou não, e conversas telepáticas dos viajantes com os locais. Há, inclusive, publicações sobre o tema, sendo que uma das mais famosas, de autoria de Pablo Villarubia Mauso, cujo nome é “Mistérios do Brasil – 20.000 km através de uma Geografia Oculta” é lida por todos que se interessam pelo assunto. Pasmas, continuamos nossa leitura. Um estudioso, Hurtak e seus seguidores, haviam criado em Barra do Garças a Academia de Ciência Futura e, acreditam na existência de uma civilização subterrânea, possivelmente constituída por seres descendentes daqueles que um dia teriam vindo de outros planetas até aqui. O que? E, quanto mais líamos mais surpresas ficávamos. Como se não bastasse afirmaram que há um acesso ligando o Roncador a Machu Picchu. Seria este o caminho para se chegar ao Peru sem passar pela Bolívia? O sono nos pegou. Sonhamos com O Troller nas entranhas do Roncador, ou, quem sabe todos abduzidos, aparecendo na Plaza de Armas em Cuzco. No dia seguinte saberíamos bem direitinho o que a Serra do Roncador pode oferecer aos turistas que gostam da natureza. Isso sim uma coisa real e, bote real nisso!

Bol. 04

Os dias em Barra do Garças (MT)

Serra do Roncador – Parte I

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As sete horas do dia seguinte, nos dirigimos para a FEMA e o Durval instrutor em Educação Ambiental daquela instituição, entrou em nossas vidas como nosso guia nos dias da Serra do Roncador.

A origem do nome vem do ronco que muitas pessoas ouvem nesta Serra que se inicia próximo a Barra do Garças e termina na Serra do Cachimbo no Pará.

Seguimos o Betão, que dirigia uma Toyota velha de guerra, até o Vale dos Sonhos onde estava a tal caminhonete que fundira o motor, uma moderníssima L200 que ficara estacionada por três meses aguardando o reboque. Dá para acreditar? Pois é. Assim começamos a sentir as dificuldades do pessoal que trabalha com o meio ambiente. Um velho cambão enferrujado foi armado para rebocar e, após muita dificuldade foi instalado e, à primeira tentativa, quebrou e foi parafuso p’ra tudo o que é lado. O sol esquentou para valer. Houve uma nova tentativa, agora já com outro cambão, e deu tudo certo.

Partimos. No caminho o Durval nos falou das histórias e dos mistérios do Roncador. Falou-nos das aparições de OVNIS, alguns viam, outros não, ele próprio tivera uma experiência. Vira alguns objetos brilhantes enfileirados que se deslocavam em baixa velocidade e, como a Lucinha já vira em Maceió alguma coisa parecida, ficamos escutando. Realmente nós três somos muito céticos mas, pelo sim e pelo não fomos conversando sobre o assunto. Tenho a impressão de que o fato de Barra do Garças ser o Centro Geodésico do Brasil tem muita influência sobre a imaginação das pessoas mais sensíveis e místicas. A Serra do Roncador é mundialmente conhecida como santuário metafísico. Diversas comunidades esotéricas estão instaladas na região, existindo até uma Universidade no Vale dos Sonhos chamada Universidade Livre (UNIRMA) associada ao meio ambiente, sem maiores informações sobre o assunto.

Ao chegar ao Vale dos Sonhos avistamos algumas formações de arenito, na borda da Serra, muito interessantes, o Guardião do Roncador, por sinal o cartão postal da região.

Entramos no Troller e fomos por uma estradinha de chão, abrindo e fechando porteiras. O carro foi estacionado e iniciamos uma trilha, subindo, que nos levaria ao Portal do Roncador, um magnífico arco de pedras, uma fenda aberta para a paisagem da Serra. Na subida tivemos uma visão do que já vínhamos observando: grandes desmatamentos dominando a paisagem sendo transformados em pastos com rebanhos muito pequenos ocupando estas grandes extensões. Uma relação desproporcional. De lá caminhamos para Gruta da Estrela Azul, uma pequena gruta com o desenho rupestre de um cometa de cor azulada. A cor e a estrela surpreendem por não serem comuns nessas pinturas. Normalmente as pinturas rupestres retratam o cotidiano da vida dos primitivos. Uma longa caminhada nos levou à Cachoeira de São Francisco. Esta é uma bela cachoeira de quase 50m de altura que forma uma cortina cristalina sobre um grande salão denominado Jardim dos Deuses, não só pela sua beleza mas também pela quantidade de samambaias que cobrem suas paredes de pedras e o chão. Sentamos no salão e ficamos por um bom tempo nos deliciando com a belíssima cortina de águas cristalinas e sentindo o momento.

Da cachoeira retornamos a Barra do Garças e fomos a um restaurante indicado pelo Durval nosso convidado. Saboreamos um delicioso peixe chamado Filhote do Araguaia, acompanhado de uma cerveja Cristal muito boa. Dormimos bastante surpresas e satisfeitas pelo privilégio de estarmos vivendo tudo aquilo.

Bol. 05

Os dias em Barra do Garças

Serra do Roncador – Parte II

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No dia seguinte algumas coceirinhas diferentes e logo o Durval foi avisando “tem carrapatinhos por aqui”. Ficamos meio assim e descobrimos vários deles grudadinhos. Corremos para a farmácia para comprar Escabin, um sabonete que, teoricamente, nos livraria deles. Muitos podem ter falecido, mas outros se aferraram de tal maneira à nossa pele que hoje ainda estamos, de vez em quando, descobrindo algum e as coceiras no mundo. E haja antialérgico, Vick Vaporubi que é que nem Bombril, mil e uma utilidades. Em um jornal lemos que há uma doença sendo transmitida por eles. Esperamos que os nossos estejam sem contaminação.

As 08h00min partimos para o Bico da Serra. Deixamos o carro estacionado na porteira da casa do Maurinho que não estava por lá e fomos recebidos pela Pantera, uma cadela Labrador preta bem mal tratada e faminta. Ela nos acompanharia trilha acima apostando na possibilidade de sair alguma comida.

Iniciamos pela Trilha do Bosque, vegetação bem fechada ao pé da encosta. Na subida para a Pedra Verde, uma estreita trilha beirando o paredão nos deixava muito atentas pelo perigo do despenhadeiro. Eu ia romanticamente observando as árvores quando de repente senti à minha frente um tumulto o qual logo me chamou à realidade. Qual não foi minha surpresa quando vi o Durval de braços abertos pulando para trás e caindo bem em cima da Lucinha que foi freada por uma pedra. Pensei rapidamente “que faço?”, sem retaguarda não dava para pular fora. Olhei para frente para ver alguma possibilidade passando por cima dos caídos e vi a parte de uma enorme cobra de papo amarelo e dorso castanho subindo pedra acima. Pronto, imaginei, a cobra foi embora. Os acidentados se levantaram, mas o Durval permaneceu alerta sem deixar-nos passar e sem explicar o motivo de susto tão grande. Eu que não tenho intimidade com cobras, disse logo: É só uma papa-ovos daquelas que tem lá no Sítio Boqueirão e que não fazem mal a ninguém. A Lucinha como não vira a dita, ficou calada recompondo o visual. Somente mais tarde o Durval nos disse que aquela era das mais perigosas, conhecida como Boca de Caçapa, cobra de picada fatal. Escapamos todos e, já refeitos, seguimos em frente a caminho da subida da Pedra Verde um imenso corredor estreito que atravessa a Serra do Roncador de um lado a outro com altos paredões de pedra e, formando o chão, blocos de pedras cobertos de limo esverdeado, soltos, como resultantes de desmoronamento passados. Grandes borboletas azuis nos ensinavam o caminho a ser seguido. Os raios de luz incidiam em suas asas revelando uma coloração de azul fosforescente. Para nós um privilégio, pois, o limo revelava um caminho muito pouco trilhado. Agradecemos muito ao Durval pela oportunidade.

Chegamos ao Mirante do Portal do Templo Maior, uma grande formação em ferradura abrindo para o outro lado da Serra. Os fazendeiros da planície costumam ver luzes saindo do Templo Maior. Lá merendamos, alimentamos a Pantera, conversamos um pouco, nos silenciamos e, por fim, voltamos para a trilha da entrada do Templo Maior – também chamada de Trilha do

Renascimento. Nos deparamos com um buraco no chão e o Durval nos comunicou que iríamos passar por ele para iniciarmos a Trilha que é uma descida do corredor que havíamos iniciado na Pedra Verde. Eu fui logo dizendo “tenho claustrofobia” o que deixou o Durval de olhos arregalados. Não havia como voltar, mas tudo não passou de um jogo de cena. Lucinha tomou a dianteira para resolver o assunto. Vi que o Durval desapareceu de buraco abaixo chamando a Lucinha que ficou empacada por que só via o escuro. O Durval chamou gritando das profundezas “bote os pés nos meus ombros”, só que quando a Lucinha deslizou confiante, o Durval caiu em um pequeno buraco desequilibrando-se. Lucinha caiu e eu já não via mais nada, pois eles haviam desaparecido no escuro.

Chegou a minha vez, não podia adiar. Resolvi descer de ré como quem desce em escadas de um barco. Fui pra cá e pra lá sem apoio e o Durval gritou “pode vir”, me vi no ar e foi o jeito o Durval me apoiar pelo traseiro sem o que eu cairia amassando nosso guia. Enquanto isso a Lucinha ria e ria. Bem, nos recompomos todos , rindo muito e, finalmente entramos no corredor da trilha do Renascimento. Nos sentamos calados escutando o burburinho da água descendo pelos penhascos de pedra. Era uma visão espetacular, inesquecível como se estivéssemos presos pela fenda. Tive a impressão de alguém às minhas costas e olhei várias vezes para trás, mas nada vi, só o escuro e à minha frente a claridade da saída do corredor. Lucinha julgou ouvir vozes de mulheres e crianças conversando. Reiniciamos a descida na companhia das borboletas azuis. Era uma descida difícil sobre pedras altas, úmidas e escorregadias. Deparamo-nos com outro obstáculo, uma descida por uma pedra muito alta, de mais ou menos dois metros de altura, escorregadia, vertical e sem opções. Abaixo nos esperavam areia e seixos soltos. Havia um tronco que, a princípio nos animou como apoio. O Durval desceu agilmente e, desta vez resolvi ir primeiro. Mais uma vez ele me pediu que apoiasse nos seus ombros. Era meu único apoio. Quando o vi envergando sob o meu peso, pulei e me desequilibrei esparramando na areia, com uma forte dor no tornozelo. Tirei o tênis e passei a ver o que estava ocorrendo com a Lucinha. O Durval fez uma experiência no tal tronco ficando como um macaco subindo em um coqueiro. A Lucinha logo viu que aquilo não iria dar certo. Corria o risco de ficar presa, nem para cima e nem para baixo ou deslizar e terminar caindo pior do que eu. Finalmente conseguiu colocar os pés nos ombros do guia e pulou dando tudo certo. Achamos que o meu tornozelo havia torcido porque eu estava sem botas, foi um erro grande. Continuamos a trilha até a Passagem do Renascimento sendo fotografadas renascendo. Voltamos pelo meio do mato sem trilha com a Pantera nos guiando. Na passagem ela pegou um tatu pensando que iria se dar bem, mas no momento seguinte o bicho foi retirado pelo Durval e Lucinha sendo devidamente fotografado. Entrou rapidamente a salvo em seu buraco. Na caminhada de volta passamos em frente ao Guardião do Roncador. Pegamos o Troller, abandonamos a Pantera, atravessamos muitas fazendas e, finalmente chegamos a uma lagoa de águas transparentes a tempo de assistir a um entardecer muito bonito, vendo araras, tucanos, galinhas d’água e vacas que faziam seu caminho de volta para o curral. Que dia! Estávamos maravilhadas. E pensar que íamos perder tudo isso! Terminamos o dia tomando um delicioso caldo de pintado em um restaurante que flutuava nas águas do Rio Araguaia.

No terceiro dia, já cansadas e eu acidentada, fizemos uma trilha bem mais leve pelo Parque Estadual da Serra Azul de fauna e flora exuberantes. Os índios Bororos habitaram esta Serra. Visitamos a Caverna dos Pezinhos com intrigantes inscrições pré-históricas com pés impressos de tamanhos variados, com cinco ou seis dedos. Fizemos uma trilha por bosques nativos, visitando um complexo de doze cachoeiras com quedas de degraus de diferentes alturas o que possibilita deliciosos banhos. Em algumas eu desci, mas em outras não, com medo de machucar ainda meu tornozelo e não poder fazer as trilhas da Chapada do Guimarães. Muito gelo e anti-inflamatório Visitamos uma loja de artesanato indígena da região, nos despedimos do Durval muito agradecidas e ali mesmo demos uma entrevista para um jornal local.

Se você leitor passar por Barra do Garças não deixe de ver as belezas escondidas da Serra do Roncador. Se não quiser vê-las fique para ver um disco voador. Quem sabe seus passageiros lhe revelem que há tempo para visitar o Templo Maior e de renascer na Trilha do Renascimento? Vá lá e depois me conte!

Se ficar procure o Durval. Excelente guia.

e mail: tiodurvas@hotmail.com

Telefones: (66) 9978 3902 e (66) 9969 9026

Orkut: trilhasnaserradoroncador(Durval)

Bol. 06

Os dias na Chapada do Guimarães (MT) – Parte I

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No Boletim 5 estávamos em Barra do Garças ainda maravilhadas com a Serra do Roncador e nos despedindo do Durval que prometeu plantar uma árvore em comemoração a nossa estadia no Roncador. Obrigada amigo Durval!

