02 de dez

Carolina – Maranhão 2004 – Brasil

Primeiro dia: 14 de abril
De Fortaleza no Ceará a Floriano no Piauí.
Distância: 881km


A viagem começou às 05:30. O dia amanhecia no Ceará. O Troller foi arrumado com as ferramentas normais, sem a famosa roldana para içar pneus furados, que me acompanhara ao Alaska. Partimos do pressuposto que três vovós, unindo esforços, conseguiriam içar qualquer pneu acontecesse o que acontecesse. Deu tudo certo, nada de pneus furados! Peguei a Tais Helena que mora aqui perto e que, embora tenha ouvido muito “nadademuitaroupa”, levava uma bolsa preta grande, compensada por uma outra cheia de deliciosos sanduíches, sendo por isso perdoada de todos os pecados. Haja força para tirar a tal bolsa do banco de trás do Troller! Lucinha, vovó passageira do mundo, já me esperava na porta da casa lá no Sítio Boqueirão em Pacatuba, onde mora. Tomamos um café preto com meu pai e a Silvia, a foto da partida e fomos embora pela BR222 no rumo de Sobral. Muitos buracos entre Itapagé(Ce) e Sobral(Ce). Nunca deram jeito naquele trecho! Entre um sanduíche e outro, lembrávamos nossa infância, grande parte vivida no Sítio Boqueirão. Boas lembranças e muito riso! De tanta conversa e comida acabei me distraindo, errei a estrada, velho costume, entramos para Picos(PI), percorrendo, ida e volta, 46 desnecessários quilômetros. Em Floriano dormimos no Hotel Rio Parnaíba, após um jantar bem gostoso, apesar de todos os sanduíches, frutas e outros.Hotel em Floriano:
Hotel Rio Parnaíba – Telefone(89) 522-1039
Tem restaurante
Boa dormida

Segundo dia: 15 de abril
De Floriano no Piauí a Carolina no Maranhão
Distância: 578km

As 09:00 estávamos prontas e colocando as mochilas no Troller. É verdade que agora havia mais lugar para a tal bolsa preta, pois havíamos devorado as provisões no primeiro dia. As estradas do Piauí estão excelentes, mas ao nos aproximarmos de Balsas, já no Maranhão, a coisa começou a ficar diferente. Primeiro alguns buraquinhos, depois enormes crateras. Anoitecia quando resolvemos parar em uma bodega de um lugarejo chamado Riachão e distante 105km de Carolina. A chuva estava forte, tomamos café e pedimos informações sobre o que nos esperava mais à frente. Um senhor, que mais parecia o Antônio Conselheiro, nos informou que o caminho estava cortado perto de Carolina e que se formara uma fila de carretas carregadas de soja com mais ou menos três quilômetros de extensão de um lado e outro do tal buraco. Resolvemos ver de perto o que estava ocorrendo. É que muitas vezes as pessoas gostam de exagerar na informação. Realmente a estrada estava péssima, grandes buracos e muita água. A confusão era grande. Abrira-se uma enorme cratera que fora “consertada”, no entanto, tratores de plantão puxavam as carretas que atolavam. Enquanto esperávamos, conversei com outras pessoas na nossa mesma situação. Ninguém nervoso. Ótimo! Chegou a nossa hora e passamos tranqüilamente pelos sulcos profundos deixados no lamaçal. Palmas e mais palmas.Tudo certinho. Chegamos ao Hotel do Lajes já escurão. Estávamos cansadas, mas deu tempo para um bom banho, jantar e pedirmos um guia para o dia seguinte. Vale salientar que a Tatá passou a noite fazendo visagem, carregando o colchão de um lado para outro do quarto sem que entendêssemos nada. No fim de tanto zanzar com o tal colchão, terminou levando uma queda de cima da cama e finalmente dormiu. Mulé!

Hotel em Carolina:
Pousada do Lajes – Telefone: (99) 531-2348
Na entrada da cidade. Super agradável.
Não tem restaurante, mas há um em frente.
Boa dormida.

Terceiro dia: 16 de abril
Uma janela para a Chapada das Mesas,
Cachoeiras da Pedra Caída e da Pedra Furada.
Caminho: Troller no asfalto e trilha a pé.

