02 de dez

Chegando ao Alaska

Alaska 2003 – 47.000Km pelas Américas

Trecho Brasil: De 24 de abril a 09 de maio de 2003

Bol. 01

A partida: Saindo de Fortaleza, Ceará (Brasil)

A motorista BR001 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

Os últimos dias antes da partida foram muito atribulados. Para variar o Troller saiu em cima da hora. O Haroldo (marido) teve que se desdobrar instalando o som, bagageiro, protetores, suporte para um guincho (que deverei comprar nos EUA, isto é, se me deixarem entrar). Tiramos o banco de traseiro, adaptando um, da Pajero, bem mais confortável. Caracterizamos o Jipe com as marcas que me ajudaram e com a minha própria, e estávamos prontos. A expectativa era grande, fiquei sem dormir direito por umas noites. Imaginei que o motivo da insônia era puro medo, talvez de não conseguir fazer o que havia proposto. Enfim, após algumas reportagens, resolvi partir de vez, pois a cada dia mais coisas apareciam para fazer ou para comprar. Cruz Credo! Às 05:30 da manhã do dia 24 de abril de 2003, com a TV Verdes Mares a postos e tudo já dentro do carro, me despedi de todos que estavam lá em casa e fui direto para o Sítio tomar um café com meu pai. Imaginem só, ele havia preparado uma bacalhoada. Comer bacalhau às sete horas da manhã foi demais! Tirando o inusitado da hora, o bacalhau estava excelente. Faltou só o vinho mas também ai era demais também, não acham? A Cristina, uma das vovós que me acompanhariam e que ia se encontrar em Belém, estava lá. Que agradável surpresa! Batemos algumas fotos, o Haroldo me deu as últimas instruções, me despedi dele, já com saudade, e, antes de começarmos todos a choramingar partimos. Obrigada a todos que me ajudaram e em especial ao Haroldo, pela compreensão. Haroldo te amo de verdade! No trecho Fortaleza(Ce) a Caxias(Ma), enfrentamos muitos buracos, principalmente entre Itapagé e Sobral (Ce). Dormimos muito bem, no Hotel Alecrim. Puxa, ai sim vi o quanto estava mal dormida. No dia seguinte enfrentaríamos o trecho Caxias – Capanema(Pa). Este trecho se revelaria um sufoco, tal a quantidade de buracos.

Bol. 02

 De buraco em buraco chegamos a Belém

Para Marajo BR001 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

De Caxias para Capanema um terrível trecho de estrada esburacada nos esperava, principalmente entre Bacabal(Ma) e Santa Inez(Pa). Ficamos revoltadas. A gente paga tanto imposto! Foi nesse trecho que ao descermos do carro, parou um caminhão logo atrás pensando talvez que estivéssemos precisando de ajuda. Corremos as duas para dentro do carro imaginando logo um assalto ou outra coisa parecida. Que horror, estamos todos pirados. O motorista só queria ajudar. Seguimos em frente debaixo de muita chuva, muita, muita, quase não enxergávamos os carros que iam à nossa frente. Capanema não foi uma boa pedida. Cidade sem atrativos, mais parecida com um acampamento. Ficamos mal acomodadas, bem diferente de Caxias, mas aventura é aventura! As muriçocas, perfeitamente adaptadas aos rigores de um ar condicionado, que de tão frio, para espantá-las, me fez sonhar que já havia chegado ao Alaska. Amanhecemos com o rosto todo picado. O jantar foi um churrasquinho quase no meio da rua, acompanhado de baião, farofa e algumas deliciosas Cerpas. Que cerveja gostosa! E tem mais, tudo isso por R$ 8,00. Como é que pode? Após os cálculos matemáticos da Cristina, vimos que nossa diária havia baixado, e muito! No dia seguinte saímos o mais cedo possível. De Capanema a Belém são cento e muitos quilômetros. Até agora não conseguimos precisar os muitos, pois cada placa mostrava uma coisa, cada guia outra coisa e a cada Posto de combustível outra e outra. No fim definimos como 180 km. A chegada a Belém é bem confusa. O trânsito de um Sábado pela manhã infernal, bicicletas, para tudo quanto é lugar, gente, feira e falta de sinalização. No entanto que gente simpática. Um motorista de caminhão que transportava frutas, muitas das quais nunca havíamos visto, nos ensinou direitinho a estrada para Icoaraci onde embarcaríamos nosso Troller para Manaus. Enfim chegamos à Empresa, pouca burocracia, um cheque de R$ 560,00 e o Jipe já no pátio à espera de uma balsa. Se embarcasse no mesma noite chegaria a Manaus no dia 04. Agora já sabemos que embarcou e que chegará no mesmo dia que nós. De lá saímos de táxi direto a uma agência para comprarmos nossa passagem para Manaus. O camarote com ar condicionado, banheiro privado e três refeições nos custou R$320,00. Muito barato. Resta saber como é mesmo o tal camarote. Mas isto vem depois. Uma amiga da Cristina, também professora de matemática da Universidade e que é também Cristina, nos levou à sua casa. Um almoço delicioso em um restaurante do outro lado da baía, encerrou o dia. Comemos casquinha de mussuã, um tipo de tartaruguinha, eu acho, (não sei se assim que se escreve, só sei que estava muito gostosa e que também era de cativeiro), uma caldeirada de filhote(peixe) com jambu ( folha que deixa a língua adormecida) e mais algumas cerpinhas e… ficamos meio lesadas(morgadas). O certo que atravessei a baía, de volta, já dormindo. Ao chegar em casa, a cama era a melhor atração de Belém. Antes de dormirmos decidimos passar o fim de semana na Ilha de Marajó, com chuva ou sem chuva sendo essas nossas últimas palavras. Foi uma decisão super acertada. Que bom!

Bol. 03

Ilha de Marajó ou De como nos deparamos cara a cara com vários búfalos.

Marajo BR004 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

Chegar à Ilha de Marajó é, segundo a Cristina, “uma desorganização que funciona”. Compramos a passagem na hora. Não existem telefones que informem os horários. Fomos para as docas de onde partem os barcos e vimos que aos domingos só existe um horário 10:00. Embarcamos. O barco vai tranqüilamente por aquela imensidão de água. São duas ou três horas de viagem, depende da maré. Chega-se ao Porto de Camará. Muitas pessoas oferecem cupuaçu (nunca havia visto um). Balas, sorvetes, sim, a fruta é grande, com bagos e um cheiro forte característico e é bem azeda. Oferecem também um tal de piquiá. Chegamos à conclusão que o mesmo nosso piquí, mas não o misturam ao arroz ou feijão. Na realidade não fiquei sabendo como o comem. De lá existem vans que fazem o transporte para Soure, considerada a capital da Ilha. Na própria van se compra a passagem de volta para Belém. Tudo certinho! Ficamos na Pousada Asa Branca, bem simplesinha mas muito gostosa e tranqüila. A comida também gostosa, sempre temperada com o tucupi e haja estômago para agüentar! Caminhadas e mais caminhadas foram o melhor remédio para digerir tudo. A cidade de Soure é tranqüila. Enormes mangueiras enfeitam as avenidas que são chamadas de primeira, segunda, terceira e assim por diante, cruzadas por Travessas, também chamadas de primeira, etc.. Resolvemos fazer uma excursão a uma fazenda, para conhecermos de perto os búfalos e … bem, como funciona uma fazenda em Marajó. Foi um excelente passeio. Fomos apanhados na Pousada pela Dr. Eva, dona da Fazenda Bom Jesus. No caminho foi explicando a opção que fizera há cinco anos passados. Eva, descendente de libaneses, mestre e doutora pela UNESP (Jaboticabal), professora da Universidade do Pará, resolvera largar tudo para tocar a Fazenda onde nascera e se criara. Mostrou-nos os búfalos, lindos, enormes. Vimos como são adestrados, caminhamos pelo pasto, banhado pelo sol da tarde e tudo era dourado e de um verde intenso. Garças brancas e azuis sobrevoavam os banhados. Muito bonito! Eva, uma mulher pequena, suave, passou-nos a impressão de uma mulher muito forte. Além de tocar a Fazenda, trata, junto ao IBAMA, bichos feridos ou mal tratados pela civilização. Recebe grupos de crianças às quais fala, com muito carinho, de proteção ambiental, comportamento animal. Saímos de Soure às quatro da madrugada e já estamos em Belém, aguardando um pirarucu, feito pela mãe da Cristina de Belém, cujo cheiro está maravilhoso. Quanto tempo sem sentir os cheiros de uma cozinha temperada com alho, cebola cheiro verde e outros. Tanto tempo comendo nos famigerados self-services! No momento, penso que a Ilha deve ser visitada tendo uma Fazenda como Pousada. São costumes e cheiros que devem ser conhecidos e revisitados!

Bol. 04

Subindo o Rio Amazonas
Barco Nélio Corrêa

Barco Nelio Correia BR001 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

Estamos no segundo dia de viagem no navio Nélio Correia, já perfeitamente adaptadas a seus barulhos, gingado e horários. Da porta do nosso “camarote, vejo passar a mata fechada que ladeia o Estreito de Breves. Desde hoje pela manhã , navegamos tranqüilamente por ele e somente ao cair da tarde sairemos, para, finalmente, entrarmos no Rio Amazonas. Passamos por enormes balsas carregadas de carretas, casinholas ribeirinhas, pequenas canoas com crianças e adultos que esperam por biscoitos, outro alimento, roupas, ou, o que quer que seja, tudo isso em sacos de plástico para que não se molhem. Já assistimos ao espetáculo de agilidade e malabarismo dos meninos e meninas que abordam nosso barco atracando suas canoas para venderem palmito, frutas e camarões salgados. Ontem foi tudo muito diferente. Chegamos de Marajó, fomos direto para a casa da Cris e, enquanto eu rapidamente preparava meus boletins, na cozinha desenrolava-se um pirarucu ao leite de coco, outro desfiado e um creme de bacuri, manjar dos deuses. Houve um princípio de stress quando eu não conseguia enviar os benditos boletins para o Denis, mas no fim tudo se resolveu. Antes do embarque ainda fomos ao Museu de Arte Sacra, à Casa das onze janelas e à Catedral. Ao chegarmos ao Porto Marques Pinto Navegação, nos deparamos com o nosso “navio”, assim o chamam por aqui. A Cris rapidamente se despediu e nós ficamos que nem jumentos empacados vendo aquela confusão do embarque e um emaranhado de redes coloridas. As pessoas meio atarantadas ainda com a chegada e instalação, completavam o caos. Nada nos dizia que teríamos uma viagem tranqüila e cômoda, como nos prometera o Sr. Josenildo, mas como dizia minha sábia avó “o que não tem jeito remediado está”, descemos com muito cuidado, uma precaríssima e escorregadia escada, passando para o barco onde havia uma fila. Estando nossos bilhetes conferidos, passamos ao terceiro andar onde se situava o nosso “camarote” que, segundo a Cristina, não mede mais que 1,80×1,40m, de forma tal que, quando uma entrava para arrumar alguma coisa a outra tinha que sair e foi assim que estabelecemos uma certa ordem e concluímos que a melhor posição dentro do mesmo era a horizontal. O banheiro é também diminuto mas dá para se tomar um banho. Tudo funciona! Iniciamos a navegação e logo que Belém sumiu da nossa vista e nos foi servido uma sopinha, pegamos uma marola que nos deixou mareadas. Após um Dramin fomos dormir. Acordamos algumas vezes à noite. Apreciamos a escuridão e escutamos o barulho incessante das águas batendo no barco. A vida se resume a escrever, ler, olhar a mata, a água, conversarmos com outros passageiros. De vez em quando uma voltinha pelo convés e … ver o tempo passar.

Bol. 05

Subindo o Rio Amazonas
A rotina do barco
Barco Nélio Corrêa

RAmazonas BR002 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

O Barco continua subindo o Rio Amazonas, de vez em quando entra em pequenos braços e conseguimos ver as casas ribeirinhas, muitas crianças, para logo depois o rio se abrir enorme. É muita água! Enquanto isso a vida no barco vai correndo. A dormida é gostosa, sem balanços. Acorda-se muito cedo , hoje especialmente, pois às cinco horas ele aportou em Almerin. Houve um corre-corre no convés, muitas pessoas falando e já estávamos de pé. A cidade também foi acordada pelo apito do barco e logo formou-se uma grande movimentação no cais. O café foi logo servido o que é feito da seguinte forma: primeiro o pessoal das redes e depois o pessoal dos camarotes. Consta de frutas, café com leite , pão e manteiga. Tudo é colocado em uma mesa bem comprida que só é disponibilizada nas refeições. Assim que terminou o café decidimos entrar na briga pelas cadeiras que ficam no convés. É que ontem ficamos sem cadeiras. Todos os homens do barco resolvem abrir um jogo, se sentam e … cadê as cadeiras? Tivemos que ficar ou dentro do camarote, o que é muito ruim dado as dimensões do mesmo, ou então ficarmos em pé caminhando pelo convés. A coisa chegou a um ponto que a cadeira na qual eu estava sentada, enquanto fui buscar meu livro, foi levada sorrateiramente. Rá, rá, rá. Hoje, recolhemos duas cadeiras ao camarote que daqui só saem quando nós estamos lendo, escrevendo ou vendo o rio passar. Foi ótimo. Finalmente temos cadeiras na hora que precisamos. Tivemos uma manhã ensolarada e à tarde o tempo começou a nublar para aquela chuva característica da região. Olhando o rio lá longe, muito longe passa um navio. Paramos rapidamente em Prainha, um porto minúsculo. A terceira parada do dia, já à noite, em Monte Alegre foi sensacional. Fomos recebidos por um festival de velas acesas, coloridas e flutuantes. Centenas. O rio ficou coalhado de luzes que corriam velozes paralelas ao barco. Lindo! A viagem está cada dia mais interessante. Já nos recolhemos ao camarote. Os barulhos e o balanço do barco continuam … lá fora uma música alta embala os gringos doidos para aprender a dançar, mas não tem jeito. Falta-lhes aquele jeitinho brasileiro. Coitados!

 Bol. 06

Subindo o Rio Amazonas ou
“Gente eu vi um boto cor-de-rosa”!
Barco Nélio Corrêa

RAmazonas BR006 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

Hoje é Sábado, nove horas da manhã. Já tomamos café e estou sentada no convés do nosso “navio” vendo a margem do Rio Amazonas desfilar em câmera lenta. O barco continua a desenvolver a alucinante velocidade de 20km/h. O sol está muito forte e como vamos na direção oeste a sombra é muito pequena. Muito protetor solar e óculos: a claridade é muito forte e as cores intensas da mata. A vida vai correndo muito devagar. Antes de ontem foi um dia diferente. Bem cedinho aportamos em Santarém, ainda no Pará. O Comandante Sebastião nos informou que teríamos todo o dia para passearmos pela cidade uma vez que o barco seria descarregado. Saímos para visitar o Mercado de peixes, muitos deles eu nunca havia visto. O Porto para barcos de pequenos trechos é super movimentado, lotado de lindos barcos de madeira cujos guarda-corpos trabalhados passam uma imagem de barquinhos de brinquedo. Na Praça Tiradentes encontramos o Guilherme, Cibele (amigos de Minas Gerais) e o casal de Porto Seguro. Pegamos um ônibus para a praia mais famosa por estas bandas: Alter do Chão. Foi ótimo, pagamos R$1,80 p/p, o táxi nos havia cobrado R$80,00 ida e volta . Trinta e cinco quilômetros depois estávamos lá. É um lugarejo com várias lojinhas de artesanato de palha onde a vovó Cristina logo travou uma batalha por um chapéu de palha. Não houve jeito: R$13,00 “e não tem mais conversa minha senhora”, disse o vendedor. Diante de uma resposta tão peremptória só restou sacar o dinheiro e sair de lá pronta para enfrentar o sol. Bati uma foto. A praia fica no encontro das águas verdes do Rio Tapajós, com o Rio Amazonas eternamente barrento. Essa é uma praia temporária: agora, por exemplo, o rio muito cheio, submerge parte dos bares cobertos de palha. A areia é muito branca e muitas árvores completam a paisagem. Mesinhas rústicas, de madeira, são espalhadas. Foi em uma dessas barracas que comemos um delicioso tambaquí na brasa. Uma Cerpa gelada completou o paraíso. Enquanto isso nossos amigos tomavam banho de rio. A estadia foi muito rápida, voltamos correndo para o barco que só zarpou às 19:00. O descarregamento de farinha de trigo foi muito demorado, também mil sacas de 50kg… haja braço! Durante o descarregamento desenrolou-se um forró no convés. Dormimos muito cedo . Acordamos quando o barco aportou em Óbidos – o ponto mais estreito do Rio Amazonas. Abrimos nossa porta e vimos o pequeno porto todo iluminado. Eram quatro horas da madrugada. Duas horas depois, novamente o barco parou no meio do rio. Uma inspeção da Polícia Federal. Durante o dia, navegamos, comemos e dormimos. Enquanto isso os gringos loiríssimos tomavam banho de sol. Agora parecem camarões torrados. São uns loucos! Ontem, dia 03 de maio, ao entardecer, vimos o primeiro boto cor-de-rosa. Gente, era lindo! Um pequeno salto e pudemos ver o seu dorso da cor salmão. Foi uma emoção. Daí p’ra frente vimos vários, mas nunca saltando como os golfinhos que vi em Fernando de Noronha. Fomos premiadas com o mais lindo pôr do sol da viagem e uma noite estreladíssima como há muito não víamos. A lua crescente mostrava o seu resto transparente. Ficamos ali embasbacadas sem saber se merecíamos tanto. Fomos dormir. Hoje, o sol está como nunca. Estamos dentro do camarote com a porta aberta colocando em dia nossos diários, contas, etc. Enfim, nem só de paisagens vivem as vovós. Já visitamos a Cibele, ontem estava mareada e o Guilherme milagrosamente não está entrevado. É que tem mais de 1,80m e sua rede é minúscula. Como é que pode? À noite chegaremos à Manaus. O Comandante Sebastião já nos avisou: só chegaremos meia noite. Sendo assim permaneceremos no barco até amanhã. Será que o nosso Troller já chegou?

Bol. 07

 A caminho da Venezuela ou
De como cruzamos a Linha do Equador

Manaus Br002 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

 A chegada do “navio” a Manaus foi no dia 04, meia noite (muitas horas de atraso). Achamos que àquela hora seria perigoso sair pelas ruas a procura de um hotel, então permanecemos no barco e sete horas já arrumávamos nossas bagagens. O porto de Manaus às quatro horas da manhã já é extremamente movimentado. Pequenos barcos descarregavam seus peixes e havia uma gritaria, das pessoas arrematando os peixes. Um grande navio estava aportado. Muitos botos cor-de-rosa e pretos, brincavam por ali e a atmosfera estava meio enevoada o que conferia um ar dos quadros de Turner. Um amanhecer bonito. Logo, logo a temperatura subiu e como por encanto o quadro acabou. As pessoas já haviam comprado os seus peixes, já começavam a limpar o nosso barco, para outra viagem, os botos desapareceram e … fim. Havíamos concluído uma viagem espetacular. O que foi visto apagou o incômodo do “camarote”, a comida frangoecarnetododia. Pegamos um táxi para buscarmos o Troller e logo a coisa se resolveu. No pátio encontramos um casal de canadenses que viajavam em uma Van toda incrementada. Dois anos na estrada. Conversamos numa mistura de inglês, português e espanhol. Muitas novidades. Chamaram nossa atenção para a Colômbia. Disseram que estava muito perigoso para turistas. No momento estamos pensando em embarcarmos o Troller em Caracas na Venezuela e não em Cartagena, Colômbia. É uma pena pois todas as informações nos dizem que Cartagena é a cidade mais bonita da América do Sul! Continuaremos a pensar, talvez uma solução intermediária. Troller recebido, fomos para Presidente Figueiredo, uma cidade que fica a 107km de Manaus. Visitamos, debaixo de muita chuva, as duas cachoeiras mais importantes, a da Pedra Furada e a do Santuário. Visitamos as instalações do Projeto peixe-boi vizinho à Represa de Balbina. Nos contaram a historia da peixe- Boi Tukano que deu à luz, em cativeiro, ao Peixe Boizinho Tuã (guerreiro bravo e corajoso, na língua indígena) e que isso foi um grande acontecimento, pois o neném nasceu bem fortinho com 18kg e 101cm, uma gracinha! Achei tudo muito bonito, desde o trabalho em si até a dedicação das pessoas que trabalham na preservação da Espécie. Como a chuva estava muito forte resolvemos partir , no dia seguinte para Boa Vista. Nossa roupa estava toda molhada. Armamos um varal dentro do Troller e partimos às oito horas da manhã do dia 07 de maio de 2003. Dois fatos marcaram a viagem para Boa Vista: a passagem pela enorme Reserva Indígena Waimirí Atroarí e a passagem para o Hemisfério Norte, quando cruzamos a Linha do Equador já em Roraima. O asfalto cruza as terras Waimirí por 100km. Não se pode parar, filmar e fotografar. Tem hora para passar. Antes ou depois desse horário ninguém passa. Notamos que a Mata de Roraima está muito destruída. Tudo virou pasto para gado. É uma região que promete! A estrada estava excelente, de maneira que chegamos cedo. Foram 640km. Chegamos às três da tarde. À noite comemos um delicioso filhote(peixe) na telha. Encontramos alguns amigos, alunos do Haroldo. Com o auxílio deles, levarei o Troller a uma oficina para trocar as palhetas do para brisa, regular os faróis e verificar as pastilhas de freio. Darei uma entrevista para a TV Roraima e… a Venezuela nos espera. Acompanhem-nos pelo Parque Canaima e Andes Venezuelanos. Vai ser ótimo!