Deixamos Barra do Garças e pegamos a estrada. Alguns trechos excelentes outros nem tanto e, em uma cidadezinha chamada Campo Verde, para cortar caminho, percorremos 91 km de piçarra boa, o Troller deixando para trás um enorme rastro de poeira. A Lucinha ia dirigindo e com pressa. Finalmente chegamos à pequena cidade chamada Chapada dos Guimarães. Não sabíamos que existia uma cidade com esse nome. Uma cidade antiga com uma linda igreja colonial, a de Nossa Senhora de Santana do Sacramento. Muitas lojinhas de artesanato, restaurantes de comidas típicas e muitas pousadas e hotéis. Era um dia de domingo já no fim de tarde. Demos uma volta pela pracinha bem movimentada, e nos fixamos na Pousada Turismo. Foi ótimo, quarto limpo e café da manhã colonial, pois o Sr. Ralph é filho de alemães. Além disso, o Bruno, seu filho, tem uma agencia de turismo e ele mesmo nos guiou pela Chapada dos Guimarães. Com a lua cheia já alta, nos sentamos na pracinha olhando para ela, bebendo uma cervejinha, trocando impressões e fazendo planos. A Igreja abriu para a missa. Fomos visita-la. Ela é de 1779, estilo barroco bem despojado. Interessante a segunda porta que, solta já dentro da igreja, é como um recado: ao se entrar pela enorme porta principal a outra porta é uma passagem para outra dimensão. E que lindo portal! Dentro, imagens de madeira bem conservadas e um altar simples com uma imagem de Santana. Tiramos o dia seguinte para descansar. Eu escrevi bastante e a Lucinha que descansa caminhando, nunca vi disso, saiu a caminhar indo até a Pousada do Penhasco, de onde, segundo ela, pode-se ver os penhascos espetaculares da Chapada e comer uma não menos espetacular Mojica, um prato típico que consta de quadradinhos do peixe Pintado com farofa de bananas. Quando ela voltou descrevendo isso parti em direção ao restaurante do Felipe e me deliciei com um Pacu grelhado. Senti que os dias iriam ser de comilança. Quando estávamos jantando começou a entrar uma frente fria e, em segundos, a cerração chegou. Voltamos para o hotel enxergando um metro à nossa frente. No outro dia combinamos com o Bruno nossa programação. Fez para nós um roteiro básico, segundo ele. O dia estava com muita cerração e bastante frio. Ia ser difícil enxergarmos os cânions da Chapada, mas partimos naquela direção. O Bruno é uma pessoa bem interessante, ia nos contando “causos” e o seu sotaque nos fazia rir mais que os “causos”. Nesse dia fizemos uma longa trilha, de mais ou menos 10 km, ida e volta, em busca da Caverna Aroe Jari (Morada das Almas). A Aroe Jari é uma enorme caverna considerada a maior caverna de arenito do Brasil, com 1550 m de extensão. Há inicialmente um imenso salão no meio do qual despenca uma pequena cascata, que nessa época estava reduzida a alguns pingos, mas imaginamos que deve ser uma coisa muito bonita. Uma cascata naquele enorme salão! Fomos andando por um corredor perdendo de vista sua abertura. O silencio e a escuridão nos pegaram, mas, aos poucos os olhas se acostumaram e conseguimos distinguir uma réstia de luz que foi aumentando e iluminando um dos paredões. Ficamos por alguns momentos gozando o silencio. A saída da caverna é sensacional pois, do escuro divisa-se a mata como se estivéssemos olhando por um buraco de fechadura. Da Caverna Aroe Jari caminhamos por mais um tempo e chegamos a Gruta da Lagoa Azul. Infelizmente o tempo não estava bom e a água cristalina não estava azul. Ficamos sentados esperando o sol que se fazia de difícil, mas que em determinado momento abriu um pouco e nos deslumbramos. O limite da água e paredão difíceis de serem observados tal a transparência da água, nossa! A mistura daquele azul com os penhascos da gruta e o verde exterior… Obrigada sol por permitir, por uns momentos, aquela visão. Saímos muito felizes e nos dirigimos à Cidade de Pedra. O Bruno já avisara “deve estar tudo encoberto pela cerração”, fomos conferir. Olhem, realmente a cerração estava brava, mas o efeito sobre as formações rochosas foi incrível. A sensação era de caminharmos por uma cidade mal assombrada avistando, de vez em quando, restos de construções há muito habitadas e já desgastadas. Caminhamos para o despenhadeiro, mas nada pudemos ver, apenas sombras e mais sombras. Nesse dia ainda fomos ao Mirante do Centro Geodésico de onde avistamos a planície pantaneira. Voltamos para nossa pousada, jantamos novamente no Felipe, saboreando um bom vinho francês e conversando com o garçom, um paraibano que vive por lá morto de satisfeito. Estava frio. Nunca pensei que fizesse frio por essas bandas! Mais uma vez comemos a Mojica com farofa de bananas. Que delicia! Dormimos bastante. No dia seguinte, se o tempo deixasse, faríamos o Véu de Noiva e o Circuito das Cachoeiras.

Bol. 07

Os dias na Chapada dos Guimarães (MT) – Parte II

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Quando fomos dormir a cerração e o frio estavam fortes. Estávamos preparadas para, no dia seguinte, uma visita ao Véu de Noiva e ao Circuito das Cachoeiras e iríamos de qualquer maneira. Todos nos diziam que de uma hora para outra o tempo poderia mudar.

Depois de um delicioso café colonial fomos direto para o Véu de Noiva, uma cachoeira espetacular, em queda livre de 86m no Rio Caxipozinho entre dois cânions. Ela lembra muito a do Caracol em Gramado. Continuando nossas andanças fomos de cachoeira em cachoeira, são sete no Rio 7 de setembro, algumas excelentes para banho que a temperatura não permitiu. Passamos pela Independência, Sete de setembro, das Andorinhas, Pulo, etc. Durante o percurso vimos muitas flores do Cerrado, plantas diferentes e nas árvores bem abaixo de nós uma família de macacos Bugios. São macacos grandes, bem maiores que o Prego e que emitem sons impressionantes de mata adentro. O tempo havia levantado e o sol começara a bater forte. Voltamos ao Centro de Visitantes para um almoço: galinha a caipira com arroz, farofa de bananas fritas e sucos de tamarindo e cupuaçu. Depois de um descanso o Bruno decidiu que voltaríamos à Cidade de Pedras e ao Morro do Eco para um pôr do sol. Aceitamos agradecidas a nova oportunidade. A trilha não era muito boa, mas o Troller aguentou bem. Fomos sacolejando até a outra entrada do Parque. A Cidade de Pedra estava toda coberta. Realmente as formações de arenito esculpidas pelos ventos e pela água lembram antigos castelos e outras antigas muralhas. Uma caminhada pelas margens do paredão nos deu a verdadeira dimensão da Chapada e profundidade dos cânions que a compõem. Que beleza! O Bruno nos lembrou que o sol estava se pondo e que deveríamos ir aos dois paredões do Eco e de lá, caminhando um pouco, assistiríamos ao pôr do sol. E assim fizemos. No Morro do Eco gritamos e ouvimos nossas vozes se reproduzindo várias e várias vezes. O sol caindo batia nas rochas mudando suas cores em um espetáculo que eu já vira no Atacama e no Grand Canyon. Lindíssimo! O arenito da Chapada tem o seu tom avermelhado acentuado pela luz e em alguns lugares fica dourado. Corremos para o pôr do sol. O mundo foi ficando avermelhado, a natureza ficando calada e láááá embaixo as sombras começaram a cobrir as veredas de buritis e, finalmente escureceu. Voltamos. Agradecemos ao Bruno pela segunda oportunidade. A Chapada dos Guimarães é impressionante e lindíssima. Que país surpreendente! Quanto mais se anda por ele mais belezas a gente encontra!

Pousada Turismo

Rua Fernando Correia da Costa, 1065

Chapada dos Guimarães-MT-Brasil

 Bol. 08

Da Chapada dos Guimarães (MT) a Poconé (MT)

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Partimos cedo para Cuiabá. Lá buscaríamos informações sobre a situação da Bolívia. A Lucinha iria para Brasília e Chapada Diamantina e eu, sozinha iria para o pantanal Norte.

Cuiabá fica pertinho da Chapada dos Guimarães, uns 60 km descendo até uma altitude de 200m. O calor estava grande. Entramos na cidade, percorremos o Centro e voltamos para um hotel de frente para a Rodoviária. Foi ótimo, um ponto estratégico. Falei com o cônsul da Bolívia que me deu excelentes notícias “A Bolívia está calma, pode ir sem susto. Não há falta de combustível e as estradas estão desbloqueadas”. Ótimo! Estava preocupada, pois descer para o Paraguai e atravessar os Andes no inverno não é brincadeira. Acho que nem dá. Por outro lado enfrentar com um só carro a Estrada do Pacífico partindo do Acre seria inviável. Bem, está tudo resolvido. Eu, a Tamara e o valente Troller vamos mesmo pela Bolívia como estava programado. Seja o que Deus quiser.

Cuiabá tem pouca coisa para ver. O Museu do Rio é muito pobre e a Casa do Artesão, apesar do artesanato rico do Mato Grosso, deixa muito a desejar. Lucinha partiu na sexta à noite. Pegou um leito para Brasília em uma viagem de 20 horas e eu, no dia seguinte peguei a estrada para Poconé, uma cidade histórica a 100 km de Cuiabá. Asfalto bom. Chegando lá fui para o único hotel da cidade, o Skala. O senhor me informou que “no Pantanal é tudo muito caro” e que, o melhor seria eu ficar por aqui mesmo, fazer os passeios e voltar, etc. Bem, eu não viera ao Pantanal para ficar metida em um pequeno hotel de cidade! Como era muito cedo fui embora para a Transpantaneira a fim de verificar a verdadeira situação. Tinha informações de que o melhor do Pantanal são as Pousadas-Fazendas. Ao sair do asfalto fui devagar pela piçarra e, a mais ou menos 17 km depois de Poconé parei em uma estradinha que anunciava “Pousada Piuval”. Abri e fechei a pequena cancela, dirigi por uma estradinha vendo gado de um lado e outro. Após uma pequena curva avistei a casa pantaneira telada. Cheguei meio tímida à recepção. Depois de algumas informações resolvi ficar por lá. O esquema é o seguinte: ao longo de toda Transpantaneira as fazendas foram adaptadas para pousadas. Participa-se da vida de uma fazenda pantaneira. O conforto é bom, sem exageros, e o tratamento é pessoal e gostoso. Os quartos são telados e sem luxo, limpos, cadeiras de balanço, redes na varanda comum e pássaros e muitos pássaros a cantar. Na Pousada Piuval a diária que à primeira vista é cara inclui excelentes café da manhã, almoço e jantar com comidas típicas do Pantanal, um passeio de bote, cavalgada, focagem de bichos e uma caminhada. Fiz os cálculos: uma diária de 190,00 estava adequada para isso tudo. Fiquei por lá dois dias, passeando, comendo bastante e participando da vida de uma fazenda pantaneira já entrando na estação da seca. Muito gado por ali. Com tudo acertado, programação feita e um suco de limão para matar a sede, desci minha bagagem do Troller, entrei no meu gostoso e fresquinho quarto, tirei as botas, me deitei na redinha da varanda e me preparei para o Pantanal. Vidão hein Heloisa?

Bol. 09

Os dias na Fazenda Piuval – Pantanal de Poconé (MT)

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Ficar em uma Fazenda no Pantanal é tudo o que você precisa para conhecer esta região chamada de Pantanal Mato-grossense, situada na confluência dos rios Paraguai e Cuiabá, maior planície alagada do planeta, ambiente de águas que sobem na estação das cheias, entre outubro e abril, e baixam na estação de junho em diante.

“O que significa Piuval, Seu Rodolfo?” “Ah Dona, Piúva é o nosso nome para o Ipê Roxo”, ah… Rodolfo uma mistura de capataz e guia me levou a uma cavalgada. Fazia muito tempo que eu não montava um cavalo. Lembro-me de que na adolescência, Em Goiás Velho, saia em companhia do meu avô Jarbas e da Ana Rita, minha irmã, a passear pelos matos e fazendas. Gostava muito, mas agora foi até difícil subir e o Rodolfo teve que me apoiar pelas pernas. Uma vez lá em cima fiquei bem, principalmente porque o cavalo era mansinho e de passadas macias como convém a um bom cavalo pantaneiro. Saímos a ver aves das quais me lembro de algumas, pois ele ia desfiando uma infinidade de nomes tais como garças, garças gigantes, araras azuis (voando em pares), biguás, tuiuiús (ave símbolo do Pantanal), carcarás, cabeças secas, carões, colhereiros (por terem o bico em forma de colher), jaçanãs, seriemas, meu Deus, quantas aves! Atravessamos alagados, visitamos um ninhal, um capão e cordilheiras (lugares mais altos onde o gado se abriga na época das cheias). Paramos em alagados coalhados de jacarés espichados ao sol, muito pouco preocupados com a nossa presença. De vez em quando algum, preguiçosamente entrava na água. Passamos por uma região de Acuris, uma palmeira que atinge 8 metros de altura e que forma enormes aglomerados que se chamam Acurizais. Elas crescem nas partes mais altas e mais secas como os capões e cordilheiras. Voltamos para a fazenda onde um almoço nos esperava seguido de um bom descanso. Nessa hora de sol quente o Pantanal fica silencioso. Os únicos sons são os dos bem-te-vis na sua eterna algazarra.

À tarde fomos ver o Rodolfo dar comida para o Kiko, um jacaré que mora em uma pequena lagoa atrás da fazenda e que, ao menor barulho de uma batida em uma panelinha cheia de peixes, vem vagarosamente pegar o jantar. Ele é tão mansinho que até passei a mão em suas costas caraquentas, com o devido respeito. Depois fomos a um passeio de bote no enorme lago da fazenda e uma pequena caminhada já com os mosquitos no nosso encalço. Em uma árvore muito alta uma família de macacos bugios nos observava. Esses são macacos grandes os quais eu já vira na Chapada dos Guimarães. Emitem sons altos que são ouvidos a quilômetros de distancia. Dizem que anunciam as mudanças de tempo no Pantanal, gritando em grupo, horas antes das frentes frias chegarem. Havia um macho preto, grande, de mais ou menos sete quilos, segundo o Rodolfo, e várias fêmeas menores, algumas carregando filhotes, todos de cor castanha. Retornando nos deparamos com um belo pôr do sol que se refletia nas ondas formadas pelo movimento do nosso barco.

O jantar estava ótimo. Ficamos conversando na varanda, vozes de gringos, misturadas às nossas vozes, dos bois e dos pássaros noturnos. Rodolfo me apressou para a focagem. Fomos de Troller de planície adentro. Ele portava uma lanterna forte. Vimos um Cervo do Pantanal e vários veados catingueiros que saiam para beber água. Já voltando nos deparamos com dois lobetes, pequenos lobos que mais parecem raposas.

No quarto desliguei o ventilador e dormi tentando decifrar alguns sons noturnos. Só morando no Pantanal…

No dia seguinte, amanhecendo, vi logo após a cerca uma manada de emas, um grupo de mais ou menos trinta entre adultos e filhotes. Nunca havia visto tantas. Um café da manhã muito gostoso, uma despedida do Rodolfo que já partia para uma cavalgada com vários turistas. Paguei a conta, me encontrei com uma moça da Revista Quatro Rodas e reclamei da falta de informações sobre a Serra do Roncador. Anotou a reclamação. Dei a volta na Fazenda Piuval, mais um adeus, abri e fechei a pequena porteira e a poeira cobriu o mundo quando acelerei o Troller no rumo de Porto Jofre bem no fim da lendária Transpantaneira.

Bol. 10

A lendária Estrada Transpantaneira

De Poconé a Porto Jofre (MT)

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Transpantaneira: estrada de terra com 149 km e 125 pontes precárias. Inicia-se em Poconé e termina em Porto Jofre. Isso era tudo o que eu sabia sobre ela. Hoje já sei bem direitinho o que é a Transpantaneira. Percorri sua piçarra, cruzei todas as suas pontes, vi os seus bichos expostos, seus cambarás floridos, de flores amarelas apontadas para o céu, suas boiadas sendo tangidas de um lado para o outro por homens pantaneiros vestidos a caráter, com seus embornais para remédios e ferramentas, pirains, chicote de cabo curto e longa corda de couro para tocar o gado, guaiacas, bruacas, etc.

Saí da Fazenda Piuval, passei pelo Posto Fiscal do IBAMA, pela imagem de São Francisco e fui indo, a princípio meio temerosa e depois confiante deixando o Troller escolher o caminho. Até Pixaim as pontes estão bem conservadas, pois lá está a maior parte das fazendas pousadas da Transpantaneira. Parei para uma manada de capivaras deitadas na estrada. De um lado e outro aves e mais aves e, nos alagados o jacaré do Pantanal é o rei. Depois de Pixaim o bicho começa a pegar, a estrada fica pior e as pontes metem medo. De repente uma equipe consertando uma ponte sem condições e o transito parado. Poucos carros por ali. Um trabalhão. Toras e mais toras de madeira pesada e forte para suportar a umidade e o tranco dos carros que transportam turistas para as fazendas de Porto Jofre.