Durante o café, nosso guia chegou. Falamos de nossas expectativas, queríamos ver tudo. Ele não deixou por menos. Durante quatro dias vimos muita coisa da Chapada das Mesas. É bem verdade que, no quinto dia, estávamos bem estropiadinhas. Bem, com o Luís instalado dentro do Troller, merenda para mais tarde e muita disposição, partimos para o que seria o primeiro dia de excursão. A Cachoeira da Pedra Caída dista mais ou menos 35km de Carolina. O acesso é por estrada de asfalto. Na metade do caminho, do lado esquerdo, lá no alto, em uma enorme formação de arenito, vê-se nitidamente o Portal, lindo, e que curiosamente, tem a forma do estado de Tocantins. Excitação dentro do Troller. Entramos em uma pequena trilha, subimos um pouco de mato adentro, estacionamos e iniciamos a caminhada sob um sol já bem alto. Chega-se por trás e a vista do cerrado abaixo, várias mesetas e enormes paredões de arenito, nos deslumbraram. Puxa, que beleza! E aquilo era só o começo. Vimos flores delicadas e bem diferentes presas ao arenito alaranjado, balançando ao vento, lindas, algumas lembrando violetas outras pontinhos de fibra ótica. Ficamos por ali apreciando tudo. O Morro do Chapéu, lá bem longe, olhava para nós como a duvidar que o escalaríamos um dia… Uma vez dentro do Troller, agora era a vez de visitarmos algumas cachoeiras e assim foi feito. Primeiramente a da Pedra Caída e depois a da Pedra Furada. Elas estão situadas em propriedade privada, há uma pequena pousada e um restaurante. Lá encomendamos nosso almoço, que constaria de um peixe frito chamado Tambacu e de Maria Izabel, o famoso arroz com carne de sol. Descer para a Pedra Caída não é difícil, há uma escada íngreme e bem conservada, depois vem o rio. Assim fomos todos rio acima, caminhando. Um tropeção aqui, uma queda ali, um escorregão acolá e jaz o guia, coitado, quase esmagado por uma vovó distraída com os enormes paredões cheios de samambaias, cipós e água para todos os lados. Após uma curva, meu Deus, que maravilha! Abre-se um enorme salão ladeado de paredões altíssimos que vão fechando lá em cima e a água despenca. Maravilha, maravilha, tivemos muita sorte. O sol se infiltrava e iluminava não só a abertura como a água na qual estávamos mergulhadas. Olhando para trás o caminho estava sob uma névoa que esmaecia os contornos, enfim, estávamos no sonho. Uau! Infelizmente a água não nos deixou fazer uma única foto. O guia nos tirou dali quase à força. O tempo estava passando e a Pedra Furada nos esperava. Subimos a escada, e dali caminhamos por três quilômetros no cerrado até outra escada, esta bem mais rústica e empinada. A escada era o de menos, a caminhada dentro do rio foi bem mais difícil que a anterior, talvez até por estarmos mais cansadas. A cachoeira é menos majestosa que a Pedra Caída, mas muito bonita. Bastante molhadas fomos subindo a “escada” e aí desabou um temporal com trovão e todo o acompanhamento. O almoço estava ótimo. Na volta ainda visitamos uma ONG que beneficia as frutas trazidas pelos índios. Compramos suco de cupuaçu, bacuri, buriti, açaí e, durante todos os dias em Carolina, nos deliciamos com eles. Cada dia um mais gostoso! Eu ainda sou mais o de cupuaçu. Delicia! Nesse dia dormimos como pedras.

Nosso guia Luís
Luís Ernandes
Telefone em Carolina: (99) 531-2287
Excelente guia. Muito educado tem um enorme prazer em mostrar as belezas da região.

Quarto dia: 17 de abril
O direito e o avesso da Cachoeira de São Romão
Pouco asfalto e muita trilha no cerrado