Venezuela:De 09 a 21 de maio de 2003

Bol. 08

Hugo Chavez, fronteira, cambio e confusão, ou,
Hum…Chavez nunca será um Simón Bolívar.

Cd Bolivar Ven004 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

A estadia em Boa Vista foi curta, o suficiente para checar o Troller, uma entrevista e a Internet. Os amigos do Haroldo nos deram um excelente suporte. Obrigada a todos! Resolvemos seguir para a fronteira, com informações altamente desencontradas sobre o cambio. Logo mais saberíamos bem direitinho o significado desse não saber. De Boa Vista a Pacaraima (última cidade do Brasil, antes da fronteira), são 270km. Pernoitamos. A pequena cidade (se é que podemos chamar de cidade) é uma confusão de cambistas, gente gritando, buzina, muitos caminhões parados e poucos lugares para dormir e comer. Logo fomos ao Cabeça Branca, um cambista instalado em um super mercado, já que acháramos os da rua pouco confiáveis. No fim, era tudo igual. Cristina, de calculadora em punho, procurava entender porque o nosso dinheiro, durante o câmbio, evaporava a olhos vistos. A coisa se complicou pois, se ela não entendia, eu só fui entender perto de Ciudad Bolívar, dois dias após o acontecido. Foi o seguinte: ninguém sabe explicar o porque do real ser tão valorizado na fronteira e o porque do dólar ser tão desvalorizado. Assim é que, se tivéssemos levado reais, teríamos nos dado bem. Como trocamos dólares, conseguimos o equivalente a R$ 2,70. Para quem comprou dólar a R$3,60 … Em Santa Helena soubemos que Chavez amarrara ficticiamente o câmbio o que, obviamente nos levaria à banca rota, isto é, o dólar a R$2,00. Enquanto nosso dinheiro evaporava Chavez, na televisão fazia um discurso nos desejando um Feliz Dia das Mães! O.k. Chavez! Entrar na Venezuela foi muito tranqüilo. Nossos documentos estavam em ordem, de maneira que demoramos só 40min. para estarmos do outro lado. No posto de combustível havia uma grande fila para gasolina, é que brasileiros compram ali para vender em Boa Vista. Não havia fila para Diesel, ficamos surpresas com o preço. Enchemos o tanque, que estava vazio, por R$ 13,00. Fazendo as contas o litro saiu R$0,20. Estrada boa, atravessamos La Gran Sabana, vimos algumas cachoeiras lindas e resolvemos “bajar nuestras maletas”, em Tumeremo. Ficamos em um Hotel que nos pareceu melhor, cujo senhor nos chamava de “mi amor”. Mais tarde o xingaríamos forte, pois não conseguimos dormir. Havia, em frente uma “fiesta” que durou até as cinco da manhã. Sair de lá foi definido como felicidade! Deixamos Tumeremo para trás. Cidade pequena com uma praça central, árvores enormes e uma belíssima estátua de Simón Bolívar, o Libertador, esculpida em pedra esverdeada. Uma excelente auto-pista nos levou a Puerto Ordaz e dali a Ciudad Bolívar, onde estamos. Ciudad Bolívar é uma cidade histórica às margens do Rio Orinoco. Foi aqui que Bolívar, após vencer as forças espanholas, se declarou Presidente da Gran Colômbia, fragmentada após sua morte em vários países. Como chegamos cedo demos uma pequena volta pela cidade. Véspera do Dia das Mães, muita gente nas ruas, camelôs, enfim, calor e confusão. Ontem, domingo, cidade vazia, um dia chuvoso, partimos para conhecer a cidade. Tomamos nosso café da manhã com arepas (uma espécie de pão de milho, que pode ser recheado com queijo). Estava muito gostoso. A chuva passou e começamos a subir a ladeira em busca da Plaza Bolívar, o centro histórico da cidade. A Casa da Cultura expunha cestaria de diversos grupos humanos do nosso planeta. A belíssima construção, antigo cárcere, de frente para Rio Orinoco com lindos balcões de ferro batido nos mostrou a verdadeira face da cidade que à princípio nos parecera suja e desorganizada. Chegando à Plaza Bolívar aprendemos um pouco da História da Venezuela. Simón Bolívar, que conhecíamos muito de leve nos livros de Colégio, tomou forma. Sua vida e seus feitos foram respeitosamente relatados, por um guia que nos levou pelos corredores, salas e jardins da Casa do Congresso de Angostura (antigo nome de Ciudad Bolívar). O Homem, que um dia sonhara com a liberdade, respirava nos quadros, no mobiliário, no madeiramento e nos bonitos corredores da construção espanhola. É verdade, Bolívar vive naquela Praça de árvores enormes, ladeada por construções coloniais de cores alegres e muito vivas!

Bol. 09

Os Andes da Venezuela
Santiago de los Caballeros de Mérida (Mérida) – Venezuela

Merida Ven013 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

Ao sairmos de Ciudad Bolívar e depois de atravessarmos a impressionante ponte sobre o Rio Orinoco, passamos por uma região extremamente árida e despovoada. Patrulhas rodoviárias nos pararam três vezes. Concluímos que aquela não é uma região muito tranqüila. A vegetação começou a melhorar, apareceram alguns pueblos e … paramos em Valle de la Pascua, depois de rodarmos míseros 326km. Foi uma excelente decisão. Jantamos arepas recheadas com frutos do mar e algumas Polar Light (excelente cerveja). Dormimos muito bem. Valle de la Pascua é uma cidade pequena que me pareceu próspera e cheia de pássaros. Deixamos Valle, passamos por Guanare e começamos a subir os Andes. Uma chuvinha leve começou a cair e a subida foi ficando difícil pois a estrada ficou bem estreita e os despenhadeiros eram grandes. Eu nem olhava para os lados. A Cristina me disse que olhou só uma vez. Finalmente chegamos a um povoado pequeno chamado Mosquey. Graças a Deus! Vimos uma Pousada e paramos. Fomos festivamente recebidas pelo Sr. Luiz que nos ofereceu um café e um suco de piña (abacaxi). Foi uma estadia muito agradável. Luiz conhece muito bem a região, sendo autor de dois guias. Nos deu importantes dicas sobre pousadas, estradas e restaurantes. A região é cheia de fazendas de trutas, de forma tal que saboreamos algumas recém pescadas e deliciosas. Caminhamos 10km para conhecermos Boconó, chegando à conclusão que estávamos ligeiramente entrevadas tal o estado em que ficamos. Doía tudo. Quase no fim da caminhada resolvemos nos informar sobre a distância para o Centro e ficamos muito chateadas porque o senhor nos disse: senhora, hay que se meter en una buseta (pronunciado com c) e, após uma outra tentativa, com a mesma resposta, só que no diminutivo, resolvemos tirar a história a limpo e ao contrário do que pensávamos o termo significa bus pequeño (Topik para nós). Hum … bem, depois disso, tomamos o tal transporte, chegando ao Museu do Trapiche (engenho movido pela força do homem). A chuva não nos deixou ficar por mais um dia e seguimos para Timotes, um outro. pueblo andino. No dia 15, aniversário da Cristina, festeja-se nos Andes o dia de San Izidro. Pede-se chuva e uma boa safra. Parelhas de bois e cavaleiros vão aos pueblos para participar de uma “procissão”. Pelo caminho nos felicitaram e desejaram buena suerte. Que bom! A Transandina é uma estrada bem estreita que vai correndo como uma serpente em curvas extremamente pronunciadas o que faz a viagem muito cansativa. Timotes, uma cidade que se dedica a agricultura. A montanha parece uma colcha de retalhos de vários tons de verde e há também cultivo de flores. Lá comemoramos o aniversário com vinho, truta e um prato alemão. A lua cheia estava esplendorosa e o dia amanheceu pincelado de rosa e laranja. Partimos para uma viagem ainda pelos Andes, novamente em estradas estreitas, sempre subindo. Chegamos ao Pico del Aguila a 4.120m de altitude. Por ali Simón Bolívar passou sua tropa para libertar a Colômbia. Muito frio e vento, mas muito bonito. A névoa vai cobrindo e descobrindo tudo. De vez em quando as montanhas, muito altas, ficam inteiramente descobertas, mas só por alguns minutos e então tudo volta a ficar encoberto. Um monumento com uma águia homenageia Bolívar. Agora, descendo fomos admirando uma paisagem diferente de terrenos cercados por muros rústicos de pedra rolada e terraços suportados também por pedras. Passamos por Apartaderos e visitamos, no Parque Nacional Sierra Nevada, a Laguna de Macubají de encostas pontilhadas de frallejones, uma planta de folhas aveludadas, meio esbranquiçadas e que só aparecem a 3000m de altitude. Saindo desta paisagem que se assemelha a uma pintura naífe e descendo a 1600m, chegamos a Santiago de los Caballeros de Mérida, uma cidade de 300.000 habitantes onde pensamos pegar informações sobre o embarque do Troller, através de Maracaibo, ou sobre a segurança na Colômbia e enfim decidirmos por onde andar. Voltar a Caracas? Passar pela fronteira colombiana para Cartagena? Hoje, dia 18, fomos passear de teleférico, a maior atração de Mérida. Foi sensacional! Paisagens maravilhosas! Ele sobe em quatro estágios de uma altura de 1.600m a 4.800m, em uma distância de mais ou menos 12km. É considerado o mais alto e o mais longo do mundo. Lá no Pico Espejo, fizemos, com muita dificuldade, uma pequena caminhada. A visão das montanhas é deslumbrante. Em baixo as florestas coloridas de ipês amarelos e árvores com enormes folhas prateadas, um pouco mais acima, os frailejones pontilhavam as encostas com sua côr amarelo aveludado e, mais em cima ainda, os cumes desnudados e escarpados ainda aprisionavam grandes porções de gêlo. Puxa, valeu a pena! Voltamos para o Hotel absolutamente mareadas pela altitude, mas bem satisfeitas. Uma sopa de mariscos nos recuperou totalmente.

Colômbia: De 21 de maio a 04 de junho de 2003

Bol. 10

Fronteira da Colômbia:salve-se quem puder!

El Mojan Ven0011 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

Cristina escreve:
Saindo de Mérida, tomamos uma estrada que leva à margem leste do Lago Maracaibo. Dirigir nesta estrada é como voltar no tempo. Estrada estreita vai cortando vários “pueblitos”; vende-se de tudo. Barracas de palha onde deveria ser acostamento e pessoas se instalam na faixa central da estrada, colocando aí suas mercadorias e seus “pare”. Confusão entre os “pare” obrigatórios e os optativos… Mangas, abacates, abacaxis, pitombas (que aqui têm casca verde e moles), cajus, castanhas, pães imensos, garrafas térmicas com café, doces, etc. Se o motorista quer comprar, pára seu veículo na pista e os que estão atras ficam esperando a transação. E assim fomos chegando perto do Lago Maracaibo e dormimos em Ciudad Ojedo, a segunda maior cidade desta região produtora de petróleo. Ótimo hotel, boa dormida. O Lago Maracaibo é imenso, o maior da América do Sul. Tem o formato de uma gota pendurada no Golfo Venezuela, ao seu norte. No estreito que os liga foi construída uma ponte enorme com mais de 8km de comprimento. Atravessando esta ponte entramos na cidade de Maracaibo, a segunda da Venezuela. Com mapas em mãos fomos circundando esta cidade com toda cautela para não penetrar no seu miolo. Mesmo assim enfrentamos um trânsito bem complicado mas, com pouco mais de uma hora, estávamos do outro lado, caminhando para S. Rafael El Moján. Um nome que gerou confusão pois no mapa estava como S. Rafael e nas placas indicativas como El Moján. A identificação foi esclarecida após algumas paradas solicitando explicações. El Moján é o último “pueblito” em região indígena, antes da fronteira Venezuela-Colômbia. Lá dormimos no único local possível, a pousada de um sueco, John de 65 anos, casado com uma venezuelana da região. Não há água encanada na cidade. Ao nos levar para mostrar as instalações nos instruiu como usar um reservatório com uns cem litros de água para banho, pia e vaso. Desta forma tivemos oportunidade de recordar o antigo banheiro do Sítio Boqueirão com os “banhos de cuia”, como são conhecidos no nordeste. Para compensar estas pequenas dificuldades, uma bela vista para o golfo, com direito a ficarmos deitadas num píer papeando na brisa que aliviava o calor. E a amabilidade do sueco, que sendo uma espécie de coronel na cidade, nos levou a um restaurante, no qual comemos camarão com molho branco gratinado. Uma delícia. E também cozinhou pimentões recheados para jantarmos. Parece que ele estava satisfeito ao desfilar com “duas belas brasileiras”, como nos apresentava. E nós com tão amável adjetivo, já meio esquecido. De qualquer jeito as 7hs da manhã do dia seguinte, estávamos sentadas num banco da praça central de El Moján improvisando um sanduíche com pão doce, queijo e um litro de suco de laranja que compramos na única “panaderia” aberta. De lá partimos para a fronteira, região sempre complicada. Durante toda a travessia da Península La Guajira, observamos a presença dos índios Guajiros. As mulheres sempre com seus vestidos longos, soltos, bem coloridos e sapatos; a Colômbia com seus problemas internos, informações de atuação da guerrilha na região, nos aguardava. Enfim havia stress ao cruzar a fronteira e enfrentar o trecho de 600km. E as 9hs estávamos no burburinho da fronteira. Taxa para cá, taxa para lá. E ficamos sabendo que para entrar na Colômbia era necessário uma passagem de saída. Indignação, pois nem o consulado colombiano de Merida nos passara esta informação. Uns quatro camelôs em cima da gente explicando que em uma biboca perto poderíamos comprar uma passagem de ônibus de volta para Maracaibo. Dois mochileiros, um americano e outro argentino, tão perdidos como nós. O americano, que a princípio dissera que de jeito nenhum toparia aquele arranjo, nos aparece com meia hora depois com a tal passagem na mão, comprada pela metade do preço que nos era cobrada. Nos diz em português claro e preciso: fiquem frias…O argentino, com uma enorme mochila, zanzando pra lá e pra cá sem querer cair com “la plata” e ninguém se entendia. Enfim, fizemos o arranjo, com indignação e tudo, mas mais indignado ficou o intermediário da transação ao receber de propina 1000 bolívares que, segundo ele, não dava nem para uma coca-cola. A propina foi aumentada. Aí começou o segundo round: documentos do carro. Dois incompetentes tentando imprimir o “permiso” com uma impressora do arco da velha. E vai, e volta, não sai nada na impressora. E chama o chefe; já foi embora e só volta amanhã e a temperatura subindo. Vocês não sabem botar esta impressora para funcionar? Perguntam para nós duas. E vai a Solena, que nestas alturas lixava suas unhas para se acalmar, agora são três a mexer na geringonça. Vamos dormir aqui? Não pode ser à mão? Não; chama o fulano. E o fulano resolveu o assunto da impressora, três horas depois. Finalmente saímos da fronteira. Estradas ótimas e muita fiscalização o que era tranquilizador. Até que ao chegar na entrada de Barranquilla, uns 100km de Cartagena, o nosso destino, uma das barreiras, talvez a décima desde nossa entrada na Colômbia, nos informou que estávamos ilegais pois na documentação não havia um seguro obrigatório contra terceiros. Ninguém nos informara sobre o assunto; nem consulado, nem fronteira, nem as barreiras anteriores. E argumentos em portunhol e contra argumentos em espanhol; e ameaças de prender o carro, etc. Depois de nos encherem a paciência, eu interpreto como insinuações para rolar alguma plata, nos liberaram. Nestas alturas a única coisa que queríamos era um hotel na estrada para não enfrentar Barranquilla, uma cidade de dois milhões de habitantes. Uma pequena entrada ilegal, seguindo carros da frente, e um espertalhão na tocaia esperando para fazer a festa e lá estávamos nós enroladas de novo com o tal seguro obrigatório e uma nova multa de trânsito. O pilantra que depois de querer entrar no carro na marra, para nos levar à delegacia, nos levou o equivalente a dez reais. Ladrão de galinha! Cabeça quente, precisamos esfriar…Pedimos informações sobre hotéis em um posto de gasolina, uma alma caridosa nos conduziu a um bom hotel. Que dia! Dores de cabeça e a Solena choramingando. E no dia seguinte, lá estávamos nós enroladas a cada barreira, cinco num percurso de 100km, por conta do tal seguro. Sobrevivemos. Estamos num bom hotel em Cartagena e o jipe foi internado num estacionamento, de onde só sairá para um navio que o levará ao Panamá. Cartagena é linda. Mas isto é outro capitulo.

Bol. 11

Senõra, es muy peligroso! Hay que tener mucho cuidado!
Cartagena de Indias – Colômbia

Cartagena CO0081 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

Chegando a Cartagena e já instaladas no Hostal San Diego no Centro Histórico da cidade procurei resolver a questão do embarque do carro. Fui ao Porto – Manga Sociedad Portuaria: Ed. Administrativo – e chequei duas empresas: a Maersk Sealand e a Costa Container Lines, Colombia. A Costa Container me deu um preço melhor, após se informar se havia um container que coubesse o Troller (container de 20p). Pedi que ele me informasse um escritório que cuidasse dos trâmites e me indicou o Hubemar Ltda.-Operador Logistico. No fim do boletim informo o endereço e e-mail e depois se valeu a pena ou não. Hoje pela manhã soube que está tudo ok e que amanhã levarei o Troller ao Porto para inspeção e amarração dentro do container. A operação deve durar o dia todo. Há um navio no dia 01 de junho e eu poderei viajar na sexta para o Panamá. Tomara que dê tudo certo. Cartagena de Indias é uma cidade interessante. O Centro Histórico é sensacional. Praças pequenas, ruazinhas estreitas ladeadas por casas coloniais com lindos balcões de madeira sempre com muitas plantas e flores. O Centro Histórico fica dentro de uma enorme muralha bem conservada e Fortes ou Castillos como preferem chamar. Visitei O Castillo São Felipe, uma fortaleza impressionante, cheia de túneis, onde se guardavam o ouro e pedras trazidos do México, Peru e outros. A cidade, por funcionar como um armazém de riquezas que seriam transportadas para a Espanha era muito atacada por piratas. O pirata Francis Drake, que depois virou Sir andou por aqui. Os muros, praças, construções de grandes arcadas espanholas, contam para quem quiser ver a História. No entanto, o viajante mais sensível sente a pressão às vezes velada, às vezes escancarada da insegurança. Soldados armados, revistas constantes naquelas pessoas que parecem malandros, documentos, etc.. Saindo das muralhas do Centro Histórico a insegurança campeia solta. Você, sua bolsa (se tiver à vista), câmeras, são descaradamente encarados, avaliando custo X benefício. Aos turistas que não estão em grupos aconselha-se andar sempre de taxi (muito barato), inclusive para tirar dinheiro em caixas eletrônicos, ficando o motorista aguardando do lado de fora. Em caso de roubo, sumiço de documentos, simplesmente fazer uma acta (o nosso velho BO) e não se envolver com a polícia, tipo: já prendemos alguém, precisamos que você vá reconhecer, etc., etc.. Andar sempre com a xerox do passaporte deixando o original em um lugar seguro, no hotel de preferência no cofre. Já pensaram? A passagem pela Colômbia pode ser assim resumida: As estradas principais são protegidas e fiscalizadas ostensivamente por militares fortemente armados de metralhadoras, policiais, que suponho, eqüivalem à nossa PF e por barreiras da Polícia Rodoviária. Conclusão: o perigo não está nas estradas principais e sim nas cidades. Os ladrões ou malandros, tiram dos turistas o que puderem. Máquinas fotográficas, filmadoras, bolsas, foi não foi são arrancados, isso sem tirar o mau costume de dar o troco incorreto e uma evidente determinação para extrair, a qualquer custo, não importa como, uma propina. Impressionante! Generalizar é sempre injusto. Encontramos pessoas educadas e extremamente prestativas. Enfim, Cartagena é uma cidade linda mas perigosa para turistas que gostam de conhecer as ruas, conversar, relaxar apreciando suas belezas e escutando sua História. Que pena!