Uma hora depois eis-me fazendo uma travessia sobre duas pranchas colocadas e meus joelhos tremendo com o medo de cair. Felizmente sai do outro lado sob aplausos. Durante esse tempo conversei com algumas pessoas que também esperavam. A Transpantaneira foi idealizada em 1971 para ligar o norte ao sul do Mato Grosso, em um complexo hidro ferroviário, ligando Poconé a Corumbá. Um projeto bem ambicioso, mas que não resistiu às muitas cheias da região. Parou, felizmente, em Porto Jofre às margens do Rio Cuiabá na divisa com o Mato Grosso do Sul. Ficou nos 149 km. Hoje é a estrada do Parque, frequentada por turistas, pescadores e peões. Além da precariedade das pontes o que mais vi foi o Martim-Pescador-Verde espreitando suas presas: peixes e insetos. Ele chama atenção pelas suas cores. E fui descendo vendo aquela infinidade de aves. Chama atenção a garça-branca-grande de pescoço em formato de S e, dizem, ser a maior de nossas graças. Sua envergadura pode chegar a 1,70m. São lindas. Bem, depois de todas as pontes, que não contei, há uma placa dizendo Porto Jofre. Entrei pela estrada e dei de cara com um acampamento. “Moço onde é a cidade?” “Tem cidade não princesa. Porto Jofre é isso aqui. Um porto” “Moço aqui tem hotel?” “Tem sim senhora, logo ali adiante”. Fui dirigindo para o hotel. Desci do Troller. Hotel Porto Jofre Pantanal. “Moço tem vaga para mim?” “Tem”. “Quanto é a diária?” “280,00 com o café da manhã”. “Tem barco para visitar o Parque Nacional Mato-grossense?” “Ah, aí a senhora vai pagar 1.050,00. “Que? “Moço acho que não vai dar não” “Sim princesa aqui é tudo muito caro. Mas antes de ir embora tire ao menos uma fotografia para mostrar aos amigos que esteve em Porto Jofre”. “O senhor tira para mim?” E assim foi minha visita a Porto Jofre, um lugar para pescadores profissionais onde o Rio Cuiabá corre manso em uma curva longa e bonita. Peguei de novo a Transpantaneira, de volta.

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Os homens ainda consertavam a ponte e havia muitos carros parados. A tarde já ia adiantada. Dois pescadores com lancha e tudo iniciaram um piquenique e me convidaram para comer um pouco. De repente a ponte deu passagem. Passei novamente pelo Pixaim, Piuval e cheguei a Poconé no Hotel Skala, diária de 30,00. Desci a bagagem e, sem dúvida, o Troller tinha que ser lavado urgente. Havia poeira da metade do Brasil e muita lama da Chapada dos Guimarães. É amanhã… Na manhã seguinte resolvi ir ao Porto Cercado. São 50 km até a RPPN do SESC Pantanal, um grande hotel que não me atraiu. Muita burocracia para ver o museu, o borboletário e o mirante. A recepcionista mal olhou para minha cara. Um senhor simpático conseguiu autorização para me mostrar o museu, onde se escuta o canto dos pássaros e o borboletário onde voam borboletas coloridas. Encerrei minha visita. Lá tudo tem que ser agendado. Não, prefiro as pousadas nas fazendas onde se pode andar para todos os lados, conversar com todo mundo e, nada de hora marcada! A viagem não foi perdida. Na volta me deparei com uma cobra Sucuri. Ela era enorme, quase 1,50m. Passava com porte de rainha, lentamente atravessando a estrada. Fiquei ali parada, hipnotizada, e, quando saí do transe, tentei fotografar mas ela já estava metida no mato a caminho de um pequeno pântano. Voltei a Poconé, mandei lavar o Troller que voltou a ser amarelo, pronto para receber minha passageira Tamara que chegaria no aeroporto de Cuiabá dia seguinte quinta feira, dia 30 de junho. Iniciaremos a segunda etapa da viagem. No mesmo dia iremos a Cáceres e depois atravessaremos a fronteira para a Bolívia. Lá fora alguém comemora um gol do Brasil. Quem está jogando? Sei lá!

Bol. 11

De Poconé (MT) a San Ignácio de Velasco (Bolívia)

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Saindo de Poconé fui parar no Aeroporto de Cuiabá. A Tamara minha segunda companheira chegou absolutamente energizada. De lá saímos para Cáceres. Fomos direto ao Centro de Informações Turísticas cujo pessoal nos atendeu muito bem indicando, inclusive, uma oficina para olhar o ar condicionado do Troller. O problema foi temporariamente resolvido. Gostaríamos que a solução durasse pelo menos até Santa Cruz de la Sierra. Dormimos e no dia seguinte fomos à Polícia Federal para carimbarmos o passaporte e à Receita Federal para declararmos os eletrônicos que iam saindo (nem sei se era necessário). Comemos um maravilhoso peixe na brasa em um restaurante flutuante sobre o Rio Paraguai dando por encerrada nossa visita a Cáceres. Logo, para quem vai para a Bolívia nessa estrada, tudo se resolve em Cáceres. A fronteira de San Mathias, já na Bolívia é super-rápida e bem organizadinha. Nada daqueles rolos da América Central. Dali pegamos quase 400 km de terra até San Ignácio. Dizer que é uma piçarra ruim é mentira, mas está longe de ser uma estrada fácil. Há muitas curvas, altos e baixos, muitas vezes bem estreita e um bom tráfego de caminhões, além de ser uma estrada solitária. No entanto bem tranquila e em momento algum sentimos perigo. Em tudo o que precisamos os bolivianos se mostraram extremamente solícitos e amáveis.

De cara vimos que San Ignácio não era uma cidadezinha só para dormir. Uma pracinha bem ao estilo colonial espanhol, um coreto, árvores centenárias, nossas barrigudas ou paineiras chamadas de toboroches de barrigas enormes. Colunas maravilhosamente esculpidas e uma igreja surpreendente. Lembrei-me do cônsul boliviano em Cuiabá que nos dissera para não deixarmos de fazer o Circuito das Missões. Estávamos bem cansadas da tal estrada de chão, pegamos um hotel bem cômodo, o Hotel das Missões. Sentimos como é bom viajar com uma moeda valorizada: cada real vale três pesos bolivianos. Resolvemos ficar por lá e fazermos todo o Circuito. Valeu a pena!

Bol. 12

San Ignácio de Velasco (Bolívia) – Circuito das Missões

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As sete cidades das Missões Jesuíticas da Bolívia são um prato cheio para quem gosta de História e Arquitetura. Viajantes com este fim podem permanecer por meses e ainda terão coisas para ver e aprender. Esta região permaneceu escondida por séculos. Depois de 1986 com o interesse aumentado pela riqueza cultural sobre a relação dos jesuítas com os índios Chiquitanos é que UNESCO declarou a região como Patrimônio Cultural da Humanidade. Um arquiteto, Hans Roth trabalhou por mais de 25 anos e as Igrejas das Missões foram restauradas ao seu antigo esplendor. Não é fácil chegar lá, no entanto existem muitas agências de turismo que fazem o percurso a partir de Santa Cruz. É muita poeira e calor, mas como vale a pena! Começamos nosso circuito por San Ignácio já que estávamos lá. Como disse anteriormente a praça principal é sensacional com seus arcos coloniais apoiados por colunas de madeira finamente esculpidas por artesãos que hoje repetem as esculturas dos antigos nativos Chiquitanos ensinados pelos Jesuítas. A Igreja como todas as outras do Circuito, como veríamos mais tarde seguem um padrão que surpreende pela originalidade e repetição em todas as vilas. É a mais antiga e, lamentavelmente foi demolida em 1950, sendo reconstruída como a original. É gigantesca. As colunas finamente esculpidas e o altar maravilhoso são originais do século 18. Os enormes arcos de madeira são espetaculares. A forma, os pilares esculpidos e os arcos se repetem em todas as igrejas.

De San Ignácio fomos para Santa Ana, de todas a mais rústica. A igrejinha foi aberta, vimos seu interior todo desenhado, um órgão de som maravilhoso, uma pracinha bem rústica e os toboroches seculares. Depois vem San Raphael, San Miguel, San Javier. Deixamos de ir a San José de Chiquitos. Disseram-nos que a igreja é a única diferente, pois é toda em pedra. Já tínhamos uma noção do que fora aquilo. Uma espetacular troca de conhecimentos entre os Jesuítas e os índios milenarmente nômades ensinando como se adaptar ao meio ambiente tropical e, sob o treinamento dos religiosos, se transformaram em excelentes artesãos de roupas, objetos de prata e madeira, harpas, violinos que ainda vivem na tradicional música Paraguaia.

No dia seguinte a porta traseira do Troller fechava, mas não abria o que para nossa idade representava o horror, pois teríamos que fazer toda a arrumação pelo lado de dentro e…ai minhas costas! Procuramos um “taller mecânico”, o mais bagunçado que eu já conhecera, o senhor acordando, mas deu logo o diagnóstico “soltou um arrebite”. Com um martelo e um arrebiteiro, eu creio, resolveu tudo e partimos alegres e felizes. Até hoje está funcionando certinho. De tão empolgadas com tudo, indo para Santa cruz, entramos em Concepción. Mais uma igreja, mais uma pracinha e mais toboroches seculares. Mais alguns quilômetros e eis o asfalto. Que bom!

De uma hora para outra decidimos não ir mais a Santa Cruz e fomos direto para uma pequena cidade chamada Buena Vista, pertinho do Parque Amboro. Tomamos uma excelente Paceña (a segunda melhor cerveja do mundo), jantamos truta e dormimos pra valer. Amanhecemos com um friozinho de fazer gosto, vento, e uma chuvinha fina molhava o Parque lá embaixo. Essa chuvinha nos acompanharia por toda a subida dos Andes e início do Altiplano. Mais aí é uma outra história. Vejam o que aconteceu…

Bol. 13

De Buena Vista a Cochabamba (Bolivia)

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Deixamos para trás Buena Vista e o parque Amboro. Enfrentaríamos a subida dos Andes para alcançarmos o Altiplano e dormirmos em Cochabamba. A Tamara foi dirigindo, pois enjoa muito. Havia muita expectativa. A subida é muito alta e o desnível bem grande. Sairíamos do nível do mar para uma altitude de mais de 3.000m. Eu, com certeza, sofreria os efeitos dela. Fomos indo. A chuva e o frio nos acompanharam por toda a subida e assim não pudemos ver os despenhadeiros encobertos pela cerração. Não sei se foi bom ou ruim. A 46 km de Cochabamba nos deparamos com um bloqueio da estrada. Uma comunidade fechara todos os acessos reivindicando a presença do Governador para garantir o asfaltamento da estrada que leva ao Pueblo. Bem, ficamos sem entender direito o que estava ocorrendo. O que víamos era uma enorme fila de caminhões, ônibus e carros, crianças e adultos no meio do asfalto. Um enorme colorido e grande confusão. Pergunta daqui e pergunta dali ficamos sabemos que às vezes esses bloqueios duram dias e… só o Governador poderia nos salvar. A tarde começou a cair e, como sucede no Altiplano, o frio começou a se manifestar. Eu e a Tamara começamos a nos organizar para passarmos a noite dentro do Troller. Subi para tirar os sacos de dormir do bagageiro e, a 3.500m de altitude , saímos da estrada, encostamos o carro em um murinho (sugestão de um caminhoneiro), comemos alguma coisa , entramos nos sacos. Por causa da altitude a cabeça começou a doer, a latejar e a pulsação acelerou. Disse para a Tamara “preciso ver minha pressão” e a Tamara “onde está o aparelho?”. O caos se instalou. Finalmente o tal aparelho foi achado e, com a lanterna acesa, vi a pressão. Estava bem alta. Resolvi aguardar um pouco. Pra encurtar a história não dormimos, ficamos observando a movimentação. As crianças pararam de brincar, os motoristas se recolheram e a confusão foi dormir. Menos nós. O céu do Altiplano estava super estrelado e o frio foi aumentando para valer. Finalmente o dia amanheceu. Nosso fogãozinho não funcionou. Esperávamos fazer um chá, alguma coisa que nos esquentasse. De repente alguém gritou: Tão levantando o bloqueio! Jogamos tudo dentro do Troller e aceleramos na direção da barreira. Fomos um dos primeiros a passar por ela. O que não sabíamos é que o bloqueio havia sido levantado porque não se precisava mais dele. Os motoristas haviam se incumbido de paralisar tudo estacionando na contra mão, de lado, e nem pra frente e nem pra trás. Para aumentar o rolo nosso Troller resolveu não sair do lugar, era como se estivesse com o freio de mão puxado, e realmente estava preso em cima de um batonzinho Nivea que caíra na abertura uns dias antes. Hum! Nessa confusão fizemos como as Cholas, xixi ao lado da estrada. Resolvemos colocar de novo nosso fogãozinho para funcionar. Nada feito. Um motorista que estava atrás nos ajudou fazendo o que ele chamou de um “conserto boliviano” utilizando esmalte de unha e fita isolante. Bendito conserto boliviano! Fizemos nossa sopinha e esquentamos um pouco. Começou uma confusão entre os motoristas e os lideres do movimento. Corria gente de montanha acima. Ouvimos dois estrondos de dinamite, segundo nosso amigo, e, em seguida começamos a nos preocupar. De repente houve uma organização e alguns carros conseguiram passar. Pedras estavam sendo jogadas lá de cima de um paredão, rezamos para não sermos acertadas. Aceleramos e passamos. Cruzes! Para chegarmos a Cochabamba levamos seis horas percorrendo 46 km. Enfim Cochabamba. Colocamos um taxi para nos guiar até um hotel e dormimos doze horas seguidas.

Cochabamba é uma linda cidade do Altiplano. Há no Centro um enorme e caótico mercado onde tem de tudo: comidas típicas, roupas e mais roupas, costureiras cozendo, escritórios no meio da rua ainda com máquinas de datilografia, frutas, um abacaxi enorme, maior que eu já vi, grãos, verduras, enfim, loucura total, uma visita ao caos, alguém falou. Fomos de teleférico ao Cristo de La Concordia, uma imagem do tamanho do Cristo Redentor do Rio de Janeiro, no alto de uma montanha visto por toda a cidade e, finalmente nos sentamos em La Recoleta e comemos com vontade. No dia seguinte saímos para Copacabana às margens do Lago Titicaca. Percorremos mais de 200 km subindo e curvas e muitas curvas. Batemos os 4.500 m. Meu Deus, vai estourar tudo, eu pensava. A Tamara só dizia que o peito estava apertando. Finalmente chegamos novamente ao Altiplano e a altitude se estabilizou em 3.800m. Ao nosso lado o Monte Illimari, um gigante de 6.439 m. ia nos acompanhando. Suas três pontas cobertas de muita neve. Passamos pela confusão de La Paz e, finalmente o Lago Titicaca começou a aparecer, azul, azul contrastando com as montanhas amarelas nessa época do ano. Pegamos a balsa e, a 38 km já estávamos em Copacabana. Assistimos a um esplendoroso por do sol e, hoje, de nossa janela, o dia amanheceu dourando as montanhas bem mais além do Lago que agora se estende em um azul a perder de vista. Lindo!

Nossa cabeça continua a latejar e nossa pela trincou. O clima aqui do Altiplano é extremamente seco. De dia a temperatura é amena, mas as noites são extremamente frias. A Bolívia é muito bonita e está muito diferente da Bolívia de há quinze anos quando passamos de mochila por aqui, eu e o Haroldo, a caminho de Macchu Picchu. Deu um salto de qualidade. Estou encantada com o povo, amável, educado e tranquilo, não se respira perigo e insegurança. Beleza!

No estacionamento o Troller velho de guerra aguarda a partida. A seu lado está estacionado um furgão enorme que transporta um grupo de alemães percorrendo a América do Sul. Amanhã iremos a la Isla del Sol e partiremos para Puno. O Peru está ficando pertinho!