São Romão foi a cachoeira do dia 17. Foi espetacular! Um pouquinho de asfalto e nos vimos em uma trilha com 4×4, redução e muita emoção. Por causa da temporada de chuva fomos por um caminho mais longo, pois o mais curto estava muito difícil. Foram 70km de atoleiro e areia, cerrado adentro. E que cerrado! Na realidade uma savana de capim alto, com seus pendões inclinados pelo vento de uma forma extremamente bonita. Chegamos a São Romão. Também fica em uma propriedade privada e é tudo bem simples. Há uma pousada simplérrima, com chalés de taipa, tudo muito limpo. Encomendamos nosso almoço, uma galinha caipira. Quando descemos para a cachoeira ouvimos seus últimos gritos antes de mergulhar em uma panela. A caminhada é curta e fácil. A cachoeira é enorme, parece a cachoeira Da Velha no Jalapão só que bem mais alta. Uma cachoeira com o padrão diferente daquelas que havíamos visto no dia anterior. Uma cachoeira a caráter, em ferradura, bem alta e em queda livre. Tomamos um banho, olhando para ela, no rio que desce tranqüilo. A tranqüilidade durou até que o Luís nos levou para uma caminhada pelo avesso da São Romão. Lembram do esconderijo do Zorro? Mais ou menos aquilo. Fomos nos agarrando às rochas. O estrondo ensurdecedor e os olhos cheios de água impediam qualquer conversa e só conseguíamos distinguir o paredão, ao qual nos agarrávamos com unhas e dentes, e o vulto do guia à nossa frente. Enfim chegamos a uma pequena gruta. Paramos a observar a cortina d’água e espuma, o avesso da São Romão, agora com os olhos desocupados. A sensação é muito forte, todos os sentidos aguçados. Na parede da rocha escura, resplandeciam milhares de gotículas agarradas às extremidades das avencas que compunham um tapete verde e tudo brilhava. Beleza, beleza! Nunca havia visto tal coisa! Não fizemos todo o percurso. O Luís achou que estava ficando muito perigoso. Quando voltamos, esfomeadas, já havíamos esquecido dos gritos da pobre galinha. A comida estava deliciosa! Um descanso, e começamos a voltar. Sete quilômetros adiante, a Tatá se lembrou da mochila esquecida em algum lugar. Tatá, Tatá! Foi um bom esquecimento, pois trilhamos a savana ao entardecer. As estranhas formações de arenito iluminadas pelo sol poente estavam avermelhadas, o capim dobrado pelo vento estava dourado. Pássaros diferentes passaram por nós, seriemas correram agrupadas, á frente do Troller, e nunca saíam da frente, um veado campeiro passou, correu, desapareceu sob nossos protestos, a noite chegou. Paramos o Troller para ver o céu hiper estrelado. Dia perfeito, noite perfeita, céu perfeito, lindo, lindo! Que lugar! E fico repetindo: lindo, espetacular, belíssimo! Amo o Saramago quando diz “lástima tem o viajante de que uma linha de palavras não seja uma corrente de imagens, de luzes, de sons, de que entre elas não circule o vento, que sobre elas não chova, e de que, por exemplo, seja impossível esperar que nasça uma flor dentro do o da palavra flor”. Gênio!

Quinto dia: 18 de abril
Morro do Chapéu e o recanto surpresa do Luís
Pouco asfalto e 30km de trilha até o pé do Morro

Nesse dia vovó Tais resolveu dormir mais um pouco. Estava cansada. Eu e a Lucinha escalaríamos o Morro do Chapéu. O Luís nos disse que teríamos uma visão de 360º da Chapada das Mesas. E fomos nós. Foi duro! O sol estava muito forte e a subida de 378 metros é bem íngreme. Suamos bastante. Nossas míseras garrafinhas de água não deram nem para começar. Ainda bem que o Luís, experiente, levara 3 litros de água, consumidos até a última gota. Lá em cima é bem plano, capinzal e árvores retorcidas do cerrado. Fizemos uma pequena caminhada até a ponta.O penhasco é assustador. Realmente a vista é sensacional. Sentamos, fizemos um lanche, conversamos e começamos a descida que é bem pior que a subida. Teve de tudo, pedras rolando, gente escorregando, ajuda de corda e, sobretudo, muito suor. Realmente, na primeira etapa as pedras são soltas e todo o cuidado é pouco. Felizmente nada ocorreu. Pegamos o Troller e partimos no rumo de Carolina em busca da Tais. Do hotel o Luís nos levou ao “recanto surpresa”, segundo ele. Um lugar muito bonito com várias cachoeiras pequenas, de água muito limpa e de areia avermelhada. Brincamos como crianças. A água estava muito gostosa e estávamos muito alegres. Bonito entardecer nas cachoeiras surpresa. Obrigada Luís por nos mostrar lugares tão bonitos! Na cidade, uma esquina, uma casa de sorvete e lá estávamos sentadas com sorvetes de cupuaçu várias vezes repetidos. O Luís ainda nos levou para um pôr-do-sol sobre o Rio Tocantins. Rio enorme, manso, de reflexos dourados. Uma balsa levava vagarosamente carros e pessoas para o outro lado, uma cidade cujo nome é Filadélfia. Deixamos o Luís em casa. No dia seguinte deixaríamos Carolina e iríamos para Riachão. O Luís nos acompanharia. Conheceríamos a cachoeira de Santa Bárbara e o Lago Azul. Estávamos longe de saber o que mais nos aguardava!