Endereços importantes:
Hostal San Diego Centro.
Calle de las Bóvedas 39-120
Cartagena – Colombia
Casa antiga com quartos confortáveis

Costa Container Lines – Colombia
Terminal Maritimo SPRC Ed. Administrativo. Cartagena – Colombia
e-mail: comercialctg@costacontainerctg.com

Hubemar Ltda. – Operador Logistico
Cartagena – Colombia e-mail: srobayo@hubemar.com.co

Bol. 12

Apaixonada por Cartagena de Indias
Cartagena de Indias – Colômbia

Cartagena CO0211 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

… e me sentei na Praça San Diego, em uma das mesinhas que ficam espalhadas na frente dos pequenos restaurantes e comecei a olhar o movimento e as construções … os coches puxados por cavalos dirigidos por cocheiros de onde sobem e descem turistas que percorrem as antigas calles escutando glorias passadas verdadeiras ou não … o vendedor de aquarelas que retratam as coloridas casas coloniais, balcões, flores e mais flores … o perro (cachorro), fazendo suas piruetas, incentivado pelas meninas que passam depois um chapeuzinho “para o perro, sólo para el perrito”… os alegres bailarinos de danças típicas. … e tomei um gole de cerveja … detive o olhar na enorme parede salmão do antigo Convento de Santa Clara, hoje Hotel Santa Clara, não menos bonito … mudei para o outro lado … janelas e mais janelas do Colégio Salesiano … e olhei para as casas coloniais perfeitas, suas grades de madeira torneada, balcões, também de madeira, salpicados de flores, trepadeiras … Bem, passei a comer a deliciosa pasta com frutos do mar e me lembrei do imponente Castillo de San Felipe de Barajas, uma fortaleza, que guardava as riquezas recolhidas das colônias e por isso muito atacado por piratas, resistindo e resistindo … seus estreitos, escuros túneis … Castillo de San Felipe … lá no alto, a bandeira orgulhosa da Colômbia, tocada pelo vento. … lembrei La Popa, um mosteiro, o ponto mais alto de Cartagena, de onde os religiosos foram expulsos por Simón Bolívar e que por vingança lhe atearam fogo . Hoje, restaurado, exibe suas arcadas perfeitas e de onde, finalmente se entende que: Cartagena é um conjunto de ilhas, unidas por um emaranhado de pontes e canais … as Muralhas de Cartagena, cercando a Cidade Velha, impressionantes, que de tão largas transformaram-se em Passeio. … e as pessoas que me ajudaram a embarcar o Troller, gentis e eficientes. Obrigada Stella, Silvio, Santiago e Leonardo que agüentou firme o sol do Porto quando a Policia destrinchava toda a bagagem do Troller para, finalmente, amarrá-lo no container. Não pude deixar de concluir: fui injusta com Cartagena, talvez revoltada por não poder conhecê-la caminhando, descobrindo, sem pressa, seus segredos … Cartagena de Indias, me apaixonei por você!

América Central: De 04 a 23 de junho de 2003

Bol. 13

Miss Universo? Quem diria!

Panama 003 300x286 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

De Cartagena, voei para o Panamá. Por incrível que pareça tive que comprar passagem de ida e volta, para entrar no país. No Aeroporto encontrei com a Tamara e Cristina que voltavam de Bogotá. Me disseram que Bogotá é uma linda cidade. Muitos museus, organizada e não se sente aquela insegurança que sentimos em Cartagena. Estranhamos os preços. O Panamá tem uma moeda que se chama Balboa mas a moeda corrente é mesmo o dólar. No dia seguinte comecei a providenciar o tal do Bill of Lading ou autorização para retirada do Troller no Porto de Colón. Tudo atrasou porque a Presidenta decretou feriado por conta do Concurso de Miss Universo, um grande acontecimento por essas bandas. Várias vezes nos perguntaram se estávamos no Panamá cobrindo o concurso. Meu Deus, que coisa mais fora de moda ! Bem, fomos ao Canal, passeamos calmamente pela cidade e na terça feira fomos para Colón. No mesmo dia conseguimos retirar o carro do container, ajudadas pelo pessoal da Aduana. Um conselho para agilizar a operação é contratar um despachante de Aduana. Como o carro tinha sido muito bem amarrado chegou inteirinho sem arranhões ou estragos e, como estávamos muito cansadas, dormimos ali por perto. Finalmente iríamos continuar nossa viagem! A fronteira Panamá/Costa Rica é super tranqüila, de forma tal que rapidinho estávamos a caminho de San José, capital do país. De cara vimos que a Costa Rica é um país de natureza belíssima. Fomos subindo as montanhas e entramos em uma região de floresta exuberante com uma neblina esfiapada que fica abaixo dos cumes e então, qual um filme, a floresta aparece ora encoberta, ora descoberta e de vez em quando a visibilidade ficava difícil. Começou a chover e já tivemos que nos acostumar com a chuva que cai todos os dias a partir de uma hora da tarde. De curva em curva, em uma estrada bem estreita e movimentada, chegamos a San José. Em um Posto de Gasolina conhecemos uma brasileira, Silvia, que nos convidou à ir a sua casa onde fizemos um lanche com direito a cafezinho e um bom papo. De lá fomos ao Hotel Aranjuez onde estamos muito bem instaladas. O Hotel é uma autêntica casa costarriquenha, muitos jardins internos que mais parecem florestas, flores, passarinhos e um café da manhã excelente. No dia seguinte saímos de Troller para visitarmos o Vulcão Poás. A cratera é cheia de água muito azul. Algumas fumarolas enfeitavam tudo. É uma coisa bem diferente e tivemos muita sorte de vê-lo pois a neblina levantou por algum tempo. Hoje encontramos um americano que está fazendo o nosso inverso, isto é descendo a América do Sul, até Ushuaia. Trocamos algumas informações e partimos para o Centro da cidade para visitarmos o Museu Nacional que tem uma bela coleção de arte pré colombiana (cerâmica e peças em ouro). Almoçamos, e no momento, fazemos planos para começarmos a sair de San José para visitarmos o Vulcão Arenal, ainda em atividade, e depois partirmos para a Nicarágua. Chove muito, o barulhinho da água nas plantas e uma sabiá cantando nos lembram o Sítio Boqueirão, onde, hoje, festejam os 89 anos do meu pai.

 Bol. 14

Aventuras e desventuras na América Central ou,

de como nos deparamos com os “Agilizadores de fronteiras”

 

Saímos de San José, na Costa Rica, no dia 09 de junho e nos dirigimos ao Vulcão Arenal, já próximo à fronteira com a Nicarágua.

O vulcão, ainda em atividade, é a maior atração da cidadezinha de La Fortuna. Os hotéis com vista, à noite, para as lavas, são extremamente caros. Preferimos ficar em um, com um preço melhor, visitarmos o Parque e vermos o espetáculo de um ponto estratégico, que são muitos. Foi assim que subimos a um restaurante que tinha uma bela visão da mata abaixo e do cone perfeito do Arenal iluminado por um cair de tarde deslumbrante regado a cantos de pássaros e vozes de estranhos macacos que nunca houvéramos ouvido. Nos sentamos tomando cerveja, comendo pizza e aguardando o anoitecer . Estava uma tarde maravilhosa. As lavas começaram a ser vistas descendo montanha abaixo. Foi um espetáculo impressionante. Quando voltamos, já era noite.

No dia seguinte, fomos para a fronteira da Nicarágua. Mais uma fronteira e essa foi brava! Quando se chega, imediatamente aparecem as figuras dos “agilizadores de fronteira”. Correm para cá, correm para lá, em uma operação muito complicada, pois o turista não tem a menor noção de onde são os guichês de que, para que e, de repente os tais agilizadores, uma instituição, se fazem necessários. É taxas e mais taxas e uma corrupção generalizada. Taxas são recebidas nos corredores, recibos fictícios, enfim um horror! Quer dizer, a desorganização é criada exatamente para esse tipo de coisa. A pior fronteira foi a da Nicarágua/Honduras. Na fronteira Honduras/El Salvador tivemos uma surpresa. Foi exigido um visto. O resultado é que tivemos que voltar a Tegucigalpa, a Capital, para pegarmos o bendito. Felizmente a distancia é pequena, 150km. Lá fomos nós, agradecendo à corrupção reinante, pois só assim, com uma propina de 35$, não tivemos que deixar o Troller na “terra de ninguém”, entre uma e outra fronteira. anulando todo o processo de saída de Honduras. Dormimos em Tegucigalpa, uma cidade de um milhão de habitantes, limpa e barulhenta. Conseguimos o visto e novamente estávamos na entrada de El Salvador. Os trâmites duraram mais de duas horas graças ao “agilizador” que  nos ajudara no dia anterior. Taxa p’ra cá e taxa p’ra lá, conseguimos sair do outro lado, jurando nunca mais lançar mão de tais figuras que infernizam tudo, furam filas e nos extorquem com recibos falsificados. Bem, as estradas de El Salvador são excelentes. Conseguimos dormir em uma cidade já perto da fronteira com a Guatemala e nos preparamos para mais uma fronteira que nos surpreendeu pela rapidez (45min). Preferimos chegar à Antígua pela via costeira para não passamos em Ciudad Guatemala. A estrada é excelente e muito bonita. Há um trecho que beira o Pacífico e pudemos matar a saudade do mar. Ondas muito fortes, quebrando em despenhadeiros e alguns surfistas corajosos.

Chegamos a Antígua à tardinha e, de cara, vimos que esta é uma cidade diferente.

Depois de todas as fronteiras da América Central concluímos que, para incentivar o turismo, é urgente a mudança  do sistema corrupto reinante. Os políticos deveriam, em um dia qualquer, passar por lá como simples mortais, para ver como aquilo funciona. 

De um modo geral as estradas são ótimas, o verde é intenso e o povo batalha duramente para sobreviver. As mulheres, com seus aventais cheios de babadinhos e bolsinhos, vendem milho verde, pamonhas, tortilhas, docinhos, sucos, água de coco, bolos, tudo em cestas coloridas, na cabeça.

Bicicletas são usadas para transportar passageiros em arranjos semelhantes a pequenas charretes. Cambistas circulam com bolos de notas e a multidão vai de um lado a outro, conversando e fazendo uma  e outra coisa.

Podemos dizer que viajar por estradas da América Central não é relaxante mas, quem passa pelas fronteiras desses países conhece bastante como vive o povo.

Bol. 15

Guatemala:  Antígua, uma cidade maravilhosa.

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Antígua é a antiga capital da Guatemala. Uma cidade cheia de História. Lindos prédios , antigos mosteiros, que após sucessivos terremotos, conseguiram se manter em pé, alguns inteiros, restaurados, outros mostrando suas entranhas originais, como o maravilhoso Convento Santa Clara e Catedral.

Os arcos espanhóis estão presentes em todas as praças. Lindos casarões, de um só piso, balcões de madeira trabalhada, pátios internos ajardinados. Definitivamente uma antiga cidade espanhola em pleno funcionamento. Vulcões são vistos de qualquer ponto da cidade. Foi lá que sentimos que a Guatemala é um país especial e decidimos conhecê-la melhor. Estávamos cansadas. Pegamos um pacote que nos levaria ao norte às ruínas Maias de Tikal, ao Lago Izabal, e mais ao sul a Panajachel, Lago Atitlán e a Chichicastenango.

Um ônibus nos levou a Rio Dulce. Um hotel à beira do rio e começamos a descansar, muitos veleiros, muito verde, muitas flores e muitos pássaros. Um passeio pelo enorme e transparente Lago, já sendo descoberto pelo turismo, hotéis com cobertura de palha, lembrando alojamentos de pescadores e a sensação de que amanhã a paisagem se terá transformado pelos turistas ansiosos por ver e partir. Descemos o Rio até Livingstone, uma pequena cidade, onde se fixaram os poucos negros trazidos como escravos da África e já estávamos partindo para Tikal.

Bol. 16

Guatemala:  As espetaculares “Ruínas Maias de Tikal”

tikal guatemala 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

 

Para se chegar a Tikal,  chega-se primeiro a Flores uma pequena cidade às margens do Lago Petén Itzá.

De Flores ao Parque Nacional de Tikal são 63 km de estrada boa. Nos alojamos em um hotel de selva, o Jungle Lodge. A umidade e o calor são marcas registradas, como na Amazônia.  Uma infinidade de pássaros desconhecidos, árvores imensas e fomos caminhando, com um guia indígena que nos levou a bonitos sendeiros.

Tikal foi descoberta por seringueiros que, ao subirem nas árvores, viam o topo daquelas estranhas construções e se amedrontavam. Hoje Tikal é Patrimônio da Humanidade. Subimos no Templo IV, por uma escada de madeira bem inclinada e nos surpreendemos com a visão da densa floresta abaixo de onde emergem as pontas da Pirâmide do Jaguar, Mundo Perdido. Os Maias quiseram alcançar o céu, é a primeira impressão. Fiquei imaginando o que sentiram os antigos seringueiros.

Continuando o caminho, vimos restos de construções abraçadas por enormes árvores, e, finalmente a espetacular Plaza Mayor.  Que maravilha! Pirâmides escalonadas, muito altas e inclinadas, prédios de antigas residências Maias, nos fizeram recordar deuses desconhecidos nos animais e figuras ali entalhados. Que civilização! E pensar que tudo começou 300 anos antes de Cristo!

A noite na selva é cheia de mosquitos, barulho desconhecido, muita umidade, mas não é quente. Acordei várias vezes e fiquei a escutar o coaxar de sapos e pássaros noturnos. Estranho!

No dia seguinte entrei novamente no Parque e fui direto à Plaza Mayor. Fiquei sentada na grama, enquanto a Tamara escalava mais uma vez uma das construções.

Sentada na grama, eu simplesmente observava, vez ou outra, um cerimonial Maia que se desenvolvia a poucos metros. O cheiro bom do incenso, o colorido das roupas Maias, a visão dos Templos e o burburinho das crianças me envolveram e me transportaram no tempo.

Tikal é deslumbrante!

 Bol. 17

Guatemala:  Explosão de cores em Chichicastenango

chichicastenango guatemala 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

 

A última etapa do nosso pacote foi Panajachel às margens do Lago Atitlán. Chegar a Panajachel descendo por uma íngreme estradinha e ter a visão do enorme lago azulado, enfeitado por um vulcão de cone perfeito, é ficar definitivamente maravilhado com a Guatemala.

O Lago é quase hipnótico. Suas tranqüilas águas vão se separando e formando ondas vagarosas à medida que o velho barquinho vai passando.

No domingo fomos a Feira de Chichicastenango, a mais famosa feira de artesanato indígena da Guatemala. A profusão de cores é surpreendente nas peças e nas roupas indígenas. Eles se vestem, no dia a dia com  flores bordadas em tons vibrantes ou desenhos geométricos. Saias presas à cintura com faixas extremamente coloridas e o colorido é vendido nas bolsas, blusas, xales, faixas. Do alto da escadaria da Igreja de São Tomás fiquei observando aquele vai e vem colorido. No interior da Igreja os índios adultos conversam, muitas vezes chorando, com as imagens, crianças correm, pétalas de rosas são espalhadas pelo chão, velas acesas pelos corredores, incenso, enfim… É muito diferente!  A Igreja se adaptou aos costumes locais.

Chicastenango é linda nas cores, mas me impressionou também pelo abandono. A impressão que dá é que a população indígena, maioria na Guatemala, está  abandonada pelas autoridades. Isto está bem claro nos sorrisos desfalcados dos adultos e nos dentes precocemente cariados das crianças.

Os turistas vão embora encantados com as cores e eles retornam aos seus bordados pouco vendidos e às suas conversas com os santos da Igreja se São Tomás…

Saímos de Panahachel cedinho e entramos no México. A fronteira mais tranqüila e organizada da América Central. Na Guatemala a estrada é ladeada por enormes despenhadeiros e no México, na Região de Chiapas à medida que se sobe para San Cristóbal a temperatura vai se tornando mais baixa. É também uma estrada bonita.

San Cristóbal de las Casas é considerada uma das mais bonitas cidades do México.  Mais uma vez a arquitetura colonial espanhola está presente e mais uma vez os indígenas vendem seu colorido en las calles.

Bol. 18

Mudança de rota, ou,

Sendo extorquidas no México.

 

Estou nos Estados Unidos e com muita dificuldade para enviar meus boletins. Interessante, nunca pensei, em logo aqui ter esse problema. Vamos ver como resolverei isso. Além dessa dificuldade, constatei também que o meu Inglês está muito ruim, espero que melhore o mais rápido possível.

Bem, devo explicar porque mudei meu roteiro inicial.

Demoramos muito na América Central. Comecei a ver que nesse ritmo não ia conseguir chegar ao Alaska antes do início do inverno. Assim, como na volta farei todo o México, resolvemos atravessá-lo de ponta a ponta em Auto Pista e chegar o quanto antes aos Estados Unidos.

A travessia não foi tão fácil como imaginávamos. Tivemos que passar perto da Cidade do México, onde fomos multadas, por estarmos transitando justo na quinta feira, quando era proibido a terminação da nossa placa. Ser multada não foi o pior, embora tenha achado muito injusto. Na verdade fomos extorquidas com a justificativa de que estavam baixando nossa multa. O pior foi ter que negociar com bandidos vestidos de policiais ( policiais mesmo). Depois, telefonando para o Serviço de Proteção aos Turistas, fiquei sabendo que é uma prática comum no México e que ao sermos abordados por essa gente devemos imediatamente telefonar para a Segurança Pública dando o número da patrulha que está tentando a extorsão. Como não podíamos mais transitar naquele dia, o policial nos escoltou até um Motel onde dormimos entre gritos e sussurros de nossos vizinhos.

Fiquei muito para baixo com o acontecido fazendo uma avaliação CustoxBenefício da nossa viagem. Nesse dia cheguei à conclusão de que estava tudo muito pesado. Atravessar o México em Auto Pista é muito rápido mas os pedágios são muitos e caros.

Dormimos em algumas cidades sem importância mas Águas Calientes foi muito interessante. O Palácio Municipal e seus inúmeros arcos, a Praça Principal e suas bonitas igrejas nos encantaram.

Enfrentamos o norte do México, na verdade um enorme deserto, debaixo de muito sol. Finalmente chegamos a Ciudad Juarez e a fronteira com El Paso.