Bol.14

Os dias no Lago Titicaca – Parte I – Copacabana (Bolivia)

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Copacabana é um lindo lugarejo juntinho ao lago Titicaca. Normalmente essa é uma época de grande fluxo turístico, mas os bloqueios deixaram os turistas com medo. Bobos, a Bolívia está muito tranquila. Havia poucos turistas. O hotel no qualificamos nos acolheu com uma taxa especial de baixa temporada. Um bom hotel de frente para o Lago. O amanhecer era apreciado da nossa janela. As montanhas e o lago, a princípio meio tímidos, à medida que o sol levantava o mundo azul e dourado inundava nossos olhos. Ao entardecer ele dava seu show sobre as águas do Titicaca. Que privilégio! Não é à toa que os antigos adoravam o sol como um deus! Nos organizamos para um passeio pela Isla del Sol. O passeio é organizado ali mesmo na beira do Lago. As 07:30 com frio muito grande, embarcamos para a Ilha. Durante a viagem conhecemos um grupo de sete brasileiros que viajavam de trem, ônibus ou o que pintasse. Lembrei muito de nossa viagem há quinze anos quando enfrentamos o Trem da Morte e uma Bolívia e Peru com problemas políticos sérios e muita insegurança. A Ilha do Sol é considerada o lugar de nascimento de muitas entidades veneradas inclusive o sol. Manco Capac e sua irmã/esposa Mama Ocllo, acredita-se, são filhos do sol e criadores da historia Inca. Obviamente esse é um resumo muito simples para uma história cheia de lances poéticos e fatos heroicos. O barco chega a um pequeno porto chamado Cha’llapampa. Não há transporte na Ilha. Decidimos, como todos os outros, caminhar percorrendo os 8.000m até o próximo porto onde o barco nos pegaria. Vimos algumas ruínas muito antigas. Para mim a caminhada foi muito difícil. Houve momentos em que me senti ultrapassando o limite de minhas forças e quase sem coragem para ir até a próxima subida. Muito cansaço pela altitude e muitos dias sem exercício físico. Hoje já estou adaptada e já não me canso tanto. O que me movia , além de não querer ficar para sempre com Manco Capac, era a paisagem, o contraste do azul absoluto com as montanhas amareladas e muito recortadas vistas lá de cima. Nesse dia constatei que seria muito difícil fazer a Trilha Inca para chegar a Machu Picchu, uma caminhada de quatro dias, subindo e acampando. Depois conto o que aconteceu. Tomamos o barco de volta a Copacabana, passeamos pela cidade, compramos alguns agasalhos e, resolvemos partir no dia seguinte. Tomamos nosso café, pedimos conta e tivemos a primeira surpresa duas ligações telefônicas no dia anterior nos custaram o preço de uma diária, portanto, ´e bom checar os preços do minuto. O vacilo deveu-se a que vínhamos fazendo telefonemas baratíssimos por toda a Bolívia assim, nos descuidamos e, tome susto! A segunda surpresa foi com o Troller. Não arrancou e, de tanto nhén, nhén, nhén, descarreguei a bateria. O pessoal do hotel foi super prestativo. Colocamos a chupeta e o Troller arrancou. Coitado, depois a coisa ficou mais difícil, como veremos adiante. Saímos pela fronteira de Yunguyo, uma fronteira super tranquila. Durante os trâmites duas famílias de europeus, com filhos adolescentes e dois de uns quatro anos seguiam de bicicleta. Os pequenos pedalavam nas bicicletas duplas dos pais. Achei incrível. Iam todos satisfeitos da vida. Que experiência! Passamos por eles devagar, adeuses para cá e para lá e nos perdemos no frio, vento e poeira do Altiplano Boliviano.

Bol.15

Os dias no Lago Titicaca – Parte II – Puno (Peru)

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Saímos pelo Altiplano com o Titicaca sempre do nosso lado. Chegamos a Puno e, depois de brigarmos com os trici-taxis, muita gente e outros carros, em ruas estreitíssimas de tempos coloniais, conseguimos achar um hotelzinho bem no centro, com um precário estacionamento onde o Troller ficou trancado a sete chaves, por alguns dias, enquanto passeávamos pela cidade e pelo Lago conhecendo as Ilhas Flutuantes dos Uros e Ilha Taquile. Puno nos seus 3.830m de altitude estava gelada! Tivemos que comprar gorros, luvas, meias, cachecol nas ruas, onde as mulheres índias, vestidas com inúmeras camadas de roupas coloridas, chapéus equilibrando (não sei como) no alto da cabeça e enormes tranças, esparramam seu artesanato. Tudo muito barato. Os turistas andam para cá e para lá com esse artesanato e o efeito da grande mistura de cores é extremamente alegre. São poucos os edifícios coloniais, o que surpreende, pois é uma cidade fundada em 1668. Compramos nosso tour em uma das agências de viagem e, no dia seguinte bem cedo, partimos para as Ilhas Flutuantes e Taquile. Nas Ilhas Flutuantes vive o povo Uros. Essas ilhas são construídas de Totora, um enorme capim que cresce abundante no Lago. As ilhas são constituídas de várias camadas de Totora um enorme capim que cresce a as quais são constantemente cobertas de outras camadas e vão se tornando cada vez mais grossas e, com o passar de muitos anos se tornam pesadas e são abandonadas começando tudo de novo. Com o Totora fabricam barcos e suas casas. Na mais importante das ilhas há até escola e correio. Alguns nativos recebem hóspedes para uma ou mais noites. Conservam suas roupas tradicionais e, hoje vivem da pesca e do turismo. Para se chagar até lá percorremos uma série de canais que se enroscam na grande quantidade de Totora. É muito bonito o contraste do capim amarelo com o azul do Lago. Durante a visita passeamos no barco de Totora guiados pela Hilda uma nativa de roupas coloridas e apreciamos o artesanato espalhado pelo chão. Despedimo-nos com uma fotografia, concessão da Hilda, uma vez que não gostam de ser fotografados e as mulheres da Ilha enfileiradas em adeuses dançantes. Ficamos sem saber se de alívio por partimos ou de agradecimento por comprarmos suas criações. Continuamos a navegar pelo lago, agora mais azul do que nunca. Dirigimo-nos a Isla Taquile. Há um minúsculo porto onde desembarcamos.

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Taquile é uma pequena ilha de 6 km de extensão cujos habitantes mantêm uma forte identidade. Eles raramente se casam fora da comunidade e não adotam as modernidades que avançam sobre outras comunidades. Almoçamos lá no alto. Um rapaz tocou para nós músicas andinas e o nosso guia nos explicou os costumes dos moradores, o significado das cores, da posição dos chapéus, das bolsas tecidas em muitas cores, dos homens e dos xales pretos de grandes pompons coloridos nas mulheres. A posição social e a posição civil são rapidamente observadas através desses inúmeros detalhes dos quais nem me lembro mais. Lembro-me, sim, da grande variedade de cores, dos bordados, do som das flautas andinas, misturadas ao som das vozes, do orgulho daquela gente, das inúmeras portadas de pedra através das quais se vê o lago bem abaixo, muito azul, e da íngreme descida de degraus também de pedra. Fomos navegando pelo azul, depois entre os canais de Totora, passamos pelos Uros, as ilhas iluminadas pelo sol da tarde e, chegamos de volta aos barulhos da civilização, buzina, gente correndo, ruas apinhadas, turistas, enfim… Pela Manhã soubemos que, durante a madrugada, a temperatura caíra para sete graus negativos. A água amanhecera congelada. Ainda bem que colocáramos anticongelante no radiador do Troller, mas a bateria se fora, morreu, sem jeito. Morreu de velha mesmo, ainda era a original. Pegamos um taxi e pegamos uma nova bateria que foi instalada. No entanto nosso carro estava sofrendo muito com a altitude. Custava a pegar e com muita fumaça pelo escapamento, mas depois da dificuldade inicial ia bem que só pela estrada afora. Decidi que em Cuzco seria levado a um taller mecânico. Minha filha Dominique tem um amigo lá e sua esposa nos indicou uma oficina. O diagnóstico foi imediato. Bomba desregulada para a altitude. Muito diesel e pouco oxigênio. Hum… E aí?! Super fácil. Fácil, fácil, não foi, pois o Troller dormiu na oficina no dia seguinte não arrancou e… Uma nova regulagem, para enfrentar altas e baixas altitudes pois iríamos também pela costa. Ah, o óleo que era para ser trocado com 10.000km doa quais só rodáramos 2.500 teve que ser trocado, pois, dizendo o Sr. Angel, em grandes altitudes deve ser trocado de 3.000 em 3.000km senão vira graxa. Graxa, Sr. Angel? E eu que não sabia disso? Bem, e assim trocamos logo todos os filtros (dessa vez trouxe todos para várias trocas). O Troller foi testado na íngreme subida de Sacsayhuamán. Ótimo desempenho! Dali saímos para um almoço na casa do nosso amigo Pedro e de sua esposa. E que almoço! Nessas alturas a Cristina já havia chegado e estávamos de partida para Machu Picchu. Deixarei que ela conte tudo como foi. Depois de Machu Picchu a Tamara partiu. Voltou para Brasília, para junto do Esly, seu marido, seus filhos e netos. Estava feliz da vida. Acompanhara-me desde Cáceres n Mato Grosso, Brasil, até Cuzco e Machu Picchu, no Peru. Obrigada Tamara pela alegre companhia. Cristina, minha atual companheira, chegou em um dia muito confuso, um dia de greve. Muita confusão. Não pudemos buscá-la e, sabem como ela foi do Aeroporto até a Plaza de Armas? Em um camburão da polícia! Rá, rá, rá! Acho que ela vai contar tudo isso. Está incumbida de escrever sobre Cuzco e Machu Picchu. Aguardem!

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Cuzco e Machu Picchu (Peru). Em 14 de julho de 2005

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Cristina escreve:

O voo para Lima parte de São Paulo 06h00min da manhã, com a apresentação às 04:00. Decidi pernoitar no Íbis de Guarulhos, que tem transporte aeroporto-hotel a cada hora. Após uma rápida escala em Lima cheguei a Cusco por volta do meio dia, horário local. Tudo certo até a surpresa de não encontrar a Solena (Heloisa) e nem a Tamara num aeroporto vazio com estacionamento sem carros, taxis ou ônibus. Havia uma fila de uns 200m de turistas, com suas mochilas e pranchas, cujo início era um velho ônibus da Polícia. Assim tomei conhecimento da greve geral dos trabalhadores peruanos no dia 14 de julho de 2005. Como eu era a última desta enorme fila e diante dos comentários de que aquele era o último ônibus, me juntei a um casal da Califórnia convidado para uma camionete da Polícia. Lá dentro estavam oito policiais e, evidentemente, havia stress, a californiana choramingava de medo e eu arrisquei algumas palavras na tentativa de acalmá-los, embora também tivesse medo. Milhares de pessoas andavam pelas ruas de Cusco. Nos deixaram em uma esquina dizendo que só podiam ir até ali e, com um gesto internacionalmente reconhecido, o esfregar dos dedos polegar e indicador, entendemos que devíamos soltar alguma grana, o que fizemos prontamente. Segui puxando a minha mala de rodinhas e mochila aproximadamente uns oito quarteirões na direção da Plaza de Armas, o centro das cidades peruanas que tenho conhecido. O sol forte e a altitude devem ter desconectado meus neurônios, pois não consegui ser mais objetiva. Passei na frente da Catedral da Plaza, mas não consegui ver minhas manas, que estavam lá desde as 11:00 e nem ser vista. Sendo assim, optei por um hotel de emergência onde deixei a bagagem e sai numa busca meio caótica na praça e em alguns hotéis. Finalmente a ficha caiu, entrei na Internet e lá estava a mensagem com o endereço do hotel no qual estavam hospedadas. Mesmo assim, passando mais uma vez na frente da Catedral, não conseguimos nos enxergar. Finalmente nos encontramos por volta das 17h00min. Final feliz. Fomos buscar minhas coisas no hotel de emergência e comemorar com trutas, purê de quinoa, uma pequena semente nutritiva dos Andes e vinho. Nos instalamos, agora em três no Hotel Cahuide. Tiramos o dia 15 para organizar nossas atividades. Passando pelas arcadas da Plaza de Armas somos abordados por muitos vendedores de pequenas agências de turismo. Depois da licitação com coletas independentes, sentamos num café para tomar decisões. Resolvemos investir na juventude contratando o jovem Coco que tinha feito uma apresentação muito convincente. Tudo perfeito até que eles põem a mão na grana, mas apesar de pequenos imprevistos tudo funcionou. Pegamos um pacote de três noites, U$120 para visitar o Vale sagrado e Machu Picchu. O Vale Sagrado foi criado pelo Rio Urubamba, cujas águas correm até o Amazonas, é agriculturalmente explorado desde o Império Inca, que dominou a região no período 1200-1532, quando os espanhóis iniciaram a destruição da cultura indígena. As águas esverdeadas do Rio Urubamba correm energicamente entre as pedras arredondadas de cor cinza. No domingo tomamos um ônibus para Pisac, que fica a pouco mais de 30 km de Cusco. No caminho paramos numa das muitas feiras do rico artesanato peruano. Era um pequeno povoado. Nas cumeeiras das casas havia cruzes que eram sustentadas por dois touros de cerâmica, um costume local visando boa sorte para a casa e família. Em Pisac também percorremos as feiras dominicais, cheias de cores nos tecidos e cerâmicas. Vários grupos de danças saem em blocos com suas roupas bordadas e brilhantes, não se incomodando com a poeira das ruas sem calçamento. De feira seguimos para as ruínas de uma cidadela do Império inca. Caminhamos mais de duas horas entre terraços para agricultura e templos construídos de pedra. Bonito. Nosso ônibus continuou seguindo o Rio Urubamba com seu vale retalhado de várias tonalidades de verde das plantações. Após um rápido almoço chegamos a Ollamtaytambo por volta das 17h00min. Os dois hotéis razoáveis estavam lotados de modo que ficamos hospedados no precário Hostal La Nusta. O banheiro compartilhado, com risco de vida para os que decidiam usar o chuveiro elétrico, era compensado por uma bela vista das montanhas e terraços incas. Ótima dormida. Em Ollamtaytambo visitamos fortes e terraços construídos com pedra. A cidade também tema intrincada rede de canais que foram recentemente restaurados e transportam água corrente ao longo da parte do forte e sob algumas ruas da cidade. Tomamos um trem na direção de Machu Picchu. Após duas horas de viagem chegamos a Aguas Calientes, por volta das 22h00min; o incrível aconteceu: havia uma pessoas nos aguardando com placas de modo que fomos diretamente para o Hostal los Caminantes, na beira do trilho e também um tanto precário. Fomos acordadas às 05h00min e a chuva forte comprometeu nosso programa de ver o sol nascer em Machu Picchu. Resolvemos continuar dormindo. Às 06:00 nova tentativa infrutífera. Finalmente às 07h00min o guia conseguiu nos convencer a levantar mesmo com a chuva, rara nesta época do ano. E assim, lá pelas 09h00min iniciamos nosso dia em Machu Picchu ainda sob a chuva e muitas nuvens.