Sexto dia: 19 de abril
Riachão: Cachoeira de Santa Bárbara
Lago “Azul” e Lago sem nome
105 km de asfalto até Riachão e 30km de trilha boa

A caminho de Riachão visitamos, de passagem, as Cachoeiras Gêmeas ou de Itapecuru. A meu ver nada de especial. O local tem uma pousada e alguns bares que enchem todo final de semana, música alta e confusão. Parece que estou vendo. Fomos embora. Ao chegarmos ao local da Santa Bárbara constatamos meio decepcionadas que o Lago não estava azul. O Luís nos explicou que nessa época chuvosa as águas barrentas se misturam com as águas límpidas do rio que alimenta o lago e, cadê o azul? Bem, para se chegar à Santa Bárbara, de novo caminhamos pelo rio e de novo algumas quedas, escorregões e olha eu lá pendurada em um cipó que nem a Jane do Tarzan, com a diferença de que, no meu caso, dei com os costados em uma árvore e fiquei meio sem jeito enquanto todos riam. A cachoeira segue o padrão Chapada das Mesas, no entanto é muito alta, são 76 metros. Estava com muita água e não tivemos coragem para um banho. Banho? Só depois. Perto há uma gruta cheia de morcegos. Ficamos em cima das pedras admirando tudo e descansando para retornarmos ao “Lago Azul”. Despencando no lago há uma cachoeira em cachos muito bonita. A Lucinha se meteu em um buraco e ficou por lá como se estivesse em um ofurô, só a cabeça de fora. Enquanto isso, Tais Helena e eu, calmamente nadávamos para lá e para cá, descansando. Com isso o tempo foi passando e nós morgando e começando a nos despedir do paraíso. De repente o Luís disse que nos levaria a um lugar sem nome no fundo de um cânion. Um poço de águas transparentes e azuis que havia sido descoberto há dois anos. Era uma trilha a pé, bem precária e difícil para três vovozinhas de combalidas forcas. E lá fomos descendo e descendo, sendo amparadas aqui e ali, agora por dois guias. E puxa daqui, e agacha dali para ultrapassar uma cerca e cai d’acolá e chegamos a um local paradisíaco, imprensado por rochas altíssimas. A água totalmente transparente de um azul turquesa que eu só vira no Poço Encantado da Chapada Diamantina e na Gruta do Lago Azul em Bonito. A diferença é que aqui tomávamos banho. A água é tão transparente que fica difícil definirmos limites. E como tomamos banho e nadamos! Pena que o dia já estava indo e o escuro chegou mais cedo nos obrigando a subir. E que subida! Foi fogo! Lá em cima trocamos nossas roupas ensopadas e partimos rápido para chegarmos ainda naquele dia a Balsas. Deixamos o Luís na Rodoviária de Riachão e já estávamos na estrada buraquenta.

Hotel em Riachão:
Pousada da Cachoeira de Santa Bárbara
Telefone: (99) 9642.4261 e (99) 531.0337
Local tranqüilo e agradável
Tem restaurante.
Não dormimos mas nos pareceu bom.

Hotel em Balsas
Hotel Mangueiras
Telefone:- (99) 541-2043
hmangueiras@armateus.com.br
Boa dormida, bom atendimento, bom café da manhã

Dias 20 e 21 de abril
O retorno

O Luís ficou acenando. Obrigada Luís, por nos guiar com tanta competência nos levando a lugares tão bonitos e, principalmente, por acreditar que as vovós agüentariam o tranco das caminhadas difíceis, trilhas lamacentas e areia frouxa de cerrado adentro. Se não tivesse apostado em nós, não teríamos conhecido o avesso da Cachoeira de São Romão e nem o Poço Sem Nome. Obrigada mais uma vez. Chapada das Mesas, lugar maravilhoso. Seu relevo montanhoso de serras e morros esculpidos pelos ventos e pelas águas, paredões abruptos e avermelhados, suas planícies, esplêndido cerrado, cachoeiras e rios de areia vermelha, ficarão para sempre na nossa memória. Um lugar para estreitar amizades e acreditar que essa idade pode ser mesmo a idade da aventura. Um tempo pronto para resolver obstáculos e de olhos tranqüilos para captar os matizes de cada cena. Obrigada Lucinha e Tais Helena pela companhia agradável, alegre e descontraída. Que venha o Pantanal no segundo semestre, e de quebra Bonito! É ou não é?

Heloisa Cunha

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