A fronteira é uma enorme confusão de carros e gente, mas perfeitamente gerenciável. Estamos ficando craques em fronteiras. Liberamos o carro mas não ficou muito claro onde carimbar a saída do México, de forma tal que na primeira Embaixada ou Consulado do México vamos ter que esclarecer o assunto.

Estamos cansadas.

Bol. 19

Fronteira de El Paso (México e EUA)

 

Sair do México foi fácil. Entrar nos Estados Unidos não foi difícil, foi demorado. Fomos muito bem tratadas, aliás, como The Brazilian Ladies. Fomos fotografadas, impressões digitais de todo jeito, endereço, profissão, todos muito amáveis. Alguns mexicanos respondiam perguntas algemados. Um horror! Comecei a pensar: se for algemada começarei a chorar. Felizmente nada aconteceu, fomos apenas “fichadas”.

Bem, após mais ou menos  quatro horas estávamos em El Paso já em um Hotel indicado pelos próprios policiais.

Foi uma excelente dormida. Ao amanhecer me deparei com uma cidade ampla, limpa e muito fácil de dirigir.

A manhã foi gasta fazendo um seguro obrigatório. Finalmente seguimos viagem para uma estadia no Grand Canyon. O deserto continuava. Saímos do Texas, entramos no Novo México e Arizona e sempre o deserto de paredões avermelhados e uma vegetação quase nada.

Ao chegarmos a Flagstaff, tivemos uma surpresa. As marchas do Troller, que já vinham entrando mal, travaram. No México eu já vinha sentindo alguma diferença mas na Chevrollet de Aguas Calientes não quiseram mexer.  Fiquei muito preocupada. Só faltava essa! Viajei por toda a Patagônia por terrenos muito difíceis e nada aconteceu. Amanhã vamos levá-lo a uma oficina, indicada pelo hotel, para vermos o que pode estar acontecendo. O Haroldo já foi acionado para fazer uma consulta à Troller para uma pista do defeito. Bem, resumindo: o que parecia um defeito horrível, quase sem solução, a não ser importando peças, etc., não passou de um ajuste da embreagem e completar o óleo da caixa de marcha. Tenho que tirar o chapéu. O americano deu o diagnóstico imediatamente, regulou tudo, disse que possivelmente eu teria problemas 5.000 milhas adiante, me cobrou 36 dólares e eu voltei para o Hotel muito satisfeita, depois de haver chorado, ficado insegura and others …

A dificuldade de comunicação (meu inglês está muito pequeno), o cansaço de muitos dias na direção, o stress da América Central, me fizeram pensar na dificuldade de enfrentar tudo isso sozinha. Não gostaria de estar só. Quero meu companheiro comigo, vendo, sentindo vivendo comigo as dificuldades desse roteiro. Meus novos olhos me fazem ver diferente.

Bol.20

Grand Canyon National Park (Arizona-EUA)

 

Hoje, pela manhã, a Tamara partiu. Fomos deixá-la na estação de ônibus de Flagstaff. Serão dez horas de estrada. Vai encontrar com a Carol, nossa sobrinha, pegar um avião para Brasília e assim voltará às suas atividades normais, seu marido, filhos e netos. Com certeza sentirei muito sua falta. Foram dias muito intensos, enfrentando situações diferentes das quais estamos acostumadas.

Bem, ficamos eu e a Cristina descansando e fazendo planos para aproveitarmos os dias entre sua volta e a chegada do Haroldo.

Os dias no Grand Canyon foram de deslumbramento.

Quando saímos para lá já sabíamos que ia ser complicado, além de férias, era um fim de semana emendado com o 04 de julho, dia da Independência dos Estados Unidos. Uma multidão nos aguardava. As primeiras vistas nos impressionaram e apesar do sol muito forte conseguimos caminhar um pouco apreciando os enormes paredões alaranjados do Mather Point e Yavapai Point. Demos uma batida inicial nos hotéis e desanimamos. As reservas são feitas com um ano de antecedência. Resolvemos fazer o que desse e depois pensaríamos onde dormir, quem sabe acamparmos. Estacionamos em uma das poucas sombras existentes, fizemos um lanche, deitamos no chão e começamos a esperar o sol esfriar um pouco. A Cristina, após uma cochilada, resolveu voltar aos hotéis e retornou com a boa nova: havia uma vaga no Maswik Lodge. Não acreditamos, era bom demais! Colocamos nossa bagagem no quarto, grande e confortável e passamos a ler um pouco sobre a região, nos preparando para o pôr-do-sol, que nesse dia aconteceria exatamente às 7:49 p.m. As proporções do Grand Canyon são assustadoras: 4950 quilômetros quadrados, ou 443 quilômetros de paredões ao longo do Rio Colorado.

Há um ônibus que leva aos principais points  e você pode descer para ver a vista ou caminhar até o próximo e assim fomos descendo e subindo até Hermits. Voltamos até o Hopi Point e nos plantamos estrategicamente, aguardando o espetáculo dos paredões coloridos pela tarde. Nossa! O Canyon muda de cor a cada instante. As cores variam de vermelho, laranja e amarelo. As sombras vão aumentando à medida que o sol vai baixando até que o horizonte se torna vermelho e o Canyon se torna lilás. O espetáculo terá continuidade no dia seguinte, quando o sol nasce.

Foi um espetáculo maravilhoso! Lembrei do Atacama, suas cores ao pôr-do-sol e seus pontos brilhantes de cristais de sal.

Quando resolvemos jantar já era noite. A batalha no restaurante foi grande, muita gente! Voltando ao alojamento estávamos muito cansadas do sol, do ar extremamente seco que nos rachou a boca, pele e secou nossa garganta, mas maravilhadas. Valeu a pena! No dia seguinte, pegamos o Troller e fomos para o outro lado do Canyon, até o Desert View. Aqui o Rio Colorado fica bem visível e suas águas azuis fazem um contraste bonito com as rochas  grandiosas.

Para os descendentes diretos dos hopis, uma das tribos que habitaram a região “todas as pessoas desceram para este mundo por um buraco no céu que fica bem acima do Grand Canyon e é para aqui que os espíritos das pessoas seguem quando elas morrem”. Uau!

Bol. 21

Esperando o Haroldo em Los Angeles (California-EUA)

 

Estou estacionada em Los Angeles aguardando o Haroldo. A expectativa é grande. Os planos eram de encontrá-lo em Vancouver no Canadá, mas resolvemos nos encontrar por aqui mesmo. Vamos subindo devagar.

A Cristina partiu  dia 15 encerrando uma viagem de três meses a bordo do Troller. Deixou muita saudade. Sentirei muita falta de seu companheirismo e bons conselhos. Voltou para seu trabalho na UNICAMP, seus filhos e netinha. Obrigada Cristina por me acompanhar nos bons e maus momentos da aventura!

Antes de sua partida tivemos que fazer o trecho Flagstaff/Los Angeles. Estudamos para valer o mapa em cima das dicas da Carol, nossa sobrinha. Não foi difícil pois as estradas são muito bem sinalizadas e Los Angeles, com o seu sistema de Freeways é mais fácil de dirigir. Encontramos o apartamento da Carol e logo nos instalamos. É um lugar tranqüilo, em North Hollywood, um lindo parque nas proximidades, de forma tal que, enquanto espero o Haroldo, caminho todas as tardes, leio sentada na grama do parque e faço algumas incursões pela cidade. Com a Cristina visitamos os prédios mais antigos da Downtown, a Calçada da Fama (Walk of Fame), onde procuramos nossos artistas preferidos, velhos conhecidos de nossas coleções dos anos 50, o Mann’s Chinese Theatre, Kodak Theatre, tomamos um café gelado, visitamos a Universal Studios. Com a Carol visitamos Venice Beach, cuja calçada nos devolve os anos 60, canais e pontes: uma Veneza Americana? Na mesma tarde visitamos Promenade. Já sei como ir ao Aeroporto, sem me perder, de forma tal que estarei esperando tranqüila pelo Haroldo. No momento estou ocupada em tirar meu visto para o Canadá e já foram tantas as viagens até lá que estou sabendo tudo do Metrô. Tenho dado muito trabalho à Carol, meu ingles não está bom, mas temos batido longos papos sempre com uma cervejinha. É bom falar português! Obrigada Carol por me abrigar em sua casa com tanto carinho e atenção! No sábado passei o dia todo no Getty Center. Considerei o ponto alto da minha visita a Los Angeles. Achei a arquitetura bonita e sensacional o contraste de texturas, mármore travertino rústico, como se cortado por um machado, a fluidez do vidro e painéis metálicos. A exposição de desenhos do corpo humano explorando o impacto de Michelangelo em duas gerações de artistas florentinos é excelente. Impressionante também é a enorme  coleção de manuscritos escritos e decorados totalmente à mão, expostos em uma sala escura, com iluminação especial  sobre eles causando um efeito dramático! As esculturas gregas e romanas, ficando eu muito tempo a admirar a estátua do Imperador Romano Marco Aurélio, imponente, soberano na sua imortalidade. Em uma sala especial pode-se apreciá-la e ao mesmo tempo aprender como foi feita a restauração eliminando todos os defeitos das anteriores. Adorei esta sala. Enfim, os jardins cuidadosamente projetados e cuidados. Me esparramei na grama a comer sanduíche e suco de laranja. Lá pelas cinco horas, fiquei por ali ouvindo uma banda tocar, som de água rolando nas pedras e cascatas. A Carol me pegou no estacionamento e nos fomos para uma comida japonesa. Que Sábado!  

Bol. 22

O Haroldo chegou!

 

O Haroldo chegou a Los Angeles no dia 24. Coitado, foram quase 24 horas de Fortaleza a São Paulo e São Paulo Los Angeles. Resolvemos seguir viagem logo no dia seguinte. Vamos matando a saudade pelas estradas.

Felizmente meu visto para o Canadá ficou pronto antes dele chegar, de forma tal que sair de Los Angeles foi fácil, o Haroldo dirigindo e eu de navegadora. Minha nova profissão.

Dirigir nos EUA não é difícil, as estradas e cidades são muito bem sinalizadas. A velocidade faz  com que a atenção seja muito grande. O “sempre alerta” cansa.

Pegamos a Rodovia 1 que nos levou à bonita costa do Pacífico. São 160km de estrada linda caracterizada por ondas quebrando nos rochedos e belas enseadas. Conta-se que no final do Séc. 18, os espanhóis deram a este trecho do litoral o nome de “El Pais Grande del Sur” e desde então os americanos o chamam Big Sur. Após um pôr-do-sol estonteante em Morro Bay , dormimos em uma pequena cidade chamada San Simeon . Nos deparamos com preços muito altos. Verão, férias e fim de semana nos EUA significam reais voando em todas as direções. Conseguimos sobreviver. Nosso quarto tinha uma maravilhosa vista para a enseada de San Simeon, mar tranqüilo e começamos o processo de “matar a saudade”. As novidades eram muitas. Ficaremos juntos os próximos três meses.

 Vai ser ótimo!

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O Big Sur: Castelo de Hearst (California-EUA)

 

Em San Simeon, início do Big Sur, passeamos pela praia ao entardecer e, no dia seguinte, visitamos o Hearst Castle.

Lá de baixo, na estradinha número 1, que vai acompanhando os rochedos consegue-se enxergar o Castelo, as vezes todo descoberto, outras vezes só as duas torres emergindo das nuvens. Achei mais bonito assim.

Chega-se ao Castelo através de um Centro de Visitantes; escolhe-se um dos quatro tours e um ônibus nos leva estrada acima. Nesta época, a região montanhosa fica amarelada. O dourado do capim seco faz um belo contraste com o pouco verde existente.

Descemos do ônibus e… já havia visto excentricidades como o Castelo Pena, em Portugal, mas esta foi demais para o meu gosto! Sei lá o que pensou Hearst, um milionário da mídia americana, ao idealizar e construí-lo. Foram quase 25 nos e não foi concluído. Hearst morreu antes.

São 25 cômodos cheios de obras de arte. Uma misturada de estilos. A casa principal ou Casa Grande parece uma catedral espanhola, a Piscina de Netuno tem a fachada de um templo grego com frisos autênticos e para finalizar uma Piscina Romana, enorme, coberta e aquecida, decorada com mosaicos dourados e cristal veneziano.

Os jardins são extremamente bonitos e há uma enorme quantidade de estátuas antigas e modernas. As mais antigas datam de 1350 a 1200 AC.

Mais uma vez no ônibus, descemos a montanha, apreciando o Pacífico bem abaixo. Mortais, que somos, comemos um cachorro quente com coca-cola e já fui logo definindo: ostentação e excentricidade de um milionário!

Partimos para as paisagens deslumbrantes do Big Sur.

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O Big Sur: Carmel Mission e 17-Mile Drive (California, EUA)

 

Saindo do Castelo de Hearst fomos até Monterey, nos deslumbrando com as paisagens da Costa do Pacifico. Paramos para dormir. Mais uma vez os preços nos assombraram. No dia seguinte visitamos Carmel, uma cidadezinha bonita e tranqüila que nos lembrou Campos de Jordão, se fosse à beira do mar.

Além da localização privilegiada, na encosta de uma montanha que chega até o mar, Carmel possui a Missão de Carmel, construída em 1770, toda de adobe. Está restaurada, mas guarda a arquitetura original tanto dos prédios como dos jardins.

O sarcófago do Padre Serra, fundador da Missão é muito bonito e é considerado um dos melhores exemplares do gênero nos EUA. Na Igreja, de altar bonito ladeado por um arco gótico, celebrava-se uma missa e alguém, com uma voz muito bonita cantava. Muita paz por ali. Adorei a visita!

Entramos na Península de Monterey, percorrendo uma estrada panorâmica  chamada 17-Mile Drive. As vistas são maravilhosas, algumas praias de areias brancas, focas estendidas em outras, florestas de ciprestes, gramados muito verdes dos campos de golfe, enfim um belo passeio! Encontramos dois casais, eles, filhos de brasileiros, nos deram excelentes dicas de estradas.

Nos dirigimos para San Francisco com muito medo de nos perdermos na cidade grande, esquecidos que a sinalização por aqui é perfeita. Foi tudo muito tranqüilo. Saímos na Golden Gate, meio enfumaçada na tarde fria e com vento. Uma linda vista da Baia coalhada de barquinhos. Linda ponte!

Dali, pegamos a Rodovia 5 que nos levará ao Canadá. Paramos em Napa para trocarmos o óleo e filtros do Troller. Qual não foi a nossa surpresa quando soubemos que não há este tipo de filtro e que, nos EUA só se troca o óleo trocando os filtros. Paramos na oficina de um Filipino e lá ficamos por quase quatro horas. Todo o comércio foi contatado e nada. Limparam o filtro de ar, lavaram o filtro de óleo. Assim seguimos. Até quando não sabemos. Ah, trocaram o óleo.

Quando fui para a Patagônia, levei vários. Desta vez, a informação que me foi dada na Troller é que eu não teria esse problema por aqui.

A história não é bem assim!

Estamos agora em Portland, pensando uma maneira de trazermos do Brasil os tais filtros, senão não poderemos seguir em frente. Que zebra!

Vancouver-British Columbia-Canadá

Dia 04 de agosto de 2003

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Esperando os filtros do Troller

 

Estamos em Vancouver, no Canadá. A temperatura está gostosa, um pouco frio à noite mas nada que uma blusinha de mangas compridas não resolva.

Antes de chegarmos aqui viemos tranqüilamente pela Rodovia 5, excelente, pernoitamos em Bellingham ainda nos EUA, Estado de Washington.

Lá resolvemos mandar buscar os tais filtros. A promessa da Empresa era para entrega em dois dias, de forma tal que fomos direto para Vancouver no Hotel no qual os filtros deveriam ser entregues. Bem, estamos aqui até hoje, dia 04, aguardando a encomenda que está parada em Cincinnati(Ohio). Não sabemos ainda por que. Estamos otimistas. Achamos que a coisa vai se resolver de hoje para amanhã.

Bom, Vancouver é realmente uma cidade muito bonita. Cercada de água, muitas pontes, muitos jardins, parques e flores.

Passeamos por Waterfront e Gastown , vimos o relógio a vapor, o Canada Place onde um enorme navio partia levando turistas para o Alaska, o Harbour Centre Tower, alto com sua torre de 167m, enfim, caminhamos bastante.

No Domingo resolvemos tirar o Troller do estacionamento e fomos a Capilano Suspension Bridge, um ponto turístico interessante. A ponte suspensa sobre o canyon tem 70m de altura e impressiona o rio que corre sobre pedras redondas muito brancas e pala floresta de cedros.  Fomos também ao teleférico de Grouse Mountain mas resolvemos ficar por ali conversando com um mecânico canadense que se entusiasmou pelo Troller e nos deu boas dicas de estradas no Canadá.

Descendo um pouco dos detivemos para uma caminhada floresta a dentro no Lynn Canyon e Ecology Centre. Estava um dia muito bonito. As trilhas são lindas. Um sanduíche sentados na grama, a visão do lago entre as montanhas, o verde e o bom humor, encerraram um dia perfeito.

Hoje queremos ir a Victoria na Ilha de Vancouver. Deverá ser um lindo passeio!

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Os filtros chegaram, ou: Podemos partir!

 

Finalmente os filtros chegaram. Acompanhamos todo o trajeto pela Internet e nos desesperamos quando vimos que ficaram retidos por dois dias em Cincinatti, Ohio. Quando abrimos o computador e vimos que já estavam em Vancouver corremos para o terminal de cargas da DHL e após alguns trâmites normais e ligeiros já estávamos com eles. Ufa! Alegria total. Dali saímos direto para a estrada.

Agora, estou escrevendo de uma cidadezinha do Alaska, Nenana. De tão pequena nem sempre aparece nos mapas. Para falar a verdade, um pequeno conjunto de casas. Esta é uma pousadinha super simples mas aconchegante embora a impressão tenha sido muito ruim. O dono, um americano simpático com toda a pinta de ex marinheiro, com tatuagem e tudo, nos falou que aqui é muito seguro, mas terminou por nos aconselhar a não comer no bar e sim no posto de combustível. Seguimos seu conselho. Estávamos no olho da rua pois havíamos deixado Fairbanks para trás, considerada por nós, sem atrativos que justificasse uma permanência mais prolongada. Paramos por aqui mesmo pois não sabíamos as opções até o Denali National Park.

Está frio, mas nada exagerado, sopra um vento e as muriçocas são bem grandinhas. Quem disse que as carapanãs da Amazônia são as maiores muriçocas do mundo? Um Autan e elas ficaram meio desarvoradas. Consigo escrever um pouco. São dez horas da noite e o sol está como o de cinco e meia da tarde no meu Ceará.

Bem, voltando ao passado: estávamos saindo de Vancouver. A saída foi bem tranqüila apesar de passarmos pelo centro da cidade. Sinalização perfeita!

Saímos pela 99, uma estrada bonita e alta. No início ela vai circundando um belíssimo fiorde cujas águas azuis e tranqüilas são um convite para parar e mirar! Tínhamos que seguir, já ficáramos muito tempo em Vancouver. Passamos por uma cidade simpática chamada Whistler, uma importante estação de sky. Dormimos em Pimberton em um Bed & Breakfast super agradável. Os donos, um casal de idade, muito simpáticos, fizeram de tudo para tornar a nossa estadia ainda mais agradável. O sistema é bem prático. Pessoas alugam alguns quartos da casa, servem um café da manhã caseiro, coisa rara por aqui e vão trabalhar . Os hóspedes, é claro, têm que partir também. Adoramos. De Pimberton pegamos a 97 para Prince George, onde dormimos. Lá encontramos um coreano que viajava de moto e que nos deu um mapa e dicas bem interessantes, apesar da dificuldade enorme para nos entendermos. Ficamos entusiasmados com a idéia de retornarmos até Prince Rupert, de Ferry, a partir de Scagway, um pequeno porto do Alaska, abaixo de Anchorage. Estamos trabalhando nesta direção. Tudo indica que é uma viagem muito bonita.