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Machu Picchu, com chuva ou sem chuva, é indescritível. Como os Grand Canyons, por mais que tenhamos visto em fotos e filmes ficamos paralisados ao deparar frente a frente com tal beleza. Ainda há dúvidas sobre a finalidade desse conjunto redescoberto em 1911. Mas, há terraços, templos, palácios e praças com paredes construídas com grandes blocos de granito com junções perfeitas nas construções nobres. Nos terraços usados na agricultura há menos preocupação com essa perfeição: usavam argamassa para juntar as pedras. O guia nos ajudou durante três horas e, no mais, ficamos circulando na Cidadela até cansar. Ainda dormimos em Águas Calientes e tomamos o trem por volta das 06h00min para chegarmos a Cusco por volta das 10h00min, com troca de ônibus em Ollamtaytambo. Desta forma ficamos com mais cinco dias livres em Cusco a tempo de a Solena revisar o Troller. Várias culturas indígenas habitaram a região de Cusco antes dos Incas a transformarem no centro de seu império. Um pouco de sua história está no Museo Historico Regional que expõe a história de forma muito didática através de achados arqueológicos, principalmente cerâmicas, artefatos e múmias. Outros museus, sítios e igrejas de Cusco nos ajudam a entender um pouco da história da região. Os períodos Inca e Colonial estão bem representados neste patrimônio histórico. O Koricancha é o exemplo supremo do espetacular trabalho dos Incas em blocos de pedra. Mais tarde os colonizadores ergueram suas construções sobre, ou aproveitando estas paredes. Conventos e igrejas foram substituindo aquilo que testemunhava a história das culturas indígenas. Outro exemplares aparecem nas ruas da cidade, principalmente na Cuesta San Blas que nos leva à Igreja do mesmo nome. É um prazer circular pelas ruas de Cusco, entre construções antigas adaptadas ao comércio moderno, hotéis, cafés e restaurantes. Outra opção barata de circular, principalmente nas horas de sol forte ou à noite são os muitos taxis. A cidade é dividida em regiões definidas por praças, que evidentemente, têm igrejas; deste modo é fácil explorá-la, mas o centro antigo e moderno está na Plaza de Armas, sempre cheia de turistas, vendedores de pacotes e artesanatos. Pessoas ficam sentadas nos bancos distribuídos pelo jardim colorido ou nos restaurantes, cafés e lojas. Índias carregando nas costas seus bebês, e crianças se vestem coloridas com saias rodadas cobrindo os joelhos vendendo artesanato. E a Catedral, construída sobre fundações de um palácio inca, a dominar este cenário, auxiliada pela Igreja da Companhia de Jesus, no lado sudeste da praça. Um circuito guiado pela Catedral é obrigatório. Os guias apontam vários detalhes que podem passar despercebidos neste magnífico patrimônio. Altares de granito com detalhes em ouro ou cobertos de prata, púlpitos e cadeiras em madeira talhada em detalhes impressionantes, quadros com pinturas da Escola Cusqueña, tudo é arte nesta magnifica Catedral. E muito disso se repete nas inúmeras igrejas de Cusco. Comemos muito bem nesses dias. Muitas trutas acompanhadas de cerveja Cusqueña e vinho da casa. No jantar de despedida eu e a Tamara arriscamos um Cuy pururuca (uma espécie de porquinho da Índia, de aproximadamente 30 cm). Para o espanto da Solena e de alguns turistas do restaurante o Cuy chegou inteiro com dentinhos de fora, crocante e recheado de farofa. Lutamos com mãos e dentes e, ao final, estávamos bastante sujas o que obrigou a Tamara a gastar seu portunhol na cozinha para conseguir um detergente. Uma festa, como foram nossos jantares nestes dias que já deixam saudade.

Heloisa escreve:

Eu, Heloisa, me neguei peremptoriamente a comer o pobre bichinho. Provei o delicioso recheio, uma espécie de farofa bem picante. Antes pedi que as meninas (Tamara e Cristina) virassem a cabeça dele para o lado delas já que ele teimava em mostrar seus dentinhos para mim. Terminei comendo um simplório arroz com frango ao curry. Noite deliciosa. No dia seguinte a Tamara partiu de mentirinha. No avião, que sairia de Cuzco para Lima, tinha lugares de menos e nenhum para ela. Resumindo: teve que voltar do Aeroporto e dormir em Cuzco. Nessas alturas eu e a Cristina já estávamos percorrendo a Reserva Pampa Galleras a 4.800m de altitude. Quilômetros e mais quilômetros de campo amarelado coalhado de lhamas, alpacas e vicunhas pastando e, de vez em quando, nas encostas, víamos os curiosos currais circulares como laços jogados sem muita preocupação. Muito frio por ali! Não aguentamos ir mais adiante. Dormimos em um vilarejo chamado Puquiu. Enquanto isso a Tamara pelejava para chegar a Brasília. Quando fomos saber disso já estávamos em Huaraz na gloriosa Cordillera Blanca. Show!

Bol. 17

De Cuzco a Huaraz – Cordilheira Branca (Peru)

Um temblor!

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Cedinho partimos de Cuzco. O Troller ainda deu uma reclamada, mas pegou direitinho, com muita fumaça. E fomos subindo e descendo os Andes, uma montanha atrás da outra. Por duas vezes ultrapassamos os 4.500m. Em uma pequeníssima cidade, Abancay, paramos para tomar um caldo de galinha, parece uma especialidade da região. É servido em uma grande tigela de louça com um pedaço de frango, batatas inteiras, de várias qualidades e um ovo cozido. Criamos novas forças. Passamos por várias paisagens, longos trechos extremamente áridos, por neve, campos extensos amarelados coalhados de lhamas e alpacas, sem ver muita gente. A tarde começou a cair, o frio a aumentar e o cansaço ficando forte. A Cristina ainda meio mareada pela altitude se queixava de muito sono. Realmente não dava para ir mais em frente. Paramos em um Pueblo chamado Puquiu a 3.800 m de altitude. Os pueblos no interior do Peru são muito pobres. As construções de tijolos de adobe dão um tom marrom a tudo e um aspecto triste de coisa inacabada. Havia muito pó e o vento soprava forte. Muito frio! Voltamos para o “Centro” e, finalmente vimos um hotel com cochera (estacionamento). Felicidade geral! Estacionamos o Troller, tiramos nossas mochilas (que contêm uma única troca de roupa) e entramos em nossos aposentos. Tudo muito simples. Saímos para comer alguma coisa no outro lado da rua. Uma senhora muito amável nos preparou um pollo a la plancha e eu fiquei na minha sopinha de macarrão e verduras. A fome tratou de dar o gosto a tudo. Quase sem coragem resolvemos testar o chuveiro, pois o senhor nos havia prometido água quente para mais tarde. Pois não é que o banho quente estava lá? Caímos em um sono meio morgado e longe escutávamos alguém tocando uma guitarra com músicas peruanas. Acho que alguma comemoração. No dia seguinte o frio ainda batia muito forte. Fizemos nosso desayuno, botamos o Troller para funcionar (pegou fácil) e partimos. Foi uma descida maluca. Nos últimos 36 km descemos quase 3000m. Curvas e mais curvas muito fechadas, algumas quase em 360 graus. Despenhadeiros e 30 km por hora era o que andávamos. Eu ia apavorada, me via lá no fundo com Troller, Cristina, coitada, e tudo! Muito árido. Um grande deserto de montanhas altíssimas. Quando conseguimos chegar a Nazca, que fica quase ao nível do mar, estávamos destruídas. Encontramos o Pacífico em uma curva e entramos pela Pan-americana rumo ao norte. Paramos em uma cidade à beira mar chamada San Vicente de Cañede, um point de surfistas. A cidadezinha estava fria, sem turistas e o Pacífico rolava forte em grandes ondas sobre uma areia escura com muitas pedras. Ficamos em um hotelzinho, escutando o barulho do mar. Saudades do mar de Flexeiras! Havia um bonito píer e algumas formações rochosas, lembrando pássaros, ainda iluminadas pelo resto da tarde. Saímos caminhando pela praia, vimos um surfista solitário entrar na água e deslizar por uma grande onda. Paramos em um restaurante, comemos um delicioso ceviche de corvina e algumas cervejas Cusqueña. Que cerveja! Fomos dormir. Pela madrugada acordei com o quarto tremendo e um barulho grande. Ainda não havia identificado o que estava ocorrendo quando a Cristina me chamou “Solena você está sentindo?” E eu “Tá tudo tremendo”! “E ela “Solena, te alui mulé, isso é um terremoto!”. “Quê?!”. Realmente a cama tremia e o barulho das janelas era grande. De repente parou tudo, só os cachorros continuaram a latir por muito tempo. No dia seguinte soubemos que houvera um terremoto no Japão e sentido ao sul de Lima, bem onde estávamos. Saímos do hotel para um desayuno em algum lugar, pois não havia energia na cidade. Uma forte neblina nos pegou depois de Lima. Quase não se via nada. Fiquei bem atrás de um carro que, com suas luzes acesas, foi me guiando por vários e vários quilômetros. A neblina começou a levantar e conseguimos parar em um Posto. Finalmente el desayuno. Saímos revigoradas. O excelente asfalto da Pan-americana nos ajudou a chegar a Pativilca e a partir daí começamos novamente a subir os Andes para Huaraz. A subida foi forte com muitas curvas fechadas. Saímos do nível do mar para uma altitude de 4.200m e descemos para 3.200 em Huaraz. Quando a altitude se estabilizou entramos em um vale lindíssimo e já com a Cordilheira e seus picos nevados ao nosso lado. Uma paisagem de tirar o fôlego. Temperatura super agradável. Fomos rodando sempre com os grandiosos picos ao lado até chegarmos a Huaraz uma cidade em festa pela Independência do Peru. Muita gente na rua, muita música, muito artesanato. Procuramos por um hotel e, finalmente nos instalamos no Los Portales. Já sabemos que ficaremos pelo menos uns seis dias por aqui. Já pesquisamos o que podemos fazer. Vários passeios nos levarão a conhecer a Cordilheira e seus picos nevados. Depois nos retiraremos para uma pequena cidade no fundo do vale. Acho que vai ser ótimo! Bando de mulheres danadas! Chegar nesse fim de mundo! Legal!…Além disso tive uma notícia ótima. Talvez o Haroldo, meu marido, se encontre comigo em Lima quando a Cristina partir. Faremos juntos o Cañon del Colca, perto de Arequipa e o Salar de Uyuni na Bolívia. Tudo perfeito! Falta mais nada não! Falta sim. Uma dose de Jack Daniels. Agora sim está completo!

Bol. 18

Cordilheira Branca (Peru) – Huaraz e o Huascarán

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A Cordilheira Branca tem 20 km de largura e 180 km de extensão. Nessa pequena área existem mais de 50 picos de 5.700m e até mais altos. Só para comparar, na América do Norte existem somente três montanhas que ultrapassam os 5.700m, Orizaba no México, Logan no Canadá e o Denali, no Alasca. O Huascarán, de 6.768m é a montanha mais alta do Peru e o mais alto ponto situado nos trópicos em todo o mundo. Suas imponentes montanhas que abrigam importantes ruinas pré-incaicas, glaciares brilhantes, paredes verticais e lindos lagos coloridos, paraíso de montanhistas, caminhantes e escaladores, são pouco divulgadas e ainda bem desconhecidas para felicidade dos que gostam de sossego e de apreciar com calma a natureza. Foi a esta região que chegamos depois de passarmos pela confusão da Pan-americana, próximo a Lima, sairmos dela em Pativilca e subirmos 4.200m de curvas e muitas curvas, felizmente em asfalto bom. Depois disso tudo há uma região plana e de repente entra-se o Callejón de Huayalas, um vale onde corre o Rio Santa, preso entre a Cordilheira Branca e a Negra e onde estão situadas as cidades mais importantes, como Huaraz, Caruaz, Yungay, Caraz e Chavín de Huántar cada uma com seus encantos e picos nevados.

Huaraz é a maior cidade e considerada o melhor ponto de partida para se conhecer a Cordilheira Branca. Chegamos a ela no meio a uma grande movimentação. As Fiestas Pátrias (Independência do Peru e aniversário das cidades) estavam a caminho. Muita gente nas ruas, artesanato nas calçadas, turistas do Peru inteiro, táxis, trici-táxis e nós procurando por hotel. Enfim encontramos um com cocheira (estacionamento) e tudo. Nos abancamos e começamos nossos planos após uma voltinha pelo tumulto da cidade. No dia seguinte pegamos uma excursão para a pequena cidade de Yungay e ao Lago de Llanganuco. Foi nesse dia que nos deparamos com o Huascarán. Sua forma arredondada e imponente sempre coberta de gelo é impressionante. Nossa primeira entrada no Parque Nacional de Huascarán foi para visitar o Lago Llanganuco que é um lago azul preso entre as montanhas escarpadas escuras e outras cobertas de gelo. Fizemos uma caminhada gostosa, algumas pessoas fizeram o percurso a cavalo, outras de bote. Descemos para Yungay uma cidadezinha que foi completamente destruída pelo terremoto e aluvião de 1970. A terra tremeu e soltou-se do Huascarán uma enorme parte do Glaciar que desceu de montanha abaixo enterrando a cidade e seus 18.000 habitantes. Hoje, além da nova cidade, há um cemitério com uma grande estátua de Cristo olhando para a velha Yungay e muitas rosas são plantadas em um grande jardim ao redor de pedras que desceram a uma velocidade de 300 km por hora. O entardecer nos pegou olhando para o Huascarán que aos poucos muda de cor (dizem que são treze), branco, azulado, amarelo e laranja, para enfim voltar ao branco contra o céu já escuro. Tomamos nosso ônibus e, pertinho, pertinho já estávamos na confusão de Huaraz.

Bol. 19

Cordilheira Branca (Peru) – Chavín de Huántar

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Partindo de Huaraz, a uma altitude de 3.091m de, subimos mais um pouquinho, para 3.250m na direção de Chavín de Huántar. Sempre subindo nossa gripe que dava alguns sinais começou a se instalar agora para valer. Meu ouvido fazia croc, croc a cada curva, naquele mesmo processo que fez com que nossos cremes e xampus saíssem livremente para longe dos frascos quando destampados. Eu tinha a impressão de que ia acontecer igual ao desodorante cuja bolinha voou para longe a uma velocidade inacreditável. O meu otimismo não permitia que o tímpano tomasse a mesma direção. Bem, finalmente as ruínas pré-incaicas mais bem preservadas do Peru. Surpreende a engenharia, de 1.000 a 800 anos antes de Cristo. A perfeição da rede de túneis, ventilação, iluminação e canais de drenagem. Caminhando por aqueles intricados corredores ficamos sem entender direito tudo aquilo. Estariam se escondendo> Guardariam grãos das colheitas? O guia nos explicou que Chavín de Huántar era um lugar de peregrinação da Cultura Chavín e nos túneis ladeados por pequenos “quartos”, ficavam os peregrinos em um processo de purificação. Continuando pelos labirintos e descendo em escadas estreitas de tetos baixos chega-se ao coração do subterrâneo, há um pequeno e escuro cubículo (hoje bem iluminado e protegido por grades) que abriga uma peça misteriosa finamente esculpida de 4m de altura conhecida como o Lanzón de Chavín. É impressionante. Nas paredes de pedra da grande praça ficavam as cabeças clavas, hoje restou apenas uma, as outras estão no Museu de arqueologia. Antropologia e História do peru. Saindo de lá demos uma volta pela cidade bem arrumadinha. Há pequenos restaurantes e hotéis, de maneira que quem quiser pode ficar hospedado por ali para uma visita mais calma. Quando voltamos a Huaraz fomos recordando o que aprendêramos durante a visita. A Cultura Chavín foi a maior cultura pré-incaica do Peru. Era um povo que não conquistava pela guerra e sim pela influência cultural e artística, talvez uma lição para nossa civilização. Assim é que até no norte do Peru podem ser observados trabalhos com traços Chavín, mas é em Chavín de Huántar que estão os trabalhos mais bem preservados. Os desenhos de divindades como o jaguar, puma, serpentes, condores e mesmo humanos, são precisos e detalhados e, eu vi, alguma semelhança com os desenhos super detalhados dos Maias na Península de Yucatán. Os arqueólogos continuam a escavar, escovar e seguem pesquisando Quantos mistérios ainda não desvendados sobre essa cultura depois destruída pelos Incas?