De Prince George seguimos para Dawson Creek. Todas essas cidades são muito pequenas mas muito limpas, com um Centro de Apoio aos Visitantes com pessoas bem informadas e atenciosas. O canadense tem se mostrado um povo muito simpático e bem mais descontraído que o americano. De Dawson Creek iniciamos nossa viagem pela histórica Alaska Highway ou Alcan. O Haroldo, já bem entrosado com os costumes, já carrega aquele copão de café que mais parece um chá tomado com canudinho e tudo. Quilômetros tomando aquela gororoba. Estamos felizes, apesar de todo dia ser um desafio, como dizia a Cristina.

A Alaska Highway é longa, cheia de História, ora linda, ora monótona e cansativa. Conto no próximo capitulo. Me acompanhem na Alcan!

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Alaska Highway – Parte I

 

Estou escrevendo de uma Pousada quase na entrada do Denali National Park, o Parque Nacional mais famoso do Alaska. Hoje à tarde já demos uma voltinha por lá. Amanhã faremos o passeio de ônibus. Durante esse passeio entraremos mais de 70km, com possibilidade de vermos ursos, alces e outros bichos menores.

Está ventando muito, a temperatura caiu e sentimos muito frio hoje à tarde. Da janela do meu quarto vejo montanhas muito verdes de cumes descascados, pinheiros e um céu bonito que começa a ficar nublado. São nove horas “da noite”, claro, claro.  A janela dá também uma vista para o RV Park, isto é, nada de barracas com um frio desses. É uma enorme área para estacionamento de traillers, que são chamados de RV. Os RV Parks tem todas as instalações para que o trailler funcione como um apartamento. Acabou de chegar um dirigido por duas mulheres. Estacionaram aqui em frente, com muito barulho e felicidade. Desceram crianças descalças, de camisetas fazendo aquele burburinho natural. Como diria minha avó: menino tem couro de sapo! Os cachorros, adorados, venerados e bem tratados, também já foram instalados e o acampamento começa a se organizar. Estou impressionada com a quantidade de traillers por aqui. De cada cinco carros na estrada quatro são traillers: pequenos, enormes, rebocando ou sendo rebocados. Muitas casais, já velhos, viajando assim. Encontramos duas velhinhas dirigindo um bem grandinho e conseguimos vê-las quando, em uma manobra radical, tiraram-nos da estrada. Bem, isso não vem ao caso, o fato é que todo mundo dirige um, sendo esse o motivo de tantos campings com estrutura para esses veículos. Deve ser ótimo!

Bem, de volta ao passado …

A Alaska Highway se inicia em Dawson Creek na British Columbia, Canadá, e termina em Delta Junction no Alaska depois de 2.400km. É uma estrada com muita História. Foi construída em oito meses, por engenheiros americanos e trabalhadores canadenses, na Segunda Guerra Mundial, depois de Pearl Harbour, para defender a costa noroeste do Alaska, o mais isolado estado americano. Foi difícil e heróico. Esta é uma região de pântanos, montanhas, florestas, muito frio e mosquitos. A coisa foi de tal ordem que, conta-se, o cartaz para recrutamento dos trabalhadores dizia: “Não se trata de um piquenique. Será preciso enfrentar pântanos, rios, gelo, frio. Os mosquitos, moscas e borrachudos, mais do que perturbar, irão causar danos físicos. Se você não está preparado para trabalhar nessas condições, não se candidate”. Muitos morreram. Essa história é contada em folhetos distribuídos em todos os Centros de Visitação, em filmes e nos marcos. É uma estrada longa. O trecho mais difícil, a meu ver, por ser longo, monótono e sem atrativos é o que vai de Fort Nelson a Watson Lake entrando no Territorio de Yukon, ainda no Canadá. Em contrapartida, existem trechos deslumbrantes: florestas, lagos e montanhas em uma sucessão de oohs e aahs! Em um desses trechos paramos para ver uma manada de bisões que descansavam calmamente na beira da estrada. São bichos enormes e muito esquisitos. Nunca pensei em vê-los tão de perto e tão tranqüilos.

Em uma cidadezinha chamada Pink Mountain, antes de Watson Lake, lavamos nossa roupa e o tempo começou a esfriar. Pela manhã o Troller quase não pegou. Nhén, nhén, nhén, p’rá cá e nhén, nhén, nhén, p’rá lá, pegou mas saiu uma quantidade tão grande de fumaça do motor que a dona do Hotel saiu correndo e disse que ia chamar os firefighters. O o que? Firefighters! Cruzes! Mais que depressa levamos o Troller para a oficina mais próxima e a segunda parte do drama desenrolou-se por ali mesmo. Para explicar para o mecânico que o fumaceiro  cobriu tudo e de onde ele estava saindo foi uma novela em inglês(?), portinglês  e vai por aí. Jesus me guarde! Finalmente a ação se mostrou mais efetiva e a oficina se transformou em um enorme fumaceiro. Eu, à beira de um ataque de nervos. O Haroldo me mandou tomar um café e, quando retornei, o senhor disse que estava tudo ok e que o problema era very easy  e, me acalmando, take it easy! Ok, ok!  Duas porquinhas se soltaram do Turbo e resolveram ficar pela Alaska Highway. Do Ceará para a Alcan! Entendi que a fumaça ao invés de sair pelo cano de escapamento estava saindo pelo motor. É isso? Que as porquinhas sejam felizes! Foram rapidamente substituídas. O mecânico, um senhor muito simpático aproveitou para examinar melhor o carro e se declarou maravilhado. Seguimos caminho felizes da vida!

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Alaska Highway – Parte II

Enfim o Alaska!

 

Continuamos no Lodge quase na entrada do Denali Park. O vento está muito forte e o frio continua grande.

Lá fora novos acampamentos estão sendo montados. As mulheres, com as crianças, já foram para outros RV. Saíram cedinho. Crianças rindo, cachorros latindo, os barulhos substituídos pelo motor e pronto. Da minha janela escrevo.

Quando nós saímos de Pink Mountain, com os parafusos já colocados, já era quase meio dia.

Dirigir pela Alaska Highway é dirigir sem pressa pois as paisagens são tão bonitas e tantas que a todo momento paramos para apreciá-las. Acho que 450 a 500km por dia são suficientes para isso. E assim fomos nós de paisagem bonita a paisagem bonita. Parando, apreciando, fazendo um lanche, conversando e trocando impressões. Que viagem! Que paisagens tão diferentes. Quantas culturas atravessamos. Quantas experiências tão diferentes! Cada dia um desafio!

As cidades mais importantes da Alaska Highway são: Watson Lake e White Horse. As outras são entroncamentos ou apenas lugarejos de apoio.

Watson Lake, bem na fronteira entre British Columbia e o Território de Yukon é, como todas as outras cidades da região, pequena e arrumadinha. A sua única atração é uma floresta de placas. São centenas. A primeira, conta-se, foi colocada por um soldado com saudade de casa. Tornou-se um costume. Paramos por ali para algumas fotos.

White Horse já é uma cidade grande para os padrões da região, com um jeitão de cidade dos antigos filmes de faroeste. O Centro de Visitantes, muito bem instalado nos forneceu todas as informações solicitadas. Nos sentamos por ali para um lanche, olhando o rio e as enigmáticas cabeças da mitologia indígena, montadas em um suporte metálico, olhando para o rio, como nós.

Algumas compras em um super mercado, Haroldo comprou um corta-vento, abastecemos, batemos um papo com um canadense muito simpático que nos deu algumas dicas sobre o Alaska e … resolvemos seguir viagem até Haines Junction.

O deslumbrante Lago de Teslin nos aguardava e um pouco mais à frente os picos nevados do Kluane National Park começaram a aparecer.

Haines Junction é uma encruzilhada: para o oeste continua-se na Alaska Highway e para o sul para a cidade de Haines. Dormimos por ali mesmo. Da nossa janela os imponentes picos das montanhas do Kluane cobertos de neve eram uma visão para ninguém botar defeito! Puxa, que beleza!

Como o Kluane National Park só pode ser sobrevoado e caminhado (longas caminhadas, acampando), no dia seguinte, seguimos e como se não bastassem as montanhas do Kluane, sempre à nossa esquerda, fomos dando a volta no  magnífico Lago de Kluane. Quase 130km acompanhando o lago! Cada volta uma beleza, algumas vezes águas tão tranqüilas refletindo as montanhas, outras vezes águas agitadas tocadas pelo vento e mais adiante, com o dia esquentando, uma névoa cobrindo a superfície. De tirar o fôlego! Encontramos um pequeno museu. Entrei. Muito organizado exibia os animais da região: ursos, caribus, alces, pássaros e objetos feitos pelos nativos. Ao lado, uma igrejinha de madeira, singela, construída por algum padre bem intencionado e transformada em museu. Tudo muito organizado. As senhoras, voluntárias, nos mostraram tudo. Ficaram muito curiosas conosco, com o carro, com o Brasil. Aqui tem muito disso, pessoas mais velhas prestam serviço voluntário em museus, bibliotecas públicas e são sempre pessoas muito atenciosas e competentes. Adorei!

Passamos por Beever Creek e … finalmente a fronteira. Esta foi a fronteira mais tranqüila de toda a viagem. Nada de carimbos, perguntas ou inspeções. Estávamos no Alaska! Uau! Nossa, três meses e meio na estrada e quantos quilômetros percorridos! Quase 20.000! Quantas experiências e paisagens que ainda precisam ser amadurecidas, lembradas. Há uma grande placa de madeira: Welcome to Alaska. Ficamos por ali conversando um pouco, algumas fotos e seguimos para uma cidadezinha muito simpática chamada Tok. Estava um dia lindo. Um sol forte. Achamos um hotelzinho confortável, tomamos cervejas comemorativas e no dia seguinte … estávamos no fim da Alcan, em Delta Junction, puxa, 2.400km de pura beleza!

De Delta Junction, fomos a Fairbanks. Demos uma volta pela cidade, não nos empolgamos. Depois de tanta Natureza é duro enfrentar uma cidade grande, edifícios, asfalto e tudo mais. Seguimos pela estrada até um lugarejo chamado Nenana mas, essa história vocês já conhecem.

Vamos ao Denali! O passeio promete!

 Bol. 29

Denali National Park e Mount McKinley (Alaska)

 

O Denali fica situado entre Anchorage e Fairbanks, mais ou menos a 380km de uma e de outra. É um Parque imenso mas só uma pequena porção está aberta a visitação.

Há um Centro de Visitantes para informações. Lá a gente fica sabendo até onde se pode ir com o seu veículo e até onde com os ônibus do Parque. Com o Troller andamos até o Savage Point para uma boa caminhada ao longo do Savage River. Estava muito frio, ventando demais e extremamente bonito. Fizemos nossa reserva para o passeio de ônibus no dia seguinte: percorreríamos quase 70km de Parque a dentro em um roteiro de oito horas.

Este é um Parque que abriga diversas espécies de animais selvagens e pelos cuidados com o transito de mais de 360.000 turistas por ano, animais  como os ursos marrons percorrem as mesmas trilhas de tundra que sempre percorreram. Que permaneça assim! Existem trilhas para caminhadas, não para bicicletas e uma das atrações para os caminhantes é colher morangos silvestres. Vimos muitas pessoas caminhando e levando pequenos baldes cheios deles.  Existe um excelente website www.nps.gov/dena , para quem quiser maiores informações.

Chegamos cedo para o nosso passeio. O ônibus é bem confortável e o motorista pára assim que qualquer turista diz “stop” quando vê uma paisagem bonita ou um animal selvagem. Foram muitos os stops. Não se pode descer. A estrada não é asfaltada e vai subindo e descendo devagar. Os primeiros animais a serem vistos foram dois caribus, estavam deitados mas foram denunciados por seus enormes chifres. Estavam lindos! Depois fomos vendo alces e, pasmem, ursos! Os ursos são marrons, conhecidos por grizzly, mas no Parque existem também pretos. São muito grandes e ficam por ali tranqüilos brincando com seus filhotes. Vimos vários.

As paisagens são extremamente bonitas, rios, glaciares e, tivemos muita sorte, estava um dia frio mas ensolarado e conseguimos ver o Mt McKinley inteirinho.

Majestoso! Alguns dizem que é a paisagem mais espetacular da América do Norte. Exageros à parte, é lindo, mas um entardecer no Grand Canyon … sei não!

Do Denali saímos para Anchorage e tivemos vistas maravilhosas do McKinley durante boa parte da estrada.

O explorador inglês, Capitão Cook que em 1778 buscava uma passagem pelo norte, é considerado o “fundador da cidade”. Ele está por lá, em um pedestal, olhando para o mar, levando uma vida bem mais tranqüila mas, com certeza, bem menos fascinante do que a sua outra vida …

Anchorage é uma cidade grande para os padrões do Alaska, 300.000 habitantes. Sem muitos prédios, ruas largas, jardins muito floridos e uma infinidade de lojas para se comprar. Com a descoberta de petróleo em Pudhoe Bay, bem ao norte do Alaska, a cidade cresceu demais a partir dos anos 70. Resolvemos ficar apenas por um dia. Acho que estamos viciados em ver paisagens diferentes. Vamos para o sul visitar Seward e Valdez.  Mais uma vez com o pé na estrada. O Troller está ótimo, despertando muita curiosidade e as pessoas ficam impressionada com o nosso trajeto. É verdade, o Brasil está muito longe!

 Bol. 30

De Anchorage a Seward

Seward Highway e Richardson Highway

 

Saímos de Anchorage e nos dirigimos para o sul. O destino? Seward. Um lugar do qual eu nunca ouvira falar. Estava curiosa. Era um fim de semana e parece que todo o mundo ia para lá: RVs, bicicletas, caminhantes, muitos carros, nós e o Troller. Logo depois da saída a estrada vai beirando o bonito Turnagain Arm. A estrada de ferro corre paralela. Deve ser uma beleza de viagem. Começa em Fairbanks, passa pelo Denali e termina em Seward. Além do trem, corre por perto uma trilha para ciclistas. Anchorage tem quase 200km de trilhas asfaltadas que correm próximo às principais rodovias. Logo depois que a estrada se afastou do “lago” começou a chover e foi muita chuva. Chegamos debaixo de chuva, não se enxergava direito nem o mar. Rapidamente procuramos um lugar para ficar. Foi uma tourada. Finalmente instalados, ficamos por ali esperando a chuva passar. No dia seguinte ela continuava firme. Decidimos seguir caminho. Demos uma vagarosa volta pela pequena cidade, 3000 habitantes, porta de entrada para o Kenai Fjords National Park. Ela é presa entre a Resurrection Bay e altas montanhas, tem um centro muito bonitinho, muitos restaurantes, lojinhas e daqui partem cruzeiros para Vancouver e vice versa. Já estávamos de saída quando encontramos um casal de brasileiros com dois filhos. Que bom! Conversamos debaixo de chuva. Eles moram na Flórida e faziam hora para pegar o navio para Vancouver e nós já partindo para Valdez. Nos despedimos. 

Saindo da cidade há uma entrada para o Glacier Exit. Fomos para lá. Pelo menos isso! Há uma estrada, um Centro de Visitantes com informações e trilhas para se chegar até ele. São trilhas bonitas e muito fáceis. A chuva continuava a bater. Chegamos bem pertinho. Não é um Glaciar grande. Não existem paredões, mas impressiona pelo azul contrastando com as rochas e pela proximidade. Foi um bom passeio. Dormimos em Eureka. Na saída encontramos um grupo de velhinhos, com seus carros maravilhosos carros antigos, que se organizam em um a espécie de Clube e saem viajando pelas estradas. Muito simpáticos e engraçados. Uma foto e nos despedimos. Saímos direto para Valdez pelos quilômetros mais bonitos da Richardson Highway. O tempo melhorou e fomos recompensados pelas belíssimas paisagens de glaciares, canyons, cachoeiras, lagos com cisnes e por aí vai. Diz-se que os glaciares moram no Chugath National Park. Não sei se eles moram lá, mas são tantos e tão bonitos, pendurados ou escorrendo pelas montanhas que é capaz de ser verdade. Assim é a estrada que dá acesso a Valdez, cidadezinha às margens do Prince William Sound. Quanta beleza!

 Bol. 31

Ele era um navegador espanhol e chamava-se Valdez.

Valdez, o lugar mais bonito do Alaska?

 

Pense em um lugar bonito… Esse lugar, com certeza, se chama Valdez e está situado bem ao sul do Alaska.

Um pequeno povoado, preso entre picos nevados, de atmosfera azulada, barcos pesqueiros aportados e um cair de tarde deslumbrante. Não que seja um pôr de sol dourado, horizonte avermelhado, nada disso!

A baía, de águas espelhadas, cobertas com uma pequena camada de névoa, o que lhe confere uma aparência meio irreal; as montanhas como que presas e entrelaçadas por fiapos de nuvens que aos poucos vão tomando consistência deixando os cumes como que suspensos; os barcos calmamente ancorados naquele balanço quase hipnótico; pássaros grandes semelhantes a gaivotas a gritar e comer restos de incontáveis peixes, tratados por pescadores.

Alucinante entardecer em Valdez!

Valdez, um nome espanhol fora de lugar. Um navegador passou, deixou seu nome e assim, de puro esquecimento, foi ficando…

Aqui é tudo muito especial. A estrada que nos trouxe é só um preâmbulo. São quilômetros de glaciares que surgem azuis e cachoeiras que escorrem montanha abaixo contrastando violentamente com as rochas nuas e escuras; florestas verdes avançando sobre a tundra dourada, picos nevados amontoados, misturados, entrelaçados…

Gente quer ver um lugar bonito? Ele está perdido bem aqui no Alaska, bem ao sul. É um pouco longe, mas dá para chegar e aí… é só ver e sentir!

Bol. 32

De Valdez a Haines.

Quatro meses de estrada.

 

Olhando o mapa do Alaska, descobrindo Valdez, vemos que lá é o fim da estrada que se chama Richardson Highway . Ela começa onde termina a Alaska Highway, isto é, em Delta Junction. Por essa estrada iniciamos a nossa volta para o Ceará.

Percorremos de novo os quilômetros deslumbrantes de enormes cachoeiras, inúmeros glaciares azuis, rios turbulentos e lagos tranqüilos.

Concluído o show, há uma entrada para um povoado que se chama Copper Center, na verdade um aglomerado de 362 pessoas.

O tempo para quando você empurra a antiga porta do pequeno museu e se depara com uma velha senhora que, olhando bem, saiu das páginas dos velhos álbuns de fotografias lá expostos. O museu conta uma história do início do século 20, quando a cidade foi um importante acampamento para centenas de mineradores  de olho no ouro de Yukon e, posteriormente, no de Fairbanks. Hoje, há uma bomba de combustível, uma igrejinha e um pequeno mercado. A visita vale a pena. Aproveitamos para comer uma saborosa torta de amoras na velha casa de 1897. Lá, ainda funciona um hotel de portas rangentes. Partimos, a velha senhora, na porta do museu, segurando um lencinho rendado, nos acenou e voltou para a fotografia.

À nossa frente uma vasta planície. As árvores já amarelando com a chegada do outono. O amarelo me lembrou a floração dos ipês na Serra de Pacatuba. Saudade do meu pai.

Chegamos a Tok, que já conhecíamos. No Centro de Visitantes nos sentamos para decidir se tomaríamos um Ferry para Prince Rupert o que nos pouparia tempo e energia, além de dias bem diferentes. Conta vai, conta vem, compramos nossa passagem e a do Troller. Com essa decisão encerramos definitivamente a ida a Inuvick que já estava meio cambaleante pelas informações sobre a estrada e começo da neve.

Decisão tomada, passagem comprada, seguimos para Haines. Em Beaver Creek entramos de novo no Canadá, passando de novo pelos picos e lago do Kluane National Park. Quando nos sentamos ao sol, para um lanche, surgiram dois alegres ciclistas suíços. O começo da conversa foi meio complicado mas terminamos nos entendendo em espanhol. Irmã e irmão, viajavam alugando carro e bicicletas. Naquele momento estavam de bicicletas. Nos rimos muito do encontrão que tiveram com um urso. Eles também iam para Haines acampando pela estrada, mas só chegariam uns três dias depois. Haja perna! Nos contaram que quando o dia estava bom pedalavam 100km! Fiquei impressionada.

Fomos embora, passamos pela fronteira e … mais uma vez no Alaska.

As fronteiras são muito tranqüilas. As vezes nem olham o passaporte. Estrada bonita ao entardecer, montanhas cobertas de glaciares azuis e, finalmente Haines.  

 Bol. 33

Alaska Marine Hwy

De Haines a Juneau

 

Já estamos perto das Montanhas Rochosas, no Canadá, e eu ainda escrevendo sobe os dias no Ferry Taku que nos levou de Haines a Juneau, ainda no Alaska, e depois de Juneau até Prince Rupert no Canadá.

Quando decidimos pegar um Ferry, pensávamos partir de Skagway. Como não havia vaga para o Troller, tivemos que partir de Haines. Foi muito bom. Haines é uma pequena e tranqüila cidade situada à beira do mais longo e profundo fiorde do Alaska, o Lynn Canal.

Logo que chegamos nos deparamos com uma grande praça, gramada, cercada de casas históricas, de madeira, pintadas de branco, telhados pontudos, alpendres e mansardas. Uma gracinha! Algumas dessas casas foram transformadas, pelos herdeiros, em hotéis ou em Bed&Breakfasts. Dessa praça, no alto, estendem-se as águas tranqüilas do fjord. Naquela mesma tarde demos uma volta no Lago Chilkoot, azul, cercado de montanhas bem altas. Vimos vários ursos marrons, que passeavam displicentemente com seus filhotes, e algumas águias. Tem tanta águia em Haines que tem até um Festival das Águias! Muitas pessoas pescando. O peixe é o salmão e a isca é artificial. Acho que os peixes daqui são abestados porque lá no Ceará a isca tem que ser camarão e, de preferência, vivo! Esse é um comentário de uma não pescadora. Desculpem os entendidos! O certo é que um pescador menos profissional pega o salmão de cestinha! Vai lá, mete a cestinha e tá feito o jantar! Pegar salmão de cestinha, francamente!

Os acampamentos funcionam em áreas dos ursos e as pessoas são avisadas sobre como se comportar ao se encontrar com um deles, de como guardar os alimentos e, assim, parece que a convivência é pacífica e não ouvi falar de problemas.

No dia seguinte, fomos ao Lago Chilkat, com vistas para enormes glaciares que despencam no Canal em cachoeiras. Quando embarcamos eram quase 18:00 e o dia ainda estava claro. Subimos para o solarium, nos instalamos nas cadeiras e ficamos observando o pôr-do-sol passar por nós, montanhas e glaciares.

Cinco horas depois já estávamos em Juneau, a desconhecida Capital do Alaska (todos pensam que é Anchorage), que além de um grande glaciar, dentro da cidade, nada tem de especial! 

 Bol. 34

Alaska Marine Hwy

De Juneau (AK) a Prince Rupert (CA)

37 horas navegando no Ferry.

 

Partimos de Juneau no dia 25 de agosto e eram duas e meia da madrugada. Estava bem frio. Muitos carros já na fila de embarque. Ficamos aguardando e conversando com algumas pessoas. Todos já voltando para casa. Fim de férias. O esquema do barco é o seguinte:

1 – As cabinas, pelas quais paga-se 143US$ além da sua passagem e a do carro.

2 – O Solarium, com cadeiras de plástico reclináveis ou não (aquelas de piscina). Algumas pessoas, principalmente os mochileiros, levam sacos de dormir, estendem sobre as cadeiras reclináveis, forrando antes com um isolante inflável, se metem dentro deles e dormem por ali mesmo, olhando as estrelas e sentindo o frio no rosto.

3 – A Sala de Observação, grande, bem na frente do Ferry com enormes janelas de vidro, cadeiras estofadas e não reclináveis. Parece uma nave espacial. Durante o dia as pessoas ficam olhando a paisagem e à noite estendem seus sacos de dormir no chão.

4 – A Sala de poltronas reclináveis que é pequena. Apenas vinte poltronas grandes, com um amplo espaço entre elas. Dá perfeitamente para dormir. Algumas pessoas ficam sentadas durante o dia e estendem seus sacos de dormir à noite. Vale salientar que não há reserva de lugares. Os banheiros são limpos, aquecidos, com chuveiros ( leve sua toalha e sabonete). Restaurante para almoço, jantar e café da manhã, bar e amplos espaços para observação ou para caminhar. Embora haja alimentação no barco, que não está incluída na passagem, as pessoas podem levar sua comida ou comprar em cada parada. O acesso ao carro só é permitido quando o barco chega a algum porto.

Enfim, ótimo! Acho que bem melhor que os enormes navios para cruzeiros, cheio de gente, tudo certinho e muito caro. Pagamos por nós e o Troller 615 U$. Foram quatro paradas em pequenas cidades. Algumas pessoas descem para tomar o barco no próximo dia que ele passar por lá. Já compram com os dias determinados. Nas cidades alugam bicicletas, caiaques. Não tem erro.

Com relação ao visto tem um detalhe importante: indo para o Alaska, embora sejam várias entradas, só é necessário o visto para uma entrada. Só tirar o visto de várias entradas se for sair e entrar nos Estados Unidos, abaixo do Canadá. É que o visto de várias entradas é bem mais caro.

Na noite do dia 26 vimos o planeta Marte. Ele estava enorme no céu, bem visível e vermelho. Estava tão brilhante que refletia no mar. Incrível!

Chegamos a Prince Rupert, já no Canadá, na hora certinha, procuramos um hotel e começamos a nos organizar para os Parques das Montanhas Rochosas no Canadá. Já estamos nele, no entanto, depois das deslumbrantes paisagens do Alaska … sei não!

 Bol. 35

De Prince Rupert (CA) a Jasper(CA) – 1.118km

Uma cabana à beira do Rio Fraser.

Frazer River Ca007 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

Quando saímos do Ferry para Prince Rupert fizemos a Aduana. Tudo muito simples. As perguntas sempre as mesmas: armas, bebidas e cigarros? O spray de pimentas para ursos foi confiscado. Se fosse para gente seria permitido. Dormimos por lá  e no dia seguinte já estávamos na estrada no rumo de Jasper  nas Montanhas Rochosas. A estrada é bonita passando por fazendas. Nesta época os campos já foram ceifados e o feno vai sendo enrolado por máquinas, de forma tal que ficam amarelados, cheios de grandes rolos espalhados. De repente passa uma máquina e vai empilhando tudo. Entramos em Terrace para visitarmos um interessante Museu no qual foram colocadas casas de antigos moradores e mineradores, com utensílios e ferramentas. Um lugar bem bonito! Paramos em uma cidadezinha chamada Fraser River e resolvemos ficar em uma cabana logo depois da ponte. A gente abria a porta e lá estava o rio fazendo aquele barulhinho nas pedras. Como era fim de semana, os pescadores já estavam em atividade. Amanhecem e anoitecem dentro do rio pescando trutas. Acho que a pescaria é o principal esporte por aqui. Uma churrasqueira na margem, as trutas tratadas e assadas e o programa está feito. Tudo muito tranqüilo. Estávamos com sorte. Os dias ensolarados tornam as paisagens mais bonitas e mais coloridas. Ficávamos sentados olhando os pescadores e com muita vontade de pararmos ali por alguns dias, mas as cabaninhas já estavam reservadas, de forma tal que fomos embora. A caminho de Jasper, já subindo as montanhas, depois de uma curva nos deparamos com o Monte Robson. Puxa, que visão! O cume coberto de neve e as encostas exibindo sua idade nas camadas bem nítidas da rocha. Fomos passando por lagos, encontramos um casal de brasileiros, conversamos um pouco, mais adiante um casal de canadenses nos deu uma garrafa de vinho e assim chegamos a Jasper, uma cidade inundada por turistas e tudo muito caro. Hotéis nem pensar! Felizmente existe um esquema alternativo muito interessante. É o aluguel de cômodos da casa. Ficamos em uma que mais parecia uma casa de bonecas. É uma opção mais barata e que dá oportunidade para se conhecer melhor o modo de vida daquelas pessoas. Jantamos um delicioso salmão. O nosso quarto tinha uma varandinha e para descansarmos dos passeios da tarde, tomamos o vinho que estava muito gostoso!

 Bol. 36

Jasper National Park – Canadá

Turistas, sim senhor!

 

Enquanto escrevo, o Haroldo conversa lá fora com um senhor bastante curioso sobre o Troller. Nossa, está muito frio! Depois de dias ensolarados, de repente o tempo mudou, começou a ventar e o frio bateu de verdade!

Falando ainda de Jasper …

Lá, fomos turistas de verdade, até de teleférico andamos! Fizemos todos os passeios recomendados. Ficamos impressionados com a beleza turquesa dos lagos Patricia, Pyramide, Maligne e outros, com a profundidade dos cânions mas, o que mais nos chamou atenção foram as montanhas escarpadas, parecendo lâminas apontando para o céu.

Decidimos partir e ir visitando o que tivesse no caminho ate chegar a Banff. Os folders diziam que são os 230 km mais bonitos da Terra! Assim, vimos o Columbia Icefield e Athabasca Falls e outros, encontramos quatro brasileiros que estudam em Vancouver e, finalmente depois de tanta beleza, chegamos ao Lago Louise, o lago mais famoso das Montanhas Rochosas. O Lago é lindo, turquesa, encravado entre duas montanhas e tendo ao fundo um glaciar. No entanto, uma multidão de turistas, dificuldade para estacionar, grandes hotéis, funcionam quase como uma violência. Mas ele continua lindo desafiando aquela invasão. Um monte de gente caminha por suas margens, outro tanto navega em pequenos barcos, outros ainda se espalham pela grama. Tudo muito florido e arrumado.

O Parque é cheio de trilhas para caminhantes. Fizemos algumas curtinhas. São sempre muito bonitas com placas explicativas e assim caminhávamos aprendendo um pouco mais sobre tudo aquilo.

Acho que um bom roteiro para as vovós seria ir de avião até Vancouver, alugar um carro, subir pela estrada até Jasper, descer bem devagar os 230km que atravessam os dois parques  e voltar a Vancouver. Com certeza será um belíssimo passeio. Não esquecer de ir em setembro. Um grupo de quatro vovós e o programa ficará mais barato!

Fomos embora para Banff que estava mais cheia de turistas. Os hotéis caríssimos. Seguimos em frente na direção de Calgary, dormindo em uma cidadezinha chamada Canmore e começamos a sair de Britsh Columbia, um lindo lugar para limpar a vista!

Bol. 37

A Trans Canada Hwy

Pradarias e o Lago Superior

 

Estou bastante atrasada nos meus boletins e alguns chegaram incompletos. Tentarei colocá-los em dia e corrigir os boletins 29 e 32.

Continuamos atravessando o Canada pela Trans Canada. Esta é uma estrada que liga a costa do Atlântico à do Pacífico e este é um enorme país. As distâncias são muito grandes. Tivemos dois dias de pradarias. Quase 2000Km saindo do Estado de Alberta e atravessando os estados de Saskatchewan e Manitoba.

As pradarias ou prados são planícies a perder de vista. Parecia que o mundo era todo amarelo. A maior parte dos prados originais, antigamente habitados por bisões, foi substituída por imensos campos de trigo, pontilhados aqui e ali por silos e fazendas e, os bisões, coitados, foram praticamente dizimados no século 19. Algumas cidades importantes no meio do caminho como Regina e Winnipeg. Quilômetros e quilômetros a mesma paisagem. Finalmente entramos no Estado de Ontario e as pradarias foram acabando. Mais alguns quilômetros  e estávamos na Região dos Lagos. Vimos, na estrada, um urso negro. No dia seguinte começamos a contornar a margem norte do Lago Superior. Me lembrei dos tempos de colégio, decorando os nomes dos grandes lagos da América do Norte. Vovó, o tempo está passando muito rápido! Fiquei muito impressionada com o Lago Superior que mais parece o mar, com onda, praia e tudo. Uma cor linda. Soube que, de repente, o vento pode virar e as ondas ficam enormes e isso representa um perigo para os navegantes. Naquele dia ele soprava de leve e as ondas quebravam vagarosamente fazendo um barulhinho gostoso nas pedras.

Em Sault Saint Marie, uma cidadezinha bonitinha bem na junção do Lago Superior com o Lago Huron, um urso rondava o estacionamento dos carros. Tempo de acontecimentos interessantes!

 Bol. 38

A Trans Canada Hwy

Niagara Falls e Quebec

 

E fomos nós pela Trans Canadá, tentando nos entender em alguns idiomas. Em uma cidadezinha, da qual nem mesmo o nome lembro, a senhora dona da pousada falava um inglês misturado com russo, misturamos o francês e acabamos nos despedindo em italiano: arrivederci (é assim?). Depois disso fui para o quarto cantarolando a música e lembrando de Roma e os filmes nos quais a mocinha ia sempre de lambreta, lencinho na cabeça e um italiano apaixonado. Alguém se lembra? Acho que o Candelabro Italiano? E assim chegamos a Niagara Falls. Fomos à noite ver as cachoeiras iluminadas. Achei meio exagerado, as cores iam mudando de roxo para amarelo e finalmente o branco, mais bonito e natural. Multidão de gente. Como tinha! Ficamos procurando um lugar para apreciar tudo e vimos que, de fato, sem exagero, as cataratas são maravilhosas. Me pareceram mais bonitas no dia seguinte expostas à luz natural, despencando suas águas turquesas . Beleza pura! Só não precisava ser tão produzida! Vimos centenas de borboletas e flores no Niagara Parks Botanical Gardens, o rio, seus cânions e suas águas em redemoinhos loucos, e partimos para Quebec  

Entrar na Província de Quebec é entrar em outro país. Outra língua, outra arquitetura, outro tudo. Meu francês do Colégio Santa Cecília quase não saiu a não ser um bonjour, c’est combien? Ou então: Est-ce que vous avez une chambre? E algumas outras cositas básicas. Como dizia a Cristina: Todo dia é um desafio!

Enfim Quebec. Esta é, antes de qualquer coisa, uma cidade romântica. As ruazinhas da cidade antiga, o casario com mansardas, telhados inclinados e coloridos, cafés nas calçadas, o rio correndo manso, os cantores entoando canções francesas, os velhos de mãos dadas, as flores e … os arrondissements. Quebec é Europa, sem tirar nem pôr! Adorei! Passeamos também de mãos dadas, escutamos os cantores de rua. Tomamos café, comemos  croissant, sentados na calçada ao sol, de vez em quando um olhar para o Château Frontenac, subimos e descemos as ruazinhas e partimos em um ferry para Levis do outro lado do Rio São Lourenço, jurando, jurando, retornar a Quebec assim que der. Oxalá!

Os planos? Ah, os planos… Subiríamos por uma estrada que vai contornando o rio, passando por pequenas vilas, ainda sob o céu de Quebec. E olhem que era lua cheia!

Bol. 39

New Glasgow – Nova Escócia – Canadá

Dia 14 de setembro de 2003

Dor de dente na Nova Escócia ou:

O roteiro das “Províncias Marítimas”

 

Amanhecemos o dia tratando da questão do meu terceiro molar. Desde o México dava sinais de que ia me dar problema. Começou a me incomodar de verdade. Telefonamos para o meu seguro saúde, comprado no Brasil. O telefone é de uma Central de Atendimentos para várias empresas (pelo menos foi isso que entendemos). A moça bem enjoadinha nos disse que não trabalhavam mais para a tal empresa e nem sabia informar se ela ainda existia. Ficamos indignados. Fiquei imaginando se se tratasse de uma emergência tipo um acidente. Bem, o fato é que o Hotel não só nos informou um dentista como nos levou até ele. O terceiro molar, cuja função era só compor a paisagem e me trazer problemas, estava com um abscesso periodontal. Foi extraído com muita competência e jaz em algum lugar da Nova Escócia. Que Deus o tenha!

De volta ao passado: no diário anterior estávamos atravessando o Rio São Lourenço para Levis em um Ferry. Pois é, daí viemos por uma estradinha que corre paralela à Trans Canadá Hwy. Foi uma boa opção. Normalmente essas estradinhas passam por pequenas cidades, fazendas e a gente vai conhecendo o modo de vida das pessoas, o que não acontece em uma grande estrada. Tranqüilamente íamos parando em áreas para descanso que, geralmente, ficam em lugares bonitos. As pessoas ficam por ali fazendo um lanche, deitadas na grama, trocando experiências e informações. Entramos em New Brunswick e, no Centro de Informações, ficamos sabendo que as principais atracões são: a impressionante variação das marés na Baia de Fundy, que chega a 15 metros, e as baleias de St. Andrews.  Nada nos faria perder nem uma e nem outra. O que não sabíamos é que New Brunswick é muito bonito. O mar é uma presença constante nessa parte desconhecida do Canadá e por isso o conjunto New Brunswick, Nova Escócia e Prince Edward Island é chamado de “Províncias Marítimas”.

Seguimos pela estrada que nos levaria a St. Andrews.  Passamos por Fredericton, outrora um posto militar inglês, cidade pequena com um excelente acervo de quadros expostos na Beaverbrook Art Gallery. Lá está o quadro de Salvador Dali, Santiago el Grande. É uma linda cidade. Suas casas vitorianas, construções históricas, extensos gramados nos encantaram.  As Províncias Marítimas começavam a mostrar sua cara. Linda, por sinal!

 Bol. 40

O roteiro das “Províncias Marítimas”

Ohss e ahss! Baleias!

As flores de Ropewell Rocks

 

Geeente estamos impressionados com a beleza disso tudo. É muito bonito! Foi a maior surpresa da viagem! Esse pedaço do Canadá é muito pouco conhecido por nós do Brasil. Vale a pena vir aqui. O mar, a costa recortada em penhascos, as vilas pitorescas, o passado escrito na arquitetura das casas, enfim, tudo é muito lindo! Vovozinhas, se reunam, peguem um avião para Quebec, aluguem um carro e saiam para New Brunswick e Nova Escócia. Se puderem venham aí pela metade de setembro, com o outono chegando e as folhas já vermelhas. Será um programa inesquecível!

No boletim anterior estávamos chegando a St. Andrews. Chegamos já vendo um tremendo pôr de sol sobre a praia, com a maré super seca. Já disse que a variação das marés chega a 15 metros? Ao chegarmos, contratamos uma excursão para ver baleias. Um barco parte em busca delas. Vimos várias. A principio, só brincando com a nossa curiosidade, depois, já entardecendo, mergulhando e deixando aparecer as caudas em forma de coração. Achei o máximo. St. Andrews-by-the-Sea é uma linda cidade à beira da Passamaquoddy Bay. Reflete o início do século 20 e, segundo me contaram é tão refinada que tem um campo de golf com 27 buracos. Acho que isso deve ser muito especial, mas juro, não sei qual a importância, mas, como diria meu amigo Bill “Vá lá que seja”! Bem, especial mesmo foi a visita ao Museu e Aquário do Centro de Ciências de Mar.