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Cordilheira Branca (Peru) – O Lago Parón

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Depois da viagem a Chavín as gripes se instalaram. A minha acompanhada de dor de ouvido e a da Cristina de muita dor no corpo. Resolvemos ficar um dia de cama. No outro dia partimos de Huaraz para uma cidadezinha situada quase no fim do Calejón de Huaylas., lá onde a Cordilheira Branca se encontra com a Negra. A cidadezinha simpática se chama Caraz Dulzura pelos deliciosos doces que sua gente produz nos quais mergulhamos e nos lambuzamos em um comer que não acabava mais. Nesses dias consumimos quilos de doce de leite, balinhas de mel e biscoitinhos de massa folhada recheados de doce de leite. O Hostal Perla de los Andes fica na Plaza de Armas que tem um coreto e à tardinha as pessoas vêm passear com suas crianças e casais jovens ficam por ali aos beijinhos. Houve uma festa com apresentação de danças folclóricas e do Hostal assistimos tudo. Em Caraz organizamos dois passeios: um ao Lago Parón e o outro para conhecermos as Puya raimondii. No próximo boletim explicarei do que se trata. Em todos os dois subiríamos a uma altitude de 4.200m. No dia seguinte partimos para o Lago. Contratamos um táxi e fomos subindo por uma estrada bem poeirenta e estreita. O carro ia batendo nas pedras ou as pedras nele e nós cambaleando lá dentro. Passamos por pequenas propriedades cujos moradores usavam arados bem antigos puxados por bois, por encostas parecidas com colchas de retalhos, nessa época em tons amarelados, e por montes escarpados e escuros. Mais em cima começam os montes nevados. Finalmente chegamos ao Lago. Muito bonito, se destaca pelo azul e por ter ao fundo um monte nevado muito alto em forma de pirâmide. Os lagos da Cordilheira Branca tanto são bonitos quanto perigosos para a população das cidades do Vale (Callejón de Huaylas). A maior causa dos desastres é o nível da água desses lagos situados nas altas montanhas. O aumento do nível se dá subitamente por uma avalanche ou lentamente pelas chuvas ou pelo degelo. As finas paredes naturais se rompem e a água desce como uma enxurrada até o vale. Um terremoto também pode causar o rompimento dos lagos. Como é uma região de terremotos, já dá para ver o que pode ocorrer. Quando isso acontece a água junto com a neve derretida, lama, rochas, desce velozmente, destruindo tudo e sepultando cidades e pessoas. Foi assim no terremoto de 1970. Várias cidades do vale foram destruídas e milhares pessoas ficaram sepultadas sob o aluvião. No momento as autoridades estão construindo túneis e diques para controlar o nível das águas e evitar desastres dessa natureza. O dia estava lindo, caminhamos pela margem esquerda do Parón por duas horas. Descemos para Caraz no mesmo ritmo, curvas e mais curvas e o taxi se desmanchando todo. Cansamos muito pela altitude e por nossa mal curada gripe. O ouvido continuava a doer e não houve jeito, entrei no antibiótico. Um chazinho para nós duas encerrou um dos dias mais cansativos da viagem, mas que foi bom e bonito, ah isso foi! Contratamos novamente o mesmo táxi para, no dia seguinte conhecermos as Puyas e nos deslumbrarmos com a visão da Cordilheira Branca e, haja poeira e altitude!

 Bol. 21

Cordilheira Branca (Peru) – Em busca das Puya raimondii

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Meio recuperadas da viagem ao Lago Parón nos encontramos no dia seguinte com o nosso taxista. A Cristina aproveitou o tempo de espera para engraxar as botas com um dos inúmeros engraxates da Plaza de Armas de Caraz Dulzura. Faz parte da tradição sapatos limpos e brilhantes sendo, por esta razão, a enorme quantidade de engraxates na cidade. Bem, a meu ver, as botas da Cristina jamais voltarão ao seu estado natural. Houve uma mistura de cores e o couro…Bem, ela ficou satisfeita com o novo visual. Nosso motorista passou na casa do pai e fomos de novo motorista. Hum… ficamos pensando, o caminho vai ser difícil! Isso foi só o começo, mas para conhecermos as Puya valia qualquer sacrifício. Finalmente que bicho é esse? Primeiro de tudo: não se trata de bicho. É uma planta e que planta! É uma gigantesca bromélia de quase 10m de altura, a maior de todas. Floresce em um pendão de 20.000 flores de variadas cores. Seu tronco de folhas longas, duras e cheias de espinhos atinge 2m de diâmetro. Foi atrás desse gigante que partimos de Caraz. Fomos subindo e subindo Não havia certeza se encontraríamos alguma Puya florida, mas estávamos com esperança. Curvas e mais curvas em uma estradinha com muita poeira e pedras soltas. No meio do caminho começamos a ver a Cordilheira Branca. Uma visão panorâmica. Estava lindíssima. Os cumes iluminados como se estivessem suspensos. Uma visão espetacular que por si só já valia a viagem. Nosso taxista procurava as Puya e, cada vez mais alto. Finalmente começamos a divisá-las como grandes velas contra o horizonte. Ao chegarmos próximo vimos que estavam secas. A época da floração tinha acabado. Bem que procuramos. Descemos do carro e fomos caminhando por elas Não dá para acreditar! Esta bromélia gigante é uma das espécies mais antigas do planeta podendo ser considerada um fóssil vivo. É encontrada somente nas regiões mais altas dos Andes Peruanos e Bolivianos, e nós estávamos pertinho observando essa raridade. Descobrimos que alguns troncos estavam queimados. Nos explicaram que os pastores as queimam, pois as ovelhas são atraídas pelo cheiro das flores e se emaranham nos seus espinhos terminando por morrer. Não vimos razão para queimar tal raridade. Porque não cortar suas folhas até uma altura não alcançada pelas ovelhas? Subimos esbaforidas para o nosso taxi sempre observando plantinhas minúsculas agarradas ao solo enfrentando aquele ambiente hostil e mesmo assim distribuindo florezinhas de diversas cores assim como estranhos cactos emaranhados em fios como teias de aranha dos quais brotavam pequenas flores amarelas e vermelhas. Tudo isso sem água e muito vento. Voltamos. Valeu a pena. No dia seguinte estávamos de partida para Lima. Levaríamos conosco as cidadezinhas do Vale, enfrentando terremotos e ressuscitando, o exemplo de perseverança daquela população, a beleza e o perigo dos lagos azuis presos entre as altas montanhas e o exemplo daquelas plantinhas sob condições climáticas extremas distribuindo suas florezinhas pequeníssimas de diversas cores. Levaríamos também a visão das Puya contra o horizonte teimando e teimando no processo de multiplicação para permanecerem vivas e serem classificadas como um fóssil vivo!

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Os dias em Lima (Peru)

Para quem não tinha planos para Lima, foi uma estadia longa. Planejei deixar a Cristina na entrada da cidade e rapidamente sair pela Pan-americana no rumo de Arequipa. Mudou tudo e, para melhor. O Haroldo resolveu se encontrar comigo em lá e, como a Cristina ficaria por aqui alguns dias, fiquei com ela. Ontem ela partiu e hoje chegará o Haroldo.

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Deixamos para trás Caraz Dulzura e seus doces, sua Plaza de Armas e voltamos pela mesma estrada que chagáramos. Passamos por Yungay, o belo Huascarán e, mais uma vez, o vimos imponente arredondado e coberto de gelo. A 65 km já estávamos atravessando Huaraz, depois a entrada para Chavín de Huántar e, em um instante estávamos de frente para a bela Cordillera de Huayhuash bem menor que a Cordilheira Branca, mas lindíssima, ao fundo de uma enorme planície amarela, a Puna. Paramos para um lanche. Muito privilégio! Enquanto descascávamos laranjas e tangerinas aproximou-se uma nativa acompanhada de seu pequeno rebanho de ovelhas e um netinho. Como estávamos sentadas no chão ela também se sentou e ficamos conversando por um bom tempo. Era uma mulher bonita, vestida a caráter. Estava por ali catando cocô seco de gado para fazer fogo e cozinhar. Distribuímos nossas bolachas e alguns remédios que a Cristina trazia, uma vez que se queixava de dor no estômago. Conversamos e conversamos. Batemos fotos. Os cachorros se levantaram, os carneiros também, a senhora e o netinho juntaram a trouxa, se despediram e foram caminhando devagar. Ficamos observando até que sumiram do outro lado da estrada. Um encontro bem interessante e que nos deu uma pequena noção da dificuldade daquela vida. Entramos no Troller e o motorzão foi roncando pelas quebradas, descendo devagar até Pativilca. Um grande deserto. O único verde estava ao lado de um pequeno rio que corria em um vale. Na beira da estrada diversos tipos de milho e pimenta, eu acho, são postos no chão para secar, formando um grande tapete colorido. Passamos por Pativilca, Barranca e resolvemos não entrar em Lima naquela tarde. Ficamos a 150 km em uma cidade chamada Huacho. Enfim encontramos um hotel e dormimos muito bem. A cidade é grande e, como todas as outras, à margem da Pan-americana, desorganizada e poeirenta. No dia seguinte partimos para Lima. Já havíamos feito uma reserva em uma pousada indicada no guia Lonely Planet e que nos parecera simpática e em um lugar tranquilo. De mapa na mão e, depois de muitos estudos, entramos na confusão da cidade. Quase acertamos. A dificuldade se deu pela falta de sinalização, isto é, só nas principais ruas e, assim mesmo, mudam de nome daqui pra ali. No fim tomamos um taxi como guia e constatamos que nos perdêramos no finzinho. A Pousada fica em uma rua sem saída, bem arborizada. Grandes e antigos casarões. Um deles foi transformado em Pousada e é onde estamos. Como não havia estacionamento deixamos o Troller na rua por uma noite, mas nos dias seguintes ficou estacionado aqui perto. Lima me pareceu tranquila, na verdade, muitas cidades dentro de uma só. O Centro Histórico é uma cidade. Pueblo Libre, uma outra cidade, e Miraflores completamente diferente, aquele jeitão globalizado, paraíso dos turistas. O ponto alto da cidade é, sem dúvida, a Plaza de Armas ou Plaza Mayor. Lá estão o Palácio do Governo, a Catedral, o Palácio do Arcebispado e outros edifícios exibindo enormes balcões de madeira finamente esculpidos que contrastam espetacularmente com as paredes amarelas. O palácio é um prédio imponente e relativamente novo. É de 1937 e é morada do controvertido Presidente Toledo. A catedral é lindíssima com sua magnífica portada, dentro da qual me perdi em um tour guiado a ver suas belezas muitas bem escondidas. Só uma portinha fica aberta. Chama atenção uma linda capela azul e dourada, belíssima, construída pela irmã do Inca Atahualpa que teve um caso amoroso com Pizarro, aquele conquistador espanhol que o assassinara. Há uma fonte de bronze datada de 1650 no meio da praça ladeada pelos belos arcos das construções de forte influência espanhola mourisca. Passamos quase um dia todo no Museu de Arqueologia, Antropologia e História do Peru, um museu bem didático. Lá está toda a história dos povos que formaram este grande país, desde as pequenas tribos nômades, às culturas importantes com Chavín, Wari e, finalmente os Incas que construíram um grande império que se estendeu do Equador ao Chile. Lá também está, com todas as letras, a história da destruição deste grande império pelos conquistadores espanhóis, Pizarro e Almagro, que depois se assassinaram, até os dias de hoje, época em que as riquezas são levadas de “maneira mais civilizada”, assim como os grandes desafios das nações sul americanas para conseguir sair do outro lado.

Em Lima fomos visitar também a Huaca Pacillanca um sítio arqueológico no coração de Miraflores. Esse sítio só há vinte e quatro anos foi levado a sério e as escavações e pesquisas estão sendo feitas. Grande parte foi perdida pelas construções de casas ao redor e, por um certo tempo, ter servido de campo para Motor Cross. Pode? É bem interessante, pois a grande pirâmide escalonada é de tijolos de adobe que resistem aos maus tratos naturais e os do homem. Os tijolos foram colocados como livros em uma biblioteca, com espaços para permitir resistir aos frequentes abalos sísmicos da região. O Sítio Pacillanca deu origem a Miraflores. Enfim, andamos por Lima durante cinco dias, uma cidade com muitas praças arborizadas e bem cuidadas, de enorme confusão no trânsito, muitos taxis e ônibus, largas avenidas e, onde vive um terço da população peruana, uma cidade de oito milhões de habitantes com todos os problemas que conhecemos nas grandes cidades brasileiras. Gostei de Lima. Hoje buscarei o Haroldo no Aeroporto e, talvez amanhã já parta para Arequipa e Cañon del Colca. De lá seguiremos para a Bolívia onde o desafio será o grande Salar de Uyuni. Seja bem vindo Haroldo para mais esta aventura!

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De Lima a Arequipa (Peru)

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Com o Haroldo como motorista e eu de co-piloca e, depois de passearmos pela magnífica Plaza de Armas de Lima, partimos rumo ao sul, na direção de Nazca e Arequipa. A Pan americana a partir do fim da auto pista não é fácil. Vai beirando o Pacífico, sempre em curvas fechadas e muito altas. O Pacífico ora em grandes ondas que espatifavam em despenhadeiros, ora mais calmo chegando vagarosamente nas areias escuras das poucas enseadas. O resto é um grande deserto. É uma estrada perigosa. Antes de Nazca, ao entardecer, já começamos a ver os pequenos aviões fazendo malabarismos para mostrar as intrigantes Linhas de Nazca. É preciso ter muito estômago para enfrentar os tais voos. Eu e o Haroldo desistimos de ir. Passamos direto, pois ainda estava cedo e, logo vimos que fora uma decisão errada. A noite caiu muito rápido e o nosso Lonely Planet nos informava sobre uma pousada, à beira de uma enseada, chamada Puerto Inca. Não era cidade, povoado, nada, apenas uma pousada. A neblina apareceu dificultando mais e fomos de placa em placa esperançosos. Finalmente o nome Puerto Inca escrito em uma pedra. Estressados, saímos da estrada e fomos por uma pequena e poeirenta trilha, rezando para ter lugar. Enfim chegamos. Tinha lugar, os preços eram altos, mas já tínhamos combinado ficaríamos de qualquer jeito. Sem condições de seguir adiante. Um bom banho e um jantar com vinho boliviano que ficara esquecido na confusão de nossa bagagem desde os tempos da Tamara encerraram um dia bem cansativo. O vinho não era bom, o peixe estava demasiado temperado, mas a cama era excelente e o sono nos pegou antes da hora. No dia seguinte passeamos pela praia. O mar estava batendo muito forte nos penhascos de estranhas formas e uma névoa cobria tudo. Que diferença do nosso mar do Ceará, tranquilo e transparente, quebrando mole nas praias de areias brancas! Saudade de casa! Quando estávamos arrumando nossa bagagem para mais um trecho para Arequipa um funcionário da pousada chamou atenção para um vazamento de óleo na roda traseira. Hum, transtorno à vista! A mais ou menos dez quilômetros paramos em um Grifo (posto de combustível) e descobrimos que havia um vazamento no retentor do eixo traseiro e o óleo do diferencial estava abaixo do mínimo. Ainda bem que o Haroldo estava por perto. Eu não sei nem o que é um retentor. O fato é que de Grifo em Grifo, olhando o nível do óleo, chegamos a Camaná uma cidade grande de onde a Pan-americana se afasta do Pacífico e sobe para Arequipa. Paramos à procura de um taller mecánico . A polícia nos ensinou um. Deus me livre e guarde! Foi a primeira exclamação. A oficina era um amontoado de pneus, latas, garrafas e flores. O Haroldo explicou o que estava ocorrendo e rapidamente a roda começou a ser desmontada. Puxa daqui e afasta dali veio o diagnóstico: o retentor estava estragado. O Haroldo me disse que quando viu o rapaz desmontar cuidadosamente a roda já ficou mais tranquilo . Havia muita competência. O hábito não faz o monge, já dizia a vovó. E foi assim que tivemos que dormir em Camaná, que um dia fora uma cidade balneário e que um dia fora destruída por um tsunami. Hoje é uma cidade como outra qualquer. Para nós, muito importante, pois subir para Arequipa com aquele vazamento iria ser um problema bem sério. De Camaná subimos 2.325m até chegarmos. Vimos logo que não ia ser fácil conseguir um hotel. Multidão de turistas. Fomos descendo de hotel para pousada daí para alojamento e nada! Um motorista nos levou ao La Gruta bem longe do Centro. Era um lugar tranquilo, perto de uma praça arborizada, uma espécie de condomínio fechado. Só restava um quarto. Era bem interessante, com um jardim interno e assim ficamos dois dias muito bem instalados em Arequipa, pagando os tubos. Se fui pobre não me lembro! Frase da minha cunhada Ruth e, muito bem empregada nesta situação. Olá Ruth me lembrei de você! Beeijo!