Após uma volta pelas lojas de artesanato, que ocupam lindos prédios antigos, caímos na estrada no rumo de Saint John, a capital de New Brunswick. Observaríamos a variação da maré no ponto que se chama Reverse Falls. A maré enche e como há um desnível e a variação é muito grande, forma-se uma espetacular cachoeira. Bem, quando nós chegamos a maré estava cheia e estável. Como ia custar bastante para secar, assistimos a um filme que explicava o fenômeno e partimos para o Fundy National Park. Lá também observamos a enorme variação das marés, caminhamos pelas Hopewell Rocks, formações em forma de flores, ocasionadas pela erosão. Todos os dias 100 bilhões de toneladas de água entram e saem da baía erodindo a costa. Andamos, sentamos, olhamos e a maré começou a encher. Todo mundo deve subir pois ficar preso entre o mar e os rochedos é muito perigoso. Sem saída. É super rápido e, logo logo, as formações ficam como que boiando no mar. Muito diferente, bonito e interessante. Saindo de lá, a caminho da Nova Escócia, fomos presenteados com algumas pontes cobertas. As pontes cobertas de New Brunswick…

 Bol. 41

O roteiro das “Províncias Marítimas”

As trilhas da Nova Escócia

 

No mapa, a Nova Escócia se confunde com New Brunswuick. É uma região de litoral muito recortado, cheio de baías, canais e pequenas enseadas, por isso a confusão. Na verdade são separadas pela afunilada Baía de Fundy, lá onde as marés variam em até 15 metros, e, unidas por um estreito istmo pelo qual se entra na Nova Escócia, ainda pela Trans Canadá. Logo na entrada há uma cidade que se chama Amnerst e um Centro de Informações. Lá ficamos sabendo das “Trilhas da Nova Escócia”. São estradas estreitas, asfaltadas, de onde partem trilhas para caminhadas que sempre levam a lugares especiais, com campings sem amenidades. Essas estradas contornam a costa por paisagens deslumbrantes, vilas à beira mar que contam a história da colonização e do dia-a-dia das pessoas que moram por lá. Decidimos percorrer a Cabot Trail, pelas fotografias a mais bonita.  Foi uma decisão acertada. Dormimos em New Glasgow, resolvemos a questão do meu dente, que Deus o tenha, e partimos para o norte. O destino: Cape Breton, uma ilha. Claro que, para chegarmos lá, pegamos a Ceilidh Trail. Nessa trilha pode-se observar a forte herança escocesa: o próprio nome da trilha, os das cidades, as músicas e até uma destilaria, o único puro malte da América do Norte. Entramos para visitar. Dois velhinhos tocavam músicas escocesas e, sentados, fomos transportados no tempo. Pensei em comprar uma garrafa do Glenora. Muito caro, só para colecionadores e refiz meu pensamento. Resolvi me conformar com o Jack Daniel’s que jazia intocado no Troller. Em Cheticamp vimos um monte de baleias. A princípio pensamos ser golfinhos tal era a quantidade, umas doze mais ou menos. Estavam por ali brincando de ver barcos com passageiros curiosos. Paramos para dormir e apreciar uma belissima tarde. No dia seguinte começariamos a Cabot Trail.

Bol. 42

O roteiro das “Províncias Marítimas”

As trilhas da Nova Scotia

Cabot Trail

 

Em Chéticamp, Cape Breton, Nova Escócia, iniciamos os 286km que percorrem o Cape Breton Highlands National Park of Canada. Quando eu voltar e for lembrar das estradas mais bonitas dessa viagem, com certeza essa será uma delas. É uma região de beleza tocada apenas pelos olhos maravilhados dos poucos turistas que, como nós, caminham sem barulho e nem pressa. São paisagens quietas, escarpadas e batidas pelo vento. É difícil descrever emoções. Saramago disse tudo: “Lástima tem o viajante  de que uma linha de palavras não seja uma corrente de imagens, de luzes, de sons, de que entre elas não circule o vento, que sobre elas não chova, e de que, por exemplo, seja impossível esperar que nasça uma flor dentro do o da palavra flor.”

Pois é. Fomos ao Cabo Norte, o extremo de Cape Breton e ouvimos as gaitas escocesas em St. Anns. Em Sidney vimos o fim ou o começo da Trans Canada Hwy e saindo de Cape Breton iniciamos a Lighthouse Trail, a Trilha dos faróis da Nova Escócia. Vou voltar!  

 Bol. 43

O roteiro das “Províncias Marítimas”

As trilhas da Nova Scotia

Lighthouse Trail

 

Saímos de Cape Breton pela Trans Canada Hwy, descendo para Halifax, a Capital. Dela só vimos o contorno. Fomos direto para a Trilha dos Faróis que percorre uma costa muito recortada ao sul da Nova Escócia. Esta é a terra dos piratas oficializados, ou não, pela Coroa Inglesa. Saqueavam os galeões espanhóis, carregados de ouro e prata, também roubados dos maias, aztecas, incas,  e nessa costa dividiam os tesouros com a Inglaterra. Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão? Hum!

Esta é uma trilha onde dividem a paisagem, faróis, cidades históricas e vilas românticas à beira mar, pequenos portos e barcos lagosteiros, praias de areias brancas ou de cascalhos.

Resolvemos visitar o Peggy’s Cove. É um lindo farol, encravado nas rochas de granito, de longe parece coisa de brinquedo. Gostoso andar pelas rochas, sentando, olhando o mar. Há uma pequena e tranqüila vila de casas coloridas onde moram artistas locais que pintam e esculpem o dia-a-dia da cidade e uma grande escultura, em granito, homenageando os pescadores da Nova Escócia. O autor E. deGarthe, nasceu aqui.

Descendo mais um pouco, está Mahone Bay, uma cidade bonitinha, três igrejinhas, uma ao lado da outra, construções históricas, tudo refletido nas águas tranqüilas da Baía. Um pouco abaixo, encontramos, a meu ver, a cidade mais bonita da trilha, Lunenburg. É uma cidade declarada Patrimônio da Humanidade por representar um exemplo de colonização inglesa planejada na América. A cidade abrigou monarquistas insatisfeitos com a independência dos Estados Unidos e protestantes da Alemanha. Esta história está nos lindos casarões ingleses do século 18, muito bem conservados, nas ruas ladeadas por enormes árvores e extensos gramados. Em Shelburne, consideramos nossa trilha concluída. Viemos para Yarmouth, ainda visitando alguns faróis. Esta é uma cidade que ainda guarda alguns casarões ingleses, muitos transformados em Bed&Breakfast, não menos bonitos. Estamos estacionados. Daqui um ferry  nos levará a Bar Harbor, Maine já nos Estados Unidos. Estará declarado o fim do romantismo.

 Bol. 44

Poza Rica – México

México: Incidente fronteiriço

Em busca do caminho dos Maias, Parte 1

El Tajin

Albumpg05 5 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

Quando foi decretado o fim do romantismo, ao sairmos da Nova Escócia, já sabíamos que a travessia dos Estados Unidos seria rápida. O Haroldo assumiu a direção e jogou muita poeira nos americanos. Em cinco dias percorremos 4.100km. Em New York pegamos um grande engarrafamento e muita poluição; perto de Nashville, um temporal quase nos tira da estrada, resquícios do furacão Isabel e em Brownsville, quase na fronteira, fomos para South Padre Island, um lugar paradisíaco e, enfim descansamos.

Entramos no México pela fronteira de Los Indios. Ah, o México! A primeira frase foi: “multa de 2.000 dólares senhora!” E eu já indignada: “Como”? “A senhora não entregou a papeleta de turista e nem carimbou o passaporte na saída”. Realmente, na confusão que é a fronteira de El Paso, me informaram que eu não precisaria entregar e nem carimbar a saída. Na ocasião achei muito esquisito mas … só sei que foi assim. Voltando ao episódio da fronteira.” A senhora está ilegal no meu país”. “Senhor, como ilegal, se eu entrei nos EUA no mesmo dia e tenho o documento de liberação do carro? E, outra coisa, senhor, eu sair do meu maravilhoso país para viver ilegalmente no México? Francamente”! A coisa começou a engrossar. Disse que a multa era de 2000 dólares, sem apelação. Enquanto isso um batalhão de muriçocas, nunca vi tantas, já havia levado meu sangue e a minha paciência. Muitas jaziam fora de combate, no chão, mas eram rapidamente substituídas. Cada tapa várias eram atingidas. Tenho certeza que os americanos, do outro lado, cultivam muriçocas e enviam para os mexicanos. Eram muito grandes e molengas! Muriçocas cultivadas! Essa é boa! Verdadeira guerra de nervos ou psicológica, sei lá! Bem, voltando ao incidente fronteiriço. O Haroldo me mandou sair de cena e, quando retornei meu passaporte estava carimbado, duas saídas, uma delas com a data de El Paso, tudo por 70 dólares. Resolvemos sair o mais rápido dali antes que as muriçocas nos arrancassem mais sangue e os guardas se arrependessem do negócio. Vamos e venhamos! Lá fui eu resmungando e lembrando o passado heróico de lutas políticas, revolução mexicana e toda a cultura indígena sendo enlameados por aqueles … Bom, o fato é que eu estava de volta ao México, agora com o Haroldo. Faríamos um passeio pelos Olmecas, Maias da Península de Yucatán, Palenque em Chiapas e … Viva o México!

A primeira parada foi em Tampico. Estávamos realmente no México: trânsito caótico, buzina, música alta, enfim … confusão geral! De Tampico saímos para Poza Rica onde está o El Tajin, importante Sítio Toltoneca. Logo na entrada o show dos Voladores, um antigo ritual. Os Voladores jogam-se de um mastro super alto e vão descendo  devagarinho à medida que as cordas vão desenrolando. É bonito vê-los coloridos contra o céu. El Tajin, seu museu e a majestosa Pirâmide dos Nichos. Tajin foi só o começo!

 Bol. 45

Em busca do Caminho dos Maias – parte 2

Uma cabeça Olmeca, um rio e uma ponte, uma tempestade…

Santiago de Tuxla

STuxla Mex002 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

Depois de El Tajin, fomos para Xalapa visitar o Museu de Antropologia. Este Museu só perde para o da Cidade do México.

Em Xalapa deu quase tudo errado. O Museu já estava fechado e não abriria na segunda. No entanto, vimos e fotografamos a cabeça de El Rey que pesa mais de

20 toneladas e uma linda exposição de arte indiana. As cabeças gigantescas foram a especialidade dos Olmecas. El Rey é estrábico e, a boca entreaberta, deixa dúvidas: imortal. Estará rindo da nossa breve vida ou simplesmente, distraído, se perguntando: o que é o tempo?

Os Olmecas viveram nessa região de 1500 a 1000AC, quando começou sua decadência. Esculpiram essas enormes cabeças em basalto, não se sabe porque. O fato é que elas estão espalhadas pelos museus e são impressionantes.

Resolvemos partir. Iríamos para Palenque, enfim na trilha Maia, mas passaríamos antes em Santiago de Tuxla, onde está exposta a maior cabeça Olmeca até hoje encontrada: três e meio metros e 50 toneladas. A Rodovia 180, embora seja federal, não é lá essas coisas, aliás desde Los Indios. Fomos levando devagar. O templo nublado nos falava de chuva, e, quando ela caiu, o céu veio junto. Conseguimos chegar a Santiago a duras penas. Estava cheia de água. Fomos direto à Praça Central onde está a tal cabeça. Não conseguimos descer do Troller, tal era a intensidade da chuva. O rio transbordou, a ponte foi interditada, ninguém passava. O Haroldo, muito curioso, foi à pé olhar o que tinha acontecido. Enterrou os pés na lama, saiu. O sapato ficou. Foi resgatado. Uma multidão de ônibus, gente com sombrinhas, carros e um Troller. A polícia avisou: não passa ninguém. “Como senhor”? “Sim minha reina”! Fomos para o Hotel e dormimos por lá mesmo. No dia seguinte saímos cedo. Conseguimos passar pela ponte. Mais à frente a Auto Pista para Villa Hermosa estava interditada. Abrira-se um enorme buraco e, ao seu redor, segundo nos contaram, realizava-se uma manifestação, tipo uma greve. Resultado: uma fila de 40km de caminhões, gente, carros e um Troller. Alguém nos ensinou uma trilha. Trilha é conosco mesmo. Saímos na contra mão, junto com outras pessoas e, tome barro, buraco, confusão. Enfim Palenque, já à noite. Estávamos no começo do Caminho Maia. Que dia! 

Bol. 46

01 de outubro de 2003

No Caminho dos Maias – parte 1

Enfim Palenque!

 

Depois da chuvarada, Palenque foi, além de um importante Sítio Arqueológico Maia, tempo de enxugar roupas, sapatos e limpar o carro.

Na baixa estação, escolhemos um bom hotel com excelente preço. Recuperamos nossas forças e fomos à Zona Arqueológica, situada a poucos quilômetros da cidade.

Palenque, no meio da selva é como Tical na Guatemala. As construções grandiosas cercadas por uma névoa e pela selva lhe conferem um ar misterioso e severo, quase uma vontade de ficar de joelhos. Impressionante!

Aqui viveu o grande Pakal, que reinou durante 68 anos. Uma reprodução da tampa do seu túmulo, abre o Parque. Pakal está sobre figuras estranhas, como se Pakal estivesse pilotando uma nave. As figuras foram vistas pelo autor de “Eram os deuses astronautas?” Acho que Von Deniken,. Bem, nosso guia explicou tudo direitinho. Pakal ressuscita, deixando o inframundo. Deniken achou mais fácil criar deuses extras terrestres e, ganhou bastante dinheiro com seu livro cheio de explicações mirabolantes. Solenemente, como todos os outros visitantes, admiramos o Templo do Sol, o das Inscrições, nos sentamos na Praça Principal, vimos alguns arqueólogos trabalhando em novas escavações, pensamos e voltamos ao nosso mundinho. Quando saímos, para visitar o Museu, Pakal e a Rainha Vermelha voltaram a descansar. Nem é preciso dizer que nós também. Estávamos exaustos.

 Bol. 47

03 de outubro de 2003

No Caminho dos Maias – parte 2

Uxmal e Chac o deus da chuva

 

Depois do ar solene de Palenque, Uxmal (pronuncia-se, ushmal, o “l” com a ponta da língua no céu da boca) me pareceu alegre e descontraída com suas espetaculares construções, de tonalidade levemente rosada, expostas ao sol. O problema sério de água era resolvido por preces a Chac, o deus da chuva. Quando ela chegava, era armazenada em enormes cisternas, ao contrário dos outros Sítios que eram abastecidos por cenotes (poços naturais ou rios subterrâneos). Para os arqueólogos é ainda um mistério o uso de muitas das construções e os nomes delas, a meu ver, não têm nada a ver, são nomes dados pelos espanhóis. A forma ovalada da Pirâmide do Mágico é surpreendente. Vê-la através dos imponentes arcos Maias é mais do que eu sonhara. Os detalhes são primorosos e conferem ao Palácio do Governador e ao Quadrilátero do Convento uma leveza impressionante. O deus Chac está presente em todos os edifícios e, em profusão. À noite voltamos para o espetáculo de luz e som. A história de Uxmal é contada, à medida que as construções são iluminadas, de maneira discreta e competente. E de tanto invocarem Chac, parece que ele resolveu mandar a chuva acumulada em dois mil anos. Ela caiu, o espetáculo não havia terminado. Ã princípio mantivemos uma certa dignidade, colocando as capas, nos mexendo para lá e para cá, depois arregaçando as calças e correndo, sem classe alguma, como se todos os deuses do infra mundo estivessem no nosso encalço. Encharcados, descabelados e arfantes (meses sem fazer exercício), chegamos ao hotel, que fica pertinho, onde tratamos de tirar nosso Jack Daniels. Um bom trago nos esquentou. Estávamos absolutamente molhados. Também quem mandou pedir tanta chuva a Chac?

Bol. 48

No Caminho dos Maias – parte 3

Uma pirâmide que virou convento em Izamal

A bela Chichén Itzá

 

Deixamos Uxmal e seguimos para Chichén, o Sítio Maia mais bem preservado da Península de Yucatán. No caminho, entramos em uma pequena cidade chamada Izamal. Entra-se nela por uma estreita rua e, a primeira coisa que chama atenção, é a cor das casas. A cidade é amarela. Não vi uma casa sequer que não fosse amarelo-ocre. Os imponentes arcos do Convento de Santo Antônio de Pádua aparecem a seguir. Imaginem que, os monges franciscanos chegaram no início do século 16, destruíram uma enorme pirâmide, aproveitaram sua base e, com as pedras Maias, construíram o Convento! O resultado foi uma construção alta que domina a pequena cidade. Já vi muito disso. Em Cuzco, no Peru, os espanhóis  como não conseguiram destruir os perfeitos muros incas, construíram suas casas coloniais em cima deles. É lindo, mas isso representa bem o que foi a colonização espanhola… e vai por aí. Bem, na hora que íamos descendo do Troller, eu já falando mau dos franciscanos, caiu um raio. Foi um estalo tão grande que eu botei a mão na cabeça (como se isso adiantasse alguma coisa), ficando paralisada e o Haroldo, mais amarelo que o Convento, disse que viu o raio entrando no pára-raios. Foi a uns 50 metros de onde estávamos. Quando conseguimos nos mexer, tal foi o susto, tivemos que sair correndo Convento acima, porque a chuva desabou sobre o mundo todo. Ficamos esperando um pouco e, com a mesma rapidez com que havia chegado, ela se foi. Felizmente!  Colunas e mais colunas cercam um enorme pátio. Apesar de bonito falta-lhe conservação. Valeu a pena! Saímos felizes, finalmente o raio não caíra sobre nossas cabeças!

Próximo a Chichén há vários hotéis, nos instalamos em um e, no dia seguinte, já estávamos nas ruínas. El Castillo, uma enorme pirâmide Maia, domina o ambiente. Lindíssima ! As escadarias são voltadas para os quatro pontos cardeais e o número de degraus, de suas quatro faces, corresponde ao número de dias do ano. A entrada norte tem duas enormes cabeças de serpente e, duas vezes ao ano, pela posição do sol, tem-se a ilusão de que a serpente desce as escadas. Vimos uma simulação disso, à noite, no espetáculo de luz e som. Caminhamos pelos edifícios, apreciamos o  observatório, as impressionantes cabeças de serpentes, espalhadas por todo o Sítio. Subimos todos os degraus do Castillo, e, quase sem ar, tivemos uma visão maravilhosa de tudo! Entramos na pirâmide, por uma estreitíssima escadaria para vermos um belo trono esculpido em forma de jaguar, todo vermelho com incrustações de jade. No campo de bola, mais uma vez, nos impressionamos com as minúsculas aberturas dos círculos de pedra por onde os heróis deveriam fazer passar uma enorme bola. Era preciso ser artista! E depois de perder, a morte era um prêmio! Queimavam etapas, não precisavam percorrer os diversos estágios do infra mundo!

À noite, o espetáculo de luz e som, nos contou a história de Chichén Itzá e o mistério que o envolve. Existem lendas e diversos indícios de construções de épocas diferentes. E, falando em mistérios, nessa noite, ao sairmos do espetáculo, a chave do Troller havia desaparecido. Lá fomos nós procurá-la entre os deuses e  túmulos. Nada de chave! Apareceu, em um dos minúsculos bolsos da bolsa cheia de mistérios do Haroldo…

Bol. 49

No Caminho dos Maias – parte 4

Uma cabana rústica em Tulum

 

Saindo de Chichén nossa idéia era dar uma passeada por Cancún mas, ao passarmos por lá, vimos logo que aquele não era o nosso lugar. Muita gente, barulheira e praias particulares dos grandes hotéis. Fugimos. Fomos parar em Tulum, procurando um lugar para dormir.

Em Tulum é tudo diferente, desde as ruínas Maias à beira do mar, até a dormida. O forte por aqui são as cabanas e, quanto mais rústicas, mais procuradas. Resolvemos experimentar. A primeira aventura foi achá-las. Vai-se por uma estradinha bem ruinzinha, daquelas que a gente tem certeza de ter errado o caminho. E, pergunta p’ra lá, pergunta p’ra cá, elas começaram a aparecer. Rústicas, de arquitetura ao sabor da imaginação do dono, talvez por isso, bem carinhas para os nossos já combalidos bolsos. Decidimos por uma cabana realmente diferente. Duas camas enormes cobertas por um mosquiteiro nos falavam de muriçocas. Cobertura de palha com um lindo trançado, janelas grandes com basculantes largos de madeira e… o lugar mais interessante: o banheiro! Ao tomar banho, o espanto: a água era salgada e quente! Entenderam? Isso mesmo, a água era a do mar aquecida por energia solar! Essa eu nunca havia visto! O lugar, muito bonito, tinha uma maravilhosa vista para o mar azul do Caribe. O restaurante à luz de velas nos encantou e às dez de la noche, na cabana, não havia mais luz elétrica, só velas e lanternas. Fazer o que? Ótimo! 

Bem, o Sítio Arqueológico de Tulum é bem menor e menos imponente que os demais. Fica em cima de um penhasco e o que mais chama atenção são suas  muralhas  e a proximidade do mar. As muralhas nos falaram de um tempo diferente. É um Sítio do final do período Maia, os espanhóis já estavam chegando. As ruínas, o enorme rochedo e o mar fazem um contraste super bonito. Lá de cima o Caribe se estende a perder de vista com suas cores azul esverdeadas absolutamente transparentes. Ficamos por ali já sentindo saudades. Estávamos encerrando nossas andanças pela Península de Yucatán. Voltaríamos algum dia? Dali iríamos até Chetumal, passaríamos novamente por Palenque e subiríamos para San Cristóbal de las Casas, já de saída para as famigeradas fronteiras da América Central. Será que vai ser diferente? Na vinda, quando éramos três vovozinhas nos cansamos demais. Cheguei a duvidar se agüentaria até o fim. Não só agüentamos como adoramos tudo. Aventura é assim mesmo. Dias de choro, gemidos e ranger de dentes, como nas trevas exteriores, e dias de muita alegria e satisfação. Bom mesmo é viver tudo isso!

Bol. 50

Ainda no México

Subindo para San Cristóbal de las Casas – O retorno

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Já estamos na Venezuela (28 de outubro de 2003). Em La Guaira, aguardamos a chegada do Troller. Da janela do Hotel, o  Caribe, com suas águas azuis ou verdes, não tem fim. A cor só é definida quando o olhar pára, mar calmo, ou, um pouquinho tocado pelo vento. Longe, passa um Ferry: Isla de Margarita, com certeza. Um mergulhador, de snorkel, procura a paz nos movimentos e no silêncio abaixo da superfície. Um barquinho passa tranqüilamente. O barulho do motor vai se perdendo e eu já tentando me lembrar do que vi e vivi durante esses seis meses de viagem. Lembranças para sempre guardadas. Marcas… Uau! Como voltar a me acostumar com a rotina de todos os dias? Na outra vez, quando retornei da Patagônia, passei uma semana desenergizada, no fundo de uma rede. Acho que agora vai ser mais fácil. Estou com muita saudade das minhas pessoas queridas, filhos, irmãos, meu pai contando “causos”, lembranças de quase um século… Encontrar com a vovó Lucinha que, ia para o México comigo, mas, como o Haroldo resolveu ficar até o fim da viagem… não se fez de rogada, partiu para a Índia e Nepal com outras avós. Quero ver se consigo dela um relato da experiência para colocar na página. Cuidarei dos dentes das crianças na Escolinha Viva o Povo Brasileiro lá do Sítio Boqueirão, em Pacatuba. Quem sabe escrever alguma coisa? Planos …Vovó em crise. Melhor deixar a coisa caminhar.

Ok, vamos à continuação da nossa aventura, motivo já de tantas divagações!

Em Chetumal, na fronteira do México e Belize, desistimos. Precisaríamos de um visto que levaria uns três dias para estar pronto. Pegamos a estrada para Palenque, começamos a subir para San Cristóbal, no estado de Chiapas, entrando na Guatemala por La Mesilla. Lembrei de quando descemos, na vinda, para Villa Hermosa. Quase seis horas de curvas fechadas. Vovós muito mareadas! Tamara, coitada, nem falar!

Enfim San Cristóbal. O mesmo hotel, uma visita à cidade, os mariachi cantando e tocando para um morto saindo da catedral e uma excursão ao Cañon del Sumidero. O Cañon do Rio Grijalva, é impressionante. O passeio de barco, começa em Chiapa de Corso e dura duas horas. Os paredões de 1km de altura e 14 de extensão vão desfilando com suas cavernas e inúmeras e majestosas cachoeiras. Vimos crocodilos, de verdade, garças azuis e muitos pássaros desconhecidos. Daqueles penhascos , no começo do século 16, centenas de índios saltaram para a morte. Preferiram ficar naquelas águas, correndo o verde da mata, um dia crocodilo, outro garça, pelicano ou, o que permitisse a imaginação. A chegada dos conquistadores espanhóis acabaria com a liberdade de amanheceres de contornos indefinidos, entardeceres quietos e misteriosos, sonhos e deuses ecológicos.

Bol. 51

As famigeradas fronteiras da América Central

Uma igreja no Lago de Atitlán – Guatemala

O Troller de novo em um container

Igreja Atitlan Guat0061 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

Hoje, ficamos sabendo que o Calaporlamar 506, trazendo o Troller, só chegará na quinta. Mais de cinco dias de Colón para La Guaira. Para Cartagena, um dia, mas, preferimos não enfrentar um “stress chamado Colômbia”. Olhando para trás, vejo o absurdo das fronteiras da América Central.

De volta à Guatemala, “levei” o Haroldo a Panajachel. O lago, de águas hipnóticas, e suas cidadezinhas são imperdíveis! O passeio de barco trouxe uma surpresa. Da outra vez, com as vovós, deixamos de visitar, em Santiago de Atitlán, a igreja. Ela é muito interessante. Como a de Chichicastenango, é uma mistura de santos vestidos com tecidos mayas, arquitetura espanhola muito rústica e lembranças dos assassinatos de padres e camponeses indígenas, durante a guerra civil que, durando quase 20 anos, devastou a economia do país. A igreja é sensacional! Faz parte da minha coleção de igrejas sensacionais, junto com a de Chiu Chiu, no Deserto de Atacama e a de  Chichicastenango. Saindo de Panajachel, por uma estradinha pelas montanhas, chegamos a Antigua. De lá fomos à Guatemala Ciudad buscar um visto para El Salvador, o único país da América Latina a exigir visto para brasileiros. Difícil de entender. Antigua continua linda, os vulcões meio encobertos por névoa, arcos espanhóis maravilhosos e ruínas de antigos conventos. Definitivamente a Guatemala é o país mais bonito da América Central! Uma vez conseguido o visto, partimos, e aí sim começou o absurdo das fronteiras. Na entrada de El Salvador, em La Hachadura, um país que se atravessa em poucas horas, esperamos seis horas por uma inspeção, o que nos obrigou a dormir na cidade de San Miguel, onde chegamos quase às oito horas da noite.

Entre El Salvador e Honduras, fronteira de El Amatillo, a pior fronteira, um batalhão de agilizadores nos esperava a dois quilômetros. Foram despachados mas, um ainda permaneceu pendurado no Troller e parecia grudado por mais que insistíssemos em descer. A coisa funciona mais ou menos assim: os agilizadores de fronteira dão sinal para parar, ficam em volta do carro, todos falando ao mesmo tempo, você não entende nada, não acha quem lhe dê informações e, em algumas fronteiras, nessa por exemplo, é muito difícil fazer os trâmites sozinho. A cena foi assim: para entrar em Honduras, o permisso para o carro só é dado pelo administrador que não estava no local. Ficamos esperando pela figura um longo tempo. Na parede, à nossa frente um enorme painel com a declaração dos Princípios e Valores Institucionais, inclusive Profissionalismo. Na sala do tal administrador todos entravam e saiam, menos o a administrador. A secretária, descabelada, ouvia música alta e gritava, dando ordens ou pedindo informações. De repente, chega o administrador, chupando uma laranja, autoriza o preenchimento. Imediatamente a secretária começa a preencher o formulário, não mais que três linhas. Sem paciência grita para nós, a não mais que dois metros: Tienen que ir a la banca e después regressar! O Haroldo corre para fazer o pagamento, volta, coitado, meia hora depois. Ufa! O próximo passo é o carimbo do passaporte do carro. Procura-se o encarregado que, comendo batatas fritas, conversava e conversava com uma jovem ali perto. De mau humor, finalmente carimba o passaporte, no meio do tempo e manda fazer duas cópias do tal carimbo que, até hoje jazem em algum lugar do Troller. Meu Deus, o que falta? Dois guardas fronteiriços nos olham com desconfiança, conferindo os documentos. Desta fronteira até a Nicarágua são 137km. Pode? Aqui os trâmites não demoraram muito. Saímos para uma estrada destruída. Muita chuva e já entardecendo. O Lago de Manágua e depois o imenso Lago da Nicarágua, a ilha dos dois vulcões foram passando. Anoitecendo, muito trânsito, a chuva caindo cada vez mais forte e a estrada cada vez pior. A Nicarágua é um país tranqüilo, o mais seguro da América Central, nos disseram. Fomos em frente, com chuva, relâmpagos e trovões. Cruzes! Finalmente León. Um taxi nos guiou até um hotel, jantamos uma comidinha muito gostosa e, descansamos. Daí para frente as fronteiras foram muito tranqüilas. Tudo é relativo!

Na Costa Rica, encontramos três motoqueiros mexicanos indo para Ushuaia, descemos juntos para a Praia de Tamarindo. Altas ondas! Ótimo para surfistas. Para nós, dificilmente encontraremos praias tão lindas como as do Nordeste do Brasil! Partimos. No Panamá fomos direto para a empresa que faria o transporte do Troller, a mesma que fez na vinda. Contratamos um Corretor de Aduanas, encontramos a Ingrid, velha amiga dos heróicos tempos de pós-graduação em Bauru e nos preparamos para esperar o embarque. Em Colón, a demora de sempre. Um pouco mais desorganizado que Cartagena e menos severo na inspeção. Enfim, o Troller no container. Uma visita ao Canal, um almoço na casa da Ingrid e já estávamos de partida para La Guaira. E agora? Doidos para cairmos na estrada já antevendo um delicioso peixe na telha, olhando o rio em Boa Vista, Estado de Roraima, Brasil! Pátria amada salve, salve!

Enquanto isso, olho para o Caribe da janela do Hotel …

Bol. 52

Fortaleza-Ceará-Brasil

16 de novembro de 2003

De La Guaira na Venezuela a Fortaleza no Brasil

O último número cansado. Ufa!

Gran Sabana Ven003 300x225 Alaska 2003   47.000Km pelas Américas

Foi em La Guaira que novamente encontramos os três mexicanos em suas motos. Estão indo até Ushuaia, sulzão da Patagônia. A primeira vez foi na fronteira de Honduras. Tornaríamos a vê-los em Fortaleza. Foi muita coincidência, mas não sei se já contei que, em pleno Panamá, encontramos aquele casal de canadenses que eu encontrara em Manaus, no começo da viagem. Naquela época, estavam embarcando o motorhome para Belém, louquinhos para conhecer as praias do Nordeste. No Panamá, tomamos algumas cervejas comemorativas. Soubemos que ele havia se acidentado no Pantanal. Atropelou uma capivara. Quase morre. Soubemos também que não conseguiram ver as praias do nordeste, pois estavam com o visto vencido. Que vacilo! Na mesma pisada subiram o Rio Amazonas até Belém. Estavam encantados com a solidariedade dos brasileiros. Liam sempre meus diários, de forma tal, que evitaram as confusões colombianas com o seguro. Providenciaram um pela Internet. Bem, depois eu conto como é isso. O certo é que iam subir o México para uma longa estadia. Só depois do inverno voltariam ao Canadá. Nos despedimos. Boa sorte!

Na Venezuela, conseguimos retirar o Troller do Porto de La Guaira no último momento da sexta feira. Uma correria danada! Taxas e mais taxas foram pagas. Depois de muita choradeira uma delas foi eliminada. Imaginem que nos queriam cobrar um seguro de devolução do container! Argumentamos que, no nosso caso, o dito não sairia do porto. Conseguimos convencer. Em La Guaira, até o transporte do container vazio, dentro do porto, é pago! Tivemos que contratar um caminhão. Enfim, pagamos o nosso “corretor de aduana”, e nos mandamos estrada afora no rumo de Caracas, por onde passaríamos obrigatoriamente para o sul da Venezuela e, finalmente o Brasil.

Caracas nos pareceu suja e decadente. Chávez ainda não conseguiu convencer que veio para conduzir uma Venezuela para todos. E olhem que ele tem feito uma força danada! Discursava todos os dias na TV. Um venezuelano nos perguntou se não o queríamos de presente para o Lula. Nem pensar, já temos problemas suficientes, foi a resposta.

Dormimos em Upata e no dia seguinte já estávamos na Grande Savana. Estava seca e o sol batia deixando o mundo alaranjado. Mais uma vez visitamos as cachoeiras na beira da estrada e compramos artesanato indígena. Fomos parados pela Polícia Rodoviária ou Alcabala, como chamam por lá. Os policiais se lembraram de mim e do Jipe, perguntando pela outra senhora. É que na ida, em maio, fomos paradas para sermos revistadas e aproveitamos para comer nossos sanduíches por ali mesmo.

A fronteira foi muito tranquila. Estávamos no Brasil! Eu sonhava com um peixe na telha, olhando o rio em Boa Vista e já começava a salivar. De volta a Boa Vista, depois de quase sete meses! O peixe na telha estava sensacional e a caipirinha também!

Dormimos em Presidente Figueiredo, na Pousada das Pedras. O dono fez uma deliciosa peixada de tucunaré. À noite, vândalos levaram nossos adesivos colecionados com cuidado. Resumo dos lugares visitados. Que pena!

Em Manaus, resolvemos trocar os pneus. Os dianteiros estavam bem gastos. Em Sault Saint Marie, ainda no Canadá, foi feito um alinhamento da direção, mas quando mecânicos foram fazer os rodízios um dos parafusos estava difícil de sair. Desistiram com medo de quebrar e a coisa ficar pior. Aconteceu em Manaus. Dois parafusos quebrados e um tempinho para removê-los. Ainda bem que, durante a viagem, os pneus não furaram, senão estaríamos metidos em uma encrenca!

Embarcar o Troller em Manaus foi moleza! Enquanto ele viajava de balsa nós descíamos o Rio Amazonas no barco São Francisco III. Nem de longe parecia com o Nélio Correa, embora a viagem tenha sido tão bonita quanto. Algumas baratinhas foram vistas passeando pelo camarote e em um dos dias um membro da tripulação tomou uns drinques a mais, ameaçou uma passageira, quebrou alguns copos, enfim, aprontou! O Nélio Correa é superior. Os mexicanos nos informaram que o Amazonas Star é excelente! Em uma das noites fomos premiados com um belíssimo eclipse da lua. Enquanto ele se desenvolvia, conversávamos com um casal de israelenses. Lembrei do planeta Marte brilhando forte no céu do Alaska ou Canadá, nem sei mais.

Em Belém, comemos muito peixe aguardando a chegada do Troller. Quando chegou, partimos para a estrada com muita vontade de chegar. Estrada muito esburacada na entrada do Maranhão. Paramos em Caxias já de noite. No dia seguinte, subimos para o litoral do Piauí até uma vila à beira do mar, Barra Grande, onde, em uma fazenda de camarões, meu filho Haroldo trabalha. A praia é maravilhosa, bem na divisa com o Ceará. Ele estava muito bem. Contei algumas passagens da viagem, comemos um peixe frito e, fomos embora para dormir em Sobral, já no Ceará. No dia seguinte chegamos a Flecheiras, a praia mais bonita do Ceará. Encontramos nossa casa, meus filhos, amigos e iniciamos uma comemoração que durou todo o fim de semana e que continua até hoje.

No domingo chegamos a Fortaleza. Era o dia 16 de novembro de 2003. A partir daí a viagem para o Alaska já começava a virar uma história. Vai ser contada para os amigos, curiosos e pessoas interessadas em fazer o mesmo. Tantas vezes a contaremos que, qualquer dia desses, será contada não como foi vivida, mas como for recordada.

Passei uma semana sem energia, andava um pouco e logo me cansava. Os músculos e a cabeça não respondiam. Aos poucos a vida irá se arrumando. Assim espero. Será que vou me aquietar?

Os mexicanos em suas motos, indo para Ushuaia, passaram por aqui. Saímos para jantar e conversar. Comecei a sentir muita saudade dos papos de aventuras, na beira da estrada e dos lindos lugares vistos, embelezados pela alegria de estar andando por esse mundão afora, sem hora para chegar ou partir. E…Vamos ficar por aqui? Olha lá aquela pousada de frente para um glaciar! Está tão bonito!…Viagem espetacular! Quero fazer de novo!

 

Heloisa Cunha

Fortaleza, 16 de novembro de 2003

 

 

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8 respostas a Alaska 2003 – 47.000Km pelas Américas

  1. Alceu Júnior disse:

    Olá tudo bem?

    Gostaria de saber mais informações desta viagem, estou planejando em faze-la daqui uns anos.

    A senhora tem roteiros, planejamentos ou algo assim para meu melhor conhecimento?

    Abraços

    Alceu Júnior

    • Heloisa disse:

      Olá Alceu o meu roteiro está na página. Como vocE não vai viajar agora, o bom seria ir fazendo seu proprio roteiro. Veja o que quer ver, olhe os mapas. Se precisar de ajuda pode escrever. Boa sorte, Heloisa

  2. Regis Reis disse:

    Olá Heloisa, nossa muito legal essa aventura!!!! Tambem pretendo fazer uma viajem parecida com a sua, porem de Ushuaia a Prudoe Bay no Alaska, e quem sabe além…

    Uma duvida que sempre tive é sobre o custo para enviar o veículo via Venezuela/Colombia ou Equador para o Panama, poderia por favor me informar quando foi que vocês pagaram?

    E muito obrigado por compartilhar com nos está bela avetura!
    Regis

    • Heloisa disse:

      Oi Regis, desculpe-me por não te responder logo. A questão é assim – eu fiz essa viagem em 2003, logo os dados que tenho estão defasados. Quando fiz embarquei o Troller em Cartagena, na Colömbia, com certeza o melhor porto. Nem pense na Venezuela, voltei por lá. É um porto super desorganizado. O do Equador não tenho noticias. Na época gastei em torno de U$1200 (one way), com o transporte (700U$) e trämites. Ficou mais caro porque paguei um serviço especializado. Vocë mesmo fazendo, embora seja mais complicado (burocracia) sai muito mais barato. Boa sorte, Heloisa

      • Regis Reis disse:

        Que nada, foi super rápida a resposta. Ah sim, mesmo fazendo um tempo que você realizou essa aventura da para ter uma noção..

        Quando você diz Cartagena, é Barranquilla perto de Soledad(Rota 25) na Colombia, foi de la que enviou o Troller? (é porque a única cidade de nome Cartagena que encontrei foi na Espanha)

        Então usando o sistema que você utilizou, foi U$1200 o preço total para enviar o Troller, ou U$1200+U$700? (Desculpe tanta pergunta mas é que preciso muito saber)

        Não sei se você chegou a perguntar isso quando enviou o Troller, mas a outra dúvida é:
        Se é possível viajar no navio cargueiro? Sempre tive vontade, mas nunca oportunidade(já li em alguns lugares que sim, tem algumas empresas que permitem um limite de pessoas nos cargueiros)

        E novamente muito obrigado!

        • Heloisa disse:

          Cartagena é a cidade da Colömbia, na verdade Cartagena de Indias. Fica ao norte da Colömbia. É um porto super organizado, pelo menos era. O total do transporte foi de U$1200 para ir e U$1.200 para voltar. Quanto a ida no cargueiro só se informando. Pode perguntar, boa sorte, Heloisa

  3. Sumaia A. disse:

    Olá Heloisa,
    Adorei o relato. Sempre quis fazer esse roteiro, mas sempre me diziam que era IMPOSSÍVEL! Gostaria de saber se vc tem uma estimativa de quanto tempo levaria desde a saída de Belém (onde moro) até o dia da entrada nos EUA sem fazer paradas nos locais de passagem, uma vez que meu interesse é apenas de ir p/ os EUA de carro (não tenho interesse em conhecer ou ficar mais tempo nas outras cidadezinhas do caminho).
    Obrigada!!!

    • Heloisa disse:

      Olha Sumaia eu separaria um mes. Veja bem, vocë tem que embarcar o carro para Manaus(5 dias) e depois de Cartagena, na Colömbia (é preferível, o porto da Venezuela é muito ruim, ainda mais agora…)para o Panamá, com trämites na Colömbia e Panamá (de oito a dez dias), fronteiras extremamente demoradas na América Central. Acho melhor vocë pensar em um mes. Não desista, Heloisa