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Arequipa – A Cidade Branca (Peru)

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Contam que Arequipa é chamada de Cidade Branca por suas construções de tijolos de silar que refletem ao sol, mas contam também, que é assim chamada, pois no seu núcleo principal moravam os brancos espanhóis. Não importa a explicação o certo é que ela brilha ao sol do dia, que é muito forte. Arequipa é uma linda cidade. O Vulcão El Misti, de cone perfeito, emergindo por detrás da Catedral que brilha durante o dia tornando-se alaranjada ao entardecer, os arcos espanhóis que ladeiam os outros três lados da Plaza de Armas, o magnífico Monastério de Santa Catalina e o Museu Santuários Andinos fazem com que seja uma cidade espetacular. Tomamos vários cafés nos balcões dos restaurantes da Plaza de Armas olhando para a Catedral e para os arcos do outro lado da Praça. Passamos uma manhã visitando o Monastério Santa Catalina, de paredes grossas e coloridas, que ocupa uma quadra da cidade. Fundado em 1580 por uma viúva rica, Maria de Guzmán, abrigava as noviças que chegavam de ricas famílias espanholas. Tradicionalmente as segundas filhas eram recolhidas a conventos para viverem em casta pobreza. No entanto neste longínquo monastério elas viviam de maneira privilegiada podendo até ter escravas para servi-las. Esta situação durou muitos séculos até que a Irmã Josefa, uma dominicana de pulso de ferro, acabou com tudo, mandou todo mundo de volta para a Europa e libertou as servas. A partir daí o convento viveu misteriosamente encerrado pelas grossas paredes, até que em 1970, foi obrigado a se modernizar, sendo então aberto ao público. A visita é guiada e torna-se cansativa pelo tamanho e repetição dos ambientes. Para mim, o ponto alto das atrações de Arequipa foi o Museu Santuários Andinos. Este museu abriga “Juanita” a bela menina encontrada no Vulcão Ampato ali perto. O vulcão com 6.380m guardou por mais de 550 anos esta Bela Menina Inca que, no momento de sua morte, devia ter de 12 a 14 anos de idade. Ela foi oferendada a Apu Ampato o deus da montanha. Seu corpo, encontrado congelado, com roupas, objetos pessoais e oferendas, vem sendo meticulosamente estudado. Juanita está exposta em uma câmara refrigerada. A perfeição dos traços, cabelos, pele, estado das roupas finamente bordadas é impressionante. Impressiona também o respeito com que os guias tratam o ambiente. A visita emociona a todos. De certa forma Juanita alcançou a imortalidade. Seus ancestrais e a Civilização Inca morreram e ela permanece naquela sala escura com iluminação dirigida, respeitosamente observada por todos que por ali passam. Parabéns à Universidade Católica de Santa Maria que topou o desafio da responsabilidade presente e futura da sua preservação. Um senhor desafio e uma lição de respeito pelo rico Patrimônio Cultural do Peru. Parabéns, parabéns, muitas vezes!

Bol. 25

O espetacular Cañon del Colca (Peru)

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De Arequipa seguimos para Cabanaconde uma pequena vila situada à beira do segundo Cânion mais profundo do planeta (3.000m). Estávamos muito curiosos. Resolvêramos ir para Cabanaconde ao invés de Chivay porque ali estaríamos mais perto da Cruz del Condor o lugar de onde se pode apreciar bem de pertinho o voo dos imensos condores. O Colca é espetacular. Não impressiona por suas cores como o Grand Canyon ou a Chapada dos Guimarães. Impressiona por sua profundidade e pela diversidade de paisagens. No fundo do cânion Perto de Chivay, onde ele é menos profundo, a paisagem de terraços plantados lembra uma colcha de retalhos bem trabalhada em cores outonais. Perto de Cabanaconde onde ele atinge a maior profundidade há pequenas vilas onde não há estradas. Toda a atividade é feita por trilhas, a pé ou em mulas. Muitas pessoas que veem ao Colca fazem caminhadas de três a quatro dias por estes pequenos pueblos perdidos. Um outro mundo, um outro tempo, me disseram. No dia em que as vimos estavam iluminadas pelo sol da tarde. Em Cabanaconde encontramos uma pousada bem simpática, de tetos floridos. Caminhamos aproveitando o resto da tarde e nos maravilhamos com a paisagem. Dormimos um bom sono. No dia seguinte cedinho saímos para ver o voo dos condores. A estrada do Colca não é uma estrada de verdade, é uma trilha beirando o cânion, muito poeirenta e cheia de curvas. Fomos por ela até a Cruz del Condor e esperamos que o sol esquentasse. De repente os condores começaram a aparecer, um ou dois, depois vários naquele voo majestoso. Centenas de pessoas se encarapitavam onde podiam. Fotografias foram batidas, muito artesanato foi vendido e, cada vez mais condores sobrevoavam tudo. Para mim que tinha visto um só condor na Patagônia e assim mesmo lá no alto, foi o máximo. Quando saímos eles continuavam a voar com suas pontas de asas parecendo garfos. Espetacular! Voltando a Chivay fomos ao mercado fazer umas comprinhas Seguiríamos junto com duas vans que iam a Puno. Eles iam por um caminho diferente, sem necessidade de voltar a Arequipa. Fomos juntos. Vimos Chivay desaparecer nas curvas fechadas, passamos por um ponto muito alto, quase 5.000m e entramos na trilha. Era uma trilha sem mapa. Só para gente que conhece bem a região. Lá para as tantas encontramos um casal que vinha a pé em direção contrária. Pediam carona, pois o carro no qual andavam havia quebrado e já caminhavam em direção a Chivay por três horas. Cruzes! Estavam exaustos. Paramos para um piquenique e então soubemos dos detalhes. O casal havia alugado um Fiat Uno em Lima e estava indo para Puno. Eram israelenses e não falavam uma palavra de espanhol e, segundo o rapaz, que se expressava em um inglês mais ou menos, nada entendia de mecânica. Meu Deus! Tive pena e pensei em mim nesse meio de mundo também sem falar direito outros idiomas e sem entender nadica de nada de mecânica. Pois bem, terminado o tal piquenique e já com eles em uma das vans, partimos. Quando chegamos ao local vimos que o carro, coitadinho, passara em cima de uma enorme pedra, arriara parte das tripas e havia um rastro de óleo. As tripas foram amarradas. As vans tinham que partir, pois estavam cheias de turistas franceses que queriam chegar a Sillustani e Puno ainda naquele dia. O resultado foi que não tivemos coragem de deixa-los ali por perto e fomos rebocando o pobre Fiat com os dois passageiros por mais de 100 km até uma cidade chamada Juliaca. Nos despedimos, eles muito agradecidos. Disse a ela que essa seria uma viagem inesquecível. Sem nos conhecermos seriamos para sempre lembrados de um lado e de outro. Ela me disse que essas são surpresas desse tipo de viagem. Que bom! Já era noite quando chegamos a Puno. Encontramos os amigos das vans que nos ajudaram a encontrar um hotel. No dia seguinte trocamos o óleo do carro, filtro de ar, demos uma boa lavada, fomos às Ilhas Flutuantes de Uros, que o Haroldo queria conhecer. Fui junto para mais uma vez ver a Totora dourada ao sol da tarde e os moradores da ilha vendendo seus artesanatos, alegres e felizes. Havia um casamento e todos dançavam. No dia seguinte mais uma vez estaríamos na estrada agora rumo ao Salar de Uyuni na Bolívia. Iríamos pela fronteira de Yungay, passaríamos por Copacabana e, mais uma vez, eu veria o lindo azul do Lago Titicaca e seus 3.800m de altitude. Já estou acostumada. O Troller ainda não se acostumou. Reclama para arrancar. A altitude e o frio não lhe fazem bem. Já nos disseram para jogar um pouquinho de gasolina na entrada de ar. Ainda não tivemos coragem. Vamos deixar a coisa ficar pior. Uyuni vem aí com suas baixas temperaturas. Vamos conferir!

Bol. 26

Baixas temperaturas no Salar de Uyuni (Bolivia)

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Entramos na Bolívia, agora a caminho de Uyuni, pela fronteira de Yungay. Fronteira tranquila e bem organizada. Passamos pela confusão de El Alto e descemos por uma estrada boa até Oruro, a cidade da Diablada. Dormimos por lá. Muito frio. No dia seguinte fomos descendo para a pequena cidade de Uyuni. Em Challapata, pertinho de um enorme lago super azul, o Lago Popoo, abastecemos o Troller e pegamos a estrada sem asfalto, na realidade uma trilha de 180 km de curvas, sobes e desces, passagens molhadas e uma poeira finíssima que entrava de Troller adentro entupindo nossos narizes. Geeente! Só vem aqui quem tem negócio! Passamos por vilas muito pequenas e empoeiradas. Deixamos para trás caminhões que não conseguiam subir as ladeiras de pó solto e outros que haviam escorregado pelas valas. Pouca gente. Sem saber direito o caminho fomos seguindo pelo chão mais trilhado. Muito vento e redemoinhos de poeira. De repente a cidade vai surgindo como um milagre. Como é que pode, depois daquele nada surgir uma cidade como Uyuni? Uma cidade pequena, mas bem organizadinha. Muitas agências de turismo, pousadas para todos os gostos. Muitos mochileiros naquele vai e vem normal. De Oruro já havíamos feito reserva para pousada e tivemos uma surpresa boa. Era superinteressante, bem transadinha. Quando entramos vimos várias lareiras espalhadas. A tarde começou a cair e o frio a subir. Meu Deus como era frio! Nos informaram que há um mês a temperatura estava doze graus bajo zero. Nossa! Tivemos sorte. Na boca da noite a temperatura era de apenas zero. O Troller nessas alturas já estava estacionado e tínhamos uma leve esperança de que no dia seguinte conseguisse sair para acompanhar uma expedição pelo Salar até a Laguna Colorada. Coisa de uns quatro dias. Ãnram…Saímos em busca de informações e tome de surpresas. Fomos a umas três agencias. De um modo geral é assim: há passeios de um dia pelo Salar propriamente dito, de três a quatro dias fazendo o Salar e outras atrações. Nesse caso a dormida é em refúgios onde ficam até 20 pessoas. A noite mais difícil é na Laguna Colorada quando a temperatura, nessa época, gira em torno de 17 graus centígrados abaixo de zero. “Como meu sinhô? Dezessete?” Deixamos passar o susto e fomos para a segunda questão. “Olha, tudo bem, mas queremos acompanhar o grupo em nosso carro”. “Que carro?” “Ah, um Jipe que aguenta tudo”. “É a gasolina?” “não não, é diesel”. “Ah não vai dar”. “Como assim”? “Vocês não vão sair do lugar”. “Moço olhe, esse Jipe já foi até ao Alaska, Patagônia!” Todo o currículo posto na mesa. E ele “Não vai dar, o diesel não funciona, aqui nem existem carros a diesel por que o diesel, nesse frio, fica espesso e não arranca”. “Que? Como assim?” Pacientemente ele foi explicando: “Todos os carros aqui são a gasolina com octanagem 97. Portanto o carro de vocês não vai andar e, além disso, já estou vendo que os pneus são sem câmara. Estouram no sal”. “Estouram? Como é isso”? “Estouram e pronto, não aguentam o atrito com o sal. Rodamos em alta velocidade para cobrir as distâncias do Salar e o sal é como vidro. Vejam, nós vamos com pneus com câmaras e três sobressalentes em cima do carro”. Ah, assim também é demais também! Já bem murchinhos decidimos que o Troller ficaria estacionado. Iríamos como todo mundo, de Land Cruiser. Pagamos cada um U$ 75,00, comemos uma pizza e fomos para a pousada preparar-nos para a aventura. De madrugada quem estourou foi o Haroldo. Sentiu falta de ar talvez pela altitude. Estávamos preocupados com a temperatura. Chegamos a conclusão que o melhor seria desistirmos da aventura. Faríamos o passeio básico de um dia. O dono da agencia não gostou muito da nossa desistência, mas devolveu o dinheiro. Havia uma fila de espera. Fomos até a farmácia, compramos uma caixa de sorochepills. O Haroldo logo melhorou. Ficamos por ali mesmo esperando pelo carro que nos levaria. Vimos todos os preparativos da outra expedição e, devo confessar, senti inveja. Estavam muito animados e bem agasalhados. Muitos deles não voltariam. Passariam direto para o Deserto do Atacama. A maior parte das pessoas faz isso. Eles partiram e nós subimos na Land e logo estávamos correndo de Salar adentro. O carro vai muito rápido e a imensidão branca, plana, sem limites, nos aprisionou. É impressionante! A claridade é muito forte e, de vez em quando, víamos carros lá longe que nos pareciam muito escuros e, pasmem, encontramos ciclistas atravessando o Salar, parecendo almas penadas. O Salar é uma enorme superfície de sal e, no caso do Uyuni, ocupa uma área de 12.000 quilômetros quadrados. Visitamos um hotel totalmente de sal que, no momento, não funciona por falta de serviços higiênicos. Saindo de lá retomamos à paisagem branca até alcançarmos a Ilha Inca Huasi ou Isla de los Pescadores, 80 km de Salar adentro. É incrível, do nada surge a ilha coberta de cactos gigantescos. Há um que alcança treze metros de altura. Desses cactos retira-se uma “madeira” cheia de furinhos da qual se fazem portas e coberturas de construções. Quando chegamos muitos carros já estavam estacionados e o nosso almoço estava sendo feito por ali mesmo. As pessoas se espalhavam pela superfície de sal e pareciam pontinhos negros. Saímos para uma caminhada subindo pela ilha e observando os cactos. Ao longe se destacava o Vulcão Tunupa. Existem tours para passeios no vulcão com dormida em Jiri, um lugarejo a seus pés. Descemos, passeamos pelo sal, almoçamos conversando com nosso guia e duas espanholas. Quando chegamos a Uyuni o sol já estava esfriando. Basta a tarde cair um pouquinho e já começa a esfriar e, foi uma noite gelada ao pé de uma lareira que não nos esquentava, tomando vinho e comendo carne de lhama. Carne deliciosa! Noite gelada meeesmo! No dia seguinte a água estava congelada e nós também. Imaginem na Laguna Colorada! Enquanto isso o Troller jazia no estacionamento. Logo de manhã resolvemos partir e… nhém, nhém, nhémnhém. O dono do Hotel queria jogar água fervendo no motor. “Não meu sinhô, água fervendo não!” O diesel estava espesso e a bateria acabou. Foi chamado um rapaz que trouxe uma bateria nova e foi assim que o Troller velho de guerra pegou meio sem querer reclamando dos sete graus bajo zero da madrugada e dos 3.700m de altitude. Pudera! Finalmente conseguimos partir. Refizemos toda a trilha, chegamos a Oruro e daí seguimos para Cochabamba deixando para trás os planos de visitar Sucre e Potosí. O Uyuni não saia da nossa cabeça e dos nossos papos. Uma paisagem intrigante, vazia, bela. Dizem que, quando o Salar está molhado, forma-se uma película de água. É como um espelho para as nuvens e o céu absolutamente azul do Altiplano e que, após rodar alguns quilômetros sobre esta película a sensação é a de cruzar o Salar de cabeça para baixo ou, melhor, de voar entre as nuvens. Deve ser sensacional! Nós o vimos seco tal qual uma praia imensa de areia muito branca cujo mar desapareceu. Na verdade desapareceu há milhões de anos. Valeu a pena!

Fortaleza, 11 de setembro de 2005

Bol. 27

O último número.

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Foi em Buena Vista, ainda na Bolívia, que sentimos os primeiros sinais de cansaço. Foi aí que resolvemos dar uma parada. Foi aí também que nos disseram que a estrada por Santa Cruz de la Sierra estava  péssima. Como o Haroldo já estava com vontade de cortar Bonito deixando para uma outra vez, resolvemos seguir a mesma estrada da ida, isto é, por San Mathias. Foi assim que trilhamos os mesmos quilômetros de terra. Passamos por San Ignácio e mais 300 km de terra e…Brasil! Estávamos de novo em Cáceres comendo pintado na brasa às margens do Rio Paraguai. Descemos para Brasília impressionados com os campos de soja, sorgo, algodão e girassóis de Rondonópolis e Rio Verde. Estrada boa, mas perigosa pela quantidade de caminhões, um atrás do outro, em velocidade alucinante. Escapamos. Chegamos a Brasília. Passamos quatro dias descansando na casa da Tamara. Obrigada Tamara e Esly por mais esta estadia gostosa, pelo papo, cerveja e pelo carinho. Decidimos subir pelas praias do Nordeste a partir de Itacaré no sul da Bahia. De Itacaré fomos a Barra Grande pela praia. Fizemos maravilhosos passeios de barco, comemos muito e olhamos aquele mar azul aprisionado pelos arrecifes fazendo lagoinhas transparentes. Meio com vontade de ficar partimos para Itaparica, estrada do Coco e Linha verde. Entramos em Alagoas e ficamos na lindíssima Barra de São Miguel. De Barra subimos mais um pouco, dormimos em João Pessoa e seguimos para São Miguel do Gostoso no Rio Grande do Norte. Daí fizemos uma trilha para Galinhos em uma enseada espetacular. Fomos direto a Pacatuba almoçar com meu pai. Quando o almoço terminou só queríamos chegar em casa. Entrei no nosso apartamento, que alegria! É bom viajar, mas como é bom chegar! E agora? Descanso desenergizada no fundo da minha rede balançando para lá e para cá. Minha cabeça, ainda está ligada no que vi e… lá longe, e de vez em quando…Como será a aventura pela Ferrovia Transiberiana que, em maio de 2006, percorrerei com a Lucinha, saindo de Moscou, atravessando a Sibéria, Mongólia e, finalmente a China? Se der certo prometo contar tudinho. Até a volta!

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Dados Pessoais:
Heloisa Helena Cunha Marques
62 anos
Casada, três filhos e cinco netos.
Professora Aposentada do Curso de Odontologia da UFC
Projeto: Avós no Terceiro Milênio
www.vovosmilenio.pro.br

Dados do veículo:
Troller 4×4 Diesel, capota rígida – Modelo T4-TDI, Ano 2003, 77.000km.
Cor Amarela
Motor MWM 2.8 Turbo Intercooler, 04 cilindros/137CV
Direção Hidráulica e Ar Condicionado
Tanque de combustível de 72 litros 
 

Dados da Viagem:
Nome: Machu Picchu e Uyuni 2005
Partida: 08 de junho de 2005
Chegada: 09 de setembro de 2005 Trecho:
Início:Fortaleza-Ceará-Brasil.
Fim: Fortaleza-Ceará-Brasil Duração: 93 dias
Quilômetros percorridos: 19.160 km

Concluindo:

Quando comecei a pensar em ir ao Peru e Bolívia, muitas pessoas tentaram me desencorajar argumentando instabilidade política desses dois países, estradas ruins e perigosas. Mantive a idéia, embora nos dias que antecederam minha partida, a Bolívia tenha entrado em turbulência e, como resultado disso, ocorriam, em todo o país, nas principais rodovias, bloqueios que deixavam veículos parados por vários dias e as pessoas impedidas de ir e vir. Eu tinha duas opções que não eram boas: a primeira seria descer o Mato Grosso do Sul, entrar no Paraguai depois no Chile pelo Atacama e, daí pela Pan-americana alcançar o Peru. A segunda opção seria subir para o Acre, atravessar a fronteira com o Peru, em Assis Brasil, e alcançar Cuzco atravessando os Andes por uma estrada péssima, futura transoceânica, que unirá o Brasil ao Oceano Pacífico. Na primeira opção seríamos reféns do frio e, na segunda, a estrada, na realidade uma trilha, praticamente inviabilizava minha viagem por ser difícil e solitária e, embora o Troller seja um Jipe robusto e estivesse armado de uma parafernália para enfrentar dificuldades, estaríamos em um só carro. Haja coragem! Hoje sei que as estradas da Bolívia e do Peru são tranqüilas e, de um modo geral, muito boas. Não senti a menor ameaça e, como trilhamos estradas longínquas e desertas!

Das dificuldades

Sem saber direito como estaria a situação da Bolívia, enquanto percorríamos o Brasil assistíamos aos noticiários. Em Cuiabá telefonei para o cônsul boliviano e, em Cáceres fui com a Tamara ao Expresso Araçatuba para informações sobre estradas e segurança. Tudo bem, nos disseram. Então, atravessamos a fronteira em San Matias. Houve um bloqueio perto de Cochabamba o qual nos obrigou a dormir no Troller, dentro de sacos de dormir, enfrentando um frio de rachar a uma altitude de 3.500m e muito vento, mas foi até divertido. Na verdade um exemplo de solidariedade. Nessa parada um caminhoneiro nos ajudou a encontrar um bom lugar para estacionarmos o Troller e “dormirmos” sossegadas e, um outro, consertou nosso fogãozinho para que, com ele consertado, pudéssemos tomar uma sopinha instantânea esquentando nosso estômago congelado. Como subimos devagar, as altitudes que variaram até 4.800m, não nos fizeram mal, embora nos primeiros momentos andinos sentíssemos a cabeça apertar, os batimentos cardíacos acelerados, falta de ar, um pouco de insônia ou muito sono e falta de apetite. O Haroldo tomou Sorechepills (pílulas para o soroche, mal da altura) melhorando instantaneamente.Rebocar por mais de 250km um pequeno Fiat Uno que se aventurara na trilha Chivay a Puno e se dera mal passando sobre pedras, dirigido por um casal israelense que não falava uma palavra sequer de espanhol e não sabia meter um parafuso no reboque, foi muito trabalhoso.

Dos acompanhantes

A não ser na Rodovia Transpantaneira estive acompanhada em todo o roteiro. Foi muito bom. Lucinha que adora caminhar me empurrou trilha acima na Serra do Roncador e, depois, trilha abaixo com meu tornozelo torcido. Tamara foi passageira desde Cuiabá até Machu Picchu e, mediu muito minha pressão! Cristina chegou a Cuzco e, juntas atravessamos as altas altitudes da Reserva Pampa Galleras, sentimos o terremoto em Ca ñ ede e as curvas e mais curvas para chegarmos à Cordilheira Branca. As duas foram minhas companheiras no heróico Alaska 2003. As três, Irmãs e amigas, agradáveis e descomplicadas. O Haroldo que divide comigo a vida e projetos ficou durante um mês enfrentando as trilhas difíceis do Cânion del Colca e os dias gelados do Salar de Uyuni. Em compensação, que maravilhosos dias calientes nas praias do Nordeste do Brasil!

Do Troller

Mais uma vez nosso Troller se comportou muito bem. Sofreu com a altitude e o frio e, aqui vale um aviso, viajar no frio e em altitudes acima de 2.500m com carro a Diesel é problema à vista. Eu não sabia nada sobre isso. O que ocorre é que em frio intenso como foi o caso do Salar de Uyuni, temperaturas próximas ou abaixo de zero, o Diesel fica espesso o que, aliado a altitudes de 3.800m e ar rarefeito, faz com que o carro não arranque. Em Uyuni não existem carros a Diesel, até os caminhões são movidos à gasolina de octanagem 97. Nesse processo perdi uma bateria e descarreguei a outra. Nos ensinaram a pulverizar a entrada de ar com gasolina ou éter para facilitar o arranque. Nem eu e nem o Haroldo tivemos coragem para isso de forma tal que ficamos sem saber se realmente funciona.Uma outra coisa que nos avisaram: rodando em grandes altitudes, como as que rodamos, o óleo deve ser mudado de 3.000 em 3.000km. Assim fizemos.

Das coisas engraçadas

Sem dúvida a chegada da Cristina em Cuzco foi delirante. Não tanto como a de Balmaceda na Carretera Austral em 2001. Houve uma greve justamente no dia de sua chegada. Não pudemos ir ao Aeroporto buscá-la. Ainda bem que havíamos combinado, caso houvesse algum desencontro, todos os dias às cinco horas da tarde em frente a Plaza de Armas. Eu e a Tamara ficamos sentadas na Plaza sob um sol de rachar esperando. Ela conseguiu transporte em um carro da Polícia, mas nos desencontramos sei lá como e só a encontramos às cinco, cansada demais com a altitude.
Nossa partida para Machu Picchu, xingando o Coco, que nos vendera os pacotes e não aparecia até a hora da partida do ônibus foi também, depois, motivo de muitas risadas. Mulheres à beira de um ataque de nervos. Quando o Coco, finalmente chegou, entregou os vouchers se mandando em desabalada carreira. Nunca mais o vimos.
Nosso hotel em Ollantaytambo, meu Deus! O emaranhado de fios do chuveiro em um banheiro compartilhado e o senhor ajudando a calientar a água “Senora hay que desnudar-se”, “Como ? ” E as duas torcendo para eu não morrer eletrocutada. Tamara preferiu ficar sem banho.
Outra situação ocorreu em Águas Calientes, quando nosso guia tentou levantar-nos, às 05:00 para subir a Machu Picchu e ver o “nascer do sol” debaixo de uma chuva torrencial no único dia de chuva durante a viagem. Conseguiu lá pelas 10:00 porque fincamos os pés: “debaixo de chuva ? De jeito nenhum!” Justamente em Machu Picchu ? Ah, os deuses!
Nossas caras de horror quando o gerente do hotel, em Uyuni, apareceu com uma panela de água fervendo para jogar no motor dizendo que com aquele tratamento o Troller pegaria. Água fervendo não! Dias e noites sapateando no frio de Uyuni. Quatro ou cinco cobertores pesados que faziam com que nossos pés dormissem sempre em quinze para as três e amanhecessem doendo, doendo! “O que dá p’ra rir dá p’ra chorar, questão só de peso e medida, problema de hora e lugar…”

Das bonitezas

O Peru é um país muito bonito e vai muito além da bela Cuzco e a espetacular Machu Picchu. Quatrocentos quilômetros ao norte de Lima fica o Parque Nacional Huascarán com os picos nevados da Cordilheira Branca, as pequenas vilas do Callejón de Huaylas Huaraz, Carhuaz, Yungay e Caraz de onde, de boca aberta, vimos o anoitecer do soberbo Huascarán mudando suas cores conforme a luz do sol, branco, amarelo, laranja, vermelho (dizem que são 13 cores), as Puyas, os lagos azuis nas montanhas e…Chavín de Huántar. Nossa! Na entrada do vale fica a bela Cordilheira Huayhuash que se destaca na puna amarela lá onde paramos para um lanche e conversamos com uma nativa de roupas coloridas, seu netinho e ovelhinhas que buscavam leite mamando nos nossos dedos. Em Arequipa os arcos da Plaza de Armas onde fica a enorme catedral atrás da qual emerge o vulcão El Misty, perfeito! O espetacular Museu Santuários Andinos, para mim, o ponto alto da cidade, que guarda “Juanita” a bela menina inca ofertada aos deuses da montanha, encontrada congelada 550 anos depois, seus pertences coloridos perfeitos. Como se não bastasse tanta beleza lá pertinho está o Cânion del Colca, o segundo mais profundo do planeta com direito a vôos de majestosos condores sobre nossas cabeças. Meu Deus! Aconselho a todos.
Na Bolívia o Circuito das Missões dos Jesuítas na região de San Ignácio de Velasco, suas igrejas perfeitas, de colunas finamente esculpidas, altares esplendidos e paredes pintadas pelos índios chiquitanos, perfeitamente restauradas e muitas bem preservadas, talvez até pela dificuldade de acesso. Muita poeira em estradinhas de chão. O azul, super azul do Lago Titicaca, ilhas flutuantes, do Sol e Taquile e, ao sul, os 12.000 km quadrados da intrigante paisagem branca e gelada do Salar de Uyuni.
No Brasil, a Chapada dos Guimarães de cânions impressionantes, pôr do sol que tinge os despenhadeiros com cores alaranjadas e douradas; a Rodovia Transpantaneira e suas 125 pontes, pássaros jamais vistos, jacarés preguiçosos durante o dia, à noite transformados em centenas de olhinhos como luzes pontilhando as lagoas sob o facho de nossas lanternas e, as lindas praias nordestinas, que me desculpem as outras, as mais bonitas do planeta, areia branca, mar transparente de águas mornas. Roteiro espetacular! Foi bom demais! Será que minha cabeça vai caber tanta beleza ? Continuo dizendo para as vovós e netinhos que as estradas são bem ali e nada melhor para conhecer o mundo do que ir por elas quer de carro, bicicleta, moto ou uma boa bota e mochila nas costas. Animem-se!

Agradecimentos

Ao Haroldo, meu companheiro meu agradecimento super, super especial. Organizou, com muito carinho o Troller facilitando muito a viagem.
Ao Pedro Carapeba da Trilhafort que sempre acredita nos meus “projetos malucos”.
Aos meus acompanhantes, Lucinha, Cristina, Tamara e Haroldo pela companhia agradável, descontraída e por confiarem em mim, sem restrições!
A todos que me incentivaram, acompanharam com E mails e àqueles que me ajudaram a encontrar os caminhos andinos muito obrigada e até a próxima.

Me acompanhem no roteiro de Moscou a Pequim pela Ferrovia Transiberiana! Maio de 2006.

Heloisa Cunha
Fortaleza, 20 de setembro de 2005.

4 respostas a Machu Picchu e Salar de Uyuni 2005 – Peru e Bolívia

  1. Heloísa, adorei seu relato sobre a Transpantaneira. Irei para lá esse ano em agosto e é muito bom ler diários como o seu…
    Espero ter tantas histórias para contar como a sua.

    Parabéns!
    abçs
    Silvia

  2. Estou arrepiado !!!, você é um exemplo de vida, se todo mundo soubesse o que é realmente este relato maravilhoso que aqui transcreve talvez o mundo seria bem melhor. Um dia terei o prazer de te dar um abraço, muita sorte pelos caminhos, que Deus te abençoe, até…

    Erivelto Perin Salles
    Passo Fundo – RS